Saturday, May 08, 2010

a dor dos homens...


O homem tem lugares no seu coração
Que ainda não existem,
E entra neles a sofrer
Para que venham a ter existência

Leon Bloy

Entardecer de Outono. Aeroporto da Portela. Pela primeira vez vi o meu pai chorar. Eu seguia para a República Checa – uma viagem que me levaria à Faculdade de Medicina da cidade de Pilsen, a 90 quilómetros de Praga. Estava impaciente por partir, a minha casa cheia de reposteiros e velharias nos arredores dos subúrbios de Lisboa tinha-se tornado de alguma forma insuportável para mim e o ensino superior português tinha-me castrado, não fosse o meu espírito; por falta de uma décima fiquei à porta de uma qualquer escola médico-cirúrgica que falasse a língua de Camões. Que sistema de acesso é este que recusa, à partida, tanta gente com vocação e 17 valores? Atingiram-me as lágrimas do meu pai, uns olhos de nevoeiro, quando me abraçou para se despedir.

Ao longo de anos não tínhamos tido a audácia em partilhar este gesto íntimo, este toque afectivo. Ele era um homem alto, entroncado, uma montanha mas percebi que a força do seu abraço representava a sua alma cheia de tristeza, angustia funda. Eu partia para longe, e ele sentia a mágoa da despedida. Eu estava a amadurecer e a conhecer-me melhor, e para ele eu era uma flor solitária. Ele amava-me, tive essa consciência como nunca. Era qualquer coisa que não carecia de ser dito antes, e agora os seus olhos pisados revelavam-no. Em todos os momentos que vivemos, havia o sentimento de que a vida é cruel, e que ele e eu residíamos próximos dessa injustiça.

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Lá fora, a chuva, telefono para Portugal e soube que ele tinha morrido, sem aviso. Para a minha tia, o sofrimento tinha já algumas horas, e descreveu-me dolorosamente a sua madrugada nos corredores frios do Santa Maria.
- O Prof. Lobo Antunes disse que ele combateu até ao último minuto.
Desliguei e olhei infeliz para a Adriana. Os dedos trémulos e a língua presa entre os dentes. Ela pôs os braços à volta do meu pescoço e pediu-me que chorasse.
Porque é que nós homens não conseguimos chorar? Uma lágrima cai em silêncio pela minha cara. Nada nos prepara para a morte do ser que amamos incondicionalmente. O mar salgado das lágrimas que escorreram por dentro dos olhos, por dentro do corpo do meu pai no aeroporto de Lisboa é a mais bela e a mais triste imagem com que fico.

Luís Galego

Ver imagem aqui.

26 comments:

Anonymous said...

Lindo.

Ophiuchus said...

Pêsames sentidos. Guarda a água dessas memórias - para a beberes sempre que necessitares...

Um grande abrAço!

papoila said...

um texto de uma enorme beleza estética, pleno de sentimentos que de facto o homem raramente expressa, mesmo na intimidade.

Maria said...

Profundamente sentido.
Mas digo-te que os homens choram, sim!

Um abraço.

Anonymous said...

Por isso, num Abraço sentido pode-se dizer tudo o que não se disse durante uma Vida. O chorar não diminui ninguém mas tb não é só por chorar que se tem maiores ou menores sentimentos. Ficou, de certeza um grande Amor.

Ricardo Passos said...

Como já vem sendo hábito, uma vez mais um texto que mexe numa mão cheia de emoções. Desta vez, também eu senti as lágrimas.

Grande Abraço.

Maria João said...

A dor da perda, mar salgado a cair-nos cá dentro, inevitável.
E a dor maior a crescer com o tempo, transformada na saudade com que acariciamos as memórias.

Sou, sua leitora e admiradora atenta. Escreve tão bem...

Um abraço

isabel victor said...

Não sei comentar _________ engoli cada palavra. Sem folego e enorme admiração,
deixo aqui, na língua de origem (porque não arrisco traduzir), um dos mais belos poemas sobre "The art of losing" da grande escritora Elisabeth Bishop.


One Art



The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

jorge vicente said...

E, num abraço, a Vida demonstra a sua força e o seu poder, mesmo que o corpo não aguente com o peso das lágrimas.

Belo texto.

Um abraço com águas dentro
Jorge

Bio TEAC said...

A dor da perda é pintada de vermelho sobre uma parede de tijolos envelhecidos.
Agora a tinta escorre lentamente, ainda pintada de fresco.
Sonhei um dia com essa dor, pintada de vermelho, e sobre a parede estava escrito:
O amor não esquece o amor não morre!
A tinta vai secar, deixar de escorrer, mas as palavras, como as recordações, não se apagam da memória.
Desculpe invadir a sua dor, partilhando também a minha!

eugenia bettencourt said...

