Monday, February 07, 2011

o irmão do meio...



morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento


Mia Couto


Depois da sua morte sinto que foi roubada seriedade à vida. Após isso, tudo é possível. O que mais me intriga e dói na morte, na do meu irmão como na de todos os que amamos, é que nada se perturba com ela na vida normal do mundo – no comércio de viver –, desaparece-se num precipício onde se despedaçam esperanças, horizontes, ousadias, sonhos, e tudo continua como se fosse natural, como se de criaturas fictícias fragmentadas por esquinas e cafés se tratasse, sem deixar rasto.

Com a memória ainda ulcerada desfolho as horas a partir daquela noite deserta, daquelas horas de um passado que não passa, daqueles minutos que se cravam no peito e vincam a nossa pele interior. Desde então, conto o tempo para o desmentir, para regressar a todos os instantes antes desse momento mas a morte continua presente nos relógios.

O meu irmão morreu dia 21 de Setembro de 2010, enquanto as estrelas semeavam a noite. Sinto o sopro nocturno da notícia e desde então, não paro de o reviver. Vivo esse ontem como se fosse o tempo presente. Estou nos lugares que foram dele. Afago os livros de Geologia que eram seus, as pedras que coleccionava, os diplomas que com esforço e sucesso conquistara, os discos de vinil do José Afonso, uma biografia sobre Bruce Lee, o herói da sua adolescência, o livro que o apaixonou muito cedo, "Papillon" de Henri Charrière e todos os símbolos pendurados ao longo das paredes. Através dele também me transporto para a cidade onde nascemos e passámos a nossa infância, aquela cidade de Évora, onde o Inverno era frio e o Verão sem sombra, um tempo vivido devagar. Recordo a sua vida e o seu talento para a bola, o gosto pela música gregoriana mas não suficiente infalível para poupar uma alma inquieta, o seu intelecto e a capacidade de memorização. Recordo o seu ingresso na Faculdade de Ciências de Lisboa e as directas de estudo. Lembro-me que gostava de se perder pelo interior das igrejas vazias da baixa pombalina, maneira que tinha de se proteger da violência das coisas. Recordo os elogios francos que tecia sem cessar ao sobrinho e à minha mulher. Palavras sem regresso, bric-à-brac de lembranças, pois agora a nostalgia é um rio que corre mais rápido.

A sua morte foi terça-feira de uma noite sem fim, uma valsa demorada. Aconteceu depois de uns tempos de um organismo cansado. Uns dias antes, ele parecia mais pacificado no seu sofrimento, mas era uma esperança pálida, uma sombra incerta. De repente, tudo mudou. Houve uma dor maior, um declínio da vitalidade, a suspensão da coragem, um corpo que se veste devagar. Durante anos, foi sendo abatido, atacado, escalavrado, ferido, sovado pela vida. Ainda novo mas a solidão parecia-lhe mais viva que o sangue e sentia-se expirar no exacto momento em que julgava ter deixado de ser útil, doía-lhe a vida que se deitava com ele na cama após longas insónias e cigarros consumidos. Esteve mal, medrou, piorou, melhorou. Foram dias e noites de ansiedade e de espera, de aflição e de mágoa, um vazio sem fundo. Nesse tempo, a minha mãe viveu com ele a fadiga dos consultórios e o éter dos hospitais. A mãe contorcionista que tinha medo de o ver irremediavelmente perdido caminhava com ele de mão dada pelas praias da madrugada, por que para as progenitoras os filhos são uma parte do seu coração, uma parte da sua energia, seu amor primeiro, a sua luz, o seu agasalho, alma diante de alma. Nos últimos tempos mãe e filho viviam colados como a hera ao muro e evidentemente que para elas os filhos são imortais.

Mesmo combalido, ele apercebia-se do nosso cuidado, da nossa insistência, da nossa obsessão, do nosso ar de entendidos em medicina, em arriscada armadilha. Os clínicos admitiam-lhe tudo, mesmo as impaciências, as queixas, as raivas acesas. Eram derrotados pela inteligência, pela insubmissão, pela agitação dele. Quando chegava das consultas estendia-se sobre a cama onde se abandonava a uma alheia introspecção e adormecia devagar num sono químico. Um dia, percebeu que podia acontecer o pior por se sentir o mais vulnerável dos seres, sem abrigo contra o desconhecido. Pouco antes de sentir que a mão da morte lhe pousava no ombro, estava muito doente.

