Saturday, January 15, 2011

Doutora Marta

Enquanto o mundo dorme penso no que daria para ouvir as suas doutas exposições, para apreciar os seus olhos enigmáticos e as mãos esguias, aqueles cabelos escuros e um rosto de Modigliani, havia naquela mulher de quase quarenta anos algo de essencialmente humano! Universidade, pais velhotes, sobrinhos, alunos, sebentas, carro caindo aos pedaços, e tudo o mais que faça parte de uma mulher investigadora e solteira a roçar os quarenta. Qual era então o enigma do seu encanto, se tudo nela parecia banal? Porque é que toda a gente a apreciava tanto, como se de um verdadeiro poema épico se tratasse? Que fazia para ser tão amada? Talvez porque era imensa e porque possuía um brilhante poder de observação. Com ela aprendi muito sobre história, sobre filosofia, sobre linguística e a reunir estudos gregos e latinos com emoção, um insaciável desejo de saber, a descoberta da boa leitura e o veneno da escrita; fazia-me sentir desinquieto no puro espaço dos cinco sentidos durante as suas aulas ou quando a encontrava no Centro de Estudos Clássicos (onde passava o tempo a estudar e a organizar volumes encadernados de línguas, literaturas e culturas da antiguidade clássica). Geria o tempo, como se este fosse elástico, um facho inextinguível, uma intensa alegria de viver, os dias para ela eram longos e tinham cem anos. Contou-me que quando saia da Faculdade ainda ia para Carcavelos dar aulas de Latim medieval e carinho a um grupo de juristas alemães aposentados, uma espécie de voluntariado cultural. Fiquei simultaneamente feliz e tenso como a pele de um tambor quando me deu a notícia de ter conseguido uma bolsa no departamento de Greek and Latin Studies, na Saint Louis University. Foi há mil anos mas tenho uma recordação extraordinariamente presente da tarde em que me despedi dela. Imaginem só, alguém com possibilidade de apenas investigar o seu tema de eleição, a sua paixão, o caminho de estrelas que traçou! Deixou-me uma pilha de livros, alguns dos seus rascunhos sobre vasos gregos, um conjunto de poemas boémios que nunca ousou editar e a minha alma aberta como uma ferida. Quando a nossa correspondência de certo modo definhou, acabando por ser suspensa, e a minha vida abalroou de novo na impertinente companhia de analfabetos de erudições, teimava em preocupar-se comigo, perguntava a toda a gente por mim, tentando salvar-me de um destino cego, dos pântanos da vida de um recem assistente universitário. Partiu num domingo de céu invernal, as emoções inundavam com persistência os rostos de alguns que foram despedir-se dela; à porta de embarque, mãos ansiosas, ofereci-lhe uma orquídea; enternecida, deixou cair lágrimas daqueles olhos com tons de pedra rara que desaguaram no meu coração. Restou uma doce carícia e o meu olhar envelheceu.

Ter-me-á ocorrido que seria este o derradeiro afago? Obviamente que sim. Foi rigorosamente o que pensei: sim, estou a senti-la pela última vez. Na verdade, é o que me acontece sempre com as pessoas especiais. A minha existência é um ininterrupto adeus a extraordinárias criaturas que muitas vezes não percebem a minha postura reservada, sincera, arrebatada.

Luís Galego

16 comments:

pinguim said...

Excelente, como é da norma.
E até oportuno (infelizmente), pois retrata uma despedida...

Fernado Palaio said...

Sempre com os Afectos exacerbadamente bem colocados em sua Escrita...
lindo texto,lindo Ser Humano
Grande Abraço
fernando palaio

Luanamar said...

São essas doces carícias,eternas lembranças que nos enchem e esvaziam o coração!

Beijinho
Ana Maria de Portugal

Luanamar said...

São estas carícias e lembranças que nos enchem e esvaziam o coração...

Beijinho
Ana Maria

ANITA said...

Luís,
Sinto-o especialmente depois da perda recente de um grande amigo!
A sensação da despedida tão presente, a última vez, o adeus anunciado, continua sendo ferida aberta que teima em não sarar.
Acontece sempre com aqueles seres extraordinários que passam na nossa vida e a mudam para sempre!
Parabéns Luís, porque escreves muito bem, tu sabes!
Obrigada, porque de certa forma, é como se tivesse a minha dor partilhada.
Beijo
Ana

Olga Moreira said...

Cada vez que leio um dos seus escritos sinto que enriqueço o meu conhecimento sobre a forma de expressar o que nos vai na alma.Obrigada.

Paulo V. Pereira said...

Luís,

por onde andas?
Tenho saudades dos teus momentos no Facebook!

O que dizer acerca dos teus escritos? O que dizer acerca desta doce amarga despedida?

Abraço-te!

Maruscka Camara said...

Já se torna banal dizer "adorei"!
Tens o dom de descrever momentos, situações e emoções duma maneira tão real que atinge o irreal. Faz sentido???
Como o teu amigo aqui de cima também sinto a sua falta, Dôtô...aqui no facibuki!!!!!
xi coração
Maruska

José Pereira said...

Qual seria a cara da Doutora Marta ao ler este texto. Que grande afago de alma. Parabéns Luís. Alimenta este veneno, o da escrita.

Anonymous said...

Senhor Galego, que texto descritivo mais apaixonante.
Realmente, há pessoas que nos marcam e de repente somos interrompidos por um adeus...
Quem sabe um adeus que guarde estas mesmas pessoas dentro do nosso coração para sempre.
Eu te tenho! Eu te levo sempre!
Tudo no mais puro segredo...

partilha de silêncios said...

Adorei, como sempre.
As pessoas especiais, sempre nos afagam a alma, nem que seja através da memória, é um dom que lhes pertence.

Avelaneira Florida said...

Uma Homenagem.
Uma imensa e única partilha!

Há raras pessoas que nos permitem viver momentos únicos.Ditosos os que os vivem e deles constroem memória!

Pessoalmente conheço um caso bem semelhante.Sei-o bem,um dia também thaverá uma despedida!

Mel de Carvalho said...

Sabes, Luís, difícil é alguém te superar no tecer das emoções (a ponto lágrima, também, meu amigo); difícil será sempre me pronunciar sobre a tua escrita, eu que te acompanho há anos e, em cada texto te vejo a crescer.
Vulgar e banal será dizer "belo" ou "gostei muito"...
Já li este texto "n" vezes. Já o copiei e imprimi...
Por todas as Martas que nos marcam. Por cada partida e regresso (a nós, em tantos casos...)

Beijo, