Sunday, May 20, 2007

mágico tapete colorido...

Resposta aos desafios de Maria Faia (querubimperegrino) e de Luís Rodriges (Murmúrio das Ondas)…


When a man is tired of London, he is tired of life,
For there is in London all that life can afford.

Samuel Johnson, 1777

Londres fascina, saio e é de imediato um mágico tapete colorido e eis-me transportada para a beleza, sem ter sequer de mexer um dedo. As noites são surpreendentes com todos estes pórticos brancos e as amplas avenidas silenciosas. As pessoas entram e saem ligeiras e divertidas como coelhos. Lá em baixo avisto Southampton Road, húmida como o dorso de uma foca ou vermelha e amarela do sol; observo como os autocarros passam e escuto o som irregular dos realejos. Um dia destes escreverei sobre Londres, e de como ela se apodera das vidas privadas e as transporta sem esforço. Os rostos que passam reanimam-me o espírito, impedem-no de se fixar como sucede no silêncio de Rodmell
(página do Diário de Virginia Woolf, de 5 de Maio de 1924)

Há quem se perca por carros, selos, moedas, mapas antigos sob a forma de postais, ou raridades em geral, eu perco-me por espaços dentro das cidades. Reservo, para cada, um cantinho na minha memória que começa como começam as histórias de amor: com chama ou desconfiança. Reconheço que a natureza em estado genuíno é um cenário exaltante de filme ou documentário, uma crónica de viagens, uma série de fotografias da National Geographic, um amor perturbante entre Meryl Streep e Robert Redford, em Out of Africa, mas confesso que não me desperta o desejo de a percorrer ou explorar. Durante anos senti o tédio da natureza, e não aprecio particularmente “passear em florestas, subir montanhas ou nadar em rios de água verde”, que me causa uma apreensão semelhante ao que a água funda provocava a Patrícia Highsmith, como lembra Clara Ferreira Alves, numa das crónicas de “Pluma Caprichosa”. Prefiro deliciar-me com a leitura de Gonçalo Cadilhe e de textos de conceituados estudiosos da literatura de viagens em cargueiros e afins, mas instalado na minha casa, ou em qualquer esplanada defronte para o mar. Um passeio de bicicleta pelas aldeias francesas, uma escalada pelas montanhas de Alborz, uma caminhada de doze quilómetros para ver um glaciar, um acampar no interior da Turquia, mochila ás costas porque chegou a hora de partir à descoberta da Natureza, tal e qual um Indiana Jones, percorrendo trilhos pedestres, atravessar arrozais, descobrir fósseis de dinossauros, pssst, psssst … ali! Lá vai uma garça-real, anda à procura de alimento, são experiências algo tormentosas. A minha paisagem favorita é uma cidade civilizada, com história, museus antigos e modernos, cafés, livrarias, restaurantes a média luz, clubes de Jazz, galerias de vanguarda, luzes dos teatros. Durante anos resisti a convites de amigos para conhecer sítios campestres e verdejantes. Ainda assim fui (arrastado) a alguns, eram aprazíveis mas, olhar para os penedos molhados e o musgo verde escuro causava-me uma tristeza mortífera. Embora romântico, a paisagem não me ampara a fantasia. O prazer ao reencontrar as ruas e as casas ao cabo de uma digressão pelos caminhos, é idêntico ao do austronauta quando chega à Terra. Exceptuo desta pouca afinidade à natureza o mar e os seus sons e cheiros (não incluo o espectáculo praiante, como referia Natália Correia, cheio de Soraias Vanessas, mas sim a “areia onde tempo poisa, leve como um lenço”, como escreve Sophia), o deserto e os países exóticos. Só me perco de facto na beleza dos espaços mágicos de grandes cidades “culturais”, mas evito cuidadosamente os lugares-comuns do turismo. Londres tem tudo o que eu gosto. Resistiu às bombas de Hitler, sobreviveu à queda do Império, esteve na moda nos anos 60 – pelos vistos nunca deixou de estar –, 300 línguas faladas nas suas ruas e, segundo os especialistas (ver Courrier International, n.