A noite veio de dentro. Em minha casa, o telefone tocou dentro de mim. Acordei com o coração a desancar contra o peito. Ouvi a voz da minha mãe e percebi que estava atravessada pelo carimbo da morte. Universo de pranto. Era noite escura e o mundo dormia, um terror que asfixiava, que mordia, amargura indelével, emoção funda, o choro coagulado nas gargantas. Nós corremos para casa dele, onde a minha mãe praticamente residia e o assistia. Encontrámo-lo morto, caído no chão do quarto, triste espectáculo sem rede alguma. A sua voz calada para sempre, os seus olhos fechados para sempre. A vida interrompida, um abismo último. Sangue do nosso sangue. O corpo só na plenitude das trevas e do silêncio, a sua missão embargada, a sua última viagem. Os homens vão, vêm, andam, rodopiam, e nenhuma informação de morte. Mas, quando ela chega a propósito de um ente querido surpreende-nos imprevistamente e sem defesa, confrontamo-nos com algo de abjecto e ignóbil, uma dor oceânica que agride, o apocalipse de tudo o que amamos. Ele estava inclinado sobre a sua morte, como se sucumbindo à dor que o fulminara subscrevesse os versos de António Feijó (…) É pela tua mão, feito um rasgão na treva, /Que a Alma se liberta, e de esplendor vestida /— Borboleta celeste, ébria de Deus, — se eleva /Para a luz imortal, Luz do Amor, Luz da Vida!

Encosto-me à memória e lembro-o defraudado, teimoso, obsessivo, em atrozes dilemas, às vezes impossível, às vezes a escorrer melancolia, um livro fechado. Lembro-o obstinado, prudente, prevenido, até muito perspicaz. Lembro-o crente, humano, inteiro, íntegro, de uma só palavra, de uma só vontade, mas também com sentido de humor. Lembro-o ansioso, visceral e algumas vezes cansado de sofrer e arredado do princípio da alegria. Lembro-o bom aluno, arguto, adivinho.

Agora, vivo numa ilha sem ele e o sol morre dentro do seu nome. Num tempo entristecido que é o do seu desaparecimento físico, do seu repouso, do seu exílio eterno. Anoitece devagar e olho o retrato dele, o preferido, a imagem de uma adolescência longínqua. Contemplo o seu olhar infinito de cientista e acende-se a lua – e a morte por instantes deixa de ser um enigma ou um fantasma.

Luís Galego
Imagem: "Café da Manhã de Um Homem Cego", de PABLO PICASSO.

30 comments:

Ana said...

Luís, não tenho palavras a não ser para lhe dizer que imagino que tenha escrito este texto sem parar. Eu li-o sem folego!

Rosário said...

Escrito a sangue com um amor imenso. A trazer-nos aos olhos as próprias lágrimas... E mais não consigo dizer.

Um abraço. Enorme.


Rosário

Mel de Carvalho said...

Luís,
ao teu lado. ofereço-te este poema (que conheces), escrito na perda de alguém...

"no poente do rio, saudade..."

nascido de semente incerta
foste
ao tardar do dia
a noite tombada
de nossas mãos abertas


gratidão
mimo ternura e lágrima

és agora
pó, cinza
ínfima partícula
luz

a descer
veloz
as águas anoitecidas deste rio

solto e livre
caudal e várzea

chão

amassadura levedada
de centeio e trigo
teu berço de nascer

desces sereno à foz

envolto
num caudal de amor
num silencioso cordão umbilical

em cada um de nós
de ventre em ventre

repetido

deixas
o sentido rectilíneo da vida


não digo nada

vejo-te partir e
sei-me

flor preferida de tua estrada.


No poente do rio, nossa a saudade..."

eterna, Luís. eterna. os que partem ficam para sempre no coração de quem os amou.

...
vou ler de novo.a ponto lágrima...
beijo meu amigo de longe.gratidão minha.

Mel

Fernado Palaio said...

...e nunca,nunca é esse o "momento"!

Um grande Abraço

Fernando Palaio

Zoninho said...

como te compreendo. e lamento!

mas os vivos continuam para relembrar que a vida vale a pena!

um grande abraço

© Piedade Araújo Sol said...

li e saio em silêncio, com um nó na garganta e uma dor que sei como é....

um abraço solidário

Anonymous said...

Luis...
lembro-o com aquele humor que nos irritava, quando em miúdos brincavamos nas nossa tontices e fantasias próprias da idade.
Lembro-me do orgulho que tivemos quando entrou na faculdade, com o desejo de estudar medicina.
Lembro-me da tristeza de o ir vendo mudar.
Lembro-me da última vez que o vi, aqui, em Évora, e que o abracei e ele me retribuiu o abraço.
Fico com esse momento... sei o que sentes.
Admiro-te muito!

Beijinho,
Fátinha

Anonymous said...

Hoje a poetisa em mim se cala. Não há poemas, nem palavras duras ou cheias de ternuras... há o silêncio e a minha dor de te sentir dorido poeta.
E bem sabes quem sou eu a dizer-te isto.
Grande beijo,Poeta.
Meu Poeta!

