Saturday, November 28, 2009

a medula da alma...

Antes de tudo a música, reza um belo verso de um filósofo português contemporâneo quase desconhecido e prestes a ser tão só descoberto nos alfarrabistas do Chiado. A música é um vicio solitário que atingindo a medula da alma tem-me amparado muito nos últimos dias, feito sonhar acordado enquanto não chega a decisão, permitindo reconquistar as palavras e as suas avenidas como se fossem aromas, tem ajudado a suportar o futuro adiado para além do limite admitido. No intolerável do tempo, a música tem desenhado clareiras iluminadas de expectativa. Escuto-a em silêncio, em atitude de humilde entrega e são meus versículos Brahms, Liszt, Mozart, Schubert, Schumann, entre tantos.

É de noite, meu amor, e a rádio transmite Mara Zampieri, o carácter incisivo e mordente de um timbre divino, em que se percorre o acumular das esperanças mais exageradas, se vislumbram os momentos de paz, no meio da tempestade, do armistício com o infortúnio, se adensa subitamente a luz e se alastra a ternura, para depois dar lugar à violência da angústia.

É de noite e a música é a minha companheira, o meu altar. A arte sagrada, como assevera a personagem do Compositor em Aridane auf Naxos de Richard Strauss.

São quase cinco da manhã, meu amor, e a rádio em noite de boa conjugação astral insiste em chorar lágrimas tão desesperadas como as minhas, em convidar uma partita de Bach, um improviso de Chopin, em confrontar-me com os grandes pianistas Brendel, Gould, Horowitz, Michelangeli, Pollini, Richter, e porque não deve existir misoginia na música – nem na vida – com Maria João Pires e Martha Argerich.

Só de noite, meu amor, tenho espaço para ouvir, de copo na mão, o Benedictus da Missa Solene de Beethoven, nas vozes singulares de Janowitz, Ludwig, Wunderlich, Berry; ou o Libera me do Requiem de Verdi, obra em que a deusa Schwarzkopf me murmura sábios segredos.

É tão de noite e entre goles de café a escaldar continuo agasalhado numa rádio que transmite D’ amour sull’ ali rosee. Tudo o resto, amor, é tão mesquinho…
Luís Galego

Imagem aqui.

Saturday, November 21, 2009

o perfume da Rua das Pretas...

Ao início da tarde desliguei o telemóvel para respirar melodia com um programa refinado e intemporal: Novembro é uma árvore frondosa para usufruir a área musical, não me perguntem porquê. Mergulho em Jessye Norman, John Cage, Dvorák, Vicente Celestino Heckel Tavares, Hans Joachim Koellreutter. No silêncio diurno, a luz fraca, encontrei-me envolto nas trevas do exílio onde o medo impera e embalo a própria dor. Senti deslizar por baixo das minhas pernas a única presença possível, o fantasma de uma casa onde chove sem parar há tantos anos. Era o Elliot com a sua linda cauda, a sua ternura enigmática, transportando o seu íntimo pudor e a sua linhagem mística de felino, e não pude expulsar o arrepio de estar tão só acompanhado por um velho gato e com sonhos que não conto a ninguém.

Quando bateram as oito na igreja, havia uma estrela no céu, realidades deslumbrantes da noite, um barco projectou um adeus solitário, senti na garganta o estrangular de todos os amores que podiam ter permanecido e não sobreviveram e tremi ao sentir como eu era inocente. Não aguentei. Agarrei no telemóvel com o coração a estremecer até à raiz do braço, marquei o número muito lentamente. Olá, disse-lhe com a voz trémula: Desculpa-me, uma vez mais. Ela, serena, voz doce, sem disfarce: Não se preocupe, estava à espera do seu telefonema. Avisei-a: Quero que esperes vestida e que assim fiques enquanto estivermos juntos. Ela deu uma gargalhada espontânea mas na sua voz dançava um desafio. Como quiser, disse, mas meu corpo arderá para si no lusco-fusco, como todos os homens gostam. Eu sei, disse-lhe: Eu desejo apenas uma mulher com quem beber e morrer, segurando a minha mão, e nisso demorar os frágeis instantes a que um cliente tem direito.
- Com certeza – disse –, então não demore, não se perca pelas ruas frias.
Luís Galego

Imagem retirada aqui.

Saturday, November 14, 2009

ele morre de amor...


ele morre de amor,
anda lá próximo, no fio da navalha,
um linha a partir-se num tempo de sentimentos agitados, uma aflição,
depressão grave, tão doente,
com macerados olhos, pálpebras pesadas, passa o tempo a ler os poetas do afecto,
poemas que matam, poesia que pesa,
a ouvir Jacques Brel e a engolir absinto,
espreitando através do vidro fosco do tempo,
fuma pela noite dentro, peito ferido,
quase desmaiando por ternura,
desesperado, sente tremer a mão, emagrece,
como só no absoluto da adolescência acontece.

há um aperto no coração, uma tensão no quarto à média luz,
uma febre de melancolia que não baixa,
dói-lhe a alma cheia de rasgões, feridas que latejam,
mas objectivamente ele nunca teve jeito para sofrer, ah, não,
ele nunca teve queda para vitima, para lôbregas tristezas, para noites de insónia,
é tudo uma questão de amor, amor ardente, de fogo,
de incêndio, de paixão,
grandes comoções, colossais desejos,
uma barragem contra a mágoa e a solidão,
um tormento,
pensa que saberá sair a tempo daquela prisão cercada de um bando assustador de corvos negros, onde deambula a melancolia do ser,
saberá sair, pensa ele, ousado e sem disfarce
abandonará histórias mal cicatrizadas, viverá dias felizes, longos beijos sem fim, troca de gemidos, espasmos de cor, corpos que cedem sem pensar, cúmplices partilhas, ao som de música romântica,
terá direito a noites estreladas
e a lua afogará os seus braços
e insiste, ah, sim.

há um temporal que se instalou
naquela ilha de silencio sem fim onde vive
crê que o mau tempo um qualquer dia desapareça
aquela estranha temperatura que veio parar ao seu farol sombrio se canse,
mas no entretanto sente que está a um passo de morrer de amor.

Ah, o telemóvel que toca…será ela?
Luís Galego

Imagem retirada aqui.

Saturday, November 07, 2009

mãe escorpião...

Parabéns Mãe Escorpião

Ela veio de um mundo de sangue, calor e dores para lhe dizer certos segredos. Ele sente-lhes o cheiro, Joyce Carol Oates

Pequeno poema

Quando eu nasci,

ficou tudo como estava.


Nem homens cortaram veias,

nem o Sol escureceu,

nem houve Estrelas a mais...

Somente,

esquecida das dores,

a minha Mãe sorriu e agradeceu.


Quando eu nasci,

não houve nada de novo

senão eu.


As nuvens não se espantaram,

não enlouqueceu ninguém...


Pra que o dia fosse enorme,

bastava

toda a ternura que olhava

nos olhos de minha Mãe...
Sebastião da Gama

Eu saio de ti mas fico infinitamente retida no teu ventre, Luce Irigaray

Mesmo que o ar me falte, continuo a respirar o teu afago. Parabéns, Mãe no(s) dia(s) do(s) teu(s) aniversário(s) (7 e 8 de Novembro…)!!!

Imagem de Picasso retirada aqui.

Saturday, October 31, 2009

algures em Lisboa...


Algures em Lisboa
entardece e há um mexer de dedos nervoso
um arrepio
uma voz enclausurada
uma pequena ruga que nasce
um coração que bate descompassado.

Algures no centro da cidade,
alguém ofegante que espera
um gesto feminino.

Nenhum sedativo pode estancar esse medo
essa ofegante respiração
essa emoção, esse querer
essas lágrimas em bruto
no íntimo
de um homem
ás portas do anoitecer.
Luís Galego

Imagem retirada aqui (Piotr Kowalik).

Saturday, October 24, 2009

também eu tenho o meu jeito meio estúpido de amar...

Uma tarde casada com um temporal medonho.
No meio dos relâmpagos pelo esverdeado dos meus olhos cansados e molhados foi saindo uma
verdade crua, que devia ser incontável, carregada de um milhar de segredos
que era suposto ignorares.
O receio era o meu palco, o coração batia tão infundadamente no meu peito e a angústia era a actriz convidada de uma peça condenada ao fracasso. Fugiste e eu passei a escutar a minha dor
que me subjuga dentro do apartamento estreito e arrefecido, onde uma flor definha, um piano envelhece e a única música é o vento que bate na janela.
Continuo a arder em febre e medo. Insónias imensas e noites sem nome.
Desacompanhado arranco estrelas e com a alma cheia de rasgões
enlouquecido vou murmurando que apesar de tudo te amo…
Luís Galego

Imagem retirada aqui

Wednesday, October 14, 2009

facho do destino...

Recordo com saudade e olhar húmido o teu riso tenro, suave, postura serena, gestos delicados, cabelos desatados, lembro o teu adormecer no terraço virado para o Tejo, de onde te levantavas como se tivesses dentro de ti uma criança aos tropeções, ficavas horas a fio deitada naquele lugar ameno, eras uma mulher enigmática, de ar sonhador e vago, desaparecida de todos os sítios da terra. Foste envelhecendo, açoitada por ventos funestos e duvidaram que alguma vez tivesses sido atraente, colocaram em causa o brilho do teu ser. Com o passar das estações tinhas-te metamorfoseado, cabisbaixa e alienada, uma deusa frustrada. Começou a faltar à roda dos teus olhos o cristalino eco da alegria e a nascer um rosto semeado de melancolia e cores monótonas, sentiste o fogo da vida tornar-se frio. Estou contigo no Casarão, mas de onde não se vê o rio, procuro a ternura súbita e acaricio-te a mão, mas tu não reages, estás sentada com o rosto afogado num pequeno livro de poemas de Eugénio de Andrade, nas mãos como num regaço, e não olhas, nem um beijo, uma lágrima ou um intimo lamento, simplesmente levantas a cabeça com um sorriso ausente, e baixas de novo os olhos cansados sobre as palavras do poeta, os mesmos versos, hora após hora, penso que deves ler o mesmo livro desde o nascer ao pôr do sol e talvez mesmo durante o crepúsculo em desmaio, ou talvez em noite de insónias voltes atrás e sublinhes o que te vi ler durante o dia, porque se alguma vez terminasses o livro não verias mais nenhum motivo para viver. Toda a minha sensibilidade se ofende, esmaga-me esta tua solidão, essa alma viúva, nutrida em ânsias de dor. Um dia um pressentimento far-me-á voltar e tu estarás morta, apagada num espaço arrefecido que não era o teu terraço, com o livrinho já lido aos pés
……………………………......................................e nenhum poema caberá nessa mágoa…
Luís Galego

* imagem retirada de aqui.

Saturday, October 03, 2009

um beijo ali na Cinemateca…


Numa hora, lenta e calada
desinquieto,
punha um perfume leve
vestia-me de emoção.
Trancava a porta
de um convento solitário.
Puxava de um cigarro
para que o arabesco singular do fumo
me tranquilizasse.
Ensaiava gestos, em ritmo de oração
num porte infantil
de súbitos receios
e temente que a sedução
se travestisse em frustração.

Hora de entardecer,
endoidecido cavalgava sem parar
e na Barata Salgueiro, no silêncio da espera, pesadelos de insónia, sofria de imaginar,
que ela se arrependesse,
ou não quisesse assistir
a uma obra de culto...até a sentir como um relâmpago aparecer.

Extasiado ao vê-la
ternura súbita
arrepio de comoção
como se de súbito um jardim invadisse o meu corpo.
Senti no ar carícias
Prendi nas mãos todo o luar.

Desperdiçava tempo,
a procurar coragem
para que o desejo fosse beijo.
Minutos sem descanso
e os discursos que preparara, desmaiavam ao brotar.
Mas o físico e a alma
reclamavam vencer o medo
e roer a solidão
Hora de fazer milagres
abandonava os dedos descuidados
esgotados de esperar
aflitos rondavam a sua pele
esperando o seu afago
à espera do intimo silencioso
um ar onde o hálito é doce.
Num jardim de segredos
ousava ser homem então.

Na Cinemateca,

uma sala imensa suspensa
na espuma do silêncio
o espírito estremecia
o corpo tremia
o coração ardia
ao som da melodia
a Jeanne Moreau surgia
o brilho de uma estrela
apertava ainda mais a paixão
com uma nova respiração
explodia a relação.

Na Cinemateca,

foi uma noite bela
uma flor poética
que parecendo eterna
invadiu o coração.
Luís Galego
* após ouvir - uma vez mais - Paulo de Carvalho e Sábado à Tarde.

Saturday, September 19, 2009

vida suspensa...


Só agora entendi
que te desprezei. Naquela noite escura
disseste
Até já. E ainda
te aguardo
enleado em velhos poemas e
canções de amor
Um coração que não dorme
que pulsa no lusco-fusco de um quarto vazio
Sinto no corpo o frio arrepiante da saudade
Uma vida perdida sobre lençóis desfeitos
eternamente presa.

Luís Galego

Sunday, September 13, 2009

o derradeiro poema...

O derradeiro poema

Como o poeta também eu quero o meu derradeiro poema
Um poema que acenda as estrelas
Um poema que erga ao vento o seu riso
Que seja amável e exprima as realidades mais espontâneas e menos premeditadas
Que me afaste das punhaladas cegas e enraivecidas
Que seja arrebatador como um suspiro sem pranto
Que tenha a superioridade das flores sem aroma
O ardor dos amantes que se escondem de mão dada
Um poema de pecados imensos
O retrato da pura imensidade
Que seja um jardim aconchegado à minha porta
Um poema que não perturbe a minha caminhada
Um poema que interdite o meu sofrer
Um poema que revogue mágoas no meu embaciado olhar
Um poema que me afaste da melancolia
Um poema que encarne a angustia já purificada
Um poema que me deixe exausto sobre as conchas da praia
mas não me deixe morrer no mar
Um poema que me consinta adormecer sem lágrimas
Um poema que seja a minha última oração
Um poema que seja a minha derradeira canção.

Como um condenado eu clamo um último poema
Um poema que seja um espasmo, uma declaração de amor, uma solidão desfeita
Um poema que me segrede o teu nome
Que seja a cor dos teus olhos
Que me autorize contemplar a tua palidez romântica e lunar
Um cartório que me divorcie da velha dor
e das palavras magoadas
Um poema que não embargue o coração
Um poema que não me diga não
Um poema que seja tudo
e não um desígnio interrompido
Um poema que seja o último desejo
Uma melodia escrita com sangue nos versos
e beijos nas tuas mãos.
Luís Galego

Imagem aqui.

Monday, September 07, 2009

contra natura...


Angelina e Teresa Maria olharam-se de forma cúmplice a primeira vez que se viram, sentadas no Anfiteatro 2 da Universidade Católica, onde iam ter a aula teórica de Ciência Politica. Fizeram juntas a licenciatura em Direito e terminaram precisamente com a mesma média. Descobriram em simultâneo os encantos do Penal e as afrontas do Fiscal. Foi-lhes revelado ao mesmo tempo os indescritíveis enigmas da sexualidade. Uma com a outra, sexo entre iguais. A mesma paixão por Teofrasto, escritor natural da ilha de Lesbos. E graciosamente se acasalavam, de mãos dadas, ao entardecer, no principal oásis da capital, o Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, a cinco minutos do aconchegado T1 que compartilhavam em segredo na Rua Felipe da Mata. Eram felizes, cultas e chiques. E ambas juristas. A patrona não gostava daquela cumplicidade, daqueles estágios travestidos em esferas íntimas. A Patrona não era jovem, nem charmosa e muito menos feliz, meramente advogada mas casada e cabeça de cartaz da beatice vigente daquele escritório. Perante as perfídias decorrentes do insistente confronto de olhares censórios, Angelina e Teresa Maria tiveram de assumir as performances que se impunham, isto é, arranjar, companhia masculina, a qualquer preço. Mais tarde pensariam numa douta solução sem que esta as obrigasse a sair do armário. E, para tal, resolveram inscrever-se num daqueles congressos que no fundo só servem para que uns Senhores durmam com umas Senhoras. Acabaram numa conferência sobre Direito, Ética e Cidadania, durante três dias em Braga, num sumptuoso palácio barroco. Reparam em dois homens jovens, que rapidamente souberam tratar-se de ex-alunos da mesma Universidade, um de Teologia, agora responsável pelo Centro de Estudos Renascentistas da Faculdade de Filosofia daquela cidade, o outro, formado em Estudos Portugueses, admitido como Adido de Embaixada no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Terminam a noite, os quatro, embriagadíssimos, a comer prato de bacalhau à moda da casa e a beber pénaltis de tinto no Restaurante Bem-me-quer, discutindo os méritos da Elisabeth Schwarzkopf e da Teresa Stich-Randel como exímia mozartiana. Troca de contactos. Promessa de futuros encontros. Imensa efervescência. Angelina pesca Gustavo, Teresa Maria cola-se a Duarte. Unem-se no mesmo dia e na mesma igreja. Passam a lua-de-mel juntos, duas noites na Quinta das Lágrimas, o restante em Itália. De tarde vamos ver o Estádio Olímpico de Roma, anunciam os apessoados maridos. Magnífico. As mulheres cruzam instantaneamente os olhares, sairão para um curto passeio e voltarão rapidamente. Isto significaria que enquanto os machos se consagravam às baboseiras do futebol, as fêmeas dedicar-se-iam a outros jogos de corpo-a-corpo. Formidável. Voltam despercebidamente ao hotel. Quando entram num dos quartos, confrontam-se com os dois garbosos esposos, Gustavo e Duarte, nus, embrulhados um no outro, cabeça para um lado, pernas para outro, em agitação. Os robustos erguem-se sucumbidos nos lençóis arrancados à cama. Branco-esverdeados, enfrentam as mulheres com horror. Tentam eles explicar de forma amarfanhada, que não desejavam violentar o sacrossanto matrimónio. Não eram paneleiros, maricas, bichas, no máximo metrosexuais. Acabam por confessar que andam naquilo desde o pré-escolar no Charles Lepierre. Iguais a milhares de outros. O casamento resultara de submissão a preconceitos familiares e afins, da não paciência à sujeição de interrogatórios compulsivos. Uma situação ao estilo perspicaz dos contos breves de Fernanda Botelho, dos filmes de Almodôvar. Angelina e Teresa Maria são acometidas de um sentimento de êxtase! Arrepios de felicidade!

O golpe resultou, a vida sorriu-lhes e cada uma delas conheceu a maternidade. Têm vivido muito felizes e são absolutamente contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, totalmente agastadas com posições que defendem a adopção por homossexuais. Curioso, até os maridos subscrevem tratar-se de um processo contra-natura, um absurdo, um delírio inconstitucional que não se deve admitir. Que lata essa de existir a possibilidade de escolher em igualdade de circunstâncias com os outros cidadãos, desabafam…
Luís Galego

Saturday, August 15, 2009

votaria em Baudelaire...

Imagem retirada daqui

Votaria em Charles Baudelaire, se tal fosse possível. Tal como o sábio das emoções advogava também acho que se deve andar sempre embriagado; bebedeira o grande archote de qualquer teoria de ciência politica, o mote de um credível programa eleitoral. Não posso tolerar sentir o hediondo incómodo da melancolia que me rasga o corpo e a alma e me transporta para a nostalgia, não aguento representar um papel decadente para uma plateia vazia, devo cavalgar por cima das nuvens negras e embriagar-me sem cessar. Com um simples Cabernet Sauvignon de supermercado, com as palavras dos poetas, com um verso cintilante, com uma música antiga da Provença e da Toscana ou com o cheiro do jasmim, o que seja. Mas há que embriagar-me. Há que sentir no ar que respiro a fragrância do mais agradável perfume, há que afundar na beleza do instante que passa, há que jogar incessantemente na roleta da festa e do prazer, há que ouvir a melodia secreta da paixão, há que chorar de alegria junto ao mar, há que embriagar no meio de uns braços quentes, há que encostar o ouvido à página do livro mais belo, há que amar num entardecer em Roma, há que gritar bem alto que sou feliz, há que utilizar o chicote sobre a tristeza e a aflição. Na imensidão da noite, nos degraus de um teatro, no banco de trás de um eléctrico solitário, no vazio de um quarto de hospital, no mais recôndito recanto, ao despertar com a embriaguez já atenuada, lembrar-me-ei sempre do Spleen de Paris:
“São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com virtude, a teu gosto, mas por favor embriaga-te”. Claro que votaria em Baudelaire…
Luís Galego

Sunday, August 02, 2009

uma incerteza eterna…

Edvad Munch: Jealousy, 1907

Eu nunca tive esse sentimento pequeno-burguês chamado ciúme, com ardores de estômago, enxaquecas e colites ansiosas, nem paciência para canibalismos sentimentais. Vivi sempre sem a sombra do ciúme e considero abjecta a ideia do direito de propriedade. Abominei a cena maléfica da Laura com aquele tipo em Lagos, mas isso era um golpe baixo, não se assemelhava à sórdida tragédia shakespeariana. A Laura dissimulou, não foi franca, mentiu, iludiu e aguardou que eu saísse para ir ter com a minha mãe a Sagres para lhe enviar um e-mail afrodisíaco a dizer que eu estaria ausente toda a manhã. Nunca discorreu que eu me ia esquecer de levar os documentos do carro e regressar ao apartamento vinte minutos depois. Agir como eu agi não são ciúmes, mas uma explosão de sensações contraditórias e uma questão de honra. Impunha-se pôr o pseudo especialista em horticultura biológica no seu lugar. Quem não se sente ferido na sua confiança não é filho de boa gente, não se pode tolerar que um intruso entre na nossa vida e nos nossos lençóis e tenha prazer com a mulher que amamos, que tenha contacto com a ilha perfumada das suas pernas, com quem pensamos existir uma cúmplice partilha, com a qual se aprecia a calma das estrelas. Foda-se! Estou a vê-la, quando, à noite, depois de se ter cansado de esperar por mim, se dirigiu ao restaurante e o Indiano lhe entregou a minha carta. Há-de ter saudado os outros casais amigos com um sorriso inquieto e doloroso, a dar voltas à imaginação para justificar a razão de eu não estar, porque é que o Virgílio não se encontrava ali com ela, no dia em que comemoravam dez anos de vida em comum. Fiquei incontactável. Foi o que fiz. Ciúmes? Obviamente que não. De qualquer modo, não há nenhum “monstro de olhos verdes” que vença a voz de Jessye Norman que me abraçava no escuro às tantas da madrugada, atenuando no meu rosto os sinais das lágrimas …
Luís Galego

Sunday, July 26, 2009

alguma coisa me doía...

(Pablo Picasso, Death of Casagemas, 1901)
Num canto de rua vi um homem jovem morto nu
Prostrava-se ali como uma bofetada aos desconhecidos
que rasgavam da noite com excitação no corpo
e música nos ouvidos
Há quanto tempo permaneceria ali
naquele chão sem intimidade?
Não o agasalhava o afecto de uma mãe
nem umas mãos para acariciar uns cabelos soltos
onde se reflectiam as luzes de uma Lisboa que dormia
Tiraram-lhe o direito à vida
e ele estendido no canto da rua
quando há instantes ainda o relógio no seu pulso sentia o arrepio das vibrações
Apenas uma carne cheia de nada, uma existência violada
Quem seria? Que passado exibiria?
Que coração teria?
Que diário encerraria a intimidade deste que ali morria?
Que pensamentos tivera, que segredos levaria?
Amaria? Por quem estremeceria? Para onde ia?
Fora feliz? Almejaria mudar o mundo?
Transformaria a sua vida no dia seguinte?
Fora menino ali onde com um nó na garganta o quase chorei?
Teria soluções para enigmas emocionais?
Seria um bom ser humano? Indivíduo de palavra?
Uma alma carregada de poemas?
Quem temeria a sua ausência?
Quem verteria lágrimas de amor ao saber?
Que diriam as suas linhas da mão?
[Por que morreu?]
Mas já naquele momento o rosto lhe cobriam
pois não vislumbraria com o seu desaparecido olhar o céu
Era tão só a mais amarga escuridão
como se trovoasse de repente
em pleno Verão
No ar nem um soluço, nem comoção, mas estranhos, sanguessugas
e um INEM tardio
para alguém que como cama só teria um chão frio

Não o conhecia, mas alguma coisa me doía

“Dás-me lume?” – assediou-me a velha prostituta
Transporte-me pelas suites mais belas de Lisboa
até se abrir a manhã e se apagarem as estrelas
e talvez a noite possa cicatrizar à toa
Não sabia o que queria
mas sentia que aquele jovem homem merecia
uma poesia.
Luís Galego

Monday, July 13, 2009

punição...

(Imagem retirada daqui)

Implacável e magnifica ela pôs menosprezo na chávena de porcelana/Pôs sarcasmo e orgulho na fatia de pão/ Pôs dor no galão/Com fel mexeu a chávena embaciada como quem dita uma sentença pesada/Bebeu café, leite e tormento /E pôs silencio e solidão à mesa/Sem o olhar sequer acendeu indiferente um cigarro/ Como uma actriz fatal dos anos vinte fez círculos com o fumo/ Sem pudor pôs as cinzas no chão /Sem lhe falar/Sem o olhar/Retocou os lábios amargos e perfumou-se com um aroma agreste/ Pôs o lenço à volta do pescoço/Vestiu o impermeável porque chovia a agonia/E saiu debaixo de água/ Sem uma palavra/ Sem o olhar/Tão só Fria

Ele desfeito deitou a cabeça na mesa/E minado deixou escorrer amargura, banhando-se pelo dia fora em descomunal tortura…
Luís Galego

Sunday, June 28, 2009

em romântico apelo...

(imagem retirada daqui)

Apareceste, como o brilho de uma estrela reflectido num lago triste! E entendemo-nos, silenciosos/ Fico embriagado com o teu aroma e o teu olhar/Como quando criança via o mar, que fazia cintilar de alegria os meus olhos fascinados.

Em momentos de tédio, fumo, cinza e dor intensa, em instantes de ansiedade, lágrimas amargas, vinho forte e noites escuras, pensava, nos meus desassossegos infundados, que nunca virias/Mas, agora, o que não entendo, é termos, tu e eu, podido estar, tanto tempo, separados/De teus passos nenhum vestígio havia.

Já que enfim chegaste, fica próxima de mim, muito presa aos meus braços e dança comigo voluptuosos tangos argentinos, corpos entontecidos em fortes abraços; e se o medo no meu espírito se erguer, tal carrasco abastecido de desumanidade, peço-te que ponhas de permeio teu imenso coração a bater.

Em romântico apelo/Ilumina, com o teu, o meu pensar/Que, sem ti, sou uma pobre alma fatigada, a vaguear.
Luís Galego

Sunday, June 21, 2009

um sussurro e nada mais...

(The Death of Chatterton, Henry Wallis, 1856)

Eu pensava que um só gesto meu abria o Universo/Viajava mais do que o pensamento, como nuvens ou navios/Transportava-me além do Oceano/Em secretas viagens ia por onde as estradas me guiassem, as ruas desertas me acenassem, as buganvílias me sorrissem/Tinha no olhar a certeza do coração/Na voz o grito de libertação/Pensava-me eterno/Dos sentidos fazia um império de lantejoulas/À beira de um cais as noites duravam meses/De manhã despedia-me das estrelas e cumprimentava os ventos/Sentia a brisa lenta a roçar e estremecia a ouvir pássaros a cantar/Cumprimentava grandes luas/Abraçava a magoada monotonia do entardecer/Devorava enlouquecido frutos novos/Inventava países e desertos/Lia velhas histórias de marinheiros que desapareciam entre lençóis de algas/Erguia à beira mar a minha tenda/Fazia a vénia ao pôr do sol/Rompia a arquitectura da melancolia, com a bagagem dos sonhos do futuro/O mal, de todos o pior, foi confiar, fantasiando que esperar era a azul solução/Rindo e chorando/Pensando no amor confuso e na ausência/A pele e a alma gastas de tanto congeminar/Afinal, longos dias perdidos/Antes tivesse sido naufrago de grande tempestade/Incógnito cuspido à praia à luz do dia/ E não espectador exausto dos bailados da paixão e da solidão imensa/O silêncio, enfim, a minha cicatriz, mas também a minha mais triste e bela canção/

/Esta noite morrerei sem lágrimas como uma árvore nua/Quando a lua vier acariciar-me o rosto/E será tão apenas mais um sussurro que ecoará na noite da minha rua…
Luís Galego

Saturday, June 13, 2009

sou a expressão das minhas mãos...

(Threesome (1944), Felix Nussbaum [1904-1944])

Passei a tarde inquieto. Quando me pus embriagado a observá-lo, recompus-me um pouco. A sua mão morena esguia assenhoreou-se da dela e quando ela entontecida lhe rumorejou qualquer coisa ao ouvido toldou-se para ela com um rompante de comoção. Penso que nem sequer eram os olhos dela, tons de pedra rara, mas sim a voz, com aquele ardor febricitante e movediço, o que mais o atraía, porque inultrapassável pela ficção – aquela voz rouca era uma dádiva dos deuses.
Já se tinham esquecido que eu estava ali, mas Bárbara ergueu os olhos e pegou nas minhas mãos franzinas de madona florentina, beijando-as docemente; Henrique é que parecia ter-se esquecido agora completamente de mim. Olhei uma vez mais para eles e eles devolveram-me um olhar longínquo; desfrutavam de uma paixão desmesurada.
Então deslizei, devagarinho, do restaurante e desci a escadaria, debaixo de um sol ainda forte, deixando-os sozinhos lá dentro, pensando nos versos tristes de uma poetisa que outrora tanto desprezara: “Beija-mas bem!...Que fantasia louca/Guardar assim, fechados, nestas mãos/ Os beijos que sonhei prá minha boca”.
Luís Galego

Thursday, June 11, 2009

amor com defeito...

(Adam and Eve, Tamara de Lempicka)
Porque eles são muito diferentes. A noção disso, desde o primeiro momento é a glacial análise que se impõe. Os fins de tarde desabrigados, descarnados e crus em que ele vagueia ferido e solitário pela cidade incompleta, longas caminhadas sem norte, irmão mais novo dos vagabundos de Godot, desfeito, disperso, confundido com o arvoredo, uma forma imprecisa movendo-se através da luminosidade parda, bebendo vinho nas tascas em companhia de desconhecidas, goyescas bruxas de conversa fácil, com o Are You Lonesome Tonight? e afins como pano de fundo. O amor vê-o do outro lado do rio. Sem ela já não quer ver coisas novas, novas terras, outras cidades, não quer discutir autores clássicos, nem sequer ouvir as baladas de Villon ou as suites para violoncelo, por Casals. Não lhe interessa outras mulheres. Mas o amor para ela é algo bacteriologicamente isolado da vida. Só o instante conta, o fluir inexorável da vida. Do outro lado do rio uma ampla janela de um pequeno apartamento, abarrotado de livros e quadros, o velho prédio onde ela vive. Subir até ela e entrar na sua vida, reunir nas sombras os pedaços do seu corpo e ser célere entre braços, indistintos entardeceres em que os corpos se desfazem, levando atrás de si o melhor poema de desejo de sempre Morrer de amor/ Ao pé da tua boca/Desfalecer à pele do sorriso/Sufocar de prazer com o teu corpo/Trocar tudo por ti/Se for preciso[1] – Isabel não põe o seu mundo em causa, não se expõe e não irá nunca ao seu encontro, quanto muito de outro e mais outro homem, diferentes corpos, que ao despertar não reconhece. Defende-se, diz ela. Ele já não acredita no amor eterno mas ainda assim sonha, aspira, reincide com alguma esperança, mas ao sair do apartamento, ouve o rio lá em baixo, que lhe sussurra que aquele sentimento faz mal, é amor com defeito, que não vale a pena. E esta mensagem não carece de nota de roda pé…
Luís Galego

[1] Maria Teresa Horta

Saturday, June 06, 2009

às dezoito horas e quarenta e cinco minutos…

(René Magritte, La Magie Noire, Musée Royaux des Beaux-arts, Brussels, Belgium)

Este amor
Tão violento
Tão frágil
Tão terno
Tão desesperado
Este amor
Belo como o dia
E mau como o tempo

Jacques Prévert

Ele ia a caminho do Chiado, para participar numa conversa com Ian McEwan sobre a importância dos mal-entendidos nas relações pessoais, a propósito do lançamento do libreto Por Ti, mas Brigitte ia sair na Avenida, de maneira que só tinham duas paragens para estarem juntos. Ainda conseguiram apresentar-se e trocar emails…Ficou a saber que ela integrara muito recentemente a Orquestra Sinfónica Portuguesa. Que era de Leipzig, mas tinha passado os primeiros treze anos em Seattle. O seu sorriso era amplo e aberto e o seu inglês era perfeito, não tinha nem a mais leve sombra de sotaque. Devem ter conversado para aí uns onze minutos – quinze minutos no máximo. Quando ela saiu, ele já sabia que tinha acontecido algo de gigantesco… pelo menos para ele. Não podia saber o que é que Brigitte estava a sentir mas, quando se despediram, ele sabia que tinha encontrado a mulher da sua vida… O amor reinventa as necessidades a uma velocidade alucinante. O Amar não acaba, como escreveu Clarisse Lispector, e tal como para a escritora, sentiu que o mundo era dele e estava à sua espera. E ele queria ir ao encontro do que o esperava. O seu sentir provava que Brigitte, cuja existência ele desconhecia poucos minutos antes, já adquirira o estatuto de desejo incontrolável. De súbito as palavras da Primavera de Grieg ecoaram na sua cabeça: “mais uma vez aconteceu o milagre, mais uma vez me foi concedida a felicidade”. Uma janela aberta para a própria quinta-essência da felicidade. Sentiu que ia morrer se a perdesse de vista naquela estação de metro – morrer por alguém que se entranhara na sua vida apenas às dezoito horas e quarenta e cinco minutos daquele chuvoso final de tarde do mês de Junho, nesta estranha cidade chamada Lisboa…
Luís Galego

Saturday, May 30, 2009

como um perfume que se cola aos dedos…

imagem retirada daqui.

Hoje acordei às seis da manhã. Já era dia, mas não havia ninguém nas ruas. Então, sentei-me à pequena mesa no meu quarto de hotel, antigo farol desabitado, conhecido pelas suas paredes forradas com imagens a preto e branco, numa homenagem a solitários, e comecei a rabiscar num papel amarrotado. Sentia unicamente alegria por estar em Brisray de manhãzinha, por ter acordado ali naquele pequeno reino dos contos de fadas, por saber que tornaria a andar por caminhos desertos onde a poeira nunca assenta, mas onde nos espreitam pelas janelas, que voltaria ao salão de chá para escrevinhar algumas frases no meu Moleskine, pensadas numa língua estrangeira, que respiraria o ar do belíssimo e mítico mar ali tão perto e um pouco mais tarde do encantador jardim tricentenário. A vontade infinda de caminhar sobre uma terriola paralisada junto da água, outrora assombrada por poetas, num prazer refinado, gracioso e singular, instantes vividos de forma mágica, mirífica, magnifica envoltos na nostalgia serena da paisagem, desenhada como um bordado em miniatura. Sou dominado por uma profunda melancolia de cada vez que estou prestes a deixar aquele refugio, sitio ilegível no mapa, a pequenina vila dos náufragos, dos abandonados ao silêncio, do bolo de gengibre, dos livros espalhados pelas artérias, onde pintores de horizontes se refinam, amantes se encontram às escondidas e bibliotecários se juntam com a desculpa de conferências e que atrai músicos dos mais variados géneros, do clássico ao experimental, autêntico cinema independente, que resiste ao espectáculo mediático contemporâneo. A simplicidade, a intimidade, a fragilidade da vida, a sua continuidade e o sentimento de estar num lugar onde o único museu não fecha de noite e o tempo se move tão lentamente, como um perfume que se cola aos dedos. Como sempre, quando se aproxima a hora do meu regresso a Lisboa, desejo absorver a terra na sua plenitude, como se de um fruto exótico, raro e caro se tratasse – as ruelas bucólicas, o respeito pelo silêncio, o canto gregoriano, na missa de final de tarde, os cafés onde se repousa, o sabor da cerveja, as cores das arvores, os aromas, os sons, as temperaturas, os segredos impartilháveis, as pessoas sem horários, momentos em que não somos nada e somos tudo, coisas extraordinárias presas por um fio; gostaria de fixar todo este punhado de imagens e sensações em forma de um poema bem conseguido e oferecê-lo a quem vadiasse por este infinito pessoal.
Luís Galego

Sunday, May 24, 2009

the end of the affair...

'Gurudev' Rabindranath Tagore, (1861-1941) Man and Woman, National Gallery of Modern Art, New Delhi

Os barcos começaram a regressar à língua de areia da praia; o vendedor de gelados e línguas da sogra veio ao bar cavaquear com a empregada, como duas comadres de aldeia que comentam enredos de novelas de chular neurónios embaciados, mas enérgicas como se habitassem numa partitura de Gershwin. Levámos o nefasto domingo que nem cascos naufragados a arrastar-nos por bares matreiros, com música ambiente de comover porteiras e clubes de fãs de Tony Carreira, crucificados em cadeiras desconfortáveis, assistindo à encadeação de um dia grávido de chuva, cinzento, carregado, penoso, vendo as gaivotas e escutando a ventosidade dos pinheiros. Só no Woody Allen ou no Almodôvar suporto isto. Em solidão, observo a minha vida em câmara lenta e penso que é melhor acabarmos. Sinto-me como um cão vadio que uiva de noite, afectado pelo micróbio da desmotivação. Vou sair de casa. Naquele instante trouxe à memória tudo o que há meses arquitectava dizer porque descobri que já não gostava dela à séria, que fazia parte do passado o magnetismo dos seus olhos azuis e a raça puríssima dos seus traços, que talvez já não me fizesse falta, que sabia como aguentar-me à tona sem ela. Ela já não soa propriamente a Bach, a uma melodia que me faça voar e sentir. Sei que a descoberta do amor é um privilégio que os Deuses concedem a alguns. Pensava ser um dos eleitos. Enganei-me. Daqui a nada vamos regressar a casa – que é tão só um conjunto de legos dispersos, silenciosos – no carro, sem falar (o que há para dizer agora? nem sequer do The End of the Affair, de Graham Greene, por sinal o livro que dissecamos em conjunto naquele Clube de Leitura da Culturgest, quando nos conhecemos; ou da carta de Lytton Strachey que me custou um salário de assistente de história da cultura e das mentalidades na Faculdade de Letras de Lisboa num leilão em Hungerford e que lhe enviei em express mail, porque sabia que amava o poeta), tão longe um do outro que se por acaso nos tocássemos isso não significaria absolutamente nada.

Enquanto aguardava o elevador, abandonado com a mala, ela ficou à porta, como se eu fosse uma testemunha de Jeová ou a assistente do Circulo dos Leitores, apresentando um vago sorriso, de mão no puxador, com as crianças a espreitarem por detrás com overdoses de curiosidade estampadas nos rostos. Para onde é que o pai vai? Perguntou a Teresinha e todo o sangue se me gelou num corpo enrugado por dentro.
Luís Galego

Saturday, May 23, 2009

uma manhã com outra luz...

a nossa vida real é, em mais de três quartos, composta de imaginação e de ficção
Simone Weil

Hoje chuvisca mas o dia sorri-me, vejo o mundo de camarote. E acordo a ouvir Rodrigo Leão e enredo-me na torrente sentimental, aninhado na vida como em boa manta escocesa. Este dia, o 23 de Maio, é aquele dia em que agradeço estar rodeado de certas pessoas. É o dia em que recordo que a minha aventura nasceu numa cidadezinha de província, Évora, onde o Inverno é frio e o Verão sem sombra. Mas a essência da vida é andar para a frente; sem necessidade de fazer marcha a trás.

Na realidade, a vida é uma rua de sentido único. Não tem sido em vão, não tem sido inútil palmilhar essa estrada, no tempo certo do coração. Sei que há viagens que não fiz, livros que não li, filmes que não vi, pessoas que não conheci, gente que não abracei, mas a vida vai indo e aconchegando. Tal como Agatha Christie também já me senti ferozmente, desesperadamente, agudamente infeliz, dilacerado pelo sofrimento, mas apesar de tudo ainda sei, com absoluta certeza, que estar vivo é sensacional.

No fundo, o que pretendo é e embora em contexto diametralmente oposto utilizar os nove adjectivos que Sarah Kane empregou no perturbante texto Crave: (…) transmitir algum do esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo, e infindável amor que tenho (…) pelos pequenos instantes que a vida, vivida umas vezes devagar, outras de forma nervosa, me proporciona.

Abriu-se-me a manhã:
- Parabéns
- Obrigado, enternecido, respondo!

Sunday, May 17, 2009

e amanhã nem sequer falaremos disto…

Photo: Murdo MacLeod

Fiquei hoje triste comigo e, contudo, o dia afigurava-se sob os melhores auspícios. Como me tem sucedido noutros momentos fui vitima da minha propensão por dar importância aos detalhes e anuir à minha inclinação teorizante e à essência inofensiva e sem artimanha do meu carácter. Chego às vezes a considerar, com inquietude, se a inocência não será a figura trovadoresca de imbecilidade. Mas o ingénuo é comummente recuperável porque pode ser restabelecido pela actuação terapêutica da vida, ao passo que o néscio é irreparável porque a idiotice é uma enfermidade congénita que se agrava com o andar do tempo. Seja o que for, não consegui ou não quis uma vez mais moldar-me a certas realidades.

Tal como Byron também um dia gostava de dizer ter sido o poeta da minha própria existência. Prefiro ser o actor e inventor da minha vida, ainda que a mesma se confunda com um monólogo, uma peça num só acto, sem intervalos, nem palco, sem assistência, temporada de cansaço e sacrifício, espectáculo sem aplausos. É verdade que ao descer o pano procuro, desesperadamente, uma alma a quem possa explicar o enredo, partilhar as peripécias da peça, as razões da mesma; mas face a certas encenações vejo-me carregando às costas uma solidão que se deita comigo à noite na cama, depois de uma ou duas sessões onde fui o único actor em palco interpretando uma peça de Beckett.

Mas que venha um cigarro, um whisky e uma música vadia que não abrindo as portas do paraíso, obstruem um pouco a passagem que dá para o inferno. E, porque, amanhã nem sequer falaremos disto…

Tuesday, May 05, 2009

o meu poema...

Hoje dia do teu aniversário. Dos teus 16 anos. Estava eu a despedir-me do último dos Vinte. Foi de noite, uma eterna noite do mês de Maio e eu ansiava tocar-te. Eu queria ser o teu porto de abrigo e abraçava muito o teu corpo pequeno, nu e encostado a mim. Contigo nos braços eras o meu agasalho, o meu aconchego, o meu refúgio. Agora, filho, agora cresceste – cresceste tanto, tanto – mas não largaste os meus braços.

Dou-me todo a ti, João…

Sunday, May 03, 2009

letra M...

Pietà, Escultura de Michelangelo (1475-1564)

Não há mulher alguma que no intimo/não tenha/como as aves o instinto/do ímpeto das aves/e do ninho
David Mourão Ferreira

À L.
À JR
As nossas Mães

É de pedra branca e fria mas pulsa como a carne e comove como a alma. A figura de uma mãe que acolhe no regaço o filho morto, com uma dor que é humana e uma serenidade que é divina. A Pietà é a obra máxima da arte, uma escultura que não parece de pedra. Simultaneamente, a dor pela morte do filho, mas ao mesmo tempo a suavidade dos gestos, longo colar de ternura. Assim é a Mãe para quem vamos a correr sempre que nos atinge o sofrimento. Múltipla, singular, infinita, inseparável. Em cada fêmea, em cada amante, em cada mulher, em cada amiga, em cada poetisa, em cada terapeuta, em cada educadora, mesmo na mulher “fácil” e em cada idade, o homem procura a Mãe ausente.

Ó mães dos Poetas! Sorrindo em seu quarto,
Que são virgens antes e depois do parto!

António Nobre

Nós saímos delas mas ficamos infinitamente retidos no seu ventre. A nossa Mãe é nossa para sempre.

Ela veio de um mundo de sangue, calor e dores para lhe dizer certos segredos. Ele sente-lhes o cheiro
Joyce Carol Oates

Nascemos, ambos, no mês de Maio, pai e filho, o mês das rosas, Rosa o nome da avó. Talvez por isso fizemos das rosas a nossa flor, um símbolo, uma espécie de bandeira…

Mãe:
Que visita tão pura me fizeste
Neste dia!
Era a tua memória que sorria
Sobre o meu berço.
Nu e pequeno como me deixaste,
Ia chorar de medo e de abandono.
Então vieste, e outra vez cantaste,
Até que veio o sono.
Miguel Torga

Hoje é o Dia da Mãe.
Hoje? Ontem, hoje, amanhã. Sempre. Para sempre.
Olá, Mãe!...
Que bom, Avó!...

E eu ainda um dia
vou entender
a luz que só cintila

exactamente a partir
do teu sorriso

da tua palma quente
- polpa e leite

E lua

Maria Teresa Horta

Com amor, os meninos de suas Mães,
João Galego
Luís Galego

Friday, May 01, 2009

e vou navegando, até quando?

(William Turner, Light and Colour, 1843)
Tardinha, à beira-mar, aguardando pelo ferry-boat, minutos profundos, lentos e calados, olho embriagado através da verde escuridão para a teia de reflexos. Gosto de pensar no poder do sol, da luz, dos lençóis de espuma, das marés e das ondas, do oceano. A elegância do ar, divinamente puro, comove-me. Suspiro e embalo-me no infinito. A brisa transporta carícias vaporosas. A respiração torna-se-me mais solta. O meu coração é confessadamente sensível aos imensos horizontes; às cores penetrantes; ao acre iodado que se ergue das algas e moluscos; à areia branca, com um requinte escultural; mas estremeço particularmente com a verde transparência. Se a minha alma tivesse competência para projectar um reflexo tão brilhante, e tão intensamente belo, pedia aos Deuses que para dele fizessem uso. Mas o mar da Vida não é assim tão límpido, mas estranho e duro. O perigo espreita. Um mar de chamas. Quando sinto uma paixão fervente e louca, exilo-me. E assim na misteriosa tarefa de viver embarco sem saber para onde…
Luís Galego

Sunday, April 26, 2009

talvez por ser tão breve o meu querer...

Rabindra Singh, 'Raining in My Heart (Longing)', 2003.
O amor não deve ser servido como dobrada à moda do Porto, fria e em tascas descaracterizadas. Mas talvez seja verdade que as pessoas por quem é mais fácil arrebatamo-nos são aquelas sobre as quais quase nada sabemos, nem mesmo os seus gostos literários ou os filmes da sua vida. Os melhores romances são as histórias de amor que construímos na solidão da nossa existência ou que contamos a nós próprios numa longa viagem de avião, contemplando uma pessoa atraente que olha pela janela; sentirmos que podemos morrer de amor por aquele alguém, viajarmos pela paisagem do seu corpo, fantasiarmos o beijo mais extenso e mais belo que a humanidade jamais conheceu. Devaneio, no entanto, embargado logo que o ser amado solicita um gin ao comissário de bordo e enceta com ele uma demorada e enfadonha conversa sobre o novo perfume de Jean Paul Gaultier.
Luís Galego

Sunday, April 19, 2009

a eterna sinfonia de Édipo...

Imagem retirada da net
Telefonava à minha mãe todos os dias e descontraía-me na suavidade que ela transpirava. Já não bebia nem se ensopava em anti-depressivos e, como estava reformada, já não corria atrás da notoriedade profissional e dispunha agora de tempo para desfrutar as sonatas de Beethoven e as netas. Os três filhos da minha irmã estavam crescidos e estudavam no estrangeiro. Mas Laura adoptara duas meninas cabo-verdianas apesar de já não ser uma árvore nova. Resolvera finalmente pôr em prática a formação em Psicologia e trabalhava com pequenos grupos, frequentemente homens vítimas de stress de guerra. Na sua vida nada estava resolvido – nunca nada está definitivamente estabilizado numa personalidade bipolar, mas, pelo menos, Laura tinha agora uma vida com sentido. Enquanto que eu me tornava cada vez mais desleixado, como se estivesse a sonhar, e não a pintar, a grande tela da minha vida, a minha irmã quando não estava a cuidar das crianças ou a ver pacientes, refugiava-se no seu monte em Avis, perdendo-se naquela vista desafogada, zona calma, muito perto da vila. Tempo para tudo. Para as estrelas também. Cenário estranhamente belo, liso, purificado de pormenores, tão nu como o olhar.

A família aproxima estranhos. Eu nunca teria escolhido uma anátomo-patologista reformada com quase oitenta anos, residente em Ranholas, como a minha confidente. Por sua iniciativa, a minha mãe que detestava pintura contemporânea e ficava sufocada com aquela amálgama de formas atormentadas, aquele guisado, um traçado misto de retoques incompatíveis que é a minha pintura, nunca teria apreciado ou adquirido as minhas obras, mas, porque me amava, lançou-se a decifrá-las, e, certo dia, num vocabulário consentâneo com os seus critérios, disse-me que admirava a minha obsessiva exploração pelo mesmo tema: as relações enquanto relações de poder e as relações de poder enquanto encenações de perversidade e daí ver-me como um exemplo dos artistas contemporâneos e elogiava-me como se falasse de Paula Rego ou até de Andy Warhol. Do mesmo modo, eu escutava as suas inquietações e esperanças e seguia-a no fascínio com que planeava os seus passeios pelo Mundo. A sua cultura era vastíssima, omnívora, embora tivesse fechado já o parêntese do tempo para imensas coisas entregava-se à paixão da história da cultura e das civilizações. Para ela os países eram como os aromas. O cheiro da Índia e do Brasil, o cheiro do Sul negro e do Oeste desconhecido e dourado, o cheiro do magnificente Norte, o cheiro da velha Europa, de rios vigorosos e de extensas plantações, de povos desconhecidos e línguas estranhas, toda a glória do mundo conhecido, todo o fulgor do mundo nunca visitado, todo o enigma, toda a beleza, a sumptuosidade da Terra. Eu estava sempre pronto a partilhar um qualquer roteiro, pelo que passeei-a por entre o que de superior existe no âmbito do património da humanidade. A minha mãe apoiava os óculos gigantescos no seu acanhado nariz e lia as descrições das obras de arte com a mesma concentração com, que noutros tempos, lera relatórios sobre medicina legal. Temia perder a memória e exercitava-se, repetindo longas listas de nomes e factos, um exercício apropriado para uma mulher que, no Portugal da sua infância, fora obrigada a aprender de cor todos os rios, linhas ferroviárias e províncias ultramarinas e que na juventude decorara livros de três e quatro quilos e se preocupava com exotismos e cadeiras com nomes tipo Histologia e Embriologia.

Pensava constantemente na eventualidade de ter de viver num lar, mas observava quão feliz ela se sentia por viver na sua casa com o seu jardim minuciosamente tratado, naquela zona pacata com vista para a Serra de Sintra e Lisboa e eu encorajava-a, a continuar no seu espaço, tal o seu intenso desejo de liberdade. A ela se aplicara como uma luva a expressão tão bela de Éluard: “le dur désir de durer”, mas morreu ontem, no dia do seu aniversário, numa manhã com o céu de laca azul. Laura disse-me que ela estava um furacão; fizera tudo o que o seu clínico lhe mandara fazer, seguira à risca as suas mais ínfimas sugestões, e agora, maior injustiça não podia haver, tinha de morrer, ela, uma ex professora de toxicologia e biologia forense, uma quase sacerdotisa do templo da Medicina, que sempre trabalhara e dirigira especialistas. Apagar-se, como um qualquer leigo.

A minha mãe tinha, como ela dizia, um estrutura íntima sólida para viver sozinha, cumprir horários, alimentar-se adequadamente, ler, receber visitas, jogar canastra com as amigas. Comprava-lhe assinaturas para o São Carlos e para os museus. Incensava-me constantemente pela minha generosidade e, mesmo reconhecendo que os seus louvores eram desmedidos, o certo é que me abrigava neles.

Sempre receara que o amor de uma mulher tivesse um efeito fragilizador no meu carácter, enquanto que o amor da minha mãe, enorme arquivo de sabedoria, era tão absoluto, como se me embalasse eternamente no seu útero.
Luís Galego

Sunday, April 12, 2009

só agora dou pelo sabor das lágrimas...

Tocamo-nos todos como as árvores de uma floresta / no interior da terra. Somos / um reflexo dos mortos, o mundo / não é real. Para poder com isto e não morrer de espanto / – as palavras, palavras.
Herberto Hélder, “Húmus” (fragm,), in Poesia Toda

De noite fui tão violentamente atingido pelo desejo febril de regressar a uma certa paisagem íntima que me levantei da cama, sem acordar Teresa que se deitara cedo; recolhi-me no escritório e pus-me a escavar no tal livro. Lembrei-me que tinha sido com enorme perturbação que o lera pela primeira vez, muitos anos atrás, numa atmosfera outonal e crepuscular. O meu desejo de ver a mesma luz jorrar da suprema ficção de Raul Brandão e bater-me na cara era tão intenso que, por um breve instante, se reanimou o meu espírito. Era um batimento cardíaco, uma inquietação, um estremecimento, uma vertigem, que talvez me pudesse desvendar o segredo do meu ser, essa ansiedade que poderia levar-me ao coração daquela prosa misteriosa, uma obra que se confunde com um dilacerante grito de angústia e desespero. Um dos mais belos textos de toda a literatura portuguesa, Húmus é uma sequência de fragmentos datados à maneira de um diário, exprimindo tudo isso a que poderia chamar a dor humana. Tal como na semana em que compulsivamente lera o livro pela primeira vez, dei por mim a vaguear pelos meus difíceis dezassete anos, pelos meus sonhos e decepções, abismos, contradições e arrebatamentos ilusórios, idade de todas as paixões e medos, entusiasmos e angustias, como se se envelhecesse antes de tempo, mas simultaneamente com o encanto de um olhar luminoso sobre o mundo. No silêncio da noite arrepiei-me todo, como se tivesse finalmente encontrado uma pista evidente sobre a minha forma de estar na vida depois de tantos anos de andanças; um livro escrito para e sobre mim. Mas não é o único, existem muitos outros que me ajudam a construir o romance que ando a escrever. Já de manhã alinhei cuidadosamente a obra na estante e ressacado saí definitivamente de casa com o sentimento de que livros há que são autênticos sismógrafos emocionais que registam as nossas mais ínfimas variações de estados de alma e que se entranham perpetuamente nas nossas peles, ultrapassando os limites demasiado estreitos do espaço e do tempo.
Luís Galego

Friday, April 10, 2009

um bando ameaçador de corvos pretos…

(Frida Kahlo)

em memória recente de “C”

A vida é curta e o cancro demasiado longo. A morte das pessoas que seguimos amputa-nos. Quando, no Instituto, todos os dias, a doença leva homens, mulheres e miúdos, velhos e novos, eu fixo os olhos de Thiago, pálpebras roxas, quase pretas, colega, enfermeiro, quase menino, e pergunto-lhe impotente e desalentada: “e o meu sofrimento? como o disfarço?”. No meu coração, amor e confiança resistem mas a dor torna-se uma ferida aberta. Em nome de quê a menina de cinco anos morre de leucemia? A que propósito o arqueólogo cheio de projectos e de sorrisos falece fazendo estremecer uma mãe idosa e uma relação interdita? Ás vezes estou tão desfeita, que me doiem as veias, esfarrapa-se-me a epiderme, sinto um vinco na alma... O Thiago é brasileiro, comporta-se como um príncipe perante situações cruéis e é dono de uma fé inabalável. Embaraçada, como se estivesse exposta nua numa rua concorrida, confronto-o com o autismo de Deus. Assegura que Ele está muito absorvido, num Todo tão imenso, que por vezes desampara pessoas para quem é a única entidade a quem podem pedir colo; mas recorda-me amíude C. S. Lewis: " A dor é o altifalante que Deus utilizou para despertar um mundo de surdos!” e, também, que os seus desígnios tem profundezas que simples mortais não atingem. Talvez porque precisemos de um detonador qualquer, frequentemente, numa salinha, espécie de toca segura, uma pequena equipa clínica junta-se para lembrar os que vão a caminho de um céu. Ninguém morre sem deixar um sulco, um risco, uma sombra. Acerca de cada um deles conta-se uma biografia, uma historieta, um feito de coragem extraordinário, uma lição de vida e dignidade. Surge a nostalgia, pela imbecilidade de perdas irreparáveis. A dor é muitas vezes banhada com o poder de lágrimas e de ais, e o ânimo recomposto num abraço que nos torna cúmplices. Uma das enfermeiras, a que mais insiste em mascarar as cicatrizes privadas, com um autoritarismo que lhe não é estrutural, lê entusiasta excertos de Cardoso Pires, Urbano Tavares Rodrigues, Lídia Jorge. Palavras escritas que de tão intensas, devolvem afabilidade e ternura. Embora artesã dos cuidados de saúde o sangue-frio teima em morar na outra margem e nunca vou aceitar o espectáculo do sofrimento, porque não fomos feitos para a morte, fomos feitos para a vida e para a alegria. A única certeza que tenho é que para a vida não ser um absurdo é forçoso consumar uma paixão, é necessário amar e ser fortemente correspondido, é viver um Monte dos Vendavais ou um Doutor Jivago, é ter em atenção a matéria de que os outros são feitos. Claro, os outros, sempre os outros, que nós somos invencíveis. Salvo quando após termos vivido com gente igual a nós as horas mais amargas, mais duras, mais violentas, mais sensíveis das suas existências, colocamos o lençol branco por cima de um corpo, cujo espírito voou como um papagaio de papel colhido por uma corrente ascendente. O sofrimento, Querido Thiago, o meu...como o iludo?
Luís Galego

Saturday, April 04, 2009

quando da minha noite eu te contemplo...

(Jorge Molder, Nox)

O coração agitado batia como um louco num tambor, tão carregado de desejo. Deitei-me mas de olhos bem abertos. Não demorei a verificar que se entranhavam dentro do quarto daquele hotel de abstinência uns ténues reflexos, como se trouxessem notícias de algures. Soergui-me e olhei para a janela. Tempestade – suspeitei –, naquele Outono, em finais de Setembro; mas distante, pois nem se ouviam os trovões, somente se iluminavam no céu e a cada instante: não só se acendiam como tremiam como a asa de um pássaro semimorto. Levantei-me, fui ao terraço e lá fiquei até de manhã, imóvel, de vigia…Os relâmpagos rodopiavam como fantasmas em delírio, não paravam um momento que fosse, como se tudo, os sinais do horizonte e do céu, fosse retocado a aguarela. Contemplava a ilha silenciosa, a encenação pardacenta do jardim, as frontarias enrugadas dos edifícios que igualmente pareciam estremecer a cada frágil lampejo…Olhava com tão profundo sentimento e não conseguia desviar os olhos – aqueles clarões pareciam harmonizar-se com os impulsos calados e intensos que se incendiavam por mim. Rompia o dia, a madrugada assomava em manchas vermelhas. Com o nascer do sol os relâmpagos iam desmaiando, consumidos pela luz do novo dia…

Mas os relâmpagos dentro de mim teimavam em permanecer; a imagem de Margarida, continuava, triunfante, sobre a minha alma, como se dançasse ao som de um violino. Só que também ela, a imagem, parecia querer voar: como um cisne branco que, ao esvoaçar, se aparta do pântano. E eu, ao adormecer, com as lágrimas banhando-me o rosto, suspirando na cama, abracei-a com a sensação de despedida…

O primeiro amor. Nem um murmúrio, nem um pensamento, nem o olhar, nem o beijo hei-de algum dia esquecer.

Onde estás agora? Onde estás, Margarida?
Luís Galego

Saturday, March 28, 2009

que lerá ela quando tudo arde?

Alzira sente-se amarga neste Portugal, que não está propriamente um esplendor, e está a reler o mundo do vaidoso e arrogante Lobo Antunes, aquele homem de olhos azuis que afirma não ser um senhor de idade que conservou o coração menino, mas sim um rapazinho cujo envelope se gastou. Na verdade, não tencionava lê-lo. Não pensava ler escritor nenhum – estava excessivamente cansada. Abrir um livro, ler uma página, entrar tão depressa na noite escura de outra pessoa – tudo isso eram pretextos para a deixar ficar no seu arquipélago de insónia e rasgamento interior. Não compreendia como havia uma legião que se aplaudia pelos seus êxitos e peque­nos nadas, pelos seus interesses e até pela sua forma de amar, nem que fosse uma pedra. Parecia-lhe que todos os universos ficcionais ou semi-ficcionais tinham sido escritos por criaturas tão diferentes de si. Não importava o que descrevessem, os livros falavam de vidas cuja experiência não tinha qualquer analogia com a sua tristeza e o seu conhecimento do inferno, e por isso queria abandonar a sua apavorante memória de elefante e esquecê-los a todos. Uma vez que nada conseguia encontrar nesses livros que se parecesse com a sua ansiedade, sentia-se enfurecida tanto com os livros como consigo, porque se desfazia ao lê-los; com os livros, porque ignoravam a dor que estava a sentir, numa espécie de solidão assustada: a vida nos livros desconhecia que também ela anoitecia; consigo própria, porque tinha sido imprudente a ponto de se lançar naquela mágoa absurda. Tal como Blaise Cendrars, também era obrigada a concluir que todos os livros do mundo não valem uma noite de amor. No fundo, tudo o que queria era escapulir-se ao seu obtuso flagelo e dizer boas tardes a todas as coisas.

Mas para ser sincera tinham sido os livros a adubarem-lhe a existência, o seu meio de transporte; foram os brilhantes Proust, Kafka, Faulkner, Greene, Updike, Conrad, Camilo, Eça que a corrigiram; quando lia ia à procura da tal “petite musique”, de que falava Céline, essa musiquinha que é a verdadeira assinatura de um livro, e então ia repetindo para si mesma que, se ansiava sair daquele auto dos danados, daquela situação esquizofrenizante teria de conti­nuar a ler. Mas os livros eram naus longínquas face ao seu sofrimento. Era por isso que insistia a dizer a si própria: «Os livros são autênticos manuais de inquisidores» Sempre que os livros a importunavam, encontrava uma razão para abandoná-los, mas a escrita é uma espécie de droga dura.

Mulher de pouco choro permanecia assim pendurada num trapézio agitado de emoções quando começou a reler algumas crónicas – a rebentarem de ternura – de Lobo Antunes. Mas não as lia com a expectativa de que a pudessem poupar, nem as encarava sequer como bóias para se aguentar à superfície ou sérios substitutos das doses diárias de Vodka e Valium 10, que necessitava para dormir acordada. Uma editora francesa estava a preparar uma conferência sobre confissões antonianas e pediram-lhe para apresentar algo sobre este psiquiatra das letras que julga que ninguém escreve como ele. Tinha que ser, no passado sensibilizara-se com a prosa escarpada do escritor e a sua complexa arquitectura verbal e apanhava os romances dele como quem apanha uma doença. Pensava em Lobo Antunes como, por paradoxal que pareça, em Tchekov, autores de obras nas quais aparentemente não se passa nada…E nelas passa-se tudo. Então encara o escritor novamente e, pela primeira vez desde que a melancolia descera sobre si. Escutou uma voz a dizer que o infortúnio a que ela chamava a ordem natural das coisas não era tão grande nem tão mau como pensava. Isto não foi dito em nenhuma frase em particular; as obras falavam de outras coisas – de tangos de maridos infiéis, fados, boleros e salsa, sempre carregados de lirismo, relações falhadas, pequenas misérias, separações, inexistência de portos para ancorar, guerras em África, da inexorabilidade do tempo e da caducidade das coisas, tratados das paixões da alma, fados alexandrinos, regressos de caravelas, exortações a crocodilos, investigações sobre mortes [de sentimentos], explicações sobre pássaros, escritas nos cus de judas ou em Babilónia –; as expressões dirigiam-se ao seu tormento, e esta percepção animou-a. O problema não era a infelicidade em si, mas a forma como ela a entendia, o modo como percebera que tinha perdido determinada inocência. O enigma não era o facto de se sentir miserável, mas sim de o sentir de forma peculiar. Voltar a um trapeiro como Lobo Antunes neste período de desventura foi como dar uma pirueta na sua vida, embora soubesse que as páginas que lia não tinham sido escritas com esse propósito, ou sequer como conforto para mulheres a braços com uma depressão, cuja cura talvez só aconteça com um sorriso de um indivíduo especial que com elas se cruze num entardecer à beira mar.

Como compreender tudo isto? O que faz com que a leitura de um sujeito – pouco dado à confidência, mas que confessa que se comove até às lágrimas quando ouve Mozart – tenha sido como tomar uma poção mágica? Talvez tenha sido iluminada pela ideia de que é preferível não acreditar excessivamente na vida. E isto nada tem a ver com teoria, visto que as palavras escritas de Lobo Antunes deixam bem claro que a única esperança consiste em mantermo­-nos iguais a nós mesmos, em agarrarmo-nos aos nossos hábitos, à nossa indisciplina, sem limites, nem reservas. Há, na escrita, no estilo blasé, no ar melífluo de Lobo Antunes, a alusão de que a maior imbecilidade é renunciarmos às nossas paixões, e o remate sério do seu pensamento é que a morte será sempre e irremediavelmente uma puta e, a uma puta, não se pode dar confiança.

Felizmente regressou aos mundos fascinantes de Lobo Antunes e à sinfonia que é o seu edifício literário e agora interpreta-o de outra forma; observa que ele desafia qualquer simplificação. Afinal o que ela mais preza nas crenças daquele português, meio-brasileiro, meio-alemão não é só a perspectiva de que viver é como escrever sem corrigir, mas meramente a vontade de estar; e ela ali está, dentro daquela labiríntica fruição do acto de ler, para abraçar a sua raiva, a sua agonia, a sua sordidez e mesquinhice e partilhar estes estados de alma com ele, de uma forma divertida. É assim que a literatura alivia, convidando a explodir com a mesma violência do escritor que se ama.
Luís Galego

Sunday, March 22, 2009

de repente da calma fez-se o vento...

(Girl at Piano, Theodore Robinson , 1887)
Antes do concerto, tinham assente que não haveria intervalo, de modo que, depois O Pássaro de Fogo, de Stravinsky, o carismático Marquês levantou-se e disse, no seu estilo peculiar, que passariam de imediato à última peça, Concerto para Piano nº4, de Beethoven, e, depois, todos poderiam deliciar-se com um famoso vinho verde e um salmão que era um prodígio, para além de um bolo de chocolate porque o chocolate é bom, principalmente em dias de chuva – uma proposta sinceramente aplaudida. Gabriela regressada de Leeds onde participara no prestigiadíssimo Concurso Internacional de Piano voltou à sala com um ar de quem tinha sofrido uma descomunal desfeita; ao mesmo tempo, porém, parecia decidida; Raul aplaudiu-a com energia e, quando ela tocou as primeiras notas sentiu-se estremecer.
Não sabe avaliar tecnicamente o que ouve, tem consciência que não tem pedigree musical, mas para Raul, neurologista que teria fantasiado ser cravista e clavicordista, escutar música, a nobre música, aquela que era, toda ela, sensibilidade em carne viva, e, para mais, ali no Palácio Fronteira, onde até o soalho se comovia, e o piano vibrava sobre as rodas metálicas – era um momento extraordinário. Sentia-se perturbado e, ao mesmo tempo, sereno – a música é uma linguagem idiossincrática mas exprimia a existência e explicava-a e exigia àquele que a escutava a questionar-se de novo. A música não vive bacteriologicamente isolada da vida. Mesmo nascido pobre, o melómano, enquanto tal, é culturalmente aristocrata. A descoberta da boa música é privilégio que os deuses concedem a alguns. Uma obra de arte é uma vitória sobre a morte. E isso é o mais importante de tudo. Se acreditava nalguma coisa, então era nisso. Obvio que nem toda a gente se sentia assim tão deslumbrada: Leonor Gouveia, ex. Secretária de Estado da Cultura, ali, não muito distante dele –, agora incansável angariadora de fundos para a Associação Portuguesa de Historiadores de Arte, conservava uma prudente máscara, um quase sorriso, enquanto, com extrema reserva, consultava os compromissos da sua agenda; depois, agitando as pulseiras, voltou a concentrar-se na música – mas era tão-só uma questão de etiqueta; para ela, estar ali era o mesmo que estar numa basílica, a assistir a uma missa em memória de um qualquer ministro plenipotenciário que nunca prezara, num mundo de comportamentos fictícios. António Berardo, conhecido alfarrabista de Lisboa, melómano clássico, mas não ferrenho, na outra ponta da fila de Raul, aninhado na música como em boa manta escocesa, diria que tudo fora «muito gracioso» – ainda que fosse o Parsifal merecia dele o mesmo comentário. Outros mostravam-se francamente contagiados: aquilo, no fim de contas, era música erudita.
Gabriela, com os seus imensos olhos, – era difícil imaginá-la sem ser a mulher de Raul Champalimaud – pareceu crescer enquanto tocava. Raul sempre se deleitou a observar-lhe as mãos e seguir o frasear constante dos dedos. Ela tinha uma forma de tocar expressiva com tudo o que isso implicava, um movimento contínuo, imparável, e não exagerava na emoção; de facto, sentia-se que refreava a sua própria força interior – desarmante simplicidade, eximia complexidade – para que a sabedoria dos compositores pudesse ressaltar.
Raul procurou Alessandra, mulher aveludada, raça puríssima de traços, os dedos brincando com uma madeixa de cabelo negro que se resguardava por detrás da orelha – e perguntou-se se ela se sentiria contaminada por aquela música, e, se sim, de que maneira. Em Alessandra, era difícil distinguir entre uma total concentração e uma completa abstracção. Raul centrou o seu olhar nela, de tal forma que tudo o mais se esbateu, e Alessandra, apenas ela, ou o pouco dela que conseguia ver, pulsava contra a dupla curva da tampa do piano. Sentiu-se flutuando na direcção de um outro local, um sítio belo, romântico, longínquo, arriscado até, um lugar criado e rasgado pela música. Parecia um daqueles alucinantes sonhos em que nunca se tem a certeza de nada, ou em que não há nada a que memória possa agarrar-se depois de uma pessoa acordar. Que coisa era afinal a sua relação com Alessandra? A intimidade que havia entre eles era tão secreta que, por vezes, era difícil acreditar na sua existência. Perguntou-se se alguém saberia – se alguma pessoa teria sequer uma vaga suspeita. Como é que alguém poderia saber acerca daquele longo salmo de amorosa confidência? Por um minuto, sentiu-se incapaz de se mexer, como se estivesse hipnotizado pela imagem da bela designer de jóias, vinda de Verona, que conheceu na Casa-Museu Medeiros e Almeida há alguns anos atrás, e com ela procurou escapar a uma forma de quarentena intelectual e sexual em que sua vida rotineira se confinara. Quando saiu destas elucubrações, a música mudou rapidamente de rumo – começava a estonteante corrida do final. A incrível anotação – Vivacissimamente – era, para Gabriela, o mesmo que pegar um touro de caras, de tal forma que a música faiscava em entusiásticas batidas. Raul tinha a sensação de estar a ver Beethoven, ou a própria Gabriela, num constante vaivém, disparando ao longo da sala, a música estilhaçando o real. A sonata terminou e logo romperam os aplausos, sem dúvida calorosos, mas também aguçados por um novo entusiasmo, dado que o concerto chegara ao fim – toda aquela experiência era de súbito vista a uma nova luz e mais brilhante, chegara o momento do festim. O Palácio recebia uma espécie de excursão de insuspeitos melómanos a quem tinha sido preparada uma meticulosa e empanturrante ementa musical. Henrique Sampayo, sábio doutor da crítica, bateu palmas com as mãos acima da cabeça quando Gabriela voltou à sala, Helena Sassetti com o seu bronzeado falso gritou um exaltado «Bravo» e Paulo Canavarro, un génie sans une étincelle de goût, imitou-a e pôs um sorriso entreaberto como se tivesse dito um gracejo entre caloiros do Instituto Superior Técnico. Gabriela colocou-se insistente e irredutível junto ao piano; ao fim de segundos, sem uma palavra, sentou-se e tocou Três Danças Sinfónicas, de Rachmaninov. Era um compositor que todos conheciam, e, embora não tivessem nenhum anseio particular em ouvir, mostraram-se condescendentes, se bem que cruzando alguns olhares cúmplices. Depois de escutarem a última grande figura da tradição do romantismo russo ouviram-se aqueles aplausos que prognosticam a retirada do público, a peça durara um horror de tempo, algumas pessoas olhavam já para a saída e começavam a cochichar, mas Gabriela voltou e mergulhou nas Sonatas para Piano de João Domingos Bomtempo. Face a tal insistência, Leonor Gouveia olhou para o relógio, erguendo o braço bem alto para a luz, e uma série de pessoas começaram a abanar-se com o programa. As abanadelas propalaram-se como uma espécie de insurreição, acentuado pelo carpido das pulseiras. Quando Gabriela regressou à sala, o Marquês já se tinha levantado e estava a dizer «Bem…vá lá», como que impondo afavelmente a ordem numa leiloeira, mas a verdade é que Gabriela se sentou novamente ao piano e tocou a mais famosa das obras de Aram Khatchaturian. Raul já se interrogava; com certeza que alguém dissera a Gabriela que deveria ter encores preparados, mas tantos? Atendendo a um sinal do Marquês, Raul foi atrás dela mal acabou a Dança do Sabre, do compositor arménio, e pediu-lhe que parasse aquela espécie de multiplex musical. Ela estacionou no patamar, os olhos fixos nele, enquanto os aplausos desfaleciam velozmente num burburinho que logo se emudeceu para dar lugar ao cobiçado banquete e apaixonadas conversas sem fim acerca da arte tupperware e da Bienal de Veneza.

Um relógio tocou algures no Palácio, lembrando em sete toques que o tempo era efémero e a vida breve. Alessandra não gostou do que escutou e sentiu naquele final de tarde chuvoso; Gabriela não gostou de se sentir observada pela amante italiana do marido, enquanto percorria com os dedos cantatas de Beethoven. Raul sentiu um calafrio pela espinha acima quando compreendeu os olhares demorados e glaciais das duas mulheres dirigidos à sua pessoa… Bastaram umas horas para lhe mudarem a vida: sentiu a sensação angustiante de estar prestes a desempenhar um papel de solista numa ópera de Wagner …
Luís Galego

Thursday, March 12, 2009

Francisco...


[Rembrandt - Homem nu sentado no chão com perna estendida]

As árvores do parque estremeciam com a chuva; e a chuva continuava a cair como sempre sobre o lago, que fazia lembrar uma ave a tremer. Cruzava-o um bando de cisnes, e a água era de uma pureza tal que se confundia com os diamantes mais límpidos. E eles abraçaram-se suavemente, impelidos pela luz cinzenta e húmida, as árvores silenciosas e molhadas, o lago estendido diante deles, a coreografia dos cisnes. Abraçaram-se sem entusiasmo e sem calor, o braço dele descansou sobre o pescoço dela. Ela trazia uma capa cinza-pálido que a envolvia e a sua cabeça estava inclinada num recato condescendente. Ele tinha os cabelos desgrenhados, de um castanho-arruivado, e mãos ternas, harmoniosas, milagrosas e cobertas de sardas. O rosto dele roçava os cabelos escuros dela, que acicatavam a chuva e convidavam a noite a espreitar. A mão acariciadora era a de Francisco. Afastou-se lentamente, em direcção às sombras mais profundas, para que eles não se apercebessem da sua presença, da sua solidão e da sua dor. E permitiu ao seu pensamento que evocasse os finais de tarde que com ele viveu no Lawrence Hotel, em Sintra. Uma alegria trémula, ligeira como uma débil luz, dançou à sua volta como um bando de fadas. Corpos, acordando nas sombras do desejo, corpos que faziam empalidecer o sol que nascia a oriente. E saboreou, na linguagem da memória, vinhos de cor profunda e aroma e paladar de cerejas e especiarias, cadências pungentes de belas árias, corpos disponíveis à lenta embriaguez dos dedos. Os gemidos nas camas, o sabor da pele, o fogo genital metamorfoseado em volúpia. O entendimento dos corpos. Os beijos de uma boca vermelha. Nunca o entardecer se demorara assim nos lábios. O fantasma Lord Byron espiando por detrás da porta.... E viu tudo isto, com os olhos da memória. As imagens que evocara eram secretas, proibidas e ardentes. Tinha a vaga impressão de que ele já estaria só e que atravessava, naquele momento, o parque em direcção à Azul-cobalto. Sentiu o perfume do corpo dele, levemente, primeiro, depois de forma mais intensa. Um tumulto começou a ferver no seu sangue. Sim, era o aroma do corpo dele que sentia, um odor natural e erótico, do seu peito sobre o qual a música fluía cheia de desejo, da sua roupa íntima sobre a qual a carne dele transpirava o seu orvalho.

O seu corpo deplorável que já não disfarça, apodrecido, roído pelo infortúnio, obrigou a cerrar as pálpebras num súbito espasmo de desespero e, nas sombras, viu cabelos castanhos-arruivados a cair do céu, rolando à medida que caíam. Sim, não eram as sombras que caíam do ar. Era a necessidade sôfrega que tinha dele.
Luís Galego

Saturday, March 07, 2009

embarque para Citera...

(Jean-Antoine Watteau - Embarque para Citera)
Trovoada a tempo inteiro, acordo e sinto que me faz falta agasalhar dentro dos braços da Beatriz. Antes só os pés dela me despertavam. É a sensação mais pavorosa. Sentir a falta de alguém, uma abominável nostalgia, ferida profunda, que teima em cicatrizar, lágrimas permanentes à flor da pálpebra. Uma mulher com quem se partilha uma garrafa de bom vinho no Inverno a meio da noite, ao som de Verdi e de Monteverdi, o par ideal para dançar uma valsa vibrante, que gosta de sol verde e cru e de mar, do cheiro da chuva e com a qual nos perdemos em labirintos e transgressões sexuais, num prazer desvairado em dias lentos não pode eclipsar. A recordação de um beijo balsâmico retido como um segredo, de uma palavra, de um olhar, de um abraço invade-me os poros da pele e queima-me o sangue. A saudade sobe pelos dedos, desmorona-se em bebedeira dentro do coração esfomeado. Acordo desamparado às quatro da madrugada e confundo-me com os contornos sombreados do Embarque para Citera pintado por Watteau, paisagem habitada de figuras reais à espera do amor. Sinto-me como o gesto vacilante que procura um livro na estante ou uma carta escondida na gaveta da cómoda. Os meus pensamentos perseguem-se uns aos outros, numa dança de roda. Nada é mais secreto do que uma existência feminina. Sinto a falta do seu odor, que ressumava a jasmim e era apaziguador, do cigarro, da maquilhagem e até do violino, a amante sincera por quem desfaleço. Tudo na minha vida profissional está alinhado, os contratos e as reuniões, os protocolos e os planos de actividades e não se alterou em nada a relação com o mundo exterior. Preencho os meus dias de trabalho com uma música tão contínua que os momentos de silêncio parecem simples pausas. Só que falta o afecto, uma espécie de semidireito de cidadania. Muda-se a disposição dos quadros e das plantas, bebe-se dois uísques, engole-se um Victan... mas nada se resolve. Do outro lado dos vidros de repente está a morte silenciosa. Não. Vou viajar. A cidade recebe-me em toda a sua ostentação. Hotel Lírico, rente ao Teatro dell'Opera. Como um caçador solitário que dorme debaixo das mantas, levanto-me cedo, nessa terra aberta, como lhe chamou Fellini, a urbe italiana é um deslumbramento. Bela e caótica, aristocrática e popular, presumida e despretensiosa, espontânea e maliciosa. Tal como Beatriz, Roma seduz e vicia. Apresso-me para a rua, num cenário em que o Belo se impõe a cada esquina, sinto no ar Miguel Ângelo, Perugino e Botticelli, realidades sensuais, emociono-me perante um quadro num altar de igreja, admiro o famoso arco, imagino o corpo de Anita Ekberg nas águas da Fontana di Trevi, peço ao empregado de olhos cinzentos, no restaurante, carbonara romana, que ele, orgulhoso, me serve. Na grande esplanada animo com uma bebida inebriante. Ali, viveram amores contrariados, que, na grandeza do seu génio, encheram a cidade com um número impressionante de obras-primas. Reclino-me entre janelas, portais e colunas, cuja elegância e nobreza de linhas são explanadas nos mais brilhantes volumes de história da arte. A qualquer hora do dia, tropeço em ruas antigas repletas de mulheres e homens de olhar deslumbrante e exuberante cordialidade. Mora, aí, uma estirpe orgulhosa, vaidosa e cônscia da própria beleza e sensualidade. Rasam sobre mim olhares de ternura, que espiam a minha solidão, ou, numa serena superioridade, me enfeitiçam, endereçam mensagens, olhares femininos que soltam minúsculas faíscas, me salpicam com um perfume sexual, atiram beijos com o olhar, até o coração estremecer. Impossível por aqui passar de olhos fechados. Ao entardecer ouvem-se clássicas melodias que se sintonizam com a luz colorida de candeeiros e há enamorados que dançam até ser madrugada. Nestes lugares extasiados de sons e archotes, há uma mesa que me aguarda, e uma mulher com uma écharpe de seda preta, que me convida a entrar num corredor escuro, repleto de quartos abandonados onde tanto se tinham feito livros e amor. Com o coração a desfalecer, angustiado sob o peso da dor, assustado e perplexo olho para tudo, como um discípulo atento mas exausto, vagueio pela cidade desde manhã cedo, concentrado nos detalhes, como quem receia perder alguma particularidade. Imponho-me a respeitar uma rotina, estou pronto na hora certa, seguro dos pontos cardinais; como se alguém me aguardasse embora não ouse confessar a mim próprio que tenho a sensação de que ela espera por mim. E que se andar entre a multidão, por aqui e por ali e for a certos lugares, hei-de encontrar a mulher que amo. Procurá-la tornou-se o meu dia, a minha noite, a minha conversa, o meu cântico. Lanço o meu grito luso sobre os telhados do mundo, navego por mares incógnitos, visito territórios desabitados. Desfigurado e suado sinto-me confuso e receio estar a alimentar uma expectativa ingénua. A porteira, sem entusiasmo, só sabe que ela partiu com o seu violino para um qualquer lugar, provavelmente Roma. Os amigos, não sabem mais, ou não dizem, como se de um fantasma efémero se tratasse...Muito rapidamente deixei de saber fosse o que fosse sobre ela. O universo ergueu um nebuloso obstáculo entre mim e a pessoa desaparecida, como se alguém tivesse cometido um crime e se encontrasse desterrado. Como se uma ambulância passasse vagarosamente pela minha vida deixando um rasto de sangue. Embriagado pelo sofrimento, eu grito que a amo. Ela não ouve. Embruxado, continuo a chorar de medo, sem testemunhas, que é o meu único modo de chorar, como as virgens atormentadas no cinema triste. A penumbra anuncia-me o dia e recordo Garcia Marquez quando escreve que as estirpes condenadas a cem anos de solidão não têm uma segunda oportunidade sobre a terra. E de repente é um martírio. Terrível. E isto dá vontade de morrer de desgosto, porque tudo se aliou ao silêncio no esquecimento do amor. Afinal, onde procurar aquele gesto, aquele olhar, aquele sorriso indescritivelmente doce?...E, depois, Beatriz, o que dizer?...
Luís Galego

Sunday, March 01, 2009

soneto da infidelidade...

"Roman Goddess Venus" (imagem retirada da net)

Éramos diferentes mas vagabundos e boémios na essência, unidos sem reservas, eu era o oposto de ti, mas completávamo-nos bem, compúnhamos uma fusão, um pacto humano, e isso é invulgar. Na nossa ligação, tudo o que faltava em ti, acrescentava-se em mim, em imperial oferta. Éramos amigos. Sem ti já não sabia andar só pelos caminhos. Mas seguramente sabias disso antes e depois. Éramos amigos e esta palavra tem um sentido, cuja responsabilidade só os homens entendem. Eras o único amigo, mais próximo que um irmão. Uma taça que eu erguia dia a dia, como um facho inextinguível. O brilho de um diamante. Um vinho forte. O fino licor da emoção. E tens que reconhecer a inteira responsabilidade que esse afecto abarca. Éramos amigos, não colegas, primos, sócios. Éramos amigos e não há nada que possa igualar uma amizade. Nem mesmo uma paixão devoradora pode oferecer tanto deleite como uma amizade forte e discreta. Porque se não fôssemos amigos não terias chorado, naquele final de tarde . E se não fôssemos amigos, eu não teria ido entontecido, esfarrapado com a alma a sangrar àquelas águas-furtadas na manhã seguinte, de que nunca me tinhas falado, onde guardavas o pérfido segredo, em silêncio inexplicável que apeçonhentou a nossa relação. E se não fosses meu amigo, não terias fugido, como um criminoso, mas terias ficado, ter-me-ias continuado a enganar e a trair, sem pudor. E se não fôssemos amigos, tu não terias voltado anos depois, caminhante exausto, pálido e triste, olhos frios como espadas, tal um delinquente trémulo que volta furtivamente ao lugar do crime. Tu mataste algo em mim, deixaste-me em destroços, a morrer aos poucos – como uma tarde em Setembro, e eu continuo a ser teu amigo. E hoje, eu estrangulo algo em ti, depois deixo-te voltar ao reservado reino onde te exilaste, ou ao abismo se preferires e continuas a ser meu amigo. A amizade é uma lei humana rigorosa. Na antiguidade era a lei mais duradoira, nela se alicerçavam os sistemas jurídicos. Disse Aristóteles que os bons legisladores mais cuidaram da amizade que da justiça. Era mais poderosa que a paixão que persegue os homens e as mulheres. Era essa amizade que existia entre nós, e tu sabias isso. E naquele momento em que soluçaste convulsivamente à minha frente, sem nada dizer, essa amizade talvez fosse mais intensa que em qualquer altura, durante todos os anos da nossa vida. Que ideia perversa e insuportável que tu, o melhor amigo, me tivesses atraiçoado. A Isabel embrulhava-se ansiosa na leitura. No dia anterior tu e ela falam demoradamente; via-os pela porta envidraçada, perguntas-lhe o título dos estranhos livros a que se entrega, interroga-la sobre o efeito que Mrs. Dalloway exerceu sobre ela, queres saber como é a vida de Lady Chatterley, o que sentia Madame Bovary e como amava Ana Karenine, auscultas sobre o mais íntimo de Luísa, de o Primo Basílio e elogias a abordagem contra-corrente de Eça ao adultério e até lhe pedes que te leia o Soneto da Infidelidade, de Luís Filipe Castro Mendes. Como que embriagado percorres vários romances, russos, portugueses, ingleses e franceses, afagas docemente cada obra como um cristal. Comportas-te como se desmaiasses de prazer à luz das novelas sobre mulheres apaixonadas que gritam por amor, tu, engenheiro aeronáutico, que sempre desprezaste as palavras escritas dos poetas e dos escritores – e eu venho a saber mais tarde que foste tu que os ofereceste à minha mulher. Excluem-me da conversa, porque não faço a mínima ideia sobre a ciência do amor. E muito menos acerca do Allain Robbe-Grillet, autor de O Ciúme. Mais tarde, já depois de saber que me traíram nessa e noutras noites, recordo com amargura as cenas, ouço as palavras que foram ditas e descubro com verdadeira estupefacção e imensa mágoa como interpretaram um papel de modo tão irrepreensível. Pensava que conhecia os dias e as noites da Isabel, o seu corpo e a sua alma como a mim próprio. Uma hipótese tão despropositada que tu e ela…só podia ser um equívoco. A Isabel não me mente e não me é infiel, conheço todos os seus pensamentos, mesmo os mais íntimos e ardentes, aqueles que só vagueiam durante o sono, sinto o seu coração junto do meu, como uma lagoa calma, o seu corpo frágil de âmbar loiro, em excitante contraste com o meu rude e bruto, carregado de desejos. A nossa relação baseia-se numa confiança absoluta. E o diário secreto está sempre ali, o livro do nosso amor, só de nós os dois, o seu blogue anónimo, do qual eu tenho a password. Esse diário é a prova de confiança que pode existir entre um homem e uma mulher que se amam, páginas de mais ninguém, eco dos seus passos. Se na vida da Isabel houvesse algum segredo de consciência, o blogue já o tinha revelado. O mundo pertence-me, encontrei a minha alma gémea, leio de cor os seus olhos de violetas, vivo uma paixão fervente e louca, falo baixo, juntinho ao seu ouvido, abandono-me nos seus braços divinos de fêmea, uma serpente que me enlaça as mãos na sua pele, gemem as nossas vozes confundidas, beijos sôfregos de amante, recebo todas as mensagens do seu corpo, sinto-me águia na subida e a vida apresenta-se perante mim em todo o seu esplendor. Trato por tu a mais longínqua estrela, numa excessiva alegria de viver. Agora olho para trás, e sinto repugnância dessa segurança, felicidade e inocência, desse arrebatado vendaval de viver, dessas magnificas noites voluptuosas. E depois chega aquele entardecer e eu sinto-me como se tivesse sido atingido a tiro. O mundo desmoronou-se à minha volta, perco a minha honra. O despeito causa um sofrimento atroz, angústia funda. Há algo mais cruel que a morte …quando o homem por um absurdo perde o amor-próprio. Recostado na poltrona, entre cálices de absinto, ouvindo canções tristes, fecho as pálpebras roxas, quase pretas, como quem vai adormecer num jardim de dor para todo o sempre. Uma pessoa envelhece assim, em tranches, pesadas prestações. A seguir, de repente, começa a embranquecer a alma. Sinto-me um indivíduo que afinal não teve Primavera, um lago esquecido. E cai a escuridão muda e tormentosa, caiem as noites e com elas lágrimas de sangue em violenta agonia. Enquanto o mundo dorme instala-se o De Profundis magoado da saudade. Só vi a Isabel meses depois e só a voltei a ver quando morta; entendeu ficar doente e falecer num quarto deserto, quem sabe, de amor.

A sala estremece à volta deles. Ainda não amanhece, mas através das janelas antigas, semiabertas, sentem a chuva, as gotas grossas, o ar desgrenhado de uma clara madrugada de final de Outono, uma estranha sinfonia que só o musgo dos muros parece entender. Em frente ao parque solitário, sobre o empedrado ouve-se o táxi chegar. Náufragos da vida, olhares marejados, separam-se em silêncio com um abraço inquieto…
Luís Galego

Sunday, February 22, 2009

como uma actriz que chega tarde a um ensaio...