º 111, 18 a 24 de Maio de 2007), vai tornar-se a grande capital do Ocidente nestas primeiras décadas do século XXI, suplantando Nova Iorque. Existem em Londres centenas de lugares onde eu gosto de me embalar; um deles é o Convent Garden. A minha jóia da coroa é o The Theatre Museum, pelo o qual tenho uma predilecção infindável, onde posso recuar no tempo e cumprimentar Mr. William Shakespeare, segredar a Laurence Olivier, enquanto ele veste a personagem de Richard III, apreciar embasbacado vários cenários de A Midsummer Night’s Dream, deleitar-me com as expressões de Albert Finney, em Hamlet, imaginar os aplausos a Mne. Sarah Bernhardt, na sua digressão pelo Reino Unido, vergar-me perante Sir John Gielgud nas suas extraordinárias personagens e até sorrir com as fotos a preto e branco de Rex Harrisom, como Professor Higgins, e Julie Andrews, no papel de Elisa Doolittle, na peça musical Pygmalion. Mas lá também encontro Elisabeth Schwarzkopf, Joan Sutherland, Maria Callas, Tito Gobbi a incendiarem a Royal Opera House e a Margot Fonteyn com Rudolf Nureyev, brilhando em Giselle, não muito longe de Ana Pavlova em Le Cygne. Mas muitos mais me convidam a entrar naquela máquina do tempo, Serge Diaghilev e os seus Ballets-Russes, Vaslav Nijinsky, Igor Stravinsky e até Picasso ali assentou arraial, através de alguns retratos que fez a gente do espectáculo. Todas as formas de expressão artística ali fervilham. A Royal Opera House abriga os famigerados The Royal Opera, The Royal Ballet e The Royal Opera House Orchestra. Ali vi, Maio passado, Plácido Domingo interpretando a personagem principal de "Cyrano de Bergerac”. Saindo da estação de Convent Garden, à direita, rua abaixo ao som de violinos, violões, gaitas, e vozes de artistas de rua já sou outro homem. Em direcção ao mercado publico que virou centro de lojas singulares e bares inesquecíveis, a vida acontece. Espaço cosmopolita, sem duvida. Nas ruas escuta-se o inglês com sotaque britânico, escocês, irlandês, americano... escuta-se espanhol, italiano, francês, português, mandarim, atmosfera perfeita para se quebrar paradigmas, deixar preconceitos, vestir da maneira que apetecer. Ali vamos estar sempre de acordo com a ocasião, 'no matter what!'. Não há bela, sem senão, e alguém ameaça a paisagem. Não os viajantes cultos ou nem tanto, melómanos ou pouco entendidos, amantes da arte de talma, da música, das artes em geral ou amantes de coisa nenhuma, mas sim fornadas de japoneses, selados com monogramas e Cartier, de cujos dedos escorrem sacos Gucci, Hermes, Prada e Salvatore Ferragamo, as últimas tendências de Cassette Playa, Gareth Pugh ou Christopher Kane e bolsas Louis Vuitton, vestidos da cabeça aos pés com roupas de marca e de designers alternativos. Atraídos pela pujança do iene, são piores que os bárbaros às portas de Roma, demolem tudo à passagem e enchem os cafés de burburinhos e risinhos enquanto abrem os sacos para contemplar os artigos. Não é grave, apenas mais um ingrediente a colorir o Convent Garden, que deve ser consumido ao fim da tarde, com uma luz cor-de-rosa, ou logo de manhãzinha, seja com um sol tímido, seja com os sempre esperados pingos de chuva. É um lugar onde as pessoas acorrem com entusiasmo, sentando-se na pedra, no chão, nas cadeiras, com ócio e sem intenção. Todas as pessoas. As que vêm tomar o aperitivo do crepúsculo; as crianças que vêm brincar; o malabarista ou o mimo que improvisa uma arte; os adolescentes de óculos escuros, passando por uma fase de rebeldia; os últimos “hippies”; a tocadora de flauta que pede que as moedas caiam na caixa do instrumento, os desempregados; os namorados abraçados como estátuas; os turistas e os vendedores de bilhetes de musicais, alguns já bem estafados, a metade do preço. Ali, também, está representada e muito a cidade que tem porventura a população mais exótica do mundo, mas também a mais rica em termos de diversidade e de oferta cultural, com os proveitos económicos que esse cruzamento e essa convivência de culturas também representa. O caldo de culturas aliado ao dinamismo dos seus criadores, coloca este e outros espaços londrinos em vantagem. Espaço mágico para mim onde a cacofonia do transito suburbano não perturba. A cena teatral, que foi sempre vigorosa, também vive momentos apaixonantes, anunciando-se ali não só as peças do West End, como todas as que fervilham pela cidade, mesmo as alternativas (off west end, as melhores): Jean Paul Sarte, Gorky, Harold Pinter, Patrick Hamlton, Beckett, Bernard Shaw, Eugene O’Neill, Noel Coward entre muitos outros vão habitar os diversos teatros até final do ano, e o Gielgud Theatre recuperou uma nova juventude graças a Daniel Radcliffe (Harry Potter) em EQUUS, de Peter Shaffer. Aquele sítio é uma espécie de búzio, de cartaz cultural de toda a cidade.

