Talvez não faça sentido assinalar os 27 anos de publicação de um jornal mas quando nos referimos a um jornal de cultura creio que é obrigatório sublinhá-lo. É absolutamente inédita, em Portugal e no espaço lusófono, a publicação regular, sem qualquer falha, durante tanto tempo, de um periódico como o Jornal de Letras, Artes e Ideias JL. É de facto único, em qualquer época, um quinzenário (durante vários anos semanário) de “letras, artes e ideias”, em língua portuguesa, com tal qualidade, atingir mil edições. Constituindo, além do mais, um testemunho sempre vivo e actuante da criação, do que acontece e se faz nos domínios da cultura, e um repositório sem paralelo da nossa realidade cultural, desde o inicio da década de 80 até aos dias de hoje (ver editorial de José Carlos de Vasconcelos).
Showing posts with label jornal de letras. Show all posts
Showing posts with label jornal de letras. Show all posts
Friday, March 16, 2007
letras, artes e ideias...
Talvez não faça sentido assinalar os 27 anos de publicação de um jornal mas quando nos referimos a um jornal de cultura creio que é obrigatório sublinhá-lo. É absolutamente inédita, em Portugal e no espaço lusófono, a publicação regular, sem qualquer falha, durante tanto tempo, de um periódico como o Jornal de Letras, Artes e Ideias JL. É de facto único, em qualquer época, um quinzenário (durante vários anos semanário) de “letras, artes e ideias”, em língua portuguesa, com tal qualidade, atingir mil edições. Constituindo, além do mais, um testemunho sempre vivo e actuante da criação, do que acontece e se faz nos domínios da cultura, e um repositório sem paralelo da nossa realidade cultural, desde o inicio da década de 80 até aos dias de hoje (ver editorial de José Carlos de Vasconcelos).Thursday, March 01, 2007
se por acaso ouvires esta mensagem...
A cidade, a escola, a justiça, a publicidade, os interesses económicos, a competitividade, tudo isto Teolinda Gersão põe em causa na entrevista que dá ao Jornal de Letras (JL), revelando-se, aos 67 anos, mais contestária que nunca. O seu novo livro, A Mulher que Prendeu a Chuva, é testemunho do actual mal-estar português. A morte e a solidão atravessam-no, como documenta o conto Se por acaso ouvires esta mensagem, pré-publicado na edição de ontem do JL.Brevíssimos excertos da entrevista:
“Fazem-se túneis por todo o lado, e não confio muito na sua segurança. Aqui, os interesses económicos e políticos sobrepõem-se à segurança e aos interesses dos cidadãos. E se um dia Lisboa ruir, ninguém vai ser responsável”.
“As crianças entram para a escola cheias de entusiasmo e de curiosidade, com vontade aprender e de saber coisas, e quatro anos depois estão saturadas, irritadíssimas, a escola aborrece-as”.
“Portugal vive numa fase de desencanto, de ausência de perspectivas, de tanto esforço em vão”.
“Nesta sociedade, a partir dos 40 anos, já não se tem direito a existir”.
“Vivemos no mundo da publicidade, do visual, o que interessa é a imagem, o conteúdo é secundário”.
“O comum das pessoas não tem o mínimo para sobreviver e, muitas vezes, carece de afectividade”.
“No mundo em que vivemos as pessoas são treinadas para ganhar dinheiro, os afectos são relegados para segundo plano. Não se lhes dá espaço”.
“ Um colega é alguém a abater. É um concorrente. Esta mentalidade torna a vida menos gratificante”.
Wednesday, February 28, 2007
inquietude de Teresa
MUSAÉ a musa a esmeralda
a cintilação absurda
uma pequena bolsa de ar
na lisura do pulso
No perfil do papel
a vagem do poema
A penumbra
a palavra
a rasura da pena
É a musa o marfim
o faim à cintura
o mistério que se adensa
na leveza da bruma
No fio do coração
o voo do sentimento
A queda
a vertigem
uma sombra de agrura
É a musa o diamante
o torvelinho da alma
o secreto segredo onde a estrofe
se esfuma
Na fímbria do retrato
a nau do pensamento
A urgência
de tudo
ou de coisa nenhuma.
Maria Teresa Horta (Inquietude)
Depois de anos sem publicar Maria Teresa Horta regressa com inquietude, um livro de circum-navegação da escrita em que equaciona a própria existência para verificar que é a mesma na paixão como nos versos, na rebeldia como na permanente curiosidade sobre o mundo. Feminista, jornalista e ficcionista, que se afirma poetisa em tudo o que faz na vida.