(imagem retirada da net)
Ninguém pode dizer que vive plenamente se não respirar um pouco de teatro, se nunca tiver amado esta expressão artística amarrada a factores sociais, económicos, políticos, uma arte que mexe com a estrutura da sociedade. Não se conhece história da cultura e das mentalidades contemporânea nesta terra de Gil Vicente se não se entrou num Parque Mayer que sobreviveu à censura de Salazar e Caetano, à rádio e ao cinema, ao futebol, à partidarite da revolução, à televisão e às telenovelas. Mas é preciso conhecer muito mais do que a Broadway à portuguesa; é preciso saber um pouco da crónica do teatro e das suas gentes, saber o que foi o República, o Moderno de Lisboa, o Avenida, o Politeama e o Ginásio, o que foi o Teatro Graça e o que é a Comuna, a Cornucópia, o Grupo 4, a Barraca, o Bando mais o São Luiz/Mário Viegas e os Artistas Unidos e mesmo o Cénico de Direito e afins, teatro multímodo, teatros experimentais, encantadores teatrinhos, outros nem tanto, teatros de vão de escada, autênticos prostíbulos, ou teatros de ópera, do clássico às práticas mais inovadoras, forçosamente marginais, à margem do mercado. Mas sobretudo conhecer os subterrâneos do mundo da ilusão. O teatro é o continente onde habitam todas as belas artes. Aquele que não se deleitar com a beleza não pode apreciar o valor da vida; e o teatro é a vida. E disso, meus caros, entendia a Senhora que se segue.
A casa da enigmática D.ª Germana era uma espécie de botequim sem aparato cenoplástico e a sua salinha de estar com janela para a rua – onde se sentava num sofá vermelho – era muitas vezes palco de grandes debates e números de fantasia, horas de muita vida inventada; era ali na sua torre de marfim de Campo de Ourique que passava a sua vida, ali que desfilavam os seus habitués, ali que tinha exactamente o cheiro que achava que deveria ter um teatro.
Que ela seja natural de Marco de Canaveses parece indesmentível; e que abandonava por vezes a cidade, numa espécie de licença sabática, nas semanas de Verão em que o seu bairro deixa de ser a sua opereta, é também uma realidade. Mas para onde ia, ou o que fazia quando estava em itinerância disso ninguém sabia, apenas que deixava atrás de si um delicado perfume de saudade, forte como o das violetas, penetrante como o das rosas. Donde ela não é seguramente é da província das lágrimas, dos folhetins lacrimosos, do sentimentalismo oitocentista, do pranto, do fado, da carpideira, da viela, do amor proibido. Voltava no mês em que os dias, mais pequenos, se tornam frescos e dourados, os jardins se vestem de vermelho e as folhas se despedem das árvores. Regressava com os ventos mas também com os grandes espectáculos, com Pinter, Beckett, Albee, Pirandello, Genet, entre outros, bem como ansiava sentir o sopro trágico das obras de Strindberg, Pirandello, Raul Brandão e Heiner Müller. Vinha a correr não se sabe de onde para encontrar um palco que fosse o mundo tal como ele é, o palco da injustiça, como advogaria Edward Bond. Esta mulher intensamente curiosa que podia lindamente sair das páginas de Virgínia Woolf só tem comparação com a fascinante Mrs Crowe, uma das suas personagens eleitas, uma alma gémea de rosto britânico.
Muitos e muitos anos passou a D.ª Germana sentada no que era o seu poiso geográfico, naquela sala, junto à janela – mas não os passou solitária e muito menos abraçada ao tédio. Havia sempre alguém de visita, sentado no cadeirão em frente, partilhando a sua margem de alegria. Mas ainda o primeiro visitante não estava em cena há quinze minutos, e já a porta da sala se abria, para que a Irene, a empregada de olhos mansos e azuis, robusta e calma, rosto enrugado, coberto de maquilhagem, veias retesadas e salientes, como se o seu corpo conhecesse algum segredo, que desde sempre servia a casa, viesse anunciar mais uma e outra e ainda mais outra visita. Irene, uma espécie de compére que estabelecia o vínculo entre todos os que iam comparecendo. Homens e mulheres que alternadamente abrilhantavam a famigerada sala de estar. E a mesma découpage, a mesma mise-en-scène repetia-se dia após dia.
Uma sessão de psicanálise com a D.ª Germana era algo de contra-natura. Ela não prezava os duetos. Uma das suas singularidades era a de não ser íntima de ninguém. Por exemplo, num dos campos da sala via-se sempre um senhor de cabelos ralos que parecia, na verdade, o homem que fazia chover, da peça de Richard Nasch, desaparecido da vida quase em segredo. A D.ª Germana, porém, dirigia-se a ele sempre como Sr. Cortez – nunca como Eduardo; embora acontecesse, por vezes, tratá-lo por “meu Estimado Sr. Cortez”, como para sublinhar o facto de se conhecerem desde sempre.
A sala de estar da D.ª Germana era frequentada por actores, encenadores, bailarinos, músicos, coreógrafos, dramaturgos, artistas plásticos, diseurs e diseuses, poetas, costureiras de cena, sonoplastas e até caloiros do Conservatório, artistas de circo, mimos e até perspicazes inúteis, outros cujos nomes eram sinónimo de génio, sexo e excesso, imparável boémia, uma espécie de cabaret da palavra, um café-concerto em versão de matiné, comédia e tragédia em sessões alternadas, verdadeira celebração da emoção com o seu quê de mordaz. Não se pense no entanto que a D.ª Germana apreciava intimidades, a intimidade é questão de pudor e isso ela não subscrevia. A intimidade é mãe do silêncio, e o silêncio era parto que ela abominava. Era imprescindível existir tertúlia, e esta tinha que ser sobre matérias genéricas, sobre tudo um pouco, até ao limite do burlesco. A prosa devia ser ecléctica, não podia ser muito especializada, nem demasiado erudita. Naturalmente que aquele não era o lugar para qualquer hermenêutica ou análise critica a A Morte de Empédocles de Friedrich Hölderlin pois se a conversa avançava excessivamente neste caminho, era certo que alguém haveria de se sentir rejeitado e ficar ali a girar o seu café expresso num copo de papel, sem abrir a boca; se alguém dizia algo de brilhante, isso era considerado um erro grosseiro, um sketche prontamente ignorado.
O tipo de rábula que a D.ª Germana apreciava era uma versão nobre de enredo. Todo o teatro é pura bisbilhotice e a má-língua incidia sobre as gentes do teatro. Mas o grande dom da D.ª Germana consistia em fazer com que o mundo parecesse reduzir-se à dimensão de uma sala de teatro e uns cinco camarins. A ideia de um mundo como um palco, como o fez Shakespeare ou como o formulou Calderón. Ela tinha a formidável habilidade de uma maestrina e desfrutava de um repositório precioso de informações de primeira água a respeito de cada estreia, cada nova actriz, cada encenador premiado, cada elenco renovado. Sabia qual o actor que ia ser sondado para a próxima época. Mencionava as íntimas razões das discórdias entre o príncipe Luís Miguel Cintra e o plebeu Jorge Silva Melo e arriscava o palpite acerca da análise do Expresso ao novo Titus Andronicus, no Bairro Alto; as críticas manhosas que faziam chorar os espíritos mais fortes. E tendo feito tais observações ao longo de anos, a D.ª Germana adquirira um importante acervo, de fazer inveja ao Museu do Teatro. Na sua sala estúdio residia uma desmedida alegria ao comentar-se a interpretação electrizante de Maria Barroso na Antígona de Anouilh, as fotos de Augusto Figueiredo, as expressões de Isabel de Castro, os slides que o Ernesto de Sousa tirou à Glicínia Quartin, a maquilhagem excessiva do Rogério Paulo em o Gebo, a pose audaz da Dona Amélia Rey-Colaço, um autógrafo da célebre Palmira Bastos, uma peça radiofónica de Brecht, a incorruptível beleza de Isabel Ruth, a péssima dicção de alguns actores, que berram e gesticulam de mais, as peças, nem sempre boas, muitas de breve êxito, plágios dos sucessos da Gran Via ou dos boulevards de Paris, lantejoulas e sedas que deixam entrever pernas e seios, as companhias brasileiras que se instalavam uns meses ora no Capitólio, ora no Tivoli, uma história picante, os cachets, as lições de sapateado, as bebedeiras, o mau feitio da stripper que se enfrascava em uísque, o ilusionista foleirote, uma ou outra actriz medíocre já em fim de estação, por vezes uma atracção com um nome mais sonante para estimular o pessoal e as indescritíveis espanholas que cantavam ou dançavam e que chegavam ao ABC ou ao Maria Vitória sempre com as suas rechonchudas 'madres' que, enquanto faziam variados crochés, não afastavam os olhos das suas 'niñas', coristas protegidas por ministros, um programa anotado, uma caricatura, um anúncio de jornal em que se descobre um espectáculo esquecido, um bilhete rasgado, a maquinaria de cena, os trajos, as luzes, a música, uma maqueta, uma aguarela com um figurino, “deixas” que fazem regressar, por instantes, a peças que não viram, às vezes que viram, as palmas e as pateadas, apoteoses e números vibrantes, os sussurros, os camarotes das salas, que arderam, o cheiro dos velhos camarins e dos velhos teatros, os palcos com cortinas pesadas que abriam e fechavam em cada acto! Evocavam-se as vozes as gargalhadas dos actores, os seus vestidos, leques, adereços, cenários, figurinos, cartazes, discos e partituras, cartas de amor soterradas nos escombros de teatros abandonados, esses nadas que, não fazendo o teatro, são o teatro e os faziam desenhar a vida que não viveram. As intrigalhadas dos camarins, as filas à porta dos artistas, as receitas de bilheteira, os comprimidos para os nervos tomados como rebuçados de mentol, o pânico das estreias, os desmaios da actriz convidada quando subiu a cortina no segundo acto, o jovem actor em ascensão com ciúmes do rival e que contratava alguém para a primeira fila, na noite de estreia, para assobiar e patear o colega, o actor premiado que desistiu da carreira no dia da entrega do galardão porque não se queria imaginar mais num palco durante um ano inteiro, a dizer o mesmo texto, o sénior da arte de talma que recusou o prémio Garret em sinal de contestação à politica cultural do país, o beijo lânguido nos bastidores, os olhos dos actores que ninguém conhece banhados de emoção, a vedeta que imitando Betty Davis pôs um anúncio nos jornais de grande tiragem a implorar trabalho, os trágicos finais de carreiras gloriosas, o espectáculo cancelado por falta de público, a idade inventada das actrizes e até a morte do poeta Ary. No fundo, muito barulho por nada. Mas a D.ª Germana não era uma mulher oca nem uma pretensiosa, mas uma mulher forte e irreverente. Uma coleccionadora de relações, e a sua espantosa perícia nesse domínio servia para conferir um ambiente caseiro às suas recepções. A velha senhora era uma socióloga com plena consciência da magia potencial que o mundo da arte dramática contém e a sua capacidade para descobrir a alma humana e revelar os seus mistérios.
Ser acolhido na casa da D.ª Germana equivalia, portanto, a tornar-se membro de um night-club ou de um casino, e a jóia exigida era uma determinada quota de coscuvilhices por temporada. A mais cara das prestações era dar prazer a quem ouvia – como devia ser a dos actores da Commedia dell’Arte –. Quando um encenador escolhia uma actriz porque teria dormido com ele, ou quando a primeira figura feminina de uma comédia musical fora apanhada a injectar-se no Casal Ventoso, quando o coreografo acabara de entrar nos serviços de urgência devido a uma tentativa de suicídio porque o amante o deixara, quando os três interpretes da Ceia dos Cardeais, no Nacional, se ofendem, fora do previsto no texto, ou aquela bailarina inglesa viciada em narcóticos que caiu no fosso de orquestra ou mesmo a velha actriz que parecia uma gata em telhado de zinco quente desde que conheceu o encenador francês que dava formação a actores sem préstimo, havia muita boa gente cujo prioridade era “Vou de imediato a casa da D.ª Germana.”. Mas também aqui era necessário observar um certo protocolo. Regra geral, só podiam visitá-la a partir das quatro e meia e antes que a noite chegasse. Eram poucas as pessoas que tinham o privilégio de almoçar com a suavíssima e atenta D.ª Germana, eis o que não sofre dúvidas. Talvez apenas o Sr. Cortez e o Mr. Jonathan, do Estrela Hall, pois não era uma mulher de posses. O seu vestido preto bon chic, bon genre, mas já algo desgasto, o seu colar de diamantes e safira era sempre uma jóia que não queria ser notada mas que convivia em harmonia com os eternos dois traços de rímel sublinhando-lhes discretamente os imensos olhos. A sua refeição preferida era o lanche, o seu Pano de Boca, como lhe chamava, pois uma mesa de lanche pode ser fornecida sem grandes gastos, além de que há neste manjar um music-hall que ia bem com o carácter sociável da D.ª Germana, mas a refeição tinha sempre um cunho distinto, tal como o seu cabelo manchado de branco tinha o aprumo e a força de um cabelo jovem e o seu vestido e as jóias lhe assentavam impecavelmente e possuíam uma personalidade incomparável. Devia ter sido uma mulher bonita, daquelas que nunca precisaram da esteticista nem da Vogue e que nunca sacrificaram a beleza à elegância. Havia sempre um bolinho de banana fácil e uns brigadeiros – algo que era exclusivo da casa e que fazia parte da encenação caseira tanto como a Irene, a velha empregada, como o Sr. Cortez, o velho dedicado, como velho o revestimento do sofá vermelho ou o velho Arraiolos no chão.
Que a D.ª Germana saía por vezes para assistir às estreias, que era vista em meios frequentados por artistas, que até no Frágil tinha passaporte especial, tal como em tempos o tivera no luxuoso Maxime, ainda que de forma elíptica, é sem dúvida verdade. Que se demorava um pouco mais no Monte Carlo, que era a catedral dos cafés de Lisboa, também é um facto, pois ali ia toda a gente, cabiam lá todos: escritores e jornalistas, actores e cantores, gente do regime e da oposição, excêntricos e maníacos, trabalhadores e parasitas, donjuans e até transexuais, solitários e clãs em peso, e os clientes anónimos, quotidianos, sem biografia. Muitos episódios de teatro ali se narravam. Mas em sociedade ela parecia sempre furtiva e dispersa, mutilada; era como se tivesse comparecido apenas para deitar a mão a alguns excertos de notícias de que precisava para completar o seu próprio erário. Assim, raramente a convenciam a estar muito tempo, parecia sempre uma actriz que chega tarde a um ensaio. Deslocada. Para ser verdadeiramente ela mesma, tinha de estar perto da sua própria casa, do seu próprio décor, ao som da Sinfonia Fantástica de Berlioz ou da última ópera de Puccini. O teatro definitivamente morava em sua casa. À medida que os anos foram passando, essas pequenas incursões no mundo exterior praticamente cessaram. Tinha arquitectado o seu reportório tão completo que o vaudeville exterior não lhe podia acrescentar nenhuma pluma. Além de que o seu grupo de amigos era fidelíssimo, que podia sempre confiar nos aliados para lhe contarem qualquer notícia que lhe conviesse acrescentar à sua colecção. Não precisava de sair do seu sofá vermelho junto à janela, contrariando a máxima de Schopenhauer de que não ir ao teatro é como fazer a toilette sem espelho, pois, agora era o teatro que ia ter com ela. E, com o passar dos anos, o seu conhecimento tornou-se mais refinado. Uma espectadora com o verdadeiro dom de ubiquidade. O mundo voyeurista era dela, movimentava as novidades com à-vontade guiadas por uma ânsia enorme de ir vivendo, alumiada pelos afectuosos companheiros das tardes e se fosse religiosa a sua santa dilecta seria decerto Sarah Bernhardt, isenta dos pareceres dos sábios doutores da crítica. Assim, se uma peça de teatro estreava com grande sucesso, a D.ª Germana era competente não só para reportar, no dia seguinte, o facto adicionando-lhe algum divertido mexerico de bastidores, mas também de remontar a outras longínquas noites e descrever Salomé, Romeu e Julieta, A Visita da Velha Senhora e As Árvores Morrem de Pé ou o Pigmalião de Bernard Shaw, logo a seguir à Guerra, com o António Silva, ou entre arrepios Macbet, encenado por António Pedro, ou a ousadia do histriónico La Féria em A Paixão segundo Pier Paolo Pasolini, de René Kalisky, a coragem de Luzia Maria Martins, a nudez de Zanatti em A verdadeira história de Jack o Estripador de Elizabeth Huppert ou em Equus de Peter Shaffer, mas também histórias com fadas e peças onde houvesse quem morresse de amor. O que a prima donna assoluta Eunice Muñoz teria sentido em As Criadas; o que a Anabela e a Mariema, mulheres de incrível força no palco, teriam sofrido em números grosseiros de revista; as acusações sexistas que recaíam sobre Villaret; um assistente de palco que varreu as pétalas após o espectáculo e teve a ideia de criar um potpourri e vender, nas noites seguintes, aos admiradores que se aglomeravam à porta do teatro; a primeira actriz da baixa comédia que saía de casa doente para chorar em frente do local onde estivera o Monumental, incompreensivelmente destruído, escondido debaixo das ligaduras de um fantasma; o grande homem de teatro que entregou a sua alma à carreira e acabou demente ao confundir-se com o Rei Lear, a sua última personagem; Ivone Silva, a grã-sacerdotisa dos palcos ligeiros, cujas andanças pelo teatro independente e a sua vida intima transformaram radicalmente; o assassínio de uma chefe de quadro num táxi a dez minutos de começar a 1.ª sessão; o insistente recurso ao travesti, como um corpo deitado no meio da linha-férrea; o actor Perry cuja voz e olhar forçavam a audiência a ouvir e a observar cada um dos seus movimentos ou o que dissera o querido Sr. Vasco Morgado – nada, por certo, de muito extraordinário; do jornal que fez publicar uma crítica a um espectáculo que não chegou a estrear; da brutal censura e das suas proibições matarruanas como quando confiscaram tudo o que se encontrava no auditório e procederam ao seu encerramento perante os seus próprios olhos e até da multifacetada dramaturga maldita que usava a boquilha como prolongamento da própria mão, mas enquanto D.ª Germana enumerava tais pormenores, era como se todas as páginas da vida do teatro nos últimos sessenta anos fossem suavemente transformadas e desordenadas temporalmente para diversão dos que a escutavam. E deslumbrante a iconografia nelas publicadas, imagens de gente afamada com sonhos acumulados na pele; mas a D.ª Germana não vivia na história, de modo algum a preferia ao presente e amava o futuro.
Era a última noticia, o doce vagabundear pela actualidade, pelas modas e costumes aquilo que mais lhe interessava, o último aplauso, o derradeiro fracasso, a necessidade de habitar recentes amores, o regresso à alegria de viver, como se de uma peça de De Fillipo se tratasse. O que o teatro tinha de encantador era o facto de proporcionar sempre novos e diferentes temas de cavaqueira. O seu clube de fãs só precisava de manter os olhos bem abertos e assentar arraiais das quatro e meia às sete, uma espécie de ópera cómica em cena todos os dias da semana, a coberto de uma companhia sem direito a folga.
O mais distintivo, e talvez um nadinha desorientador, no temperamento da D.ª Germana era a cuidado com que ela suspendia o que estava a explicar e elevava os olhos brilhantes, um quase sorriso, a necessidade de olhar para o próximo parceiro em close-up, tensão vigilante, assim que a porta da sala se abria e Irene, já muito derreada, apresentava uma nova criatura. Quem seria? Que conteúdos apensaria à palestra? Mas a sua aptidão para circunscrever essa oferta dos convidados a um cast de primeiríssima ordem era tal que nunca daí resultava qualquer transtorno; e uma parte do seu êxito residia no facto de a porta nunca se abrir excessivas vezes; a assembleia era constituída por uma clientela seleccionada, um tipo de sociedade de autores que nunca crescia a ponto de ela perder o oriente sobre ele.
De modo que, para conhecer a história recente do nosso teatro não apenas como mais um nostálgico armazém de ternura ou um séquito de oportunidades perdidas, era essencial conhecer a D.ª Germana, sempre menina espevitada, recolhida no seu camarim, mas atenta à distribuição de lugares que iam das primeiras filas, e das frisas e camarotes ditos de “boca” até às galerias, à geral. Decifrava como ninguém o mapa teatral ainda que dispersa numa noite escura e chuvosa. Quem pensasse que o teatro vivia bacteriologicamente isolado da vida de D.ª Germana, estava profundamente enganado. Era no seu céu de papel que os inumeráveis pedaços da vasta plateia pareciam convergir num todo vivo, abrangente, divertido e agradável. Uma comédia da sociedade de recreio onde o mundo se abria. Uma paródia brilhante onde eram convocados Aristófanes, Plauto, Goldoni, Óscar Wilde, entre outros referentes literários. Artistas ausentes ao longo dos anos, homens e mulheres endurecidos pelas saudades dos projectores, encaminhavam-se repentinamente à acolhedora casa na tranquila rua a fim de serem, num ápice, introduzidos na cultura mexeriqueira do mundo teatral. Até a consensualmente considerada actriz mais talentosa da nova geração que logo após a tournée não resistia a passar por aquela discreta rua de Campo de Ourique.

Passa depressa o tempo no teatro e daí que nem o próprio teatro poderia manter a D.ª Germana viva para sempre. É um facto que um dia a D.ª Germana apresentou sinais evidentes de cansaço, teve a ousadia de se deixar envelhecer e abandonou o seu sofá vermelho junto à janela no momento em que o relógio batia as quatro e meia, as pancadas de Moliére deixaram-se de ouvir e Irene não anunciou ninguém; o Sr. Cortez tinha-se deslocado do velho piano, agora repleto de poeira de melancolia e sebastiânicas saudades. Um palco vazio, uma “farsa” por estrear, o pano caído definitivamente, um mau presságio. A D.ª Germana despediu-se da vida como se lhe contasse um segredo, e o teatro – não, apesar do teatro ser eterno, em Lisboa jamais será o mesmo.
Luís Galego

Sunday, February 08, 2009

Lisboa de faca na liga...

(Vincent Van Gogh —"Old Woman of Arles" — 1888, Van Gogh Museum, Amsterdam)
Perpétua Vaquinhas, 79 anos.
Apresenta-se na Boa Hora pela enésima vez. A polícia e os tribunais não lhe metem medo.
Acusação: furto, em flagrante delito.
Desta vez foram várias peças de roupa de diversas lojas no centro da cidade, vindo a ser detectada por comerciantes e interceptada pela PSP, que recorreu a imagens captadas pelo sistema de vídeo-vigilância de um dos estabelecimentos para identificar a meliante. Como as devolveu não vai apanhar mais que uns meses.
Está no inverno da sua existência. Enviuvou há trinta. Um marido repleto de cicatrizes do álcool, uma dor d’ alma.
Dez filhos, dos quais sete ainda vivos.
Nunca frequentou uma escola.
Ofício: vendedora de castanhas. Um infortúnio na família. Já o pai e a madrasta, amortalhados em miséria, faziam a mesma coisa. Sete filhos compõem a melodia de uma família destruída que não chegou a reconstruir-se. “Educados” de tal modo que nem querem voltar a vê-la, nem recordar uma diáspora de fadiga e sofrimento, aquilo a que o escritor Richard Ford chama “as vidas sem aplauso de todos nós”. “Entendo-os”, aceita sem pruridos.
Apesar de sentenciada por múltiplos roubos, passando a fino quase todas as lojas de Lisboa, furtos reincidentes, nunca abandonou a cidade, nem por um dia tão-pouco. Noutro lugar, estaria desgraçada. Lamentavelmente, não há castanhas o ano inteiro porque aos 79 anos, Perpétua Vaquinhas ainda aguenta horas em pé, ao frio, a vender, ainda que chova a cântaros. É assim há mais de 60 anos. Diz que este pode ser o último Outono/Inverno, de fuligem colada ao rosto. Alguns clientes chamam-lhe "velhota", meigamente. Brincam com ela – "Tenho muitas pessoas amigas, fregueses que gostam de mim e me compram castanhas?" – e ela esquece as dores nos ossos e na carne. Os anos não lhe roubaram o humor, mas o fumo do assador enegreceu-lhe a face, como uma figura do Picasso azul. O corpo começa a ressentir-se da dureza do trabalho. A trombose e o derrame cerebral sofridos também pesam. Para trás, ficam décadas de trabalho e muitos dissabores, como os carrinhos extraviados. Então arranja-se a gatunar, como se fosse uma espécie de avença. “Não posso deixar de o fazer, é impossível”, diz. E fá-lo. Depois vai ao tribunal, como outras fazem tricô. Intimam-na para contar a realidade dos factos. Os depoimentos na barra são claros, ela admite, sem recato nem dissimulação que rouba. Pela enésima vez, aguarda que tudo aquilo se desenrole, sem uma palavra em sua defesa, sem diplomacia, mas também sem insultos, sem reconhecimento pelos desafortunados causídicos que a advogam oficiosamente. Toda a gente sabe que a fragilidade económica gera dependência e mais vale roubar do que confundir-se com lama humana.
- Deixem-me em paz, já conheço a ladainha – diz casmurra, recusando a oferta de ajuda, enjeitando qualquer compromisso com a ordem estabelecida, adaptando-se o melhor que pode à sua justiça como à sua vida, em nada sentido beliscada a constituição cívica e moral. A sociedade lambuza-se na ingenuidade de que quase toda a gente se comporta segundo a ortodoxia de costumes, tolice. A nódoa cai em todos os panos.
- Como ainda não anseio esticar o pernil, vejo-me forçada a roubar.
A idade foi-lhe transformando o afecto, aguçando a franqueza cruel, quase sádica, com que enuncia os seus juízos. É verdade que como apontava Cícero, quem vive muito tempo vê muitas coisas de que não gosta, mas a sua intolerância é ainda total. Acha que os anos lhe permitem dizer tudo o que lhe apetece. É ainda mais dogmática nas suas crenças, mais colérica quando contradita. Não tem tempo a perder e apesar de analfabeta não faz jejum à inteligência. Tem 79 anos e dança num trapézio sem rede. Não, não é uma sonhadora, é uma mulher prática. É preciso andar depressa e actuar. Como dizia Montaigne: “ ninguém é tão velho que não espere poder viver mais um ano”, e por isso a escatologia da sua velhice tem sido sempre muito categórica. Mover-se, como uma gata vadia que reconhece à légua os seus telhados e o sistema forense também, por ambos se desviando e se reencontrando. Está longe de sentir um desejo absurdo de sofrer, distante de se encarar como um caso terminal. O canto do cisne não se lhe assenta por enquanto. A ela se aplica como uma luva a expressão tão bela de Éluard: “le dur désir de durer”. E, uns dias aqui, outros por ali, lá vai mareando contra ventos desfavoráveis. Alimenta-se. E vive.
- O trabalho, já me acostumei a ele. No Estabelecimento Prisional de Tires ou noutro lado qualquer, é a mesma coisa. Trabalhar nas oficinas da prisão ou ir vender castanhas para a Rua Augusta mal a manhã desperta.
Como não tem intenção de morrer, irá continuar, aguentando-se à beira do abismo sem cair. É impossível, inexequível fazer outra coisa. E vai conseguir comer. E, pela enésima vez, “os Senhores da Autoridade” não vão saber onde paira. “Tenho muitas pessoas amigas, fregueses que gostam de mim, não vou agora dar o nome deles à polícia. É uma questão de honra”.
Luís Galego

Veio-me à memória um livro delicioso que descobri há tempos da Marguerite Duras, Outside, (notas à margem), que reúne a quase totalidade das crónicas e artigos publicados pela autora no France-Observateur e na edição norte-americana da revista Vogue, entre 1950 e 1980, numa visão lúcida e sensível sobre o curso dos dias da história. Num dos contos habita uma velha senhora, Lucie Blin, que se confronta com uma realidade de adversidade social. Resolvi convocar uma espécie de Lucie a terras lusas e travesti-la de vendedora de castanhas e ladra, em acumulação de funções, e construir uma pequena história, num similar estado de alma.

Thursday, February 05, 2009

apontamento de uma traição...

(Edvard Munch, The Kiss, 1892)

Ela é procuradora do Ministério Público, é loira e tem olhos verdes, desejou ser actriz, intérprete de Chekhov, Lorca, Ibsen, Strindberg ou mesmo Giraudoux. Ele é investigador de microbiologia, moreno, olhos azuis, perfeito homem, nunca sonhou ser nada a não ser viver um dia de cada vez. Eles fazem um par digno da Corín Tellado, casal exemplar. Ela vive mergulhada na averiguação de um caso que apaixona a opinião pública. Ele trai-a com a sua melhor amiga, assistente de Psiquiatria, numa escola médica para os lados do Campo Santana, casada com um ex. governante e agora administrador de uma reputada Fundação, com sede em Paris. Ela, a amante, gere bem a relação extraconjugal, ele, o galanteador, vive ainda melhor com a situação porque não pede amor ou cumplicidade, mas apenas sexo, diferente. Entre lábios e lábios toda a música lhes pertence, morrendo na boca um do outro. A outra, a mulher, não sabe de nada. O marido da amante só desconfia. Vive obcecado por visitas nocturnas, que não o exponham, a saunas e cinemas rascas em espécie de bolso, quando as noites são tão compridas, tão quentes. Ela acumula a brutalidade de trabalho que a comarca lhe impinge com a angústia mental, ao estilo de Sarah Kane, a sua dramaturga eleita. Embriagada por sofrimentos diversos, o amor, para ela, aconteceu, como carpiu o poeta, no tempo dos segredos. Um entardecer em que a maquilhagem foi absorvida pelos beijos de outro homem, num Verão esplendoroso, o barulho do mar muito próximo. Mãos brutais ao tocarem o seu corpo. O prazer tinha sido como se perdesse a vida. Um rosto de que ainda se lembra mas que lhe parece agora hostil. A amante, defensora oficial de grandes princípios e da bioética, já chorou baba e ranho na cama de um hospital situado na Whitechapel, em terras de Sua Majestade. Castigo do céu, o filho seria dele, e nem um nem outro podiam ou queriam correr este risco, imprevistos incompatíveis com a sua imagem. É médica e uns dias em Londres confundem-se com uma qualquer conferência sobre a sua especialidade. Hoje encontram-se todos para jantar num luxuoso restaurante perto do Museu Arpad/ Vieira da Silva, ali mesmo contíguo ao Jardim das Amoreiras. Eles são jovens, elegantes, o espaço agradável, cai a noite e o silêncio nos ombros, o ambiente é podre e ninguém é inocente.
Luís Galego

Saturday, January 31, 2009

esta outra forma de amar...