Tal como Jorge Silva Melo, em Século Passado, também me revejo em Dora de O Sino, obra de Iris Murdoch. Escreve o encenador “Há, no fim de O Sino (…), umas páginas que li a pensar “tiraram-me as palavras da boca’. É quando Dora, a dilacerada protagonista, atrapalhada com as suas trapalhadas, marido, amante, talvez fé, isso de que os romances falam, apanha um táxi e diz ‘Para a National Gallery’. Dora não tivera qualquer intenção especial de visitar a Galeria Nacional, mas uma vez que ali estava, entrou. […] Tinha visitado o museu mais de mil vezes e os quadros eram-lhe familiares como o seu próprio rosto. Ao passar por entre eles, como por entre árvores amadas, sentiu uma grande calma descer sobre ela […] E depois […] ficou sentada, revendo a vida, o olhar para um Gainsbourough. É um dos encantos de Londres, aquele museu no centro, para onde se pode ir, sem querer, em dias de ansiedade, e ficar a ordenar a vida com uma espécie de gratidão por os quadros ‘continuarem ali’. E o coração de Dora ‘enchia-se de amor pelos quadros, pela sua autoridade, pela sua maravilhosa generosidade, pelo seu esplendor’.”.

Talvez por razões semelhantes, regresso sempre àquele local e àquele mercado, para mim quase um camarim, uma projecção de felicidade. Quase todas as cidades têm um mercado emblemático, ou mais do que um, um ponto de encontro de ricos e pobres, de viajantes e perdidos, de novos e velhos, de amantes perdidos encostados à espera. Mas eu perco-me fascinado naquele lugar. Só preciso de manter os olhos bem abertos. Ao contemplar o dédalo de ruas circundantes sinto-me seduzido perante esta paragem cujo coração bate há muitos anos, e triste parto sempre com a impressão que saio de cena sem ter esgotado as suas riquezas. Sem ter ouvido todas as conversas, sem ter observado tudo, sem ter correspondido a todos os sorrisos, e à troca de olhares em idiomas incompreensíveis. Mas sempre disposto a voltar onde “sou eu próprio”, como cantam os Beastie Boys, “e os eléctricos também”.

28 comments:

M&S said...

Mágicos são estes posts brilhantes!...

Luís said...

Um post oportuno... Vou a Londres de 1 a 5 de Junho =)

KA said...

Bela viagem por Londres que nos foi proporcionada...

Mais um excelente post, como estamos habituados!

Lucinda said...

Estive em Londres no ano passado, depois de uma longa ausência.
Concordo em absoluto com o Luís, quando diz no seu post que Londres será a capital do Século XXI, no entanto, aproveito para sugerir, que faça uma viagem pelas cidades inglesas mais pequenas ...aproveite para sentir a beleza da paisagem, do enquadramento arquitéctónico, das diferentes formas de vivenciar um quotidiano sem pressas, e depois diga -me lá, se o regresso a Londres não se torna ainda mais impressionante !?!
Parabens pelo seu blog, é fantástico como escreve e descreve tão bem tudo o que sente e vê !

pin gente said...

estou cansada mas feliz...
que viagem eu fiz.

(não era para rimar)

Luís Costa said...

"Há quem se perca por carros, selos, moedas, mapas antigos sob a forma de postais, ou raridades em geral, eu perco-me por espaços dentro das cidades. Reservo, para cada, um cantinho na minha memória que começa como começam as histórias de amor: com chama ou desconfiança."

Parabéns, caro luís! Um excelente texto com excelentes fotografias. Uma prosa bastante plástica e cheia de ritmo...

PS

Londres é, de facto, uma grande metrópole, uma cidade da cultura, mas acredite Luís ( não sei se já visitou Berlin, ) Berlin não lhe fica atrás ...

MariaFaia said...

Caro Luís,
Em boa hora sugeri que desse continuidade ao même.
Hoje...fui Dora de O Sino...
Encanta-me a magia que empresta às palavras e... apesar de a minha alma me ter fugido, você fez-me viver cantando e cruzando as londrinas ruas do meu sonho cansado.
Obrigado

The White Scratcher said...

Mesmo sem palavras, quero dizer que passei por aqui quase por acaso e quero voltar a cá vir. Adorei! Obrigado por esta poesia.

Maria P. said...

Excelente roteiro traçado pelas linhas das tuas palavras!

Bjos*

MariaFaia said...

Olá de novo Luis,

O seu post foi, na verdade, um bálsamo para o meu espírito hoje perdido...
De facto, eu sou uma pessoa complexa, como alás, todos nós, um pouco...
Mas, a vida vive-se um dia de cada vez e eu peço às estrelas da noite que passa que me guiem os passos, a razão e a emoção, no devir hoje desconhecido.
Uma boa noite para si.

Jonice said...