Não consigo resistir a segredar outro poema (mais antigo), da nossa feminista de serviço, que é uma verdadeira pérola.
Segredo
Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
* Ler excelente entrevista com a poetisa na edição de hoje no Jornal de Letras.
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
* Ler excelente entrevista com a poetisa na edição de hoje no Jornal de Letras.
Labels:
jornal de letras,
maria teresa horta,
poesia
Friday, February 16, 2007
o caminho do silêncio...
Rui Nunes esta semana, no Jornal de Letras. Apetecia citar o texto todo. Fica um brevíssimo excerto, resumo e sublinhados meus:Outro dia, fez as contas e o resultado não deixou de o impressionar: não fala mais de hora e meia por semana. Talvez não fosse mais do que a confirmação do que já era de esperar. É que vive «isolado», em St. Pölten, a cerca de 70 quilómetros de Viena de Áustria e, embora fale alemão, essa poderia ser uma razão suficiente para tão poucas palavras. Mas reconhece que esse caminho para o silêncio é mesmo uma «evolução» natural. A relação de Rui Nunes com as palavras tornou-se difícil. No início, eram para ele uma espécie de «lupa» para ver melhor o mundo. Mas foi-lhe crescendo a convicção que o encobriam mais do que clarificavam. Por essas razões, a sua escrita busca o silêncio, cada vez mais escassa de palavras e imensa de sentidos, sem género, nem histórias, sem fronteiras, nem rótulos, cada vez mais fragmento e densa poesia. Essa natureza fragmentária decorre, aliás, do seu modo de ver, em si mesmo parcelar, exigindo uma certa inclinação sobre a realidade. Rui Nunes tem uma doença na retina, congénita, que desde criança lhe determina e limita o campo de visão. E, como confessa, só escreve sobre o que vê. Sabe também que «cada olhar é único». E essa é a garantia da Literatura. «Mesmo que o mundo aparentemente seja o mesmo, o olhar que o vê é sempre outro», diz. Falou acerca do seu olhar sobre o mundo há mais de quatro décadas e o seu próximo livro, que provavelmente se chamará Oficio de Vésperas, seguirá a linha inaugurada com O Choro É Um Lugar Incerto em que se acentua a «rarefacção e a suspeição» verbal. E também enquanto fala Rui Nunes tem a palavra sob suspeita. Deita mão da lupa para ler o que escreveu no papel, morde por vezes as frases, temendo ser traído por uma palavra menos justa. Escolhe-as, mede-lhes o sentido, vigia-lhes a obscuridade. Diz muitas vezes: «Não gosto desta palavra». E nomeia o silêncio.
JL: Ouve-se Sempre A Distância Numa Voz é um livro com um lastro autobiográfico?
Rui Nunes: Só escrevo sobre o que vejo e sempre foi assim. E neste ver, está o sentir, tudo. Há em mim essa pobreza: não consigo inventar o real.
Por isso, nunca conta histórias?
Como digo no meu livro, há tão poucas. E começam e acabam quase todas da mesma maneira. Porquê contá-las? No entanto, ao contrário do que muitas vezes se diz, há fios narrativos nos meus livros, mas é preciso ler e descobri-los. Mas hoje as pessoas não perdem muito tempo com a leitura. Lêem e querem chegar ao fim depressa. Querem saber quem casa com quem, quem matou quem? A escrita está a ser substituída pelo fim.
A sua escrita exige demora?
Exige que gostem dela ou então que a ponham imediatamente de parte. Neste livro, há algumas zonas de memória, de ternura, em relação a imagens que são importantes para mim, como a do meu avô? Ele um dia decidiu que não tinha mais nada a dizer e calou-se.
Rui Nunes: Só escrevo sobre o que vejo e sempre foi assim. E neste ver, está o sentir, tudo. Há em mim essa pobreza: não consigo inventar o real.
Por isso, nunca conta histórias?
Como digo no meu livro, há tão poucas. E começam e acabam quase todas da mesma maneira. Porquê contá-las? No entanto, ao contrário do que muitas vezes se diz, há fios narrativos nos meus livros, mas é preciso ler e descobri-los. Mas hoje as pessoas não perdem muito tempo com a leitura. Lêem e querem chegar ao fim depressa. Querem saber quem casa com quem, quem matou quem? A escrita está a ser substituída pelo fim.
