Showing posts with label ópera. Show all posts
Showing posts with label ópera. Show all posts

Sunday, December 23, 2007

um rapaz feito de bronze...

Entre o roseiral e o parque, num lugar sombrio, solitário e verde, havia um pequeno jardim rodeado de árvores altíssimas que o cobriam com os seus ramos. No meio desse jardim havia um lago redondo sempre cheio de folhas. No centro do lago havia uma ilha muito pequena feita de pedregulhos e onde cresciam fetos. E no centro da ilha estava uma estátua que era um rapaz feito de bronze. E durante o dia o Rapaz de Bronze não se podia mexer e tinha que estar muito quieto, sempre na mesma posição, porque era uma estátua. Mas durante a noite…

Ontem à noite tive a oportunidade de ver o palco da Culturgest receber ópera, em versão de concerto. O Rapaz de Bronze do compositor Nuno Côrte-Real, com libreto de José Maria Vieira Mendes segundo o conto de Sophia de Mello Breyner-Andresen. O primeiro conto infantil de Sophia fez-se ópera num só acto, obra perfeita para a quadra natalícia. O Rapaz de Bronze remete-nos para a (por vezes) ténue distinção entre sonho e realidade. Um espectáculo entre a inocência da infância e o cepticismo da idade adulta. O jardim misterioso habitado pelo Rapaz de Bronze é visitado por Florinda, agora já crescida, que recua até ao passado onde viveu uma aventura maravilhosa: uma festa com todas as flores. Guiada pelo Rapaz de Bronze, uma estátua que à noite se transforma no rei do jardim, Florinda recorda a noite em que um vaidoso Gladíolo, revoltado pelo esquecimento a que é votado pela dona do castelo, organiza uma baile de flores. Reúne uma comissão formada pela Rosa, o Cravo, a Orquídea, a Begónia e a Tulipa e convidou Florinda porque se os humanos usam flores nas suas jarras para abrilhantar as suas festas, as flores devem também usar os humanos para enfeitar os seus bailes. A sugestão é feita pelo Rapaz de Bronze que nutre desde sempre uma paixão pela filha do jardineiro do castelo. Foi um festejo deslumbrante! Todos se divertiram até ao amanhecer. Mas quando o galo cantou, tudo terminou. Embora o libreto seja baseado num livro para crianças, este não foi um espectáculo dirigido ao público infantil, ultrapassando em muito as fronteiras do conto em que é baseado, desenrolando-se num universo mais próprio dos adultos. Florinda é "uma adulta com problemas" e com grandes dificuldades "em encontrar-se".

- A noite é fantástica e diferente!
- A noite – disse o Rapaz de Bronze – é o dia das coisas. É o dia das flores, das plantas e das estátuas. De dia somos imóveis e estamos presos. Mas de noite somos livres e dançamos.

O Rapaz de Bronze é um dos livros da minha meninice e pelo qual tenho uma enorme ternura. Ilustrado por Júlio Resende e constituído por quatro capítulos aborda o tema da distinção entre a verdade e a mentira. Clássico da literatura para a infância que tal como a Fada Oriana é uma “história fantástica” de enquadramento de rituais e ensinamentos, cuja transmutação final vai ao encontro de temas preferenciais de Sophia: o mar, o sagrado, o divino, a viagem, a sabedoria, a eternidade e a magia nocturna. Através da alusão alegórica ao mundo das flores, a contadora critica a sociedade onde se destacam “os mais chiques”, os “mais snobs”, os “mais mundanos”… Muitos dos contos da escritora foram sugeridos por praias, jardins, parques e pinhais, tendo-se inspirado numa casa da sua avó rodeada de jardins, a Quinta do Campo Alegre, no Porto. Aquelas páginas intrigavam-me mas ao mesmo tempo arrebatava-me o facto de à noite uma estátua saltar do seu pedestal, atravessar um lago e conversar. A descoberta dos mistérios da noite e do crescimento. As coisas extraordinárias e as coisas fantásticas também podiam ser verdadeiras. Porque há um mundo que é a noite e um mundo que é o dia. Como a noite pode ser deslumbrante, pensava eu. Este livro constituía (constitui…) para mim uma espécie de feitiço…
.....
Porque a noite é diferente do dia.

Porque a noite é distinta do dia (noite das coisas, terror e medo; na aparente paz dispersa; sobre as linhas caladas. efeitos de luz nas paredes caiadas, gestos e murmúrios de conversa, no mundo estranho do arvoredo, Sophia de Mello Breyner Andresen) sonhava muitas vezes que era o Rapaz de Bronze…

Noite
Mais uma vez encontro a tua face,
Ó minha noite que julguei perdida.

Mistério das luzes e das sombras
Sobre os caminhos de areia,

Rios de palidez que escorre
Sobre os campos a lua cheia,

Ansioso subir de cada voz
Que na noite clara se desfaz e morre.

Secreto, extasiado murmurar
De mil gestos entre a folhagem

Tristeza das cigarras a cantar.

Ó minha noite, em cada imagem
Reconheço e adoro a tua face,
Tão exaltadamente desejada,
Tão exaltadamente encontrada,
Que a vida há-de passar, sem que ela passe,
Do fundo dos meus olhos onde está gravada.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Saturday, November 11, 2006

Zapping - Câmara Clara


Elisabete Matos é a mais internacional das cantoras líricas portuguesas, António Pinho Vargas um consagrado compositor de música erudita. Na semana em que Elisabete Matos veio de Espanha, onde está sediada, dar um muito aguardado recital na Fundação Calouste Gulbenkian, o Câmara Clara recebeu estas duas personalidades para uma conversa sobre a vida dos compositores e intérpretes da música clássica "neste mundo onde a velocidade e o facilitismo não promovem produções e consumos tão exigentes". Da relação com os públicos às centenas de concertos, passando pelo quotidiano entre aeroportos e hotéis aconteceu uma viagem ao extraordinário mundo dos grandes nomes da música erudita.
Foi ontem à noite na RTP 2 e fez-me bem aos males da constipação…
*
Bom Dia