Paulo V. Pereira said...

Luís,

estou certo que te sentes mais aliviado após este conto. Sabes que não vives numa ilha, assim como fizeste tudo o que estava ao teu alcance.
Serenidade e um sorriso neste forte abraço,

paulo

Luanamar said...

Grande homenagem, Luís!
É assim a morte quando nos chega bruscamente e sem defesa..
Senti bem, na descrição,o homem que foi o teu irmão e que gostava de ter conhecido.
Penso muitas vezes nele a propósito da geologia, das pedras e do meu pai, principalmente do meu pai!
Obrigada por este magnífico texto que eu tanto esperava!
Ele e todos o merecemos.
Beijinho
Ana Maria de Portugal

Luanamar said...

É assim a morte quando nos chega bruscamente e nos crava as unhas deixando marcas eternas...
Esperava este texto há algum tempo, Luís!
Vi o homem que foi teu irmão e de quem me lembro sempre ao relembrar meu pai...
Lindo texto merecido por ele e por todos nós
Obrigada e um beijinho
Ana Maria de Portugal

Luís Galego said...

Fátinha:

Agradeço as tuas simpáticas palavras, até porque o conhecias. Só uma rectificação ele nunca quis seguir Medicina, mas sim Geologia. Beijo

Anonymous said...

Luís,

Não sei o que dizer. Já abri e fechei o email várias vezes e não encontro as palavras que gostava de te escrever.
É um texto arrepiante e escrito com tanto realismo que conseguimos sentir o frio da morte dentro de nós e a vossa dor, tão intensa e tão forte, parece algo palpável e infinitamente triste. Apetece-me abraçar a tua mãe e embalá-la até me faltarem as forças.

De todas as coisas que já li escritas por ti esta foi sem dúvida a que mais me tocou. Sobretudo pela autenticidade, e aquela frase é que nada se perturba com ela na vida normal do mundo, tocou-me em particular, eu entendo tão bem esse sentimento, aquela sensação de apetecer parar o mundo porque a nossa dor é tão grande que nos parece insuportável que o mundo continue a girar, alheio, indiferente.

Não resisto a perguntar de que morreu o teu irmão mas, obviamente, só respondes se quiseres.

Não sei se adianta alguma coisa saberes isso, mas enquanto li o teu texto a minha vida não foi normal, perturbou-se profundamente e estive inteira do teu lado. Logo hoje que é o aniversário da minha irmã mais nova.

Apesar do sentimento e da dor envolvida em todo o teu texto, desculpa não ter podido deixar de reparar na grande beleza com que descreves o horror que viveste.

Espero que sintas a solidariedade que te envio juntamente com um beijo.
PZ

Luís Galego said...

Querida Paula

Agradeço as tuas palavras, muito! O J. morreu com o dito ataque cardíaco silencioso. Foi tudo muito rápido!

Bj e Obrigado!

Filoxera said...

Luis:
Aqui fiquei uns instantes, debruçada sobre este piost tão belo quanto sofrido.
Se é verdade que os poetas melhores são os que sofrem, esta tua prosa é poética demais.
Descreves o percurso de dor de uma forma contagiante.
Lamento a tua perda e espero que brevemente consigas reconciliar-te com a dor.
Um beijo.

Anonymous said...

Luis, desculpa o erro quanto ao desejo de formação do Q. Ele é fruto da informação errada que ainda por aqui corre e, que não tive oportunidade de modificar, uma vez que o afastamento fisico também não o permitiu. Agradeço a correcção. Beijos.

Fátinha

partilha de silêncios said...

Luis, o luto é uma das experiências mais dolorosas e intensas, que podemos vivenciar.
Infelizmente, também já passei por muitos e dolorosos lutos.
Para superar o luto é importante mergulhar na dor, chorar e manifestar o seu sofrimento. Faz bem falar sobre a perda, ver fotografias, recordar situações.

É preciso ir gradualmente desfazendo o nó do luto, aceitar e continuar a investir na vida.

um abraço solidário e um beijinho

Maruska said...

Os meus olhos ficaram com lágrimas, porque tudo que escreveste eu já senti!!! Não sinto já essa angústia terrível...mas a saudade é uma constante!!! Em momentos de "fraqueza" aperto ao meu coração a sua fotografia e choro. O tua dor está ainda muito próxima.... mas a saudade vai ficar contigo sempre!!!
Gostei de saber que tenho uma coisa em comum com o teu irmão...também gosto de ir a Igrejas pombalinas "vazias" de gente! Penso que ele não fugia das agressões da vida...ia à procura de Paz do Silêncio!!! Um abraço amigo para ti da Maruska

pinguim said...