A sua escrita exige demora?
Exige que gostem dela ou então que a ponham imediatamente de parte. Neste livro, há algumas zonas de memória, de ternura, em relação a imagens que são importantes para mim, como a do meu avô? Ele um dia decidiu que não tinha mais nada a dizer e calou-se.
É uma personagem enigmática?
Para mim, é tutelar. Porque me disse quase todas as palavras do mundo, nomeava as coisas, introduzia a luz no mundo. Eu perguntava-lhe: «Avô, o que é aquilo?» E ele tinha um nome. Era pescador e sabia o nome de todos os peixes, de todas as praias e mares.
Viveu com ele?
Até aos nove anos. E mais tarde, porque morreu velho. Aliás, sempre o foi. Vivíamos em Setúbal. Um dia, achou que já tinha dito tudo. Foi uma bela decisão.
(…)
Não posso afiançar, mas penso que não voltarei a escrever um livro com tantas palavras. Tal como o meu avô, estou quase a chegar ao momento de achar que já disse tudo o que sei. A minha relação com as palavras tornou-se cada vez mais difícil.
Sempre tive uma suspeita em relação à palavra e tem-se acentuado com o tempo. E tudo o que quero dizer é na escrita que o digo. Na fala, as palavras procuram sempre o caminho mais fácil. Organizamos a nossa relação com o Outro através da palavra e a palavra parece que veicula aquilo que queremos dizer, mas na verdade só o encobre. As palavras na fala carregam a traição. É isso que sinto, que estão continuamente a trair-me. Somos levados por uma espécie de música que vai destruindo uma certa forma de sentido. Porque acreditamos que o sentido está nela. E, na verdade, não está.
Como é possível, na escrita, acercar-se mais do verdadeiro sentido das palavras?
Através, por exemplo, da destruição das grandes paisagens de sentido, que são os romances, sobretudo aquele fiozinho da história. Penso que isso é muito nítido na minha escrita. Porque a história estabelece um sentido que é ele próprio contra a verdade que eu quero dizer.
Também parece muito presente na sua escrita uma espécie de concentração, como se escavasse por dentro o sentido das palavras?
Houve tempo em que as palavras eram, para mim, uma espécie de lupa e eu poderia ver melhor o mundo escrevendo. Mas hoje já não é assim e penso que a minha escrita o evidencia. Vou perdendo palavras, desistindo de as utilizar, mas aquilo que poderia ser sentido como uma espécie de empobrecimento, é para mim uma ascese, que nos conduz à intimidade. E é nela que está a verdade. Daí as poucas palavras que ficam. E essas, sim, vêm carregadas daquela obscuridade que me fascina. A verdade é a coincidência de mim comigo. Essa absoluta coincidência, como a absoluta coincidência da palavra com a coisa que designa, estará no fim dessa espécie de ascese.
Vive bem com o silêncio?
Sempre falei pouco. E quando me reformei foi óptimo, porque podia ceder a esse desejo de falar cada vez menos. Vivo numa casinha de madeira, que tem um quintal imenso, com árvores, perto de uma cidade pequena…para ir beber um café, tenho que andar meia hora. Evidentemente é um silêncio cheio de sons, ainda que com poucas vozes.
Os sons do mundo são mais importantes que as vozes?
Hoje, são bem mais importantes do que as vozes. Quando me falta o som das minhas gralhas já estranho.
Porque escolheu a Áustria para viver?
Porque lhe estou emocionalmente ligado desde sempre. E como as pátrias para mim não têm muito sentido, nem as fronteiras…
O que é para si a Pátria?
É o sítio onde me sinto bem, onde os meus afectos foram construídos. São aqueles lugares onde gosto de estar. É na Áustria, porque lá estiveram, e de certo modo ainda estão, alguns dos meus afectos. Além disso, há uma relação afectuosa com determinado tipo de paisagem e com o clima. Gosto do frio, da neve, do gelo. E encontrei lá uma solidão que sempre procurei, uma não interferência.
É difícil a solidão em Portugal?
É impossível. Há demasiada luz. Estamos sempre a ser vistos., comentados, ouvidos. A quererem que se diga alguma coisa. E não me apetece essa obrigação de estar sempre a acrescentar palavras ao mundo. Já há palavras que cheguem.
O que sente quando chega a Portugal?