Luis, aquele foi um abraço para a eternidade.
Os sentimentos fortes não morrem e os sere queridos continuam vivos dentro de nós. Talvez seja uma vulgaridade, o que lhe digo, mas é assim que sinto. Os homens choram Luis!!!
Gosto muito da sua escrita!Um beijo E. Bettencourt

com senso said...

Na verdade há momentos na vida que fixamos para sempre! Um certo olhar, um abraço, um momento de despedida, podem ser algo de muito marcante.
Lembro-me de alguns desses momentos na minha vida! Nalguns percebi desde logo o seu imenso significado. Outros vieram a revelar-se posteriormente como verdadeiros tesouros sentimentais!
Luís Galego vem mais uma vez trazer-nos um magnifico exemplo de como se transporta para a escrita, de forma intensa e particularmente bela, o que de mais impressivo marca a alma humana.
Mais um admirável momento de boa literatura que aqui nos trouxe hoje!

Je Vois la Vie en Vert said...

Caro Luis,

Uma lágrima também caiu no meu rosto.
Os homens também choram, caro amigo, "as lágrimas são as petalas do coração " escreveu o Paul Eluard.
ver o meu post sobre as lágrimas

Beijinhos da Verdinha

AnaLee said...

Maravilhoso Luís... (não sei se falta aqui uma vírgula ou não...)

Anonymous said...

Que lindo Luis!
Simples, claro, aconchegante!
Digo-te eu, que sou de lágrima fácil (choro de tristeza, de raiva, de alegria, de orgulho), que é sublime o homem que na expressão sentida das suas emoções, não pensa sequer que não tem o direito de verter uma lágrima.

Beijinho,
Fátinha

pinguim said...

Só quem nunca sentia a dor da perda de um ente querido (haverá alguém?), não entenderá este magnifico texto.
Só não estou de acordo com uma coisa: os homens choram mesmo!

Anonymous said...

Um simples gesto de afecto,muitas vezes esquecido no tempo faz toda a diferença.
Este teu texto tocou-me muito em particular.

Beijos
Emilia Homem Ferreira

Violeta said...

Já tinha saudades de vir aqui.
Bj

Perla said...

Este texto é de uma beleza incrível!

A dor sempre se faz presente; chorar alivia-a.

Bjs

Menina Marota said...

Os Homens choram sim, Luís!
Um texto carregado de sensibilidade que muito apreciei.
Obrigada por o partilhares.
Bj

maria said...

Sem referir-me a este belíssimo texto, deixo aqui um abraço neste dia que é especial para os dois.
Parabéns e que continue a brindar-nos com a beleza das suas palavras.
Tim tim...

Filoxera said...

Este é mais um post emocionado e comovente.
Permite-me, no entanto, discordar; os homens também choram. E têm direito a isso, todos temos.
E, numa perda como esta, que também sei, é imperativo conseguir extravasar a emoção.
Um beijo.

Méon, said...

Tenho um filho de quem estou sempre a despedir-me.
Tive um pai de quem me despedi muitas vezes

A vida é despedida constante e a morte não é encontro final.

Só me ocorre este verso imortal de René Char: "On naît parmi les hommes; on mort, inconsolé, parmi les dieux".

Thiago M. said...

«Porque é que nós homens não conseguimos chorar? Uma lágrima cai em silêncio pela minha cara.» Afinal, os homens choram. Mas nem todos o mostram. Nem todos o admitem. Muitos se envergonham. Vá lá saber-se porquê! Talvez por isso, “cai em silêncio pela minha cara”, escreveu o Luís, dando voz ao personagem da sua história. Eu também choro... particularmente consolado por quem põe os seus braços no meu pescoço e me deixa chorar… na tristeza e na alegria!
Obrigado, Luís, por mais este texto.

ANITA said...

De todas as suas "histórias" esta será a que me toca mais fundo. Também porque lhe sinto a alma a abrir para logo de seguida se conter?!...
Chorar para dentro da alma foi algo que aperfeiçoei à muito. Momentos, como este, são tão mais intensos quanto a alma se não consegue libertar do turbilhão das àguas que nascem e crescem bem no centro do ser.
O sabor salgado, de alguma lágrima, que se conseguiu libertar, acompanha-nos. Para sempre?...
Gostei muito, como gosto sempre, do que escreve.
Este teve um sabor especial.
1 Bj
Ana Oliveira

MANUEL ALVES said...

Não sei se a historia é verdaeira, mas isso pouco importa, o que me fez estremecer foi o abraço!
"nunca deixes de abraçar quem amas"