Wednesday, July 28, 2010

mais parece o brilho dum diamante...


Quando saiu do Laboratório sentiu um perturbante sopro de independência. Estava uma tarde de Novembro resplandecente com fendas do sol entre as nuvens. Chamou um táxi. Lisboa acima endireitou-se no assento com as mãos dentro das luvas de couro pousadas sobre os joelhos. A taxista chama-se Maria Teresa, senhora desprovida de ingenuidade, mas sem a secura do realismo bruto, conta-lhe vaidosa que já tinha sido entrevistada para a televisão no dia internacional da mulher, o conduzir já lhe “curou” as insónias, bicos de papagaio e duas artroses na coluna. Se lhe oferecessem um novo emprego, com o mesmo ordenado e à frente de uma secretária ou empregada numa loja não aceitava. Gosta de andar por aqui e ali, mais livre, mais autêntica e pujante. Em frente à Igreja dos Italianos de Nossa Senhora do Loreto pagou o táxi. De novo na rua começou a caminhar em passo acelerado. Sentia-se desinquieto. Perguntava-se quem poderia ir visitar. Começou a sentir as emoções à flor da pele. Queria conversar com alguém com talentos psicológicos na análise da alma humana, dar-lhe conta da sua existência, da fragilidade das suas conquistas, da vida de um biólogo negro de aguçado espírito científico que pretende escapar à corrupção do seu país e que agora pertence à casta dos eternos bolseiros de investigação. Pequenos nadas, no fundo para encarar a vida que a todo o instante lhe escapa. Junto à fachada principal do D. Maria II percorreu os endereços gravados no telemóvel. Passar em revista amizades recentes provoca-lhe um certo arrepio, nomes gravados como sombras de fantoches pendurados por invisíveis cordéis. Qualquer coisa pulsou dentro de si ao chegar a um contacto desconhecido, como se fosse o apelido de um ser tresandando a pecado, quem sabe alguém com quem teclara fora de horas num chat chamado desejo.

O vento da manhã surpreende-o a caminhar por uma rua miserável. O sol espreita por entre a névoa e reflecte-se nas carcaças de automóveis. Acelera o passo para fugir ao cheiro e à paisagem, àquele ambiente de fracasso. Sente o corpo fraco, um fantasma de tímido aspecto; os sapatos começam a massacrar-lhe os dedos grandes, como agulhas a furar a pele. No cruzamento mais próximo há um café de aspecto triste prestes a desabar a qualquer minuto. Sem alternativa gasta os últimos euros num bolo de noz. Lá fora parou um camião volkswagen para transporte de móveis.
- Desculpe, dá-me uma boleia? – pergunta ao indiano que está ao volante.
- Para onde é que vai?
Sem querer, uma lágrima escapasse-lhe através das pálpebras, escorre pela cara até chegar à boca. Tão só uma lágrima. Nem sequer desliza como se fosse dele, mais parece o brilho dum diamante.

Luís Galego

15 comments:

Maria Julia said...

Adorei mais este seu conto, Luís!

Tanta e tamanha sensibilidade, que dá aperto esternal...

PARABÉNS, Escritor.

Obrigada, Luís.

Maria Júlia

maria said...

É bom sentir que o calor infernal não lhe afecta a criatividade...
A lágrima refrescante e a beleza gélida do diamante - belíssimo.

Simão Pedro said...

Amei, não poderia estar mais grato, continuas a ser alguém que marca.

Parabéns Amigo

Simão Pedro

joao gonçalves said...

gostei.

joao

JHPereira said...

Fica V.Exa notificado, de que a partir da presente data, está intimado a escrever com maior regularidade, para gáudio dos que gostamos de o ler.
Para onde vai alguém que escreve assim???
Um abraço Luís.

Ricardo Passos said...

"fendas de sol entre as nuvens"... "um chat chamado desejo"...
Como vem sendo habitual, uma vez mais o prazer de sentir palavras que com tanta sensibilidade e magia se entrelaçam de uma forma tão bonita, tornando a fragilidade das vidas humanas, mais intensas.
Diamante a diamante, se constrói a jóia que a cada dia que passa brilha com mais intensidade.
Um abraço, Luís.

ANITA said...

Gosto muito do que escreve!
Posso ler mais? Onde?
Obrigado
Ana

Avelaneira Florida said...

Nem sempre as vidas se conjugam no brilho ou na ausência dele. Há lapsos. Há instantes de memórias.
E ambos persistem com a dureza de diamante.

Sempre um prazer passar e ler as palavras aqui semeadas!

Anonymous said...

És incrível Luis!

Estou aqui, à minha secretária, a tentar colocar em dia o amontoado de trabalho atrasado por conta de outros afazeres, com a minha pequenina TV, a ouvir as homenagens que hoje se prestam ao genial António Feio... uma vez que não estou muito concentrada no trabalho, venho até aqui e leio mais um texto teu...
É tão bom termos alguém a quem dar conta da nossa existência, que reconheça a fragilidade das nossas conquistas!
Obrigada meu amigo. Um beijo grande.
Fátinha

JE VOIS LA VIE EN VERT said...

Gosto mesmo da tua escrita, Luis !
Cada palavra, cada detalhe é tão bem empregue que fico quase desiludida quando vejo que a história chegou ao fim...
Beijinhos
Verdinha

pinguim said...

É recorrente aquilo que me apetece dizer e tu já o sabes até à exaustão.
A blogosfera precisa de ti, embora tu precises cada vez menos da blogosfera...
Este texto como TODOS os que aqui escreves não são susceptíveis de outras formas de comunicação.

Filoxera said...

Muito bonito, este conto.
E a descrição transporta-nos para o cenário onde se desenrola.
Gostei, claro.

Thiago said...

Conheço homens assim, negros... e de outras cores! Em todos, há sofrimento com um brilho semelhante. Este texto vale pela homenagem a este negro... e a outras pessoas de outras cores com as mesmas dores! Obrigado!

Lisa Nunes said...

Gostei muito do seu texto e de tudo que vi por aqui.
Sou fã da alma portuguesa e tenho vários amigos que vivem acá, por estas terras tão nobres.
Uma boa semana a ti,
Lisa

com senso said...

Caro Amigo

Mais uma vez encontrei uma forma sublime de falar do mais íntimo que há na alma humana.
Não é fácil falar da solidão, de vidas perdidas num percurso sem destino previsivel, mas tu, caro amigo, sabes fazê-lo como ninguém.
Espero que as últimas semanas tenham sido excelentes, que as minhas foram pontuadas pelo falecimento do meu computador pessoal... agora ando aos caídos... e necessáriamente mais ausente da Net do que gostaria.
No final do mês irei para férias, espero que fiques bem por aqui, que eu finalmente vou conhecer a Capital europeia onde o nosso destino é traçado.
Um abraço forte
Luís