Num passe de mágica as tua teclas se fizeram lápis e pincel. Porque não foi leitura o que me aconteceu aqui, mas sim um contemplar de imagens. Great writing, Luís!
London, London ... though I've never been...
Beijinho de boa noite :)

Maria said...

Rendo-me...
... ao teu meme...
... ao teu texto....
... a Londres....

Já agora, tenho que voltar lá rapidamente...

Um abraço

art&tal said...

bem bom

Vulcano Lover said...

belíssima impresão de Londres e do Convent Garden. Também adorei da prosa... Sempre tão acertado na tua escolha de palavras...
Um abraço-

un dress said...

viagei.

sem mochila.

no fio das tuas palavras voltei a

percorrer londres.



*

un dress said...

e sim, londres é encantatório.

inesgotável...:)

Suspiros said...

Linda sobretudo a paixão colocada nesta descrição de uma verdadeira devoção, tentadora até para quem prefere o campo...
:)

Mar Arável said...

Bom texto,bom trabalho,boas emoções - para um só quadro da vasta galeria de Londres.
Abraço

Anonymous said...

Será mais fácil escrever sobre os outros ou sobre nós?
Quando escrevemos sobre os outros imprimimos-lhe transparências de nós, reflexos do nosso sentir, e subjectivamos a opinião... é inevitável.
Usamos de algumas reservas para não expor, do outro, o âmago, o reduto do privado.
Já escrever sobre nós… a tarefa parece, à primeira vista, mais facilitada.
E, de facto, pensando bem, fácil mesmo é escrever sobre os outros.
Fazemos elogios ao nosso ser? Á profundidade do nosso sentir? Falamos de tudo o que nos vai no pensamento, deixando assim aquela margem para que penetrem na nossa alma?
Mesmo que o façamos com rigor e aquela dose indispensável de introspecção, os outros, aqueles sobre quem será mais fácil escrever, digo eu, irão pensar que vivemos em torno do nosso umbigo, passando a eternidade dos tempos a olhar para ele.
Por isso, alguém tem, neste dia, que escrever sobre ti, Luís, e nem que seja, como é o caso, para dizer, porque basta: Salve o dia 23 de Maio!
Para ti… vão os abraços mais fraternos, os sentimentos mais nobres e leais e os votos de que a vida te bafeje sempre, sempre, com o que de melhor tem para oferecer.
Parabéns, meu grande amigo!

Maria José Bravo

Anonymous said...

Para quem não sabe, o nosso Luís faz hoje anos.

Muitos parabéns e que tenhas um dia fantástico e rodeado de tudo o que mais gostas e de quem mais gostas.
Espero que no próximo ano continues a escrever coisas fantásticas. Será sempre um enorme prazer e um banho de cultura e sensibiliddade visitar o teu blog. Ontem por exemplo li integralmente este texto a achar, de início, claro, que não me iria interessar muito, ainda se fosse sobre Paris...Mas adorei, li tudo e fiquei com água na boca por uma cidade que à partida não me dizia muito.
Isto para te dizer que tens que escrever um livro. Pode ser de crónicas, uma compilação das coisas mais bonitas do teu blog por exemplo. A Inês Pedrosa fez isso e com muito êxito.
Um grande beijinho de parabéns
Paula Zegre

maristela bairros said...

Caro Luis.
Daqui, deste sul do mundo, quase perto do gelo mais hostil (e tem quem pague para ir até lá, sabe?), bebi teu post em goles. Não conheço Londres e me odeio por pensar que estive perto por três vezes, mas não consegui me desvencilhar das ruas escondidas de Paris e pegar o trem para depois atravessar o canal. Mas agora sei que já tenho caminhos para percorrer pela tua mão via este escrito. Com o qual me identifico também por esta quase alergia às imersões na natureza, o que me fazia me sentir quase uma pária, com vergonha de revelar meu gosto pelo urbano e suas magias.
Um beijo na tua alma de viajante glutão de cultura e de vida.
maristela

Maria P. said...

Parabéns!

Beijinho*

Bela said...

Andei por Londres, nas tuas palavras...

cris said...

adoro londres! Love it love it love it! e parafraseando As Horas: "i'm dieng here! i need the excitment of the city, the life of LOndon"

fizeste-me recordar o quanto eu adoro aquela cidade. Obrigada:)

ederson said...

Não conheço Londres, mas é uma cidade que eu gostaria muito de conhecer, assim como tantas outras. Quando eu ficar rico eu faço isso.
Agora, fiquei aqui a pensar se eu prefiro conhecer cidades ou a natureza. Não sei, não...

isabel said...

Adorei "revisitar" a cidade onde vivi durante quase 2 anos.

Beijinhos Luís e saudades

BRC said...

Brilhante!

Por favor, não pare de escrever.

Anonymous said...

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