(Inspiration, Jean-Honoré Fragonard)
Escrevo para me abraçar.
Escrevo para me abrigar.
Escrevo para me acrescentar.
Escrevo para me admitir.
Escrevo para me compreender.
Escrevo para me consolar do teatro que não fiz e do jazz que não toco.
Escrevo para me descobrir.
Escrevo para me encontrar.
Escrevo para me esquecer em noites de insónia.
Escrevo para me exceder.
Escrevo para não me sentir exilado numa ilha de silêncio e indiferença.
Escrevo para me percorrer.
Escrevo para não me sentir perdido em emboscadas de solidão.
Escrevo para me provocar.
Escrevo para me ressarcir.
Escrevo para me sentir vivo.
Escrevo para me soltar, de um secular sossego.
Escrevo para não me sentir só.
Escrevo para abandonar uma história real sem enredo.
Escrevo para cortar esta amargura.
Escrevo para dançar com as palavras o tango mais erótico.
Escrevo para deixar na folha a impressão digital.
Escrevo para descrever sombras, fragilidades, desejos e sonhos.
Escrevo para despedaçar a rotina.
Escrevo para esquecer sonos vazios, despovoados.
Escrevo para exteriorizar a saudade, velha, cheia de musgo.
Escrevo para fugir ao lirismo bem comportado.
Escrevo para murmurar pérfidos segredos.
Escrevo porque gosto de escutar.
Escrevo porque não sei tocar a harpa que envelhece.
Escrevo para não sofrer.
Escrevo para não ter que me mascarar.
Escrevo para poder fazer coisas que não devo.
Escrevo para roer os ossos do medo.
Escrevo para preencher o vazio.
Escrevo para quebrar esta angústia.
Escrevo para registar o que é efémero.
Escrevo para resistir, ainda que com as pálpebras pesadas.
Escrevo para respirar.
Escrevo para secar a dor.
Escrevo para ser melhor do que sou.
Escrevo para tornar visível o mistério das coisas.
Escrevo para viver outras vidas.
Escrevo para voar, carregado de desejos.
Escrevo o que não se pode contar.

*
* *
Escrevo como quem desaparece na praia, às tantas da madrugada.
Escrevo como quem desfalece ao toque das palavras.
Escrevo como quem morre aos poucos de ternura.
Escrevo como um pulmão que respira.
Escrevo como quem chora, tal como o poeta.
Escrevo porque é um acto de liberdade.
Escrevo por escrever e porque sim.
Escrevo-me…
Escrevo para me amar. A mim e a outros. De certa maneira.
Luís Galego

Saturday, January 24, 2009

a insustentável leveza do horror...

(imagem retirada da net)

Não me lembro quando li pela primeira vez este poema de Witolda Simborka, polaca, poeta e Prémio Nobel. Mas recordo que imediatamente tive suficiente consciência da sua grandeza para saber que não merecia vir a ser esquecido no esquecimento de outros poemas. Trata-se de um texto construído com a suprema mestria que me perturba:

O terrorista
A bomba rebentará no bar às treze horas
[e vinte minutos.
São apenas neste momento treze e dezasseis.
Haverá quem tinha tempo de sair.
E de entrar
O terrorista ele mesmo, já está
[no outro lado da rua
A distância mantém-no livre de perigo,
E, além disso, que espectáculo!
[Como no cinema.
A mulher de blusão amarelo entra
O homem de óculos escuros, sai.
Os rapazes de jeans conversam
Treze horas e dezassete minutos
[e quatro segundos.
O mais baixo, o sortudo, monta a sua mota.
O mais alto, entra.
Treze horas dezassete minutos
[e quatro segundos.
Chega a rapariga com uma fita verde
[nos cabelos.
Simplesmente passa um autocarro
[e ela desaparece]
Treze e dezoito
Que é feito dela
Entrou, a idiota, talvez não,
Logo se verá quando se recolherem
[os cadáveres.
Treze e dezanove
Mais ninguém entra
Há apenas um gordo careca que sai
Mas parece que vasculha os bolsos e
A dez segundos das treze e vinte
Entra de novo à procura
[de umas luvas miseráveis.
São treze e vinte
Como se arrasta o tempo
Deve ser agora
Não, ainda não
É agora,
A bomba explode.


Entregam-me o dossier de imprensa e leio que a Índia sofreu um novo atentado bombista, uma semana depois da violenta acção radical islâmica em Bombaim, que durou três dias e fez 200 mortos; que Christian Klar, rosto dos Baader Meinhof e que esteve por detrás da onda de assassínios que abalou a RFA, deixou a prisão, para temor de muitos alemães; que sete militantes islamitas, um dos quais um saudita membro da Al-Qaeda e suspeito de ter participado nos atentados de 7 de Julho de 2005 em Londres, foram detidos no Paquistão; que até o Governo português admite que a ameaça terrorista em países europeus, entre eles Portugal, é para levar a sério; que o Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas, acusa Israel de tentar "aniquilar" o povo palestiniano na Faixa de Gaza ao recusar pôr fim à ofensiva contra o território; que Israel bombardeia prédio da ONU e hospital. Estes e outros excertos trazem-me à memória o poema de Witolda Simborka, que descreve a insustentável leveza do terror, o acaso escolhendo as suas vítimas. Embora mais longínquos no tempo vêm-me à memória horrores como a coreografia das mãos de um homem bomba que alvejou Bhutto no pescoço e no peito, e em seguida, se explodiu próximo ao veículo, provocando ao acaso a morte súbita de cerca de 20 pessoas que nada tinham a ver com o assunto; recordo Daniel Pearl jornalista do The Wall Street Journal raptado, assassinado e retalhado por um grupo de terroristas em Karachi, quando estava com a mulher, grávida, que por acaso nada tinha a ver com aquilo mas que se finou por dentro e que Sérgio Vieira de Mello, diplomata brasileiro, funcionário da Organização das Nações Unidas morreu num atentado terrorista à sede local da ONU em Bagdad, juntamente com outros 21 membros – ao acaso – da sua equipa. E mais relembro, ETA, IRA, trágicos acontecimentos em Nova Iorque, Madrid, o 11 de Setembro e o 11 de Março …, e vem-me, ainda, à memória muitos que morreram em atentados sem que lhes tivessem perguntado se alguma vez foram felizes e que expiraram simplesmente pelo facto de se encontrarem no sitio errado, à hora errada. Como se a morte, a exterminação assim, a violência repentina, chão criminoso, sem nexo, fosse meramente o corolário do acaso. O mais baixo, o sortudo, monta a sua moto e safa-se, sem que disso tenha consciência; o desgraçado internado nos cuidados intensivos é surpreendido por uma bomba, nem um murmúrio, um soluço; a criança na Faixa de Gaza fica sem mãe, talvez mesmo sem ninguém, mas o mais baixo, o sortudo, monta a sua moto e safa-se. O jovem empregado do bar morre sem sequer saber porquê, e porque nem reposta há para tal barbaridade, pelo menos decente, mas o mais baixo, o sortudo, monta a sua moto e safa-se. E, claro, tudo em nome dos direitos humanos, da salvaguarda da paz ameaçada e da fé. Da releitura do poema resultam para mim mais perguntas do que respostas, mais perplexidades do que certezas. E, assim, a poesia é porventura a mais verosímil e a mais verdadeira de todas as teses.

Saturday, January 17, 2009

amargo de boca...

(Picasso, Femme aux Bras Croisés)
Por causa do blog

foi ao seu encontro.

Era quase noite, pouco sabia

nem isso importava.

Abandonada ao imprevisível

caminhou ousada por cima do tempo.

Com um leve toque de mistério,

palavras perfumavam-se dentro dela,

num desassossego de sensações,

ansiando cúmplice partilha.


Era a primeira vez,

um blind date apressado,

à hora prometida,

num lugar deserto,

onde só o som do mar podia interromper.


Dissolve-se a fantasia,

alguém sem disfarce,

contacto agreste da pele,

respiração submersa,

aperto no coração,

sabor breve.


Carícias rasgaram-se na escuridão.

Pernas em calor abertas sem limite,

febre, espasmos

e gemidos.


Expirado o virtual, atingido o real.

Nela a solidão que o orgasmo

não aniquila,

reclama a beleza

dos versos confessados em post.


É quase manhã.

Gosto amargo na boca,

arrepios sem glória.


Sem sono mas ferida,

um véu de lágrimas,

sem entender porquê.

Luís Galego

Sunday, January 11, 2009

em teu crespo jardim...

(Édouard Manet, Woman in a Bathtub. 1878-79, Musee d’Orsay, Paris)

Em teu crespo jardim, anémonas castanhas
detêm a mão ansiosa: Devagar.
Cada pétala ou sépala seja lentamente
acariciada, céu; e a vista pouse,
beijo abstracto, antes do beijo ritual,
na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.

Carlos Drummond de Andrade

Ofereço-te este poema embrulhado em amor, no dia do teu aniversário.

Saturday, January 03, 2009

escrever como quem chora...

(Imagem retirada daqui)

Dá-me a tua mão


Deixa que a minha solidão

prolongue mais a tua

- para aqui os dois de mãos dadas

nas noites estreladas,

a ver os fantasmas a dançar na lua.


Dá-me a tua mão, companheira,

até o Abismo da Ternura Derradeira.
José Gomes Ferreira


Li algures numa antologia de poesia de amor portuguesa que um poema é um composto de relâmpagos de linguagem que nos permite quebrar o vidro fosco do tempo e descrever as cores e a vibração das almas. Acrescenta a pena de Inês Pedrosa que os poemas de amor não acabam nem começam nos versos. Há-os em prosa, indefinidos, como a Missa in Albis, de Maria Velho da Costa, com uma Sara que escrevia: “Deus deu-me o Simão porque quer comer de amor a minha vida.”. Mas há uma melodia exclusiva que só os versos têm, uma melancolia dos dias esvaziados. Talvez por tudo isto o autor de As Palavras Interditas, Eugénio de Andrade tenha confidenciado: “ Às vezes sinto-me tão desesperado que me sento a escrever como quem chora”. Até Alexandre O’Neill respirou em verso a impossibilidade do amor numa nação bloqueada através de “Um Amor Português”. Assim como Vasco Graça Moura parto do princípio de que, sempre ou quase sempre, cada poema de amor seduz por si e vale por si, sem prejuízo das inúmeras relações que, como texto literário, ele possa estabelecer com outros textos, com outras áreas de criação artística e com a nossa própria experiência humana. Seja como for descobri com os artífices das letras que o amor à poesia pode contagiar-se. É apenas essa a intenção deste post.


CONVIDA-ME SÓ PARA JANTAR
Convida-me só para jantar
num restaurante sossegado
numa mesa do canto
e fala devagar
e fala devagar
eu quero comer uma sopa quente
não quero comer mariscos
os mariscos atravancam-me o prato
e estou cansada para os afastar
fala assim devagar
devagar
não é preciso dizeres que sou bonita
mas não me fales de economia e de política
fala assim devagar
devagar
deita-me o vinho devagar
quando o meu copo já estiver vazio.

Estou convalescente
sou convalescente
não é preciso que o percebas
mas por favor não faças força em mim.
Fala, estás-me a dar de jantar
estás-me a pôr recostada à almofada
estás-me a fazer sorrir ao longe
fala assim devagar
devagar
devagar.
Ana Goês

Tuesday, December 30, 2008

acidente...

(Pablo Picasso - Friendship)
O AMOR é que é essencial.
O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
ou diferente.
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente.

Fernando Pessoa

Uma noite fria servida de um distinto vinho. Uma boa companhia e mil segredos. Sentados em frente ao fogo. Uma lágrima correndo do rosto para o coração. O rumor do mar a servir de música ambiente. Discutir Pessoa até ser dia…

Sunday, December 28, 2008

blue lovers...


(Marc Chagall, Blue Lovers)
Dedicado a L.


CONFIA.
EU SOU ROMÂNTICO.
NÃO FALTO.



* Inspirado em Sonetos Românticos, de Natália Correia.

Friday, December 26, 2008

perdido(s) na noite escura...

(imagem retirada da net)
Chegou no correio um Homem na Escuridão. Um homem que revolve o mundo na sua cabeça enquanto se debate com mais uma insónia, com mais uma noite em branco. A filha e a neta estão a dormir nos seus quartos, sozinhas também elas, Miriam, a sua única filha, que tem quarenta e sete anos e que tem dormido sozinha nos últimos cinco anos, a Katya, filha única de Miriam, que tem vinte e três anos e que costumava dormir com um jovem chamado Titus Small, mas Titus está morto agora, e Katya dorme sozinha com o seu coração desmoronado. Luz radiosa, depois escuridão. O sol que se derrama de todos os cantos do céu, seguido pela escuridão da noite, as estrelas silenciosas, o vento que se agita nos ramos. Tal é a rotina. O homem que chega na escuridão a minha casa vive na mesma casa há mais de um ano, desde que lhe deram alta do hospital. Miriam insistiu com ele para que viesse para ali, e, de início, eram só os dois, para além de uma enfermeira que zelava por ele durante o dia, enquanto Miriam estava a trabalhar. Até que, passados uns meses, o mundo desabou sobre Katya, e ela abandonou a escola de cinema em Nova Iorque e foi viver para a casa da mãe em Vermont. Os pais dele chamaram-lhe Titus porque esse era o nome do filho de Rembrandt, o menino que aparece nos quadros do pintor, a criança de cabelos dourados com um chapéu vermelho, o aluno que sonha acordado enquanto se esforça por estudar as suas lições, o menino que se transformou num adolescente destroçado pela doença e que morreu com vinte e poucos anos, tal e qual como o Titus de Katya. É um nome fatídico, um nome que deveria ser banido da circulação para todo o sempre. Pensa muitas vezes na morte de Titus, na história horrenda dessa morte, nas imagens dessa morte, na sua neta, uma jovem devastada, reduzida a pouco mais que nada, por essa morte, mas, para já, não quer ir por esse caminho, não pode ir por esse caminho, tem de mantê-lo tão longe de si quanto possível.

A noite ainda é uma criança e enquanto para aqui estou deitado na cama perscrutando a noite e a escrita de Paul Auster, descobrindo August Brill, um crítico literário de 72 anos, um homem para quem a escuridão é tão negra que nem consegue ver o tecto, ponho-me a pensar acerca das afinidades da minha vida com as histórias que vou lendo ou inventando. Fantasiar é o que eu faço quando o sono se recusa a vir. Deixo-me ficar deitado na cama e conto-me histórias. Podem não ser nada de especial, mas, enquanto estou dentro delas, comporto-me como o homem que chegou a minha casa envolto em sombras e assim tal como ele consigo impedir que o pensamento navegue por assuntos que prefiro esquecer…

Monday, December 22, 2008

rondando os semáforos…

(imagem retirada da net)
Ia acumulando no porta-luvas moedas de cinquenta cêntimos, um euro, dois euros. Em vez de abrir a carteira e tirar uns dinheiros, uma maçada, passou a recorrer ao dito acervo nos sinais vermelhos. Há anos que tem a sensação que os semáforos de Lisboa estão sempre vermelhos, na maioria das vezes, desnecessariamente. Isso leva-o a crer que não há qualquer sistema de sincronização dos semáforos, ou melhor, que os seus ciclos são aleatórios, sem compromisso algum com os fluxos do tráfego, grande estimulador de engarrafamentos desnecessários, além de excessivamente incomodativo para os condutores, que já sofrem bastante com os engarrafamentos da cidade. Mas o que é que sucede nos sinais vermelhos? O aparecimento em cena de um elenco de pedintes, deficientes, mutilados, sem-abrigo, toxicodependentes e doentes mentais que fazem uso desses semáforos de longo tempo, como se reunidos num requiem algo pesado.
É de manhã, aproxima-se uma romena (ou seria cigana?), de uns onze anos, com uma criança aconchegada nos braços, de dois ou três anos, a dormitar. A romena estendia a mão aos automobilistas. Semáforo fechado, carro parado, a pequena a correr com a trouxa e gotas de suor. Esquiva miúda, sem infância, que correndo e mendigando envelhece. Deu umas moedas.
A seguir, aproxima-se cambaleando um pobre de olhos vidrados a pedir, nem jovem, nem velho. Passos de dor, arrasta as duas pernas que dobram para dentro e com tremuras pelo corpo todo. Para além disso um cardápio de doenças, barba por fazer, triste boca dolorida e cara de quem arranca cabeças só à força de braços. Estende as mãos sangrentas de assassino para os carros, benze-se todo e depois, como ninguém abre a janela, roga pragas por ninguém o auxiliar.
Depois surge uma adolescente grávida, mulher incriada, morena e espigada, imensos olhos, que enfia a mão e o atrevimento pela janela dentro. E outros dois meninos desamparados, que umas vezes vendem lenços de papel, outras vezes também angustias fundas. E o indiano que bebe o vento e o frio, vende botões de rosa enrolados em celofane, que ninguém aprecia.
A seguir entra em cena uma personagem perturbadora, a louca da Marquês de Tomar, a velha senhora, dilacerada, olheiras vermelhas e cabelos desgrenhados, rosto cavado de dor, tão sofrido, enrugado, trágico perfil. Não parece que está a pedir, e só quando se lhe observa os pés se dá conta dos sapatos rotos e tortos e do vestido esfarrapado. Ela nem sempre estende a mão. Conta uma história passada no Parque Mayer, era chefe de quadro num dos teatros e teve a seus pés um empresário da época, lembrando a abandonada gata do famigerado Cats, inspirado na obra de T.S. Elliot. Antes do sinal virar, desfia um rosário de memórias entrelaçadas da guerra dos bastidores do teatro musical de há muito. É atenta e bem-educada: “Muito obrigada, cavalheiro!”. Às vezes chora. Sombra de uma vida. Nunca descobriu donde vinha e como parava ali, o sinal mudava e os carros apitavam como doidos, mais loucos do que ela, que talvez não o seja. Alcoólica? Demente? Impressiona por causa da dignidade, da tristeza, de uma vida amarrotada que pode ser a nossa, se fizermos uma ultrapassagem mal calculada e esbarrarmos com um destino infeliz.
A cada solavanco, o monte de moedas voa. Num raio de dois ou três quilómetros nas ruas de Lisboa, faça chuva ou faça sol, frio ou calor, é impossível ignorá-los. O bando dos desgraçados, nos seus dia-a-dia de miséria, com doenças ou não, são os espantalhos que ninguém vê, homens ou mulheres, todos de mão estendida e olhos prisioneiros, no sinal, ao dobrar da esquina, ao fundo da janela, à porta da igreja, colados às vidraças dos cafés, à saída do metro. A eles se juntou a horda dos arrumadores que tomam conta dos espaços livres e substituem os parquímetros avariados.
Transpira das mãos ao cismar em tal realidade. Os pedintes, os andrajosos, a Dona Rosa, ceguinha, descoberta na Rua Augusta pelos circuitos da "World Music", obrigada a regressar à rua para cantar fado enquanto chuvisca, um homem com um angioma no rosto que estende o chapéu às esmolas. Tumores cor de ameixa dilatam todo o rosto, excepto um olho de ar selvagem voltado para o mundo que não o quer ver, e um rapazinho que toca acordeão, enquanto o seu pequeno cão circula com uma minúscula caixa em busca de ofertas. Uma realidade estranha, uma existência que embaça, fora de tempo. Os pretos e os de Leste da construção civil são um constrangimento. Afluxo a Lisboa de muitas e desvairadas gentes Os pobres são uma vergonha e um embaraço. Cravam a consciência com um alfinete que fere em cheio nas épocas festivas, quando a sua injustiça parece deslocada e a assombrar a grandiloquência da fartura. Bárbaro o espectáculo. A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Não gosta de os ver, fazem-no sentir abatido, nó na garganta, doentio tremor. Fazer como se nada disso nos atingisse e sacudir do capote a água da canalha também não é solução. Mas eles vão continuar lá, apesar da solidariedade, da caridade, da compaixão. Continuam lá, apesar do marketing das campanhas eleitorais, dos palcos políticos, da União Europeia e da cidadania, das mensagens de Natal dos Cardeais, e todas essas coisas que tivemos pouco e que se está a desmoronar: o Estado-Social.
As sociedades modernas excluem os fracos, os néscios, os inúteis, os doentes, os indefesos, os sem biografia. A sociedade actual esquece-se dos que precisam de rede para que não caem no fosso. A sociedade chama-lhe o preço do progresso, o custo da crise financeira mundial que ninguém prognosticara.
Manhã alta, desce a Calçada Marquês de Tancos, vê as belas árvores que há por ali, árvores que parecem sobreviver ao desprezo dos homens, já menos gente nas ruas, mas encontra ainda um rapaz que vendia a CAIS. Não está mal vestido nem pede esmola. Troca a revista por uma moeda, que é o preço de um galão. Muitos bons espíritos não se convencem com a bondade da iniciativa, “para não sustentar vícios”.
Nunca mais conseguiu guardar um punhado de cêntimos no porta-luvas. Até por causa disso mesmo, a vida (essa coisa à margem da sensibilidade). Eles, os dispensáveis que não são fantasmas, nem vestígios, nem ecos, continuam lá desprezados rondando os semáforos…

Monday, December 15, 2008

aqueles que nos acrescentam…

Para Nuno Pereira

Amigo cúmplice de muitos momentos, no dia do seu 34º aniversário.

Há algum tempo dei comigo a pensar que no caminho da vida a circunstância – a “minha circunstância” de que falava o filósofo espanhol – nos traz ao convívio três tipos de pessoas. O mais abundante é o daqueles que passam por nós sem deixar rastro, encontros demasiado fugazes ou superficiais. O segundo, cujo número, mesmo que escasso, é sempre excessivo, inclui aqueles que nos diminuem, ou porque nos roubam o que demais precioso temos, o tempo (e devo confessar que quando me pedem licença para mo roubarem eu digo sempre que não deixo, porque o meu tempo ou o ofereço ou, em situação própria, o vendo), ou porque levam parte de nós, deixando na alma ferida que não sara, ou então porque nos filam com os dentes e nos forçam a descer a uma altitude moral que nos diminui o carácter e envergonha a consistência. Há, finalmente, os que serão sempre em número insuficiente, aqueles que nos acrescentam. Fazem-no muitas vezes de forma tão subtil que parecem insinuar-se no outro genoma, que a biologia ainda não desvendou. Outras vezes deixam a marca incisa de um conselho ou de um exemplo. Não raramente fazem-no pela mais depurada forma de ensinar, que é, como alguém disse de Sócrates, pelo simples facto de existirem.
In, O Eco Silencioso, João Lobo Antunes.

Este post existe tão só para celebrar um Homem que me acrescenta. Parabéns, Amigo!!!

Saturday, December 06, 2008

in memoriam...

Portugal, anos 40, século XX. O que leva uma jovem fadista quase sem instrução a escolher cantar um poeta erudito do séc. XIX? A pergunta é feita num programa televisivo dedicado à diva. A resposta será sempre ambígua. Canta os grandes poetas da língua portuguesa, dos trovadores a Camões, de Bocage aos poetas contemporâneos: Pedro Homem de Mello, David Mourão-Ferreira, José Régio, Alexandre O'Neill, Manuel Alegre, Ary dos Santos. A relação precoce e visionária de Amália Rodrigues com a melhor poesia permanece um enigma. Nenhuma escola, por mais que exercite, consegue formar uma voz como a sua que, numa métrica de rigor inalterável, se elevava do chão, como um cântico ao sofrimento. O amor ou desafecto poderão explicar o registo pungente dos versos que entoou, canonizando aliás textos de insuperável qualidade literária. Poderá ter tido uma estranha forma de vida, mas foi um relevante factor aglutinador do povo português, que fez dela seu património. Assim e não obstante as terríveis criticas que por aí se escrevem sobre Amália, o filme, a produção nacional sobre a vida do mais respeitado mito português, resolvo passar o fim de tarde chuvoso de sábado, com o seu encanto triste, a dar de beber à dor na escuridão de uma sala de cinema. Não sei se vou deleitar-me, mas não resisto a revisitar uma das figuras lendárias do fado e da cultura portuguesa do século passado que exprime essa forma melancólica e nostálgica que é a saudade…

Sunday, November 23, 2008

viagem sem bússola…

Domingo à tarde. O debate à volta de tudo o que é arte contemporânea tem sido objecto de variadas manifestações ao longo dos tempos. A razão do conflito, embora com protagonistas e argumentos diversos, radica sobretudo na disputa entre uma visão conservadora e uma visão dinâmica do mundo. Tal como António Pinto Ribeiro defende (cf., Abrigos, 2004), também me parece que existe um preconceito epistemológico na condenação do contemporâneo enquanto sinal de um presente conturbado. O mundo está em permanente mudança e a arte contemporânea contribui, de um modo determinante, para que ele seja mais vivido, melhor compreendido e apreciado. Pluralidade de estilos, de linguagens, de ensaios coreográficos contraditórios e independentes, convivendo em paralelo, porque a arte contemporânea não é o palco da afirmação de verdades absolutas. E desperto para o que de diferente o contemporâneo pode oferecer rumei hoje inquieto ao pavilhão 4 da FIL. A feira de arte contemporânea portuguesa que decorre no Parque das Nações, ali bem juntinho ao Tejo. Cerca de 70 galerias, portuguesas e estrangeiras viajam entre a pintura e a cibernética, entre o vídeo e a performance, discutindo e aferindo novas propostas. Enquanto referência no mercado em Portugal e provavelmente um dos principais acontecimentos da criação artística contemporânea na Península Ibérica, a ARTE LISBOA oferece aos galeristas a oportunidade de darem a conhecer artistas emergentes e consagrados.

Mas o que mais me enfeitiça é a energia cultural que recolho deste tipo de arte, de espaço e de instantes. E, ao abandonar a Feira, olho o rio lá em baixo, tão bonito ao fim da tarde…
Domingo à noite termino O Eco Silencioso de João Lobo Antunes. Uma das características de qualquer obra de qualidade, seja na literatura, seja na música ou nas artes plásticas, é inspirar em nós desejo de a partilhar. Sensível como sou à inteligência dos outros não podia deixar de transmitir o que sinto acerca deste aristocrata da escrita e deste seu agregado de ensaios. Notava o crítico literário Harold Bloom que presentemente a grande escrita desperta mais frequentemente em obras que não são especificamente literatura. O neurocirurgião João Lobo Antunes é um excelente exemplo desse facto. Uma escrita fascinante para comunicar uma ideia e uma sensibilidade únicas, informados por uma cultura, uma erudição científica e literária, uma experiência humana, únicas no panorama cultural luso (cf. nota da editora). O homem que influenciado por E. M. Forster se justifica de forma quase pueril dizendo que tudo o que escreve é sentimental caracteriza em boa medida a prosa que lhe sai da alma. Li todos os seus livros/ensaios, mergulhei na sua vida, nos seus interesses, nas suas dúvidas. Ler este Lobo Antunes, é como beber o crème de la crème dos cocktails, sentado no mais belo terraço do mundo... (George LAMBERT, Sleeping man [Breaker Morant] )
Domingo quase ao apagar a luz de cabeceira, fixo-me no ensaio de JLA “E no princípio era o `Mostrengo´”, e tal como o artesão da escrita também eu puxo para vos cobrir o manto de um dos mais belos poemas sobre a noite.

Vem, Noite antiquíssima e idêntica.
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde escuro ao longe,
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.


(...) Álvaro de Campos...

Boa Noite.

Friday, November 07, 2008

cordão umbilical...

Mother and Child, Picasso, 1907


Este cordão umbilical
aue nos liga:

do chão do teu corpo
ao chão da minha boca

A respirar-te
devagar…

o coração

in Minha Mãe, Meu Amor, Maria Teresa Horta

Mesmo que o ar me falte, respiro o seu afago. Parabéns, Mãe!!!

Sunday, November 02, 2008

qualquer coisa chamada dignidade...

O filme acaba com uma rapariga que procura o professor para confessar-lhe que não havia aprendido nada durante o ano lectivo e que não percebia sequer o que faziam na escola. Essa frase coloca uma interrogação que diz respeito a todos: estudantes, professores, psicólogos educacionais, sociólogos, família, políticos, – Qual o futuro da escola pública? O problema não é só um fenómeno francês e tem raízes fundas. Há algum tempo que eu aguardava a estreia destA TURMA/Entre les murs. Baseado num livro de François Bégaudeau, o filme acompanha um ano lectivo de um professor e da sua turma numa escola parisiense de um bairro problemático, microcosmos da multietnicidade da população francesa (uma malha social que é um autêntico caleidoscópio de culturas), espelho de contrates dos grandes centros urbanos. François está decidido a não deixar que o desincentivo o coíba de tentar dar a melhor educação aos seus jovens, a não desistir de qualquer coisa chamada dignidade. Mas as diversas culturas frequentemente colidem dentro da sala de aula. O docente insiste numa atmosfera de respeito e numa pedagogia com alma mas a ética é colocada à prova quando os adolescentes começam a desafiar excessivamente os seus métodos e de forma sarcástica, mal-humorada, desconfiada. Sem renunciar à identidade de François e dos seus alunos de várias origens sociais, etnias e credos, o realizador mostra como o encontro diário, numa sala de aula, entre um adulto cuja incumbência seria emitir conhecimentos, e um grupo de jovens cujo papel seria absorvê-los, se transmutou num debate violento, exigente, exasperante e as mais das vezes inútil. Em mais de duas horas de filme há instantes em que toda essa tensão é cortada por apontamentos divertidos, mas é indiscutível que o propósito é apresentar um quadro esquizóide diante dos reptos de uma educação pública de qualidade para todos.

Um filme que incomoda. Sabem do que estou a falar. Se não sabem, tenho muita pena…

Monday, October 20, 2008

a vida em imagens...