Eu parece que tive conhecimento, na altura, do falecimento do teu irmão, por contacto telefónico contigo, mas não estou certo...
De qualquer forma, e porque já passei por uma situação idêntica, e sei o que sofri, estou contigo, nessa dor difícil de apagar.
Ficam as recordações de tantas coisas comuns, que aliás referes neste texto, que, como é hábito, está extremamente bem escrito e sentido.
Abraço grande.

Enviei-te hoje uma mensagem, via FB.

Paula Crespo said...

Da muita emoção destas palavras fica-nos a certeza de uma emoção ainda maior, a da tua perda. Não há momentos certos para a visita dessa senhora, mas há alguns ainda mais inoportunos do que outros.
Beijo

ANITA said...

Ele existem dias e por vezes anos, assim, tristes, em que o Mundo ficou virado de pernas para o ar. E ficamos entregues à nossa solidão. Porém o Mundo corre, impiedoso, indiferente ao nosso sofrimento, leva-nos até à indignação!
Sentimentos estes que conheço e vivi!
Tal como tu Luís, também eu deixei de o levar a sério durante muito tempo. Tempo demais, não adianta a nossa revolta. A paz encontra-se também na distância e o último "curandeiro" é o tempo. Todos os outros, os amigos , a família são importantes, sim. Mas só quando colocamos de novo os pés em terra, nós é possível transformar a dor em Saudade, doce saudade em que conseguimos sentir os cheiros/recordações de quem nos foi e será para sempre querido. Este é o Amor sem presença, mas torna-se tão doce, que nos afaga a alma!
Um grande Beijo para ti meu amigo Luís, com muito carinho

Ana

P.P.: A escrita como sempre deliciosa!
:)

Manela said...

... ás vezes, ao escuro chama-se noite.

beijo solid(t)ário

Anonymous said...

Luís,

Por mais que leia e releia e volte a ler este texto, o sentimento continua exactamente igual, aceso, em carne-viva. Adivinho o tempo que guardaste este texto dentro de ti, e as viagens que o mesmo percorreu do coração para a cabeça e da cabeça para o coração, até que o arrancasses.
Doi-me cada palavra tua, porque a dor é aguçada, e moi, retorce, e grita. E sinto e compreendo cada palavra, se compreendo... embora desejasse que assim não fosse.
As lágrimas teimosas afogam-se na garganta, e eu que pensava que nem uma palavra conseguiria escrever... apenas ficar assim, dormente, a sonhar com éstórias passadas, outros tempos, outros risos.
Envio-te beijos tantos, amigo meu, e outros tantos para a tua maravilhosa mãe.

Maria José Bravo

Avelaneira Florida said...

Há luto em nós, de tal modo vivo,que só o tempo no-lo vai colando como segunda pele...
Só então conseguiremos renascer para a vida...
E nesse renascer não mais estaremos sós!

M.C.

Mar Arável said...

Estamos sempre a desnascer

ainda mais quando amamos quem nos falta

Abraço amigo

Minerva said...

Belíssimo documento. Fiquei profundamente comovida.
Um abraço sentido Luís.

Ana Maria de Portugal said...

Sempre o mistério da vida
Quem marca o tempo do nosso relógio interior
Os anos, os dias e as horas do pulsar do nosso coração
Quem controla a nossa dor
O tempo do nosso sofrimento
Hoje, o mistério da vida permanece
Não se alcança o porquê deste fim
Hoje, a dor transfigura perante o mistério
A tristeza do tempo marcado para cada ser

Ana Maria de Portugal said...

O que era o infinito tinhas perguntado
O infinito sou eu tenho-o nos braços
Rasgá-lo de meio a meio disseste angustiado
Mas como se está feito em mil pedaços?

O infinito com teus olhos tentavas abranger
E eu infinito maior me sentia - sem fim!
Mas o infinito nunca o pederás compreender
Pois se nem eu me compreendo a mim!

Pudesse eu reduzir-me e teus olhos saciar
Pudesse eu desprender-me e em tuas mãos poisar
Nessas mãos tísicas que beijo a toda a hora.

Mas eu - pobre infinito pelos escombros-
Perdido e só em busca dos teus ombros!

Escuta! Não ouves? O infinito chora…

Lucinda said...

Luis,
Só hoje li este seu post, para mim o melhor de sempre, de todos os que escreveu aqui até agora.
A dor sentida na pele e no coração é tão profunda que as palavras que escreveu têm um peso tal que a emoção e o sentimento que nos transmite é duma intensidade absoluta!
Continue a escrever assim Luis, para que partilhemos consigo o seu saber e o seu sentir!
Um abraço solidário,

Emília Ferreira said...

Belíssimo. Infelizmente.