Vontade de me ir embora.
É uma relação de rejeição?
Bastante. É evidente que todos os países se equivalem, mas eu estou sempre fora dos mecanismos do sistema…mas quando chego aqui, em termos de Literatura, tudo isto me repugna bastante…quando entramos nas livrarias, deparamos com uma selecção de horrores. É pornografia pura.
Há uma definição terrível que encerra o seu livro, da velhice ou da tragédia humana. Diz que a velhice é um amontoado de palavras e de salas vazias.
As palavras na nossa vida vão-se esvaziando e chegamos ao fim com as palavras todas vazias. Dizemos um nome e a pessoa a quem pertenceu já não existe. Essa é a condição humana. Morremos, quando já só temos mortos, é essa a distância que se ouve sempre. É o som da palavra vazia.
Tocante este Rui Nunes, comoventes as palavras….
Viveu com ele?
Até aos nove anos. E mais tarde, porque morreu velho. Aliás, sempre o foi. Vivíamos em Setúbal. Um dia, achou que já tinha dito tudo. Foi uma bela decisão.
(…)
Não posso afiançar, mas penso que não voltarei a escrever um livro com tantas palavras. Tal como o meu avô, estou quase a chegar ao momento de achar que já disse tudo o que sei. A minha relação com as palavras tornou-se cada vez mais difícil.
Sempre tive uma suspeita em relação à palavra e tem-se acentuado com o tempo. E tudo o que quero dizer é na escrita que o digo. Na fala, as palavras procuram sempre o caminho mais fácil. Organizamos a nossa relação com o Outro através da palavra e a palavra parece que veicula aquilo que queremos dizer, mas na verdade só o encobre. As palavras na fala carregam a traição. É isso que sinto, que estão continuamente a trair-me. Somos levados por uma espécie de música que vai destruindo uma certa forma de sentido. Porque acreditamos que o sentido está nela. E, na verdade, não está.
Como é possível, na escrita, acercar-se mais do verdadeiro sentido das palavras?
Através, por exemplo, da destruição das grandes paisagens de sentido, que são os romances, sobretudo aquele fiozinho da história. Penso que isso é muito nítido na minha escrita. Porque a história estabelece um sentido que é ele próprio contra a verdade que eu quero dizer.
Também parece muito presente na sua escrita uma espécie de concentração, como se escavasse por dentro o sentido das palavras?
Houve tempo em que as palavras eram, para mim, uma espécie de lupa e eu poderia ver melhor o mundo escrevendo. Mas hoje já não é assim e penso que a minha escrita o evidencia. Vou perdendo palavras, desistindo de as utilizar, mas aquilo que poderia ser sentido como uma espécie de empobrecimento, é para mim uma ascese, que nos conduz à intimidade. E é nela que está a verdade. Daí as poucas palavras que ficam. E essas, sim, vêm carregadas daquela obscuridade que me fascina. A verdade é a coincidência de mim comigo. Essa absoluta coincidência, como a absoluta coincidência da palavra com a coisa que designa, estará no fim dessa espécie de ascese.
Vive bem com o silêncio?
Sempre falei pouco. E quando me reformei foi óptimo, porque podia ceder a esse desejo de falar cada vez menos. Vivo numa casinha de madeira, que tem um quintal imenso, com árvores, perto de uma cidade pequena…para ir beber um café, tenho que andar meia hora. Evidentemente é um silêncio cheio de sons, ainda que com poucas vozes.
Os sons do mundo são mais importantes que as vozes?
Hoje, são bem mais importantes do que as vozes. Quando me falta o som das minhas gralhas já estranho.
Porque escolheu a Áustria para viver?
Porque lhe estou emocionalmente ligado desde sempre. E como as pátrias para mim não têm muito sentido, nem as fronteiras…
O que é para si a Pátria?
É o sítio onde me sinto bem, onde os meus afectos foram construídos. São aqueles lugares onde gosto de estar. É na Áustria, porque lá estiveram, e de certo modo ainda estão, alguns dos meus afectos. Além disso, há uma relação afectuosa com determinado tipo de paisagem e com o clima. Gosto do frio, da neve, do gelo. E encontrei lá uma solidão que sempre procurei, uma não interferência.
É difícil a solidão em Portugal?
É impossível. Há demasiada luz. Estamos sempre a ser vistos., comentados, ouvidos. A quererem que se diga alguma coisa. E não me apetece essa obrigação de estar sempre a acrescentar palavras ao mundo. Já há palavras que cheguem.