Leibovitz tem honras de exposição na National Portrait Gallery. Annie Leibovitz: A Photographer's Life, 1990-2005 comporta mais de 150 fotos que retratam momentos da sua vida privada, como o nascimento das suas três filhas, tertúlias em família e com amigos, além de representações carismáticas que a consagraram como uma das maiores no seu ofício dos últimos tempos. Entre as imagens estão ainda retratos de gente da sétima arte como Al Pacino, Catherine Deneuve, Nicole Kidman e Jodie Foster e outra gente do mundo das artes ou de outras esferas como Patti Smith, Bob Dylan, Mick Jagger, Miles Davis ou mesmo a eleição de Hillary Clinton para o Senado ou Pelé que contribuem para uma verdadeira constelação de estrelas no seu portfolio. Ou ainda a vida de Leibovitz com Susan Sontag até à morte da escritora. A perseverança do trabalho da artista traduz o olho de uma criadora única, que diz: "sempre que se fotografa algo, aprende-se alguma coisa nova". A artífice conta com um enorme catálogo de fotografias de capa de grandes publicações, entre elas a da Vanity Fair com Demi Moore nua e grávida, em 1991, e de John Lennon em posição fetal, ao lado de Yoko Ono, estatelada na Rolling Stone EUA em 1981. Também é conhecida por ter assinado grandes campanhas da Louis Vuitton. A mais recente, com Francis Ford e Sofia Coppola, e a próxima, será com Sean Connery. Apesar de ser especialista em trabalhos de moda, a norte-americana também arrisca outras paragens, como de militares em Sarajevo, na Guerra da Bósnia.

Seria problemático contar a História da Fotografia sem acusar o nome desta mulher. Um dos principais museus de Londres teve o bom gosto de abrigar, desde quinta-feira passada, esta mostra sobre a carreira e vida da conhecida documentalista da cultura popular americana. Colo os olhos às fotos de Leibovitz e o mundo é possível mesmo agora, que anoitece.

Ver aqui o resumo das sessões de retrato com a rainha Isabel II.

Sunday, October 12, 2008

entre a besta e o homem...


(MAILER, Norman. The Naked and the Dead. New York: Rinehart & Company, 1948. Original black cloth, original dust jacket.)

Os livros são a minha riqueza e a minha ruína, o meu vício, o meu património. Os livros interrompem, importunam, reivindicam, ainda que estejam escondidos nas trevas da estante. E eu pago e venero-os, tenho receio que lhes aconteça alguma coisa. Tenho um seguro sobre o recheio da casa por causa dos livros. Como se alguém estivesse interessado em roubá-los. O receio que um cataclismo danifique pérolas singulares de Tolstoy, Camus, Proust, Montaigne, Stendhal, Joyce, Henry James, T. S. Eliot, Virgínia Woolf, Duras, Yourcenar, Fernanda Botelho, Fiama Hasse Pais Brandão, Miguel Torga ou Lobo Antunes ou mesmo os grandes senhores da dramaturgia, da poesia, da short story, paperbacks e hardcovers avulsos, os clássicos do costume, a reflexão inteligente, livros a que volto, provoca-me uma sensação angustiante. Há livros a rebentar de ternura que se lêem num ápice e são interessantes nessa medida: o diálogo silencioso com o texto a que nos obriga é compulsivo. Depois há obras que solicitam tempo e podem ser superiores precisamente por causa dessa medida: pelo quanto de energia nos exigem, e por tudo o que nela se adquire e se conquista. Tudo isto para dizer que Os Nus e os Mortos (The Naked and the Dead), de Norman Mailer, é agora o meu livro de cabeceira, uma obra que exige tempo. Já o sabia, mesmo antes de me oferecerem. Sabia também que o tempo que este livro requer a um leitor inquieto não se mede em horas de leitura – mede-se em espírito crítico. Escreveu José Cardoso Pires acerca deste livro que “ [estamos perante um fresco de violência, é certo, um fresco da carne violentada, mas onde domina sobretudo o tormento da alma, a razão da consciência]”. Baseado na própria experiência de serviço militar do autor, nas Filipinas, durante a Segunda Guerra Mundial, Os Nus e os Mortos é um retrato perturbador da situação do homem comum quando em combate. Publicado num período em que os Estados Unidos ainda se ensopavam na glória da vitória aliada, alterou em muito a percepção popular da guerra. Dizem alguns especialistas insuspeitos que talvez seja este o melhor romance de guerra alguma vez publicado. Digo eu e ainda não o terminei que é um livro com o qual tenho conversado e que não se confunde com um documentário, uma reportagem, um ensaio sobre guerra. É, sim, com rigor literário, “um conflito entre a besta e o homem que interroga o futuro”. E daqui ergo a taça à boa literatura…

Sunday, October 05, 2008

decifrar Paula Rego...

(foto retirada da net)

O Centro de Arte Manuel de Brito fica localizado na baixa de Algés. Empenha-se na arte contemporânea mas reside no Palácio dos Anjos, construção do século XIX. A aura de passado que envolve o lugar destoa harmoniosamente com a arte exposta: a colecção Manuel de Brito. Mas foi para visitar a pintora Paula Rego que ali me desloquei este domingo. Em exposição Paula Rego e Anos 80, uma retrospectiva de obras emblemáticas da década de 80, uma mostra que nos enche os domingos, se ao domingo lá formos, como fui e voltarei. Tal como a vida, a evolução de uma obra só faz sentido retrospectivamente. São uns trinta e tal trabalhos cada qual o mais intenso, mais presente, mais aforístico, mais lapidar. Mas essas obras são muitas outras as convocadas; estas “obras dos anos oitenta” vêm de sempre, arrojadas perante o mundo, trementes também. A técnica da artista revela uma relação orgânica tanto mais rica quanto surpreendente pelas obscuras implicações que revela. Seja como for, só quem dança com fantasmas os pode exorcizar e só quem os exorciza pode alcançar a maturidade que, servida por uma mestria invulgar, permite ler as pinturas da enigmática Paula Rego como uma demanda simultaneamente política e pessoal. Não sei se possuo perícia suficiente para abordar este mundo da artista plástica, mas sei que gosto deste génio, ainda que uma vez ou outra me possa sentir angustiado. Ela é uma das artistas mais humanas que ainda vivem, escreveu o historiador Marco Livingstone. O seu trabalho toca muito, mesmo pessoas que não estejam muito por dentro da história da arte ou da arte contemporânea. Sinto-me cativado e envolvido pelas assombrosas narrativas e pelo imaginário por trás dos seus trabalhos. Mas o que se ama nem sempre se consegue interpretar, também é esse o segredo, portanto…

Tuesday, September 30, 2008

sob o céu da 7th avenue...

(William Herman Rau, Wonders of our great metropolis, sky-scrapers and Great Bridge from Brooklyn, New York City, 1900-1910)

Nova Iorque. A manhã está invulgarmente quente. Os corredores do hotel são testemunhas desconcertantes de um telefonema. Vivem comigo por segundos uma conversa enigmática mas promissora. Nessa manhã, na manhã do telefonema, olho o céu de maneira diferente. É no Céu que vemos Deus... E mesmo despovoado de deuses, é ainda para o homem o lugar donde ele tira força, consolação e esperança. A paisagem é feita por ele, a arte imita-o, os poetas cantam-no, como sabiamente escreveu Eça. Estar distante e arredado de problemas lusos e ser desafiado por alguém que não conhece a nossa tapeçaria de vida, apenas (re)conhece parte do nosso curriculum, soa a ópera belcantista. Assim sobre o reino da realidade abre-se o reino da possibilidade. Nesse momento tenho a sensação que a minha missão nas políticas educativas (e afins) termina e um universo díspar convida a outras viagens.

Como as oscilações das ondas do oceano da vida, a estadia por terras da educação teve momentos mais intensos e momentos mais suaves, momentos mais nítidos e outros mais obscuros. Afinal foram nove anos num ministério que ficam registados na minha memória. Tal como já tinha sucedido em domínios culturais autárquicos tive a sorte de conhecer pessoas que me ajudaram, pessoas de quem serei amigo sempre, algumas das quais já habitando em outras realidades, matéria que desenvolvida permitiria uma curiosa digressão acerca das relações humanas. Voo para Lisboa expectante mas ainda com tempo para que uma das relíquias do litoral alentejano, a Zambujeira do Mar, sirva de intermezzo, o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e a Costa Vicentina me abracem, a leitura de universos ficcionais ou semi-ficcionais me aconchegue a alma, a labiríntica fruição de sol, mar, livros e música me restabeleça, bóias de me aguentar (expressão roubada a Lobo Antunes de uma bela e incontornável obra), tudo concorrendo numa espécie de antecâmara para novos torneios.

O que quer que me esteja predestinado ainda está por acontecer. Mas agora é tempo de enfrentar um mundo novo…

* Post escrito a 15/09/2008, mas que face à concretização do exposto só agora faz sentido editar.

Friday, September 26, 2008

a apoplexia da bandida...

Hoje a propósito do lançamento do livro da Maria Quintans e do João Concha tive a oportunidade de dizer as seguintes palavras que aqui reproduzo:

Eu sou tão só um viciado das palavras escritas e embrulhadas da Maria Quintans. Eu sei que canta bem, porque já a ouvi. O que eu desconhecia é que escrevia desta maneira.

A internet tem destas coisas e a blogosfera também nos surpreende pela positiva. Foi no seu blogue que li uma escrita intimista que não cabe na limitação de amarras formais. Não vou falar sobre os seus textos e a sua tertúlia poética, porque pessoas credenciadas já o fizeram, apenas ressaltar a recorrência de temas do amor carnal, do desejo e do silêncio – usuais representativos do sincretismo entre o físico e o transcendente, como ainda sublinhar a importância do corpo que em Quintans não é um amontoado de impulsos nervosos, e sim a porta por onde é externada a inspiração. Uma linguagem caracterizada por um sensualismo muitas vezes erótico e palavras honestas sem pudor.

São assim os pontos de vista de Maria Quintans: incomuns e fortes, como assim parece ser também a sua personalidade. Na escritora e na mulher o que se sobressai é um sentimento de intensa liberdade, que alça a sua condição criativa acima de tudo e de todos.

O Bandida é um dos melhores blogues de cariz literário, uma espécie de cabaret da palavra (com a boémia de braço dado e um cigarro nos lábios ao canto do sorriso e servido de whisky sem gelo, música, fumo, noites perdidas, amantes, amores interditos, aqui ou ali uma lágrima, ternura, tristeza, cansaços e fracassos, excessos e poetas, e Léo Ferré como mestre-de-cerimónias).

Uma menção também para as ilustrações do João Concha, que são belíssimas e que confortam na exacta medida as palavras complexas e estonteantes da loba escritora que diz usar um turbante de mágoa.

É ela que refere que as palavras são fêmeas
É ela que desabafa a necessidade de alugar um sonho
Foi ela que escreveu num post
“um dia hei-de miar à lua. ou então não digo nada.”

Bonito o que escreve….perturbador o que se sente.

Obrigado, Maria
Bem-haja João Concha.

Sunday, September 21, 2008

soltar o olhar...

Roland Barthes
Uma cidade que tem em finais de Setembro tardes de Agosto só pode fazer felizes os seus visitantes. Um domingo ameno em Lisboa, com o sol a expor-se no rio e uma bebida num terraço, eis-me caído do céu. Se junto ao terraço existe uma diversidade de escritores que também desenham então é ouro sobre azul. De George Sand a Bernard Heidsieck, do romantismo à poesia sonora, passando pelos surrealistas, até à "beat generation", representada, entre outros, por Jack Kerouac e William Burroughs... Para a execução da mostra patente em Belém, o Institut Mémoires de L´Édition Contemporaine encontrou no seu arquivo de manuscritos aqueles que contêm desenhos por entre os textos, mas também descobriu guaches, gravuras e colagens. Em Desenhos de Escritores são vistos desde pequenos esboços que cobrem o rodapé de um manuscrito, como no caso de Stendhal, até desenhos que cobrem páginas inteiras, como Victor Hugo, que criou imagens fantasmagóricas, ou Baudelaire, mais entregue à caricatura.

André Breton, Apollinaire, Antonin Artaud, Charles Cros, Christian Dotremont, Dino Buzzati, Guy de Maupassant, Günter Grass, Henri Michaux, Henry Miller, Jacques Audiberti, Jean Cocteau, Jacques Prévert, Jean Gent, Max Jacob, Marcel Proust, Michel Butor, Paul Valéry, René Char, Rimbaud como também os portugueses Almada Negreiros e Ana Hatherly, são ilustrados ou ilustram-se a si próprios exibindo uma linguagem artística menos conhecida.

Sempre considerei que um comentário a uma obra só é admissível como um capricho, e raras vezes me atrevi a fazê-lo. Tal como João Lobo Antunes, a propósito dos desenhos de Júlio Pomar para Guerra e Paz, também eu fujo do papel de critico de arte, da descodificação sociológica ou psicanalítica, das exegeses excêntricas que esticam pelos cabelos da inteligência; tento soltar o olhar, deixá-lo voar sem a inquietação de adicionar algo ao que observo. E foi com este espírito descomprometido que neste aprazível dia de domingo me perdi no Museu Colecção Berardo e me embeveci com os talentos ocultos de alguns dos maiores nomes da literatura contemporânea mundial…

Wednesday, September 17, 2008

a magia de Perahia...

Não sou um especialista da obra de Murray Perahia, pianista e maestro possuidor de um currículo difícil de desafiar e que faz parte de uma elite artística consagrada. Aliás não me julgo perito do trabalho de quem quer que seja. Mas ultimamente tenho sido um ouvinte cúmplice e fascinado com a destreza do prestidigitador músico nova-iorquino, que consegue transformar o lenço que oferece ao ouvinte para estancar a emoção numa pomba em voo livre tirada da manga metafórica dos seus truques musicais. E como com todos os ilusionistas, nunca me pareceu sensato procurar autopsiar os enredos da arte mágica, bastando-me observar (e escutar), com cúmplice fascínio, que de magia se tratava. Assim, tenho-me simplesmente abandonado ao som sedutor das partitas 2, 3 e 4 de Bach e a vida toda ela parece deslizar de forma mais serena...

Sunday, September 07, 2008

a perda da inocência...

The Line of Beauty. Vi a mini-série da BBC quando estreou em Portugal. Li o livro de Alan Hollinghurst quando chegou às nossas livrarias. Revi hoje a série em DVD. Impossível não recordar Brideshead Revisited, de Evelyn Waugh. Uma surpreendente viagem ao interior do sofisticado mundo da elite inglesa que agrega emoção, drama e crítica. Trabalho extraordinariamente adaptado do romance que ganhou o Booker Prize em 2004, o mais valorizado prémio literário na Grã-Bretanha. Uma história passada nos hedonistas anos 80 e que atinge um conjunto de indivíduos bem estabelecidos na vida. A Linha de Beleza decorre entre duas eleições de Thatcher, época de conflito e mudança, num mundo voraz que é o dos yuppies dos anos 80. Vivem-se impetuosos tempos onde a ganância é canonizada. A vida de um jovem que se altera quando aceita passar uma temporada em casa de um seu colega, objecto da sua paixão, pertencente a uma família politicamente poderosa em Kensington Gardens. Nick Guest, esteta genuíno, é movido por algo bem diferente mas perfilha e é perfilhado pela excêntrica casta de Toby, com quem embarca nos vícios da década: poder, sexo e cocaína; e a sua estadia na casa de Notting Hill parece prolongar-se indefinidamente. São tempos inebriantes ajustados ao ritmo vertiginoso das festas e das viagens e à amoral sensação de nada ser vedado. Tudo parece possível; a decadência nunca fora tão excitante. Mas esta interminável busca da auto-satisfação tem um custo elevado, e Nick apercebe-se tardiamente desse facto.

Emocionalmente denso, desarmantemente burlesco. O mote é reiterado nas letras britânicas, a ilusão da ascensão social e a perda da inocência. Abordado em estilo complexo, com profusão de pormenores e diálogos bem arquitectados, o livro/a série remetem para uma tradição literária rica, para nomes como E. M. Forster, Somerset Maugham ou o muito citado Henry James, autor que é manifestamente uma paixão da personagem principal. O livro não fica aquém do que compuseram estes soberanos da literatura, está apinhado de sátira e de vida, de desassossego e de charme, também de uma violenta franqueza. O objecto da avidez social é entrelaçado com temas, como a arte, a arrogância, a escala de valores, a morte, o ideal da beleza.

A Linha da Beleza exibe a impiedade do amor. Apontamentos de promiscuidade a par dos passeios pelos solares requintados, onde as suas personagens divagam sobre literatura, música, pintura ou teatro. O que se dissimula é desvendado em todo o seu horror. A história converge numa catástrofe, que pressentimos desde o início. O destino é inevitável e o amor, bem como e o sucesso, não passa de fantasia. Um testemunho forte, consistente e polémico. Um livro, uma série, um depoimento que ficam na (minha) memória…

Sunday, August 10, 2008

New York revisited...

(Lewis Hine, Lunch Break, 1932)

Instalado em frente ao Carnegie Hall a estadia em Nova Iorque soou-me a música celestial. Mas o que rabiscar acerca de uma cidade sobre a qual já foi tudo dito? Nada de diferente. Ou tudo, pois Nova Iorque renova-se a cada momento. É uma onda de luzes, cores, odores, barulho e gente, uma metrópole multicultural e multiétnica onde tudo pode acontecer. Seria redundante averbar aqui tudo o que há para ver – guias há muitos e um único post não comporta toda a arquitectura e escultura públicas, todos os centros culturais, todos os museus e galerias de arte, todas as ruas e avenidas e todos os parques. Do elitista Upper East Side ao revigorado Theater District, passando pelo MeatPacking, o bairro da moda, aos distintos hotéis de artistas, quase todas as esquinas (e recantos) de Nova Iorque são matéria para uma curta/média/longa-metragem. Não vou dissertar acerca do tempo que passei em terras nova iorquinas, gostaria apenas de me centrar em alguns momentos e lugares: no Lincoln Center for the Performing Arts; no Museum of Modern Art (MoMA); no Metropolitan Museum of Art e nos palcos da (e off) Broadway. Ao regressar a Nova Iorque, a principal dificuldade é decidir o que fazer: dos célebres ícones da maior cidade dos Estados Unidos à diversidade e carácter de cada um dos cinco distritos da grande metrópole (Bronx, Brooklyn, Manhattan, Queens e Staten Island), a escolha é tão esmagadoramente vasta que talvez o melhor seja reconhecer que não se pode abarcar tudo e simplesmente fruir do facto de ali estar e de poder respirar a atmosfera enérgica e a surpreendente força da cidade. Nova Iorque exerce uma pujante atracção e já se me tornaram familiares os seus impressionantes museus, as artérias congestionadas, a movimentada Chinatown, a Grand Central Terminal, célebre estação de comboios que foi cenário de um beijo entre o fugitivo Gregory Peck e Ingrid Bergman no Spellbound de Hitchcock, o American Museum of Natural History, maior museu de história natural do mundo, os teatros da Broadway, da off (e da off off), os terraços com magníficas vistas sobre a cidade, a livraria Barnes & Noble, a New York Public Library, uma das principais bibliotecas públicas do mundo, os clubes de jazz de Greenwich Village ou as atracções do Central Park, entre outros lugares. Contudo, o maior prodígio da Big Apple é provavelmente a população multicultural que garante a identidade da cidade, mantendo-a viva 24 horas por dia com a sua gama de matizes, estilos de vida, costumes e tradições, assimetrias e, necessariamente, conflitualidades. Não será, pois, de estranhar que se falem perto de 170 idiomas ou que tenha sido berço de múltiplos movimentos culturais em todas as áreas. Mesmo depois do golpe desferido pelos atentados, Nova Iorque mantém uma coreografia única; a city that never sleeps oferece praticamente tudo o que eu posso imaginar nos meus sonhos mais inverosímeis. E, embora possa permanecer semanas em Nova Iorque e apenas consiga vislumbrar aspectos superficiais da metrópole, há experiências e locais que não consinto perder.

Nova Iorque é surpreendente. Porquê? Não sei, diria que é uma questão de chama e que qualquer apreciação racional viria a despropósito. Foi entusiasmado que me senti na primeira visita e repete-se a paixão quando ali regresso. Nova Iorque é um work in progress, caótica, barulhenta e poluída, não tem a imponência aristocrática de Paris, a beleza, a cor e a história de Roma, o mistério das cidades escandinavas, o civismo de Viena ou a luminosidade de Lisboa. Também não tem grandes monumentos, nem edifícios seculares e não é propriamente acolhedora. E, no entanto, a sua energia cultural seduz e vicia. Talvez sejam as luzes que ofuscam, a veemência electrizante que se vive nas suas vias, a rapidez com que tudo se passa, o turbilhão de gente, a sensação de poder, de que ali tudo pode acontecer. Tentadora, a "maçã" atrai, deixa saboreá-la e depois aprisiona. Há quem compare a cidade a uma serpente cujo olhar nos seduz. Depois, prende para sempre. Mas não será esse o segredo e fascino de uma paixão?

Ao aterrar de olhos bem abertos em Times Square julgo que estou dentro do Blade Runner, a observar a paisagem nocturna e, entre a multidão que passa, o meu olhar dirige-se em direcção às luzes e aos cartazes publicitários coloridos da Broadway. Pareço um recém-chegado tal a expressão de espanto, mas também pouco importa porque é impossível ficar indiferente ao espectáculo, como se estivesse no palco do mundo, um lugar essencial onde tudo se passa ao mesmo tempo e tudo se vê. Edifícios todo-poderosos, o glamour do néon que ilumina a noite escura, várias músicas de fundo, um cowboy sem roupa, mas de guitarra em punho, um baterista à procura do sucesso, um homem travestido de noiva, o vendedor da Gray Line New York Sightseeing em delírio por mais uma venda de bilhetes, sirenes da polícia, o ronco do metropolitano e o rumor da respiração simultânea de milhões de pessoas...

Em dia meteorologicamente ciclotimico, entre trovoadas e sol abrasador, refugio-me no Gerald Schoenfeld Theatre, curiosamente a mesma sala onde há três anos assisti a uma peça de Edward Albee, com Kathleen Turner em Who´s Afraid of Virginia Woolf? Mas é à noitinha que me delicio numa das maiores instituições de música erudita do mundo: Lincoln Center/ Avery Fisher Hall e o seu Mostly Mozart Festival. Obviamente que não posso comparar o Chorus Line ou o Gypsy (que vi com agrado e o coração apertado devido ao talento da Patti Lupone, naquela espécie de King Lear do musical) com a voz da cantora lírica alemã Christiane Oelze e a batuta de Louis Langrée. Só mesmo eu que esquizofrenicamente troco um punhado de dólares por um espectáculo em qualquer sítio, desde um vão de escada a uma sala imperial, salto de registo em registo. Psicanálise exige-se, ou talvez não, que se lixe. Sou extraordinariamente feliz numa plateia, embora cada vez mais severo…E a propósito de exigência caminho para ruas fora dos grandes holofotes onde encontro Titus Andronicus, uma peça fora de qualquer chancela comercial num teatro gerido à laia de Woody Allen chamado The Archlight Theatre. Ali o texto é sério – ao contrário do que escreveu T.S.Eliot, “One of the stupidest and most uninspired plays ever written” –, interpretações cuidadas, cadeiras rotas, palco desnudado, o vizinho do lado descalço, um homem que me pede para guardar o lugar enquanto sai por uns instantes, ainda que a sala esteja vazia, dois negros na fila da frente de mãos dadas, a senhora da bilheteira com a vozinha irritantemente fina, a visão independente do teatro em todo o seu esplendor e o público em menor número que o elenco. Não sei se melhor que a Cornucópia (refiro-me à adaptação que a Companhia de Luís Miguel Cintra fez daquela peça de Shakespeare), não, claro que não, mas decididamente diferente da maioria do que se faz cá e lá. E foi, igualmente, com chuva torrencial que fui brindado à saída deste curioso teatro da 152 West 71st Street.

Além do teatro (de algum teatro, cada vez mais off Broadway) os territórios museológicos assumem a minha preferência. Nova Iorque possui muitos tipos de museus, suportados por uma prática mecenática corrente. O Metropolitan Museum of Art é o maior museu dos Estados Unidos e exibe actualmente a maior retrospectiva dos últimos 40 anos sobre Turner, a qual se converteu num acontecimento cultural na cidade. Para a ocasião, reuniram-se cerca de 150 obras, 85 das quais procedentes da Tate Britain, onde se guarda uma grande parte do denominado Turner Bequest, um conjunto de aproximadamente 100 óleos cedidos pelo artista à Grã-Bretanha e entre os quais se encontram alguns dos seus trabalhos mais relevantes. Esta mostra que agora pude contemplar no MET, com a qual se desenha um percurso completo por toda a produção de Turner, de forma cronológica e temática, divide-se em dez deslumbrante partes e por elas inquieto me perdi …

Muitos museus especializaram-se, como o Museum of Modern Art e o controverso Guggenheim Museum, de Frank Lloyd Wright. E imperdoável seria se lá não voltasse. O MoMA mostra como Salvador Dali se intoxicou e se deixou contaminar pelo cinema: “Estou em Hollywood, onde entrei em contacto com os três surrealistas americanos, Harpo Marx, Walt Disney e Cecil B. DeMille. Acredito tê-los intoxicado e que as possibilidades para o surrealismo aqui se tornem uma realidade.” Na carta endereçada a André Breton, Dalí afirmava sua afinidade com três dos maiores ícones do cinema americano comercial. Dali que de forma brilhante interage com lagostas e línguas gigantes foi convidado pelos grandes estúdios a desenhar sequências oníricas de realizadores como Fritz Lang e Hitchcock. O pintor armazenou muito da visão vanguardista e “alucinógena” que marcou a sua pintura e a sua estreia no cinema em parceria com Luis Buñuel. Essa fertilização mútua entre cinema e pintura é o tema da interessante exposição Dali: painting and film.

Em velocidade de cruzeiro revisitei a gigantesca concha branca que é o Guggenheim e dei conta que Louise Bourgeois ali habita por uns meses. A construção da artista plástica é uma triunfante afirmação da existência iluminada pela libido. Nessa obra biográfica e erotizada, transformar materiais em arte é uma conversão física. Esta destreza retira a mulher da sombra da história da arte. Depois de Bourgeois, o universo artístico já não será de mulheres no mundo dos homens, nem têm de falar aí a linguagem dos homens, mas tornar presente o seu próprio desejo. Namorei o catálogo, folhei-o atentamente e adiei a aquisição.

Nova Iorque, sexta-feira à tarde. Despeço-me da cidade com um Blackberry Lemonade bebido apressadamente num bar de hotel da 7th Avenue…


P.S - Não resisti e numa sala de cinema da Broadway assisti à adaptação da obra-prima de Evelyn Waugh: Brideshead Revisited. Não comparo com o livro, nem com a série e antes de ler qualquer critica mergulhei nos anos 20 e acompanhei Charles Ryder e Sebastian Flyte. Não obstante tudo o que se venha a ser dito a propósito e presumo que não seja pouco posso confessar que saboreei esta outra visão da obra.

Thursday, July 31, 2008

transformar o olhar…

(Mark Rothko, Underground Fantasy, 1940)

Em anos e anos de sócio do Circulo dos Leitores nunca adquiri nada a não ser livros. Parece-me ser esse o objectivo primordial de tal “instituição”. No entanto, as regras são para transgredir e não resisti ao DVD The Power of Art, a conceituada série da BBC, que elege oito nomes incontornáveis do mundo da arte: Caravaggio, Bernini, Rembrandt, David, Turner, Van Gogh, Picasso e Rothko. Estes cavalheiros que viveram fortes dramas pessoais foram meus convidados ao pequeno-almoço nesta primeira manhã longe da 5 de Outubro. Acordei cedíssimo para me maravilhar com os mestres e não obstante eu divergir em alguns aspectos de Simon Schama, o historiador de arte sabe do que fala. O académico acompanha Caravaggio até à execução de "David com a cabeça de Golias", os conflitos de Bernini diante de "O êxtase de Santa Teresa", Rembrandt e a "Conspiração de Claudius Civilis”; David e "A morte de Marat"; Turner diante de "Navios negreiros atirando borda fora os mortos e moribundos"; Van Gogh e o seu "Campo de trigo com corvos", Picasso e "Guernica" e por fim Mark Rothko e a suíte de telas feitas para o Seagram Building. Um documentário de culto que conjuga empolgantes reconstituições e imagens deslumbrantes. Um olhar sobre o poder dos artistas que produzem obras-primas em períodos de crise extrema e que mudaram o nosso modo de olhar situando a arte no centro de grandes momentos da história da humanidade. Combinando uma composição dramática com o estilo narrativo personalizado do autor britânico, O Poder da Arte transporta-nos para os intensos momentos em que as grandes obras de arte foram idealizadas e criadas e embrenha-nos em sítios onde apenas a arte pode ir. Os dramas pessoais de cada artista são desenvolvidos de forma cativante e sem ardis teóricos supérfluos. O Poder da Arte é a hipótese de testemunhar o poder dos indivíduos que alteraram a forma de viver o mundo.

E assim, eu, mero mortal, perante estas grandes representações artísticas que agarram pelo colarinho, sem misericórdia, preparo-me para regressar amanhã a Nova Iorque onde espero vagabundear por territórios museológicos e afins …

Tuesday, July 29, 2008

o livro como uma viagem…


But I who have criss-crossed the globe
being, as it were, doubly cognizant,
remain at heart a deluded peasant
whom my sufferings have not ennobled.

—From “Julga-me a gente toda por perdido”

“Collected Lyric Poems of Luís de Camões” acaba de ser publicada nos Estados Unidos, numa tradução do académico Landeg White. A obra tem carimbo da reconhecida Princeton University Press, que assinalou tratar-se da primeira colectânea em inglês da poesia lírica desta figura cimeira da língua e da literatura portuguesas. Para a editora, a lírica de Camões é bastante para o poeta ser colocado entre os grandes, mesmo se nunca tivesse escrito “Os Lusíadas”: “Luís de Camões é célebre em todo o mundo como o autor da grande épica do Renascimento, 'Os Lusíadas', mas a sua enorme e igualmente grande obra de poesia lírica é praticamente ignorada fora do seu país”; "Camões foi o primeiro grande artista europeu a atravessar o hemisfério sul e a sua poesia é marcada por quase duas décadas passadas no norte e leste de África, Golfo Pérsico, Índia e Macau. Desde uma elegia em Marrocos a um hino escrito no Cabo Guardafui na ponta norte da Somália, até aos primeiros poemas modernos de amor a uma mulher não europeia, essa lírica reflecte os encontros de Camões com lugares e povos radicalmente desconhecidos", lê-se ainda. A antologia está organizada de acordo com as viagens do poeta renascentista, “o que permite a leitura do livro como uma viagem”. A nota refere Richard Howard, editor da série Lockert Library of Poetry in Translation, como tendo afirmado que a antologia agora publicada é "a treasure! This book makes available for the first time in English a unique body of Renaissance poetry and a great classic of Western literature”.

Li a brilhante introdução de Landeg White aqui. E só posso acrescentar que venero a pena do Príncipe dos Poetas e o que escreve e sofre. Em Camões arrebata-me a ideia que passa de que o amor só vale a pena quando é complexo, e contraditório…

Sunday, July 27, 2008

de olhos abertos na vida de Adriano...

Com o título " Hadrian: The man behind the wall", a edição do The Independent (cf. 10 July 2008) refere-se a Hadrian Empire and Conflict – exposição do British Museum – e a um lado mais intimo do imperador Publius Aelius Traianus Hadrianus (esta exibição tem sido alvo de enorme interesse por parte da comunicação social, mormente a portuguesa – ver artigo do Público, de 25/07/08, “No livro de Marguerite Yourcenar, entrávamos na morte de Adriano de olhos abertos. Agora entramos de olhos abertos na vida dele …). A notícia, apesar de destacar a mostra, faz referência ao contexto geopolítico contemporâneo. Assim, ao descrever o ilustre sucessor de Trajano, salienta que ele não foi apenas mais um, mas o governante supremo romano que exigiu o regresso dos seus soldados da Mesopotâmia. Além disso, o artigo recorda que ele foi o primeiro imperador romano a assumir de forma inequívoca a sua homossexualidade.

A exposição, que reúne pela primeira vez objectos de arte do “imperador ambulante” espalhados por 31 museus, ambiciona conquistar o interesse do público para a peculiar história de vida do Pontifex Maximus. Como é sabido Adriano retirou as suas tropas do actual Iraque e mandou reforçar as fronteiras do império através da construção de fortificações contínuas, entre as quais, a Muralha de Adriano, demarcando a fronteira entre a Escócia e a Inglaterra actuais. A "era de paz" concedida por Adriano poderá então ser apreciada através de duas centenas de tesouros antigos, muitos dos quais nunca tinham sido apresentados em terras de Sua Majestade. Mas diversos artefactos da exposição referem-se ao seu amante, "o belo jovem grego Antínoo" (afogado no Nilo em circunstâncias suspeitas), que o acompanhava nas suas viagens pelo império. Entre eles, um poema escrito sobre papiro descrevendo dois homens caçando juntos. Aqui não resisto fazer a ponte com o Adriano, de Yourcenar, e lembrar que o imperador lastima que a memória dos homens seja um cemitério abandonado, onde jazem, sem honra, os que deixámos de amar. O Adriano, da romancista belga, reclama o direito de chorar, sem fim e sem limites, o seu jovem morto. Em sua memória espalhou pelos quatro cantos do Império uma profusão de estátuas de Antinoos, para que a beleza fria do mármore comunicasse a todos que o não esquecia nem cessava a sua dor. A tanto excesso, os seus contemporâneos e, mais tarde, os historiadores, chamariam de cegueira. Mas Adriano chamava-lhe fidelidade e doía-lha a incompreensão. “Sinto que à minha volta todos se incomodam com a minha dor. Toda a dor prolongada insulta o seu esquecimento”.

Uma primeira leitura levaria a considerar que a homossexualidade expressa do grande conquistador representaria um atractivo para o público, na medida que abateria um cliché segundo o qual os magnificentes imperadores da antiguidade seriam exemplos de masculinidade. Contudo, os ingleses têm dado testemunho do crescente descontentamento com a permanência de seus soldados no Iraque discutindo a necessidade de serem mantidas tropas no território ocupado. Seja qual for a intenção subjacente aos curadores daquele descomunal museu secular (provavelmente as duas enunciadas) o que é relevante é a oportunidade de se conhecer o importante legado de uma clássica personagem histórica cujo império ainda afecta as nossas vidas …

Hadrian Empire and Conflict (clicar para ver vídeo)

Friday, July 25, 2008

amor alquímico…

O amor comove-me. E não estou a pensar no bem-querer universal do "amai-vos uns aos outros". Falo do adormecer tendo no coração “uma prece pelo bem amado, e na boca, um canto de louvor”. E isto a propósito de “Vieira da Silva, Arpad Szenes e o Castelo Surrealista", título da exposição patente no Museu da Electricidade. Obras de Arpad que ilustram a sua mulher, acompanhadas por frases de Mário Cesariny. As palavras do surrealista guiam-nos no labirinto da relação entre o casal, uma afinidade que o poeta qualifica de "amor alquímico”. Arpad além de húngaro era também judeu, o que provocou a sua fuga à perseguição nazi, para Portugal, durante a segunda guerra e foi por este homem de cabelos ruivos que Maria Helena se apaixonou. Menina portuguesa, vulnerável e melancólica, que se deslumbra em Paris com a agitação da capital francesa num período rico na partilha de ideias por parte de artistas plásticos, escritores, músicos e bailarinos. É muito singular a história de vida dos dois, oficialmente apátridas. São comoventes os gestos de ternura que partilham, um par ainda bem que diferente. A cumplicidade de dois pintores que não cabe numa exposição mas cujas imagens nos beijam. Uma perspectiva pessoal, intimista, onde Vieira da Silva é retratada pelo seu apaixonado. São mais de 40 desenhos de diversas épocas, a pastel, grafite e guache e a maioria deles integram o ciclo "Le couple" arquitectado ao longo dos tempos pelo artista. Mas a pintura não pede autorização para entrar e são vários os trabalhos a óleo de Arpad sobre Vieira. Da pintora também irrompem duas obras, com o mesmo tema e título: Arpad. Para melhor se mergulhar na vida e na obra dos dois talentos são exibidas fotografias que se reportam aos anos entre 40 e 80 e ainda alguns objectos que estiveram arrecadados durante épocas no atelier do casal. As frases que agora estão lado a lado, com as obras, resultam de um acompanhamento amiudado que Cesariny foi fazendo ao trabalho de ambos, dando origem a um deleitoso estudo. Em Arpad e Vieira, Cesariny desvendou um exemplar caso "amour fou", fundamentando o conteúdo e o nome Castelo Surrealista que inventou para eles viverem e trabalharem.

Quando contemplo Arpad abraçando Maria Helena é de ouro a paisagem que nasce e quase dói…

Wednesday, July 23, 2008

o pecado não mora só do lado de lá…

(Pablo Picasso, L'enfant à la colombe, 1901)

Emaranhado numa teia de indecisões, o insólito “caso” Madeleine McCann chega ao fim, com o epílogo previsto: o arquivamento do processo judicial, não obstante o furor mediático e a ritmada investigação criminal, os testemunhos dos mirones, ávidos por espectáculo e por dramas, gente curiosa, não por interesse sociológico ou antropológico, mas pelo prazer notoriamente voyeur de um povo que aprecia “espreitar” aflições em cativeiro, já para não assinalar esse equivoco conhecido por segredo de justiça e que amamentou, qual galinha dos ovos de oiro, a comunicação social. Jornais e cadeias de televisão travestidos em abutres-do-velho-mundo ou em indústrias funerárias, sustentam-se do sofrimento alheio e o “caso” Maddy, apesar das discrepâncias mediáticas, não é estruturalmente divergente de outros incidentes que sucedem no país (e no mundo) com crianças indefesas, desaparecidas e exploradas sexualmente. O que mais restam, agora, são perplexidades – e custa a aceitar como as instituições se arredam do acontecimento (deste e de muitos outros) como se o pecado apenas morasse ao lado. O “caso”, este tipo de “casos”, não pode ser arquivado…

Saturday, July 19, 2008

gente com medo...

Apocalipse em terras de Vera Cruz. Um país em guerra, há muitos anos – principalmente nos grandes centros urbanos. A Guerra das Drogas acontece desde que os traficantes conquistaram poder e construíram um império nas favelas do país. Mas se não fosse o comércio, os corsários do negócio estariam assaltando, sequestrando e assassinando em qualquer outro lugar. E a sociedade néscia considera que é bastante reprimir o tráfico. Enquanto o poder politico, e as instituições em geral, não proporcionar opções à criminalidade, as guerras urbanas vão continuar bestializando os homens - e no conflito vale tudo! Como bem reproduz este filme contado em português... Tropa de Elite é uma obra que descreve o violento quotidiano, retrato da falência do humanitarismo sob interesses ambiciosos e egoístas e é realista porque mostra o lado humano das personagens – que têm medo, que sofrem de stress, de arrependimento, que são pessoas, afinal. Também expõe o tumulto do poder público – a corrupção da polícia militar, os interesses políticos, a lei da selva de pedra, que são as colossais metrópoles. As mais famosas favelas são as do Rio de Janeiro, onde contrastam fortemente com os prédios e mansões da elite da Zona Sul, convivendo lado-a-lado e configurando paisagens que desafiam a lógica social. Ao contrário da estética cinematográfica americana, Tropa de Elite não exibe heróis – qualquer ser humano numa guerra metamorfoseia-se em assassino, arquiva os escrúpulos no baú mais próximo. É um cenário atroz – de acção, tensão e drama – mas é um produto corajoso que emociona e perturba e serve como um alerta (quantos mais serão necessários?) para que o mundo acorde; para que a colectividade entenda que não basta ser contra a violência (não basta vestirmo-nos de branco e fazer videoclips apelando à paz...); é necessário que se consagrem oportunidades diferentes da criminalidade; é forçoso que se ofereça outros valores, aqueles que o dinheiro não pode nunca alcançar. Ainda que em tarde quente de Verão, valeu a pena atravessar a ponte e digerir este sobressaltado filme, com interpretações notáveis e um guião dolorosamente transparente. E vale a pena pensar que este tipo de violência – à sua escala – já vai habitando em terras ditas de brandos costumes...

Friday, July 18, 2008

seu nome é Liberdade...


There is no easy walk to freedom anywhere, and many of us will have to pass through the valley of the shadow of death again and again before we reach the mountaintop of our desires.

Faz hoje noventa anos Nelson Mandela. Passou tempo excessivo até que, enclausurado e coagido ao silêncio, pudesse contar a sua história e a vida do seu povo. Only free men can negotiate; prisoners cannot enter into contracts. Your freedom and mine cannot be separated. Um homem enorme, um grande político. Um dos superiores vultos da história contemporânea. São os povos, colectivamente, que alteram a vida, mas é inegável que alguns homens e mulheres contribuem determinadamente para lhe inflectir o rumo. Mandela ficará pelo tempo adiante como um desses seres excepcionais. Alguém que respira respeitabilidade e possui traços de fineza aristocrática, que só os maiores conseguem preservar. I learned that courage was not the absence of fear, but the triumph over it. The brave man is not he who does not feel afraid, but he who conquers that fear. Um dos grandes lideres morais e políticos cuja vida exemplar inteiramente consagrada à afirmação da dignidade e à luta contra a opressão racial na África do Sul lhe valeu o Prémio Nobel da Paz e a presidência do seu país. Education is the most powerful weapon which you can use to change the world. Desde a sua libertação em 1990, após mais de um quarto de século de prisão, Mandela passou a estar no centro do drama político mais deslumbrante e inspirador do mundo. Pense-se o que se pensar das suas ideias, não é possível fazer a crónica do nosso tempo sem ter em conta a sua poderosa personalidade. If you talk to a man in a language he understands, that goes to his head. If you talk to him in his language, that goes to his heart. Numa sociedade onde é mais difícil desintegrar um preconceito do que um átomo, como evocava Einstein, Nelson Mandela afirmou-se como um rochedo no combate pelos direitos humanos.

When you let your own light shine, you unconsciously give others permission to do the same.

Parabéns, Mandela!

Sunday, July 13, 2008

la divina sobre Lisboa…

(Callas, in Norma, 1965)

Maria Callas em Lisboa. O vestido que usou na "Tosca" de Zeffirelli e que esteve nos palcos das grandes óperas como Covent Garden, a Ópera National de Paris e a Metropolitan Opera House de Nova Iorque e as cartas que trocou com Pasolini ou Béjart são alguns dos detalhes que povoam a exposição. Em 1958, a mais trágica das divas actuou no Teatro Nacional de São Carlos. Faz este ano cinquenta anos que a cantora pisou pela primeira e única vez um palco português. Foi em 27 de Março. A prima-donna que estava no seu auge e acabara de protagonizar um escândalo ao deixar o teatro, em Roma, no fim do primeiro acto da "Norma", temia a reacção do público lisboeta, considerado exigente. A boa sociedade de Lisboa compareceu em peso. Entre eles o Presidente Craveiro Lopes e mulher, o Rei Humberto II e a sua filha, princesa Maria Gabriela de Sabóia, e altas figuras do regime. Relatam as crónicas que Maria Callas cantou maravilhosamente "A Traviata", com Alfredo Kraus e com os portugueses Maria Cristina de Castro e o baixo Álvaro Malta, em início de carreira. Para comemorar os 50 anos da sua visita ao nosso país, a Fundação EDP e o São Carlos organizaram "Maria Callas - A Exposição de Lisboa", que reúne 43 vestidos, de cena e pessoais, a sua colecção de jóias (que inclui a coroa de "Norma" criada por Christian Dior) e diversos documentos, como as últimas cartas que Callas escreveu a Onassis (na altura, já comprometido com Jackie Kennedy). Para além destes objectos, pertencentes à colecção de Bruno Tosi, Presidente da Associazione Internazionale "Maria Callas", a exposição apresenta ainda um núcleo dedicado à passagem da cantora por Lisboa - os cenários do Acto II, expostos agora ao público pela primeira vez desde 1958, fotografias inéditas, recortes de imprensa ou, por exemplo, o programa de sala autografado. A exposição contempla também pequenas cabines onde são exibidos filmes sobre a cantora e no final há uma espécie de refúgio para se escutar a voz do soprano. Uma excursão sobre o mito: da sua ascensão até ao firmamento das dive assolute. Precocemente a baptizaram de La Divina. A divina que um dia baixou sobre a cidade das sete colinas para largar Violettas. Senti-me afortunado naquele ambiente operático e quando saí do museu, curiosamente da electricidade, é como se as luzes, todas elas, se tivessem apagado…

Ler texto da Crónica Feminina aqui.

Saturday, July 12, 2008

estrada de viver...

(Pablo Picasso, A família de saltimbancos, 1905, National Gallery of Art, Washington)

O pensamento da morte engana-nos, pois faz-nos esquecer de viver
Luc de Clapiers Vauvenargues

Hoje fui visitado pelos meus sobrinhos mais novos, filhos do meu irmão mais velho. Há uns anos as ciências médicas detectaram uma doença grave a este meu irmão e deram-lhe meses de vida. Tinha saído de uma separação, a mulher ausenta-se e deixa-lhe três filhos crianças e um enteado adolescente a cargo (filho dela, de uma anterior relação) e entregue a uma doença letal. Ao chegar a casa tinha uma mensagem no gravador, daquelas que causam medo, em que o corpo todo estremece, os dedos insistem em tremer e a língua fica presa entre os dentes: uma médica que de forma desafectada informa da gravidade do assunto e de que nada há a fazer. Eram poucos, mas muito poucos, os instantes de vida, diz-me em retorno de chamada. As frases são económicas e deixam-me ao desamparo – uma ex-docente de uma conceituada faculdade de medicina, como duvidar? Sem saber como agir e atender as lágrimas, como ser prático face à condenação, científica, irrevogável, pronunciada pelos especialistas de saúde? Uma notícia desta natureza deixa-nos desabrigados. A morte de um familiar próximo é, sem dúvida, uma das questões que mais pode ferir, por demasiado atroz. Passaram talvez 11 anos e aí aparece ele - hoje - em minha casa, com os seus filhos mais novos, mais três. Uma nova companheira. Uma outra existência. Os filhos mais velhos nas suas ocupações, mas perto dele. Quem pensa que pode dizer a última palavra? Quem tem a presunção de mandar mais do que o destino? Quem tem a veleidade de confundir sinceridade/pragmatismo com brutalidade? Só um politico como o príncipe Metternich pode afirmar “L’ erreur n´a jamais approché de mon esprit”. Depois de um atestado de óbito, somam-se três filhos a outros três, três rapazes, três raparigas, uma outra mulher, uma nova casa, uma cidade diferente, um universo alterado, uma vida refeita…

Friday, July 11, 2008

fragmentos de fim de dia…

(Paul Klee, Highways and Byways, 1929
Ludwig Museum, Cologn)

3.ª feira. Jazz no agradável Jardim do Goethe-Institut. O Verão convida e o Instituto Alemão é um excelente destino: o Jazz im Goethe Garten estreou esta edição com o trompetista Gast Waltzing, compositor de mais de 150 bandas-sonoras. De formação clássica e fundador do ensino do jazz no Conservatório do Luxemburgo, concretiza a sua visão do jazz – eclética e eléctrica – condimentado com mundos diversos. Ouvir 60 minutos de música jazz ao final da tarde acreditem que garante uma boa noite de sono. 4.ª feira. Uma coreografia radiofónica no centro da cidade de Lisboa. O Teatro Ligna de Hamburgo, responsável por um programa original no âmbito da rádio interactiva, associou-se à Antena 2 apresentando uma narrativa em torno de episódios históricos representados ao vivo. O evento contou com a intervenção de duzentos participantes numa onda de bailado colectivo. A iniciativa “À Procura da Revolução Perdida” evocou o 25 de Abril e a euforia revolucionária, mas também a impetuosidade consumista. A narrativa foi conduzida pela actriz Carmen Dolores. Quem passou pela Rua Augusta, entre as 18.00 e as 19.00, levou seguramente algum tempo a perceber que o misterioso fenómeno que observavam não se tratava de um caso de transe colectivo. Um rádio com auscultador, para ouvir a voz de comando, uma máquina fotográfica, para guardar alguns instantes, uma esteira e uma flor. O resto era o desejo de ir "à procura da revolução perdida". O meu núcleo familiar restrito ali assentou arraiais e participou descontraído nesta encenação. 5.ª feira. Jorge de Sena. O poeta e ensaísta falecido há 30 anos foi celebrado no Teatro Nacional de S. Carlos, numa sessão organizada pela Fundação José Saramago e destinada a reavivar a memória e a obra de um grande autor quase esquecido. "Jorge de Sena não teve o reconhecimento que merecia e hoje em dia os seus livros são difíceis de encontrar nas livrarias", lembrou alguém. Perante uma audiência que encheu o Salão Nobre do TNSC, Saramago justificou a escolha de Sena para a sessão intitulada «Um Regresso»: «É um grande poeta, um grande escritor, uma grande cabeça e um grande coração». Além do Nobel português, foi bom escutar Eduardo Lourenço exercendo um profundo fascínio e sempre surpreendendo pela capacidade de ser portador de um olhar inquietante. O programa incluiu ainda um recital de António Rosado e a leitura de poemas por Jorge Vaz de Carvalho. Apetece-me pegar nas palavras de António Mega Ferreira, também presente: "Leiam-no e amem-no!"
Quanto de ti, Amor...
Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre -
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego -
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte -
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor que nos traiu -
Quanta traição existe em possuir-se a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro -
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará -
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só -
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na ausência indestrutível que
nos faz ser um no outro -
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida -
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam -
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.
Jorge de Sena
in Visão Perpétua
E assim a vida vai deslizando noite fora…

Sunday, July 06, 2008

o tempo de um dia…

Tanta gente na rua, sábado à tarde em Vila Franca de Xira, esplanadas cheias, gente e gente a cavaquear. Neste primeiro fim-de-semana de Julho, apanho de surpresa uma terra que comemora, engalanada, o Colete Encarnado. Uma ode ao campo e ao campino, que recebe todos quanto a queiram viver. Corridas e esperas de toiros e concertos são alguns dos momentos vibrantes de que me apercebi estarem a acontecer. Mas foi por acaso que ali fui parar, a intenção era mais do foro museológico. A ideia era perder-me no Museu do Neo-Realismo, que não conhecia. O neo-realismo português com as suas influências; por um lado o neo-realismo literário, em que Alves Redol e Manuel da Fonseca foram determinantes; e por outro, os movimentos artísticos da América do Sul: o muralismo mexicano, com as obras de Orozco, Rivera e Siqueiros, e a obra de Portinari. O fundamento do neo-realismo era a ideia de que a arte deve "exprimir a realidade viva e humana de uma época", "exprimir actualmente uma tendência histórica progressista", tendo em conta que "formas novas podem ter um significado velho" e "formas velhas - ainda que excepcionalmente - podem conter um significado moderno e progressista." Isto era o que advogava Álvaro Cunhal nas páginas de O Diabo, nos finais da década de trinta do século passado. Muitos dos intelectuais neo-realistas eram comunistas, mas outros não, eram simplesmente artistas que viviam numa ditadura e sentiam a necessidade de expressar a sua revolta.

O museu exibe um vasto conjunto de colecções, com destaque para os espólios doados, entre literários, artísticos e editoriais, arquivos documentais, acervos iconográficos. Não é muito pacífica a realidade que evoca (ler a propósito artigo de Alexandre Pomar). Quando comentei a intenção de o visitar um amigo meu reagiu logo dizendo que aquilo era uma homenagem a um movimento que conseguiu associar mau gosto estético com a promoção do totalitarismo. Não consigo subscrever por inteiro tal parecer. Surpreenderam-me trabalhos que nunca vira e arrebatou-me parar junto de Júlio Pomar (aliás o grande impulso para me deslocar a terras Vilafranquenses). Tinha que visitar este espaço até porque é mais uma peça de um puzzle necessária para entender a história recente deste País que foi apelidado, por alguém com currículo, de Portugal amordaçado.

Na auto-estrada de regresso, o meu espírito viaja por entre aquela tão diversa gente que habita o museu (nem todos bons, mas muitos ansiando um mundo melhor) …
Chego de Vila Franca e aterro no Chiado. Clima festivo no largo de São Carlos. A Orquestra Sinfónica Portuguesa juntou alguns dos mais conhecidos compositores americanos e recriou ali as suas melodias. A iniciativa foi cognominada de "Música ao largo", e, na noite de ontem, a iniciativa respondeu por "Bernstein & friends". Para além do Senhor West Side Story, ouviram-se composições de Copland, Barber, Morton Gould e Gershhwin e participaram o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, Ana Paula Russo e Elvira Ferreira (sopranos), João Rodrigues e João Miguel Queirós (tenores), João de Oliveira (baixo) e António Rosado (piano). A direcção musical foi assinada por David Levi. E eu aplaudo. Noite agradável de Verão e largo a abarrotar. Tudo isto a lembrar os Proms londrinos e tudo isto sem a necessidade de se pagar. Christoph Dammann importa-se de repetir, por favor, ainda que com reportórios mais exigentes?

Wednesday, July 02, 2008

confissões do trapeiro...

“Vou contar-te uma coisa: quando tinha 23 anos tinha terminado a universidade, estudei medicina, e puseram-me numa unidade de pediatria de crianças que estavam a morrer, de doenças terminais. Enamorei-me de um menino de quatro anos doente de cancro que se chamava José Francisco, que era muito bonito, tinha uma alegria de viver incrível mas morreu. Quando num hospital morre um adulto, vêm dois homens com uma maca e levam-no para a morgue coberto com um lençol. Mas este menino era apenas uma criança, veio um homem com um lençol e carregou-o debaixo do braço. Eu estava na porta da enfermaria num corredor grande e vi o homem a levar o menino, e um dos seus pés saiu do lençol e ia balançando. Pensei: "escrevo para este pé". Ainda hoje penso que escrevo para aquele pé” *

Lá fui eu a correr até ao Atrium Saldanha, palco para a apresentação da obra Entrevistas com António Lobo Antunes - 1979-2007 - confissões do trapeiro. Até pode acontecer que este psiquiatra que não queria ser médico seja um homem complicado, irascível, vaidoso, blasé, enfant-terrible, pouco dado à confidência, obsessivo, ter uma escrita densa, exigir esforço de leitura (na esteira de James Joyce ou de Faulkner), mas não consigo ficar indiferente à diversidade linguística do autor de Tratado das Paixões da Alma, Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, Que Farei Quando Tudo Arde, Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, Eu Hei-de Amar uma Pedra, Ontem Não te Vi em Babilónia, O Meu Nome É Legião (adopta sempre títulos belíssimos). Mas o livro que mais me sensibilizou foi O Manual dos Inquisidores. Li-o enroscado num sofá e sofri com tudo aquilo. Não me peçam para explicar os seus livros, porque é algo que não consigo, seria insolência da minha parte, até porque nem sei mesmo se os alcanço no seu todo. Só sei que estou atento a tudo o que lhe sai da pena e a outras escritas que se debruçam acerca deste escritor incontornável do romance contemporâneo. Logo, esta colecção de “conversas” (53)**, editada pela Almedina, não podia deixar-me apático. Através das entrevistas compiladas por uma professora de Literatura Portuguesa encontra-se a evolução do romancista no seu posicionamento em relação à vida, à religião, à literatura, à critica... Na introdução que escreveu, "Dos trapos e do trapeiro" - sendo os trapos o romance e o trapeiro o romancista -, a docente da Universidade de Coimbra acentua que "de um modo ou de outro, os textos apresentados se traduzem em lugar privilegiado de onde se pode observar e conhecer o outro lado da imagem do escritor". Ao ouvir falar do romancista (pelas bocas de Carlos Reis, autor do prefácio, e de Ana Paula Arnaut, autora da compilação) fico com a sensação de que estaria ali noite fora…

“Fazem-me falta uns 200 anos, porque sentes que tens dentro de ti muitos livros e não vais ter tempo de fazê-los. Isso faz-me sentir indignação, por exemplo, provoca-me indignação que Schubert tivesse morrido com 29 anos, ou que Mozart aos 36. Nunca sabes quando será o dia, se será muito tarde, ou mais cedo. Tudo é tão rápido, tudo se passa com tanta rapidez. A gente diz que depois dos trinta o tempo passa muito rápido, mas isso é porque os adultos têm sempre a mesma vida, saem de casa e todos os dias é o mesmo, por isso a impressão de que tudo passa com mais rapidez”*

*citações da edição on-line de La Jornada/Ericka Montaño Garfias [não contempladas na presente obra] 26 Novembro 2006 [traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

**Rodrigues da Silva, José Jorge Letria, Clara Ferreira Alves, Baptista-Bastos, Inês Pedrosa, Miguel Sousa Tavares, Francisco José Viegas, Alexandra Lucas Coelho e Adelino Gomes são alguns dos entrevistadores de António Lobo Antunes entre 1979 e 2007.

Sunday, June 29, 2008

o povo das estrelas...

(foto de Valter Ventura)

“Contra a opinião pública dominante, consensualmente ciganófoba, procederemos à crítica científica da essencialização de uma «cultura nómada», supostamente imoral e parasitária, inventada para melhor marginalizar milhares de portugueses a quem continuam a ser recusadas as oportunidades que a Constituição prevê para todos os portugueses sem distinção, e preocupar-nos-emos com a falta de memória histórica e democrática de políticos, governantes, intelectuais, educadores e eclesiásticos acerca da perseguição sistemática feita a esta minoria”. In O Povo das Estrelas nas Festas de Lisboa 2008.

Em tarde de domingo quente perdi-me entre ciganos. Rotas & Rituais é um conjunto de iniciativas que se centra nesta gente. Confesso que sempre tive uma atracção (antropológica, sociológica, ou outra) por estares e sentires diferentes, sendo que incluo os ciganos neste tabuleiro de interesses. Mas o que encontro amiúde são concepções que se foram cristalizando sob a feição de estereótipos: um certo romantismo ou temor (cf. culturas ciganas). A mundividência cigana caracteriza-se pela sua "identidade de resistência", conceptualmente construída na relação com o outro (o paílho, i.é, o não cigano) mas políticas de inclusão que conhecemos insistem na assimilação. São politicamente correctas, mais eficazes, supostamente mais igualitárias e o cigano é recompensado pelo seu enfileiramento: permitem que os filhos ingressem na escola e consequentemente auferem rendimentos mínimos. Isto é, o(s) Estado(s) tende(m) a varrer os aspectos culturais e fazer emergir os ciganos como um problema social, tornando-se necessário "integrá-los". Revelam "desajustamentos sociais" quando se pretende inclui-los, razão pela qual as políticas de inclusão consideram a necessidade de os inserir no espaço social dominante e desprezar o seu território cultural e étnico. Estes artifícios tendem a construir um cigano que não o é de facto, mas como é necessário que seja. Esses portugueses com quem nos cruzamos há gerações e que continuamos a considerar diferentes e são singulares, de facto, têm ainda muito para revelar, sendo necessário haver um esforço (mútuo) para que sejam aceites “as riquezas humanas e espirituais das quais os ciganos são portadores” (in agência.ecclesia.pt/).
(foto de Renato Monteiro)

As exposições que percorri entre o Padrão dos Descobrimentos e o Cinema S. Jorge contribuem para a produção de um "discurso" que valoriza um olhar acerca da etnicidade cigana: “Ciganos na Cidade”, de Valter Ventura [como ponto de partida desta “amostra” vivencial, cabe perguntar: Será que as reminiscências de um passado, com experiência de organização espacial em tenda, se repercutem na vida de hoje? Será que o facto de algumas famílias ciganas se terem, em parte, constituído temporariamente como habitantes de bairros de barracas veio a produzir marcas que se verificam, são reais e perduram? Como aproveita e organiza o cigano o novo espaço em que se insere? (…) /Fernanda Reis], e uma mostra de trajes femininos ciganos [lenço na cabeça, xaile, saia comprida, rodada ou de pregas finas, saiotes brancos com rendas na ponta e um grande bolso para guardar dinheiro ou outros pertences, são características dos trajes típicos das mulheres ciganas. Por sua vez, o homem cigano opta por tons escuros, onde o fato e o chapéu preto e as longas barbas estão associadas ao sofrimento e à sabedoria] e “Ciganos do Sul”, mostra de fotografia de Renato Monteiro. Uma interessante viagem neste final de tarde lisboeta…

Saturday, June 28, 2008

Jessye a sós com a vida…

(foto retirada da net)

Ontem à noite, depois de chegar do Palácio da Fronteira, onde os Amigos da Fundação das Casas de Fronteira e Alorna e Fernando Mascarenhas convidam para uma mostra de colares, tive a felicidade de apreciar uma outra espécie de jóia: o documentário sobre uma das maiores divas de sempre, a norte-americana Jessye Norman. Um olhar profundo acerca da sua vida pessoal e profissional. Realizado por André Heller, o “retrato” intercala depoimentos do soprano acerca da sua infância, receios, maestros e orquestras, politica, a arte de cantar. Jessye Norman possui um repertório operático dos mais raros e fascinantes, que inclui as obras de Berlioz, Meyerbeer, Stravinsky, Poulenc, Schoenberg, Janácek, Bartók, Rameau, Wagner e Richard Strauss. Trata-se de um registo extraordinário, no qual, para além de se ouvir uma intérprete portentosa cantar excertos tão diversos como o perturbador lamento de Dido do Dido and Aeneas de Purcell, o Beim Schlafengehen de Strauss, o Liebestod do Tristan und Isolde de Wagner ou mesmo La Marseillaise por ocasião da comemoração dos 200 anos da queda da Bastilha, entre grandes êxitos do seu repertório e tudo isto com fantásticos cenários em pano de fundo – o deslumbrante jardim de Yves Sain Laurent em Marrakech proporciona o luxuriante cenário tropical – pode-se ter a ideia da mulher por trás do mito. É curioso ouvir esta negra com aquele sulco na face esquerda, que parece o atalho abandonado por uma lágrima e com uma longa carreira a confessar que sente mais receio que nunca ao viajar pelo mundo dado o estado actual da política mundial. Que tem medo de ser pessoalmente responsabilizada pelas acções do seu governo pelo simples facto de ter nascido nos Estados Unidos. Que não consegue conceber como é que o Governo eleito de uma nação soberana pode dar mais importância ao que dois adultos fazem com consentimento mútuo dentro das paredes do seu quarto do que à destruição e morte de outras nações. Que gostava de entender o pensamento por trás do racismo. Conversa fascinante em sede de atmosfera íntima. Excelente...