O que sente quando chega a Portugal?
Vontade de me ir embora.
É uma relação de rejeição?
Bastante. É evidente que todos os países se equivalem, mas eu estou sempre fora dos mecanismos do sistema…mas quando chego aqui, em termos de Literatura, tudo isto me repugna bastante…quando entramos nas livrarias, deparamos com uma selecção de horrores. É pornografia pura.
Há uma definição terrível que encerra o seu livro, da velhice ou da tragédia humana. Diz que a velhice é um amontoado de palavras e de salas vazias.
As palavras na nossa vida vão-se esvaziando e chegamos ao fim com as palavras todas vazias. Dizemos um nome e a pessoa a quem pertenceu já não existe. Essa é a condição humana. Morremos, quando já só temos mortos, é essa a distância que se ouve sempre. É o som da palavra vazia.
Tocante este Rui Nunes, comoventes as palavras….
Labels:
jornal de letras,
rui nunes,
silêncio
Thursday, November 09, 2006
as pequenas memórias....
José Saramago entrevistado por José Carlos de Vasconcelos no Jornal de Letras de hoje. Breves highlights com sublinhado meu: (...)
José Saramago evoca a infância e a juventude, num livro a que deu o nome de As Pequenas Memórias. Será lançado na Azinhaga, aldeia onde nasceu, no próximo dia 16, quando completar 84 anos.
Porque é que foi doloroso escrever estas memórias?
Há coisas que são dolorosas e, por vezes, até me ponho a duvidar se deveria tê-las escrito? Não vou fazer um drama com a injustiça da bofetada que o meu pai me deu, mas decidi contá-lo para chamar a atenção para a necessidade que os adultos têm de compreender as crianças. Dantes havia nos jornais uma secção, que infalivelmente se chamava Cuidado com as crianças, onde apareciam notícias de coisas que tinha acontecido a miúdos como quedas e desaparecimentos.
Foi por isso que foi doloroso fazer este livro?
Não tanto por isso, mas mais por causa da chamada violência de género. Sabemos que era um problema comum, tão comum que eu até falo nisso. Este ano, só em Espanha, foram assassinadas mais de 60 mulheres. Como é que isto pode passar por ser a coisa mais natural do mundo? Claro que o meu pai não assassinou a minha mãe, mas tratou-a mal algumas vezes. E foi isso que me custou muito a pôr no papel (…) A família é o lugar de todas as tensões e conflitos. A história – e a vida de todos nós – está cheia disso.
Como é que aquele rapaz, filho de gente humilde, neto de analfabetos, consegue sair daquele ciclo de pobreza, tornando-se no que é hoje?
Do ciclo da pobreza pode sair-se com a sorte grande.
Mas a si nunca lhe saiu a sorte grande.
(…) Nunca fui uma pessoa ambiciosa, nunca tratei de estabelecer um plano para ir daqui para ali e, depois, dali para acolá. Teria talvez uns 18 anos quando disse uma frase que, na boca de um adolescente, parece não ter qualquer sentido: aquilo que tiver que ser meu às mãos me há-de vir ter. Lembro-me perfeitamente como se estivesse a dizê-lo agora. Parece uma espécie de condição fatalista, de que vieste ao mundo e, portanto, não tens que fazer nada porque aquilo que tiver que acontecer, acontece. Pões-te digamos debaixo da figueira e esperas que o figo te caia na boca quando estiver maduro e já está. Não é isso. Fiz uma quantidade de coisas na minha vida.
Foi importante ter havido um professor que chamou a atenção do seu pai, dizendo que ali estava um bom aluno?
(…) Aquilo que realmente mudou alguma coisa foi a minha transformação em leitor.
Além de uma breve referência à Guerra Civil de Espanha, não existem neste livro quaisquer referências políticas. Essa consciência veio-lhe muito mais tarde?
(…) Vá perguntar aos moços que agora têm 13 anos que consciência política é que eles têm. Naquela altura, a questão nem sequer se punha porque, no fundo, pode dizer-se que não havia vida política. Havia jornais censurados e, sobretudo, havia um regime bastante saloio. Basta ver as fotografias de então – os ministros de Salazar eram todos burgessos (para usar uma palavra que hoje não se usa muito, mas que tem uma capacidade de dizer extraordinária). Salazar, esse, não tinha cara de burgesso, ainda que o fosse.
Porque é que foi doloroso escrever estas memórias?
Há coisas que são dolorosas e, por vezes, até me ponho a duvidar se deveria tê-las escrito? Não vou fazer um drama com a injustiça da bofetada que o meu pai me deu, mas decidi contá-lo para chamar a atenção para a necessidade que os adultos têm de compreender as crianças. Dantes havia nos jornais uma secção, que infalivelmente se chamava Cuidado com as crianças, onde apareciam notícias de coisas que tinha acontecido a miúdos como quedas e desaparecimentos.
Foi por isso que foi doloroso fazer este livro?
Não tanto por isso, mas mais por causa da chamada violência de género. Sabemos que era um problema comum, tão comum que eu até falo nisso. Este ano, só em Espanha, foram assassinadas mais de 60 mulheres. Como é que isto pode passar por ser a coisa mais natural do mundo? Claro que o meu pai não assassinou a minha mãe, mas tratou-a mal algumas vezes. E foi isso que me custou muito a pôr no papel (…) A família é o lugar de todas as tensões e conflitos. A história – e a vida de todos nós – está cheia disso.
Como é que aquele rapaz, filho de gente humilde, neto de analfabetos, consegue sair daquele ciclo de pobreza, tornando-se no que é hoje?
Do ciclo da pobreza pode sair-se com a sorte grande.
Mas a si nunca lhe saiu a sorte grande.
(…) Nunca fui uma pessoa ambiciosa, nunca tratei de estabelecer um plano para ir daqui para ali e, depois, dali para acolá. Teria talvez uns 18 anos quando disse uma frase que, na boca de um adolescente, parece não ter qualquer sentido: aquilo que tiver que ser meu às mãos me há-de vir ter. Lembro-me perfeitamente como se estivesse a dizê-lo agora. Parece uma espécie de condição fatalista, de que vieste ao mundo e, portanto, não tens que fazer nada porque aquilo que tiver que acontecer, acontece. Pões-te digamos debaixo da figueira e esperas que o figo te caia na boca quando estiver maduro e já está. Não é isso. Fiz uma quantidade de coisas na minha vida.
Foi importante ter havido um professor que chamou a atenção do seu pai, dizendo que ali estava um bom aluno?
(…) Aquilo que realmente mudou alguma coisa foi a minha transformação em leitor.
Além de uma breve referência à Guerra Civil de Espanha, não existem neste livro quaisquer referências políticas. Essa consciência veio-lhe muito mais tarde?
(…) Vá perguntar aos moços que agora têm 13 anos que consciência política é que eles têm. Naquela altura, a questão nem sequer se punha porque, no fundo, pode dizer-se que não havia vida política. Havia jornais censurados e, sobretudo, havia um regime bastante saloio. Basta ver as fotografias de então – os ministros de Salazar eram todos burgessos (para usar uma palavra que hoje não se usa muito, mas que tem uma capacidade de dizer extraordinária). Salazar, esse, não tinha cara de burgesso, ainda que o fosse.
Estas memórias acabam quando tem 15 anos. A vida daqui em diante não merece ser contada?
Francamente, teria vergonha de escrever uma autobiografia completa com os meus triunfos literários, sociais ou políticos. Não quer dizer que não haja grandes autobiografias, que as há, mas penso é um pouco como – a imagem é um brutal, ou talvez não? – se eu me assoasse e, depois, olhasse para o lenço para ver o que é que saiu. O meu propósito foi só este – a infância, as raízes que eu tenho, que eu continuo a ter e a alimentar. O resto? Uma autobiografia até aos 84 anos de vida? Quem é que aguentaria lê-la?
A propósito da polémica em torno de Descascando a Cebola, de Günter Grass, já disse serem hipócritas alguns dos comentários que se fizeram.
Sobre isso há um episódio recente com uma certa piada. Dei uma entrevista a um jornal brasileiro, O Estado de São Paulo, e falaram-me nisso. Eu respondi que parece que chegou a altura de eu próprio fazer a minha confissão. E contei que estive nas juventudes salazaristas, que se chamavam Mocidade Portuguesa, que era automático, que todos tinham que estar lá. E acrescentei: a única coisa que eu consegui foi nunca usar o fardamento. Rematei, dizendo que aquela foi a minha primeira vitória contra o fascismo. Então não é que o jornal tomou a sério esta coisa e, em perguntas suplementares que me mandou, tomou a minha pertença à Mocidade Portuguesa, onde inevitavelmente todos estávamos, como algo similar àquilo que aconteceu com o Günter Grass? A imprensa é um perigo. Sobretudo quando não entende aquilo que se lhe diz (…).
Para escrever este livro, refreou alguns episódios da sua memória?
Não. A história da questão familiar foi a única coisa em que hesitei, em que duvidei, até me decidir. Há também aquela história horrorosa do arame que, aos 3 anos, me meteram pela uretra adentro. Mas também essa senti que tinha que lá estar.
(…) Não estou a dizer que aqueles tempos eram melhores, é evidente que não eram melhores. Quando eu nasci, a esperança de vida na minha aldeia era 33 anos. Havia velhos, mas sobretudo havia velhos que não o eram na idade, que apenas o eram na aparência. A partir dos 35/40 anos, todos eram velhos. Caíam os dentes, apareciam as rugas e os esforços físicos deixavam marcas na maneira de estar e de andar. Não era o paraíso. Mas, para uma criança, parecia o paraíso.
Mas escreve com uma certa nostalgia daqueles tempos.
Certas coisas marcam. Não creio que, no nosso país, haja muita gente que possa dizer que teve uns avós que metiam os bácoros na cama para que não morressem, por causa do frio. E se a alguém (como é o meu caso) isso aconteceu, isso forma uma pessoa. Dirão: que tem isso a ver com a formação? Tem tudo a ver com a formação.
«O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever».
Não sabia ler nem escrever, mas para mim a figura dele foi fundamental. Era um homem alto e magro, muito magro, seco de carnes. E falava pouco(...)
Fica a ideia que a sua mãe também endureceu muito, com a morte do seu irmão.
Creio que sim. Não é que a minha mãe não gostasse de mim, mas a morte do meu irmão fez-lhe muito mal. Chamo-lhe secura, endurecimento? Eu pedia-lhe um beijo e ela não mo dava ou, então, quando dava, era sempre um beijo de raspão. Não é que ela não me quisesse, mas a morte do meu irmão deve, de facto, tê-la endurecido. Também não é que ela que quisesse esconder os seus sentimentos, mas àquele outro filho também podia acontecer o mesmo? Só muito mais tarde é que consegui olhar para esta situação de uma maneira já mais objectiva. Naquele momento só me doía e, sobretudo, não compreendia porquê. Mas, enfim, tudo acaba por ter a sua explicação e ocupar o seu lugar.
Labels:
jornal de letras,
jose saramago,
literatura
Friday, September 29, 2006
grandes personagens de romance

Todos nós temos as nossas personagens de romance preferidas. Personagens que, por uma razão ou outra, nos marcaram tanto que passam a fazer parte das nossas próprias vidas e nos acompanham sempre. A dificuldade reside em distinguir uma entre tantas ou geniais figuras ficcionais criadas ao longo dos séculos. Foi esse o desafio que o Jornal de Letras, Artes e Ideias (cf. JL, n.º 939/2006) fez a 20 escritores portugueses de várias gerações, alguns deles também ensaístas e/ou universitários.
Interessante ler as escolhas de Eduardo Lourenço (Frédéric Moreau/Educação Sentimental de Gustave Flaubert), Lídia Jorge (Sofia de Reval/O Golpe de Misericórdia de Marguerite Yourcenar), Vasco Graça Moura (Gonçalo Mendes Ramires/Ilustre Casa de Ramires de Eça de Queiroz), Teolinda Gersão (Madame Bovary/Madame Bovary de Flaubert), Hélia Correia (Heathcliff/ Monte dos Vendavais de Emily Brontë), Nuno Júdice (Morte/As Intermitências da Morte, de José Saramago), Inês Pedrosa (Maria Pascoal/Um Cão Que Sonha, de Agustina Bessa-Luís), Frederico Lourenço (Hans Castorp/A Montanha Mágica de Thomas Mann), Hélder Macedo (Capitu/Dom Casmurro de Machado de Assis), Yvette Centeno (Menina e Moça/Menina e Moça de Bernardim Ribeiro), Fernando Dacosta (Blimunda/Memorial do Convento de José Saramago), entre outros…
Digam-me quais são as vossas personagens de romance preferidas….seria bom saber…
Labels:
jornal de letras,
literatura
Subscribe to:
Posts (Atom)