A ouvir com deleite aqui!!!

Thursday, June 26, 2008

Pessoa com queda de mulher por dentro…

(imagem retirada da net)

Pessoa é o poeta que se desmultiplica na figura de prodigiosos heterónimos e semi-heterónimos, dando feição a uma complexidade de pensamentos, saberes e apreensões. Nunca será demais recordar que a palavra pessoa contém em si o simbolismo do desdobramento imaginário e que é das máscaras de teatro dos actores clássicos que nasce a palavra persona, origem etimológica de pessoa. A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão estritamente literária, tem empolgado as atenções. Mas o que de certo sabemos é que a genialidade de Fernando Pessoa é desproporcionadamente grande para caber em um só poeta. Como bem o sintetizou o seu heterónimo mais atormentado, Álvaro de Campos: "Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas, Quanto mais personalidades eu tiver, Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver, Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas, Quanto mais unificadamente diverso, dispersamente atento, Estiver, sentir, viver, for, Mais possuirei a existência total do universo, Mais completo serei pelo espaço inteiro fora." O escritor passou a sua vida a experimentar máscaras, a disfarçar-se com a pele dos que observava e a ocultar-se assim aos olhos de todos (ver, entre muitos e muitos outros, o texto A heteronímia, incluído no site da Casa Fernando Pessoa). De tantas peles que vestiu, usou por uma vez a de uma rapariga, Maria José: uma deficiente de 19 anos agrilhoada no seu corpo e inibida de atrair o amor; uma mulher que ao ver passar o mundo da sua janela também ela sonha ser outra, ser como os demais, como ela imagina que são os outros. Em seu nome Pessoa escreveu uma carta:

Senhor António:
O senhor nunca há de ver esta carta, nem eu a hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.
O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.
O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gostasse das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.
Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.
Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter — e agora menos que nem vida tenho — gostava de saber tudo.
Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isso, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.
Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim, para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.
Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu às vezes me envergonho de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.
Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.
Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.
Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é e não como tinha vontade de ser.
O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.
Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.
A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vêm, valha me Deus.
O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.
Aí tem e estou toda a chorar.

("Carta da Corcunda para o Serralheiro", Revista Egoísta, Junho 2008)

Na semana que Lisboa debate o feminismo e a sua história, não deixa de ser oportuno comemorar uma mulher que viveu dentro do poeta Pessoa…

Tuesday, June 24, 2008

mulheres ao espelho…

(Titian [Tiziano Vecellio], La Femme au miroir, c. 1514, Musée du Louvre, Paris)
A rádio ainda é uma companhia. Ás vezes desperto ou adormeço ao som da arte que toca, na 94.2. Ao domingo, pelas 10 horas, passa Um Certo Olhar. O último programa terminou com Aldina Duarte, não a cantar, mas a dizer Maria do Rosário Pedreira, a última faixa de “Mulheres ao Espelho”:

Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

De “O Canto do Vento nos Ciprestes”, Gótica, 2001

Vale a pena inaugurar assim o dia. Uma voz suave a habitar um belíssimo poema.
*
* *
À noitinha acontece estacionar nos poucos canais culturais televisivos. Não me queixo, o televisor não tem que ser uma prioridade. Mas domingo à noite e esgotados outros cenários sintonizo o Câmara Clara que convoca uma espécie de conversa sobre mulheres. Pergunta se seria o mundo melhor se as descendentes de Eva povoassem os centros de decisão? A historiadora Irene Pimentel e o escritor e rebelde Rui Zink não têm certezas. Têm a convicção de que se impõe igualdade de oportunidades no acesso aos centros de decisão. Principio que subscrevo, sem qualquer reserva. Em vésperas do Congresso Feminista, a ocorrer na Gulbenkian, oito décadas depois de se ter realizado o último congresso em Portugal, o programa recordou a história do feminismo no nosso país, passando pela Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, por mulheres como Adelaide Cabete, Carolina Beatriz Angelo, Judite Teixeira, Maria Lamas, Maria Antónia Palla, Madalena Barbosa, as três Marias (com testemunho de Isabel Barreno). Citou as figuras de Margaret Thatcher, Hillary Clinton, Ségolène Royal e a nova presidente do PSD. Mencionou, ainda, George Sand, Virginia Woolf, Simone de Beauvoir (e, o célebre aforismo: "Não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres"), Antónia San Juan, as mulheres de Almodôvar (o realizador que melhor trata o sexo feminino) e Tarantino, e, até, a discípula mais devota de Jesus Cristo, Maria Madalena, ou não fosse Zink um dos convidados.

Num momento em que se fala de feminismos e do poder das mulheres foi oportuna a referência final à excelente Betty Davis, em Jezebel, a Insubmissa, um dos filmes da minha vida.

Assim, a televisão pode ser um preservativo contra a imbecilidade…

Monday, June 23, 2008

um blog que seja meu…

(Caravaggio, Narciso, c. 1597, Palazzo Barberini, Roma)
*
Não se trata de viver noutro planeta, mas a verdade é que, quando estou a escrever, a minha vida muda por completo. Encontro uma razão, um motivo e uma direcção.
António Lobo Antunes, Visão, 2007

Talvez porque tenha prazer em comunicar me ponha a escrever. Muitas vezes é porque me angustiam algumas realidades; outras porque me enfeitiçam as palavras dos livros, os versos dos meus poetas de todas as horas, certas pinturas, algumas fotos, determinadas músicas (como resistir a "Mon coeur s'ouvre a ta voix" e não partilhar essa sensação?), os mistérios do teatro (a mais intensa de todas as formas artísticas), a magia da dança, os filmes de autor, as ruas, ruelas e becos quando nelas me perco, as esplanadas de Lisboa, cidade que incita a “esplanar” durante quase o ano inteiro, acantoadas nos bairros antigos, em espaços abertos ao Tejo ou como autênticos oásis no meio da capital que lateja. Tal como Jorge Silva Melo, “gosto de manter na frase o ondulado da fala, de pontuar respirações, de acrescentar adjectivos, serpentear pela semântica, que finjo fácil e queria valsejante, ou dançando breve slow.” (in TOut, 2008). Quando escrevo penso apenas em exorcizar sensações, descrevê-las, vivê-las. Simpatizo com Jean Cocteau quando diz que escrever é batermo-nos com tinta para nos fazermos compreender. Mas como confessa Lobo Antunes: [escrever] “Dá um trabalho do caraças! Despentear a prosa de maneira que aquilo seja feito como uma diarreia” (in JL, 1983).

A blog of one’s own (uma graça a propósito de Virgínia Woolf). Mas é assim que sinto este canto: um blog que seja meu. Um registo (quase) cronológico, actualizado de opiniões, emoções, episódios de vida, ou qualquer outro tipo de conteúdo que queira compartilhar. Umas vezes uma espécie de diário virtual, mas que pode ser muito mais do que isso. Depende apenas e só do que queira que ele seja. Um blog pode ser um pequeno cofre com palavras e com sabedoria que, com sorte, pode ficar com quem o lê algum tempo, permitindo sentir que as palavras adquirem uma espécie de asas. Um blogger é uma pessoa curiosa. Muitas vezes em contradição ou em contra-senso. Mas é, também, psicanalista: ouve muito. Um blogger é o desconhecido, é a noite, é pardacento, é assim. No fundo, um autor de um blogue é de certa forma um ladrão, um rapinador de sentimentos, de imagens, de citações. Um post é sempre feito de acanhados furtos com a vantagem de não sermos castigados.

Faz dois anos este Infinito Pessoal, onde gosto de rabiscar sem compromisso, em busca de quê a não ser de afecto?

Friday, June 20, 2008

as lágrimas amargas de Abel...

(Edward Munch)
Em cumprimento ao desafio que me foi proposto pelo João Carlos, aqui deixo o meu “fragmento” para a continuação da saga (é necessário consultar os seis anteriores contributos para a história, pelo que basta clicar aqui).

Um dia, cai ao chão, apodrecido, e sente que ela lhe faz falta.
Sensação pavorosa. Sentir a perda de alguém. Olhar à volta e não entender a ausência. Dias partidos um a um. Dói-lhe nas veias. Antes sofrer a raiva e o sarcasmo. A saudade é bastante! Renova a decoração do apartamento e esconde as fotos, mas não. Não adianta. Sente a solidão percorrer-lhe a espinha. Dorme mal, passa metade da noite de olhos abertos, no escuro, como quem começa a exercitar-se para a morte. Horas insuportáveis. Sofreu muito, esteve quase ás portas da morte, ora se sentindo destruído, ora rejuvenescido a seu lado, em cada espasmo junto dela. Mas nem por um só momento arrependido. Sabe que ela não é perfeita…mas com ela aconteceu um Outono dourado, entre lábios e lábios toda a melodia era deles, uma vida em grande, intensa, e um mundo de aparato. Tem que viajar. A belíssima Vila que há tanto ansiava por conhecer, acolhe-o com requinte. Nas brumas dos atalhos por onde anda roçam olhares de enternecimento, que espreitam a sua angústia rouca de viajante nocturno, ou, numa circunspecta provocação, o seduzem, esgares femininos que soltam cirúrgicos recados. À noite, a música ecoa na margem do rio, saboreiam-se canções de cabaret ao abrigo da chama colorida dos candeeiros, o vinho tem travo adocicado, de um verde pálido, como um lago antes da tempestade e há amantes que dançam. Nestes lugares imersos, de toques e archotes, há sempre um banco num recinto, e alguém de conversa delicada. Acorda entre braços de mulheres, desgrenhado, em quartos com vista para a dor. Mas o que é deveras real é que ela partiu sem aviso para um qualquer lugar. Onde procurar? E se a encontrar, o que perguntar?
Luís Galego
Passo agora o testemunho à Jasmim, a primeira mulher a ser convocada, para dar continuidade ao enredo.

Wednesday, June 18, 2008

livros, disse ela…

(imagem retirada da net)

Foi um mágico final de tarde passado no número 16 da Rua Coelho da Rocha. Persuadido por aquela voz inconfundível da rádio e do pequeno ecrã, acostumei-me a aceder à intimidade do seu universo e dos seus entrevistados. Mas desta vez foi a própria, regressada da bela Sicília, a contar aquilo que vem promovendo o seu eterno namoro com a leitura, os livros que foram e continuam a ser preciosos para a sua existência, as obras que a marcaram e que ainda a fazem estremecer. Maria Joao Seixas (MJS), mulher que integra a Ordem daqueles que habitam as palavras, foi a desafiada de Os Livros que não Esqueci (2.ª edição a que assisto), na Casa Fernando Pessoa. Quando escuto alguém que estimo falar dos livros que marcaram a sua vida sinto-me convidado a entrar inesperadamente na sua torre de marfim e aí encontrar preciosidades que também me pertencem. Algumas das obras que foram aludidas por esta descendente de Sherazade são peças belíssimas: As Mil e Uma Noites (cereja em cima bolo); Nós Matámos o Cão Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana; Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; Odisseia, de Homero; Antígona, de Sófocles; A Apologia de Sócrates, de Platão; Os Cadernos de Malte Laurids Bridge, de Rilke; A Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar; As Palmeiras Bravas, de W. Faulkner; O Poema Contínuo, de Herberto Hélder; Genji Monogatari, de 紫 式部. Quase noite e ainda viajava na lírica de Camões, na poesia do gaúcho Mário Quintana, nas comarcas literárias de Clarice Lispector e Yourcenar e já na última estação o bilhete é validado pelo Isto de Pessoa…

Nesta rota de livros e afectos, Maria João disse ainda com enorme sensibilidade Carlos Drummond de Andrade:

Era manhã de setembro
e
ela me beijava o membro

Aviões e nuvens passavam
coros negros rebramiam
ela me beijava o membro

O meu tempo de menino
o meu tempo ainda futuro
cruzados floriam junto

Ela me beijava o membro

Um passarinho cantava,
bem dentro da árvore, dentro
da terra, de mim, da morte

Morte e primavera em rama
disputavam-se na água clara
água que dobrava a sede

Ela me beijava o membro

Tudo que eu tivera sido
quanto me fora defeso
já não formava sentido

Somente a rosda crispada
o talo ardente, uma flama
aquele êxtase na grama

Ela a me beijar o membro

Dos beijos era o mais casto


Interessante seria que a MJS, ela própria, se aventurasse pelos territórios da ficção.


Bem sei que o tempo não é elástico e que a pilha de romances e afins que chegam às minhas livrarias preferidas (incluindo as virtuais) já me olha de soslaio. Destaco algumas das obras inscritas na minha lista de espera: Pais e Filhos, do russo Turgueniev [já na mesinha de cabeceira], Praça de Londres, de Lídia Jorge, Venenos de Deus, Remédios do Diabo, de Mia Couto, Night Train to Lisbon, de Pascal Mercier ou tão diferentes como a biografia da Hillary Clinton, a A Patagónia, do viajante Bruce Chatwin, a escrita pungente de Etty Hillesum - letters from Westerbork, a prosa do poeta Alexandre O’ Neill, em Já Cá Não Está Quem Falou ou mesmo icons of Jazz, de Dave Gelly. Mas não perdem por esperar. E, que venham mais e mais para me inquietar o espírito…).

Sunday, June 15, 2008

à noite logo se vê...

Vincent van Gogh, The Starry Night 1889.
The Museum of Modern Art, New York.
noite labiríntica/5.ª
Saio tarde do ministério. Corro para Alfama. Encontro marcado junto ao Museu do Fado. Nos Santos Populares, Alfama assume-se como um dos bairros com maior tradição nesta disputa alfacinha. Há exagerada alegria, mas não é a melhor época para compreender o bairro e interiorizar o seu espírito. É impraticável andar por aqui, tal a enchente que toma por completo o bairro de assalto. Não há pátio que não tenha uma banca com cervejas, sangrias, sardinhas a assar e milhares de pessoas em fila de espera. Aguardei mesa com a perseverança que a noite de Santo António exige. Para não falar dos bailaricos, onde os autóctones se amalgamam com o resto da cidade num convívio entusiasmado. Labiríntico, este castiço bairro conserva uma áurea peculiar, carregada de fado, marchas populares, histórias de marinheiros e uma arquitectura singular. Em circunstâncias comuns não é difícil perder-me [sou um homem desorientado, de facto]. Numa noite destas é até muito provável desaparecer no meio deste bairro que tem uma geografia única. São becos, ruas, ruelas e vielas que se articulam entre si ligados por lances de escadas de calçada que batem os desníveis da encosta. E é neste sobe e desce que se vai avançado à descoberta de um mundo descoincidente das avenidas e dos centros comerciais. Afinal, uma espécie de carnaval bairrista no desfecho cálido da Primavera.
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noite de teatro/
Na noite de todas as superstições vou picar o ponto ao teatro. Um inventor concebe um motor que funciona a água. Acredita ter descoberto a passagem para a fama e ambiciona viver numa casa de campo com a irmã invisual. Mas os grandes interesses económicos, tal abutres, salivam pelo invento. Um Conto Americano - The Water Engine, escrito para teatro radiofónico, mas adaptado ao cinema e à arte de Talma. No Teatro D. Maria II. A peça do norte-americano David Mamet coloca questões ambientais como a carência de recursos naturais e a urgência de apostar nas energias renováveis. O dramaturgo leva a reflectir acerca dos agentes financeiros e a forma como se sobrepõem ao progresso da ciência. Um indivíduo convence-se, ao criar um motor que usa água por combustível, que resolverá os problemas energéticos e terá toda a gente a fazer-lhe a devida vénia. Equivoca-se por desconhecer os efeitos de sustentar uma utopia, por não calcular a robustez dos interesses opostos e por desprezar a discrepância entre justiça e verdade. Ainda que na América. Não obstante Roosevelt. Mesmo no território do progresso, o sonho americano de um inventor pode constituir uma tragédia.

Como é seu costume, David Mamet não economiza na descrição da falsidade das relações sociais e cultiva com sageza carrasca as antinomias entre as várias forças presentes no capitalismo, através de argumentos eficazes e diálogos entusiásticos. Contudo determinadas situações surgem no Dona Maria, numa sala quase deserta [dói-me ver um teatro vazio], como se cozinhadas em lume brando, menos belicosas do que era expectável…Ainda assim, não lamento nada ter-me perdido à noite naquela encenação, mas abominei que o público não morasse ali.

Do Rossio para o Dafundo, fui mascar Mamet e as consequências do capitalismo para casa de TC&PF, espécie de botequim, onde faz todo o sentido discutir tudo e não debater nada.
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a minha noite com Aleksandra/sábado
Depois de deixar a minha mãe e o meu filho entregues ao Michael Patrick King e à sua longa-metragem Sex and the City (sim, a minha progenitora e o J.) rumo à Av. Frei Miguel Contreiras, onde me espera algo de novo. Última sessão de uma noite quente. Aleksandr Sokurov materializa um sonho e torna Galina Visnevskaya, a lendária cantora de ópera russa, numa protagonista. A cantora/actriz é Aleksandra, uma avó que decide visitar o neto, um oficial colocado na frente russa da Chechénia. Aqui, encontra um mundo de homens onde sensibilidade é uma palavra expurgada do dicionário. Os dias sucedem sem que um transporte mais emoção ao outro e a cada instante decide-se sobre a vida e a morte. É, pois, na descoberta desse outro mundo que o filme se coloca diante o olhar de uma velha senhora. Um filme com uma vigilância inquietante face ao real, um olhar pelas cores e pelos odores que se experimentam naquele microcosmos de batalha. Uma obra antropológica, numa óptica humanista onde o que importa é que as personagens sejam autênticas, que sintam o esgotamento nas pernas, o frio na espinha, o desespero no rosto e a inquietação que o filme manifesta.

Vale a pena sublinhar que o filme foi rodado na própria Chechénia. Enfim, há um saber claro de que aquela guerra infindável é um sinal infame para a consciência mundial. Ao seu género, o realizador apresenta as feridas que essa guerra já provocou. No lado checheno, mas igualmente no lado dos soldados russos. Porque o conflito transforma inevitavelmente todos os que estão envolvidos nele. Saí do King algo constrangido pela realidade, mas saciado pela beleza das imagens, competência das interpretações e impressionabilidade dos olhares …
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à noite com uma diseuse/domingo
Acabo de ver e ouvir, no Câmara Clara, uma entrevista com Germana Tânger. Admirável mulher esta, agora com 88 anos e muitas histórias para contar. Mora numa casa ao lado daquela onde nasceu Fernando Pessoa. Os poetas do Orfeu foram os que mais disse na sua longa vida de divulgadora infatigável da poesia. Conheceu bem Teixeira de Pascoaes, foi íntima de Almada Negreiros e Sarah Afonso, e privou com José Régio, Jorge de Sena, Nemésio, Maria Helena Vieira da Silva e Sophia de Mello Breyner. Dedicou mais de 50 anos a dizer poesia portuguesa pelos quatro cantos do mundo. Na semana em que se comemoram os 120 anos do nascimento do poeta Pessoa foi agradável escutar a diseuse numa conversa sobre poesia, Pessoa e Portugal. Terna ficou a noite ao ouvir a mestre da arte de bem dizer:

....No mar, no mar, no mar, no mar,
Eh! pôr no mar, ao vento, às vagas,
A minha vida!....

Álvaro de Campos

Tuesday, June 10, 2008

tão só um dia...

Um filme.
Un homme perdu. "O filme encontra a sua origem na minha relação particular com o meu país, o Líbano. Eu vivo em França e depois de uns anos e com o tempo, tive a impressão de perder a visão do país de onde eu venho, como um barco que desaparece no horizonte. Como se a minha vida não fosse nem aqui, nem lá. É esta a razão pela qual eu quero contar a história de dois homens e não de um só. (...) Acabam por ser a frente e o verso de um só. Um árabe e um ocidental que se perdem, desaparecem, reaparecem... e que finalmente se esquecem de onde vêm" (Danielle Arbid.). Um fotógrafo francês palmilha a terra em busca de experiências extremas. Na Jordânia, o seu caminho cruza-se com o de um homem misterioso, em fuga há anos, não se sabe do quê. O fotógrafo vai tentar desenterrar a sua história e persiste em viajar com ele, num périplo pelo Oriente que atravessa a Síria, a Jordânia e o Líbano, um universo recheado de riscos e interdições. Em Un Homme Perdu a realizadora dá robustez ao anseio de fuga, usando-se para esse efeito do retrato dos dois viajantes. Rejeitando o facilitismo do bilhete-postal turístico, esta longa-metragem oferece a oportunidade de mergulhar na atmosfera estranha de uma cidade desconhecida, cheia de fronteiras suspeitas, armadilhas e de bizarros refúgios. É explorado esse desejo de liberdade e a violência que lhe está subjacente. Crónica de duas personagens – uma amizade particular de dois esfolados vivos que se alimentam um do outro, como os vampiros – que procuram um lugar no mundo, mas que guardam dentro de si uma revolta brutal, não negociável…

Um livro.
Miguel Esteves Cardoso (MEC) numa crónica em que disserta sobre o primeiro amor parece suspirar ao escrever que “(…) o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós”. Já Padre António Vieira sustentava “Questão curiosa nesta Filosofia, qual seja mais precioso e de maiores quilates: se o primeiro amor, ou o segundo? Ao primeiro ninguém pode negar que é o primogénito do coração, o morgado dos afectos, a flor do desejo, e as primícias da vontade. Contudo, eu reconheço grandes vantagens no amor segundo. O primeiro é bisonho, o segundo é experimentado; o primeiro é aprendiz, o segundo é mestre: o primeiro pode ser ímpeto, o segundo não pode ser senão amor. Enfim, o segundo amor, porque é segundo, é confirmação e ratificação do primeiro, e por isso não simples amor, senão duplicado, e amor sobre amor. É verdade que o primeiro amor é o primogénito do coração; porém a vontade sempre livre não tem os seus bens vinculados. Seja o primeiro, mas não por isso o maior” (ver Padre António Vieira, in "Sermões”). A última edição da Time Out/Lisboa questionava se existem assuntos intemporais? O amor é um desses temas e, felizmente, há quem saiba compor sobre ele de forma singular. Alguns artesãos da escrita dão cartas nessa empreitada. Essa é a virtude da obra de um dos mais perspicazes autores russos. Refiro-me a Ivan Turguénev, escritor de primeira água, e àquele que foi um dos últimos livros que escreveu: O Primeiro Amor. Turguénev viveu um dos mais afamados casos de amor da época com a cantora de ópera de nacionalidade espanhola Pauline Garcia Viardot. O relacionamento entre ambos prolongou-se até à velhice, com o consentimento e a cumplicidade do marido da solista. Turguénev descreve em O Primeiro Amor, a descoberta afectiva de um mancebo de 16 anos. Novela com pouco mais de cem páginas, contada na primeira pessoa, dá a dimensão tão trágica quanto feliz de uma iniciação. “Foi no Verão de 1833, tinha eu dezasseis anos”, começa a contar Vladímir Petróvitch naquele que é uma exposição dirigida a um grupo de amigos. O autor, neste belo livro, vem comprovar que não há cânones no que ao (primeiro) amor diz respeito. Se fosse possível ser gerido, ser pressentido, ser agendado, ser reflectido, não seria primeiro. A única fórmula é: não pensar, não resistir, não desconfiar. Voltando a MEC também comungo da opinião que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. Não levou a parte nenhuma. O primeiro amor deveria ser o primeiro e esquecer-se, mas toda a gente sabe, durante o primeiro amor ou depois, que é sempre o último…

Um dia
Um único dia abre-me as portas para outros mundos, permite-me transitar por atalhos diversos, perder-me no labiríntico de um enredo formado por palavras e imagens. Quando termino o livro ou saio da sala de cinema fico diferente. Quando leio a última página ou quando as luzes da sala se acendem sinto que me apetece andarilhar novamente pelas páginas e revisitar as imagens para descobrir novos caminhos, diferentes sentidos, outras experiências ou repetir toda aquela agitação de sentimentos e lutas interiores entre o lógico e o ilógico e tudo o que circula pelo meio. Através da leitura, das imagens e dos sons descubro que existe um mundo que se cria e recria. Este é o poder da arte, o poder de falar da natureza humana, de forma exemplar e inextinguível. Mergulhar nas artes é como o círculo de Ana Hatherly, muito oportunamente citado por Ana Catarina M. Ferreira (in Ulisses, o texto magnificamente infinito: A odisseia de editar um texto proteico):

“(...)

Nele se inclui todo o mistério

E toda a sapiência é o que está feito,

Perfeito e determinado,

É o que principia

No que está acabado.”

É verdade que alguns dos meus dias me transportam para Ulisses, obra-prima da literatura. Catalogações desta natureza são feitas acerca de várias obras, mas a realidade é que o livro de Joyce marcou de forma indelével o mundo das letras, tornando-se numa das “catedrais da arte literária moderna e influenciando a produção escrita de muitos escritores desde então” (Ana Catarina M. Ferreira). Num desses dias abalroei na sala 2 do King onde consenti que Danielle Arbid me contasse a história de um homem perdido; li aos bochechos o livro do russo Turguénev (enquanto esperava que a sessão começasse; no carro, enquanto L. conduzia e em casa ao som de Katia Kabanova de Léos Janacek, pela London Philharmonic Orchestra). No átrio do cinema cruzo-me com V. (com quem não falava, seguramente, há mais de oito anos), agora recuperada de queda quase fatal relata-me o dia que apressada para um lançamento de Lobo Antunes no S. Luiz se estraçalhou toda, tombando de umas escadas, numa cena digna de um filme de Wes Craven. Venceu, felizmente, embora com a consciência que as bibliotecárias também se abatem. Mas esse dia apinhado de neologismos, palavras-valises, doutas citações, ironias e trocadilhos ainda me levou ao hospital (autentico teatro operático, onde não faltam tenores, contratenores, sopranos, misérias e lágrimas; onde nem sequer escasseiam Toscas cantando angustiadas a sua “Vissi d’arte”, ou Otellos nos seus “Niun mi tema”, vendo as suas Desdemona mortas......por suas mãos!) para visitar R., mãe de uma amiga íntima; acenar à pressa a farmacêutica RM. que de tanto ansiar um filho, aguarda agora hospitalizada a vinda de dois; cortar o cabelo no TM Coiffure (com o Agnaldo [?] a relatar-me a sua vida, quase, intima); ir ao Arranjos Express buscar o fato do J. para o seu baile de finalistas, sim, a despedida do 9 ano; telefonar à mãe para fazer a diagnose diária das indiscrições do círculo familiar; receber telefonemas e msns. Marcar coisas para dia seguinte; pensar no CV da LC., para que possa ser avaliada de acordo com as suas capacidades e não conforme jogos de bastidores, indecentes e cruéis, que alastram na coisa pública. Um dia, um livro, um filme e não sou eu o ser humano defeituoso e idiossincrático Mr. Bloom. Mas é por isso que eu aprecio James Joyce, por que qualquer simples mortal se torna um herói homérico, não em luta contra monstros, deuses e sereias hipnóticas, mas na eterna luta pela vida, na trivialidade do dia-a-dia. Que pode ser resumido nos oitenta mundos percorridos em um único dia, como Mr. Bloom, descrito magistralmente pelo escritor irlandês, que tanto aprecio…

Thursday, June 05, 2008

onde os opostos nos seduzem…

Drawing a Tension. A hora de almoço desafiava a um respirar por uma das mais vastas colecções de arte. Com a exposição na Gulbenkian tive a possibilidade de rever uma das mais surpreendentes colecções privadas. No final da década de setenta uma das maiores instituições financeiras do mundo, o Deutsche Bank, desenvolveu um conceito precursor em torno da “arte no local de trabalho”, colocando os colaboradores e os clientes em intimo contacto com manifestações artísticas. Drawing a Tension vagueia através de cinco núcleos, arquitectados por cumplicidades filosóficas e estéticas em comunicação e, simultaneamente, em tensão entre si. São apresentadas cerca de 120 peças - escolhidas a partir das mais de 50 mil obras - de entre outros, Hans Arp, Joseph Beuys, Marcel Broodthaers, Max Ernst, Martin Kippenberger, Blinky Palermo, Sigmar Polke, senhores que são uma prelecção sobre arte moderna e contemporânea a não desprezar.

Despertar interesse ou curiosidade é a divisa de Drawing a Tension, um itinerário artístico onde os contrários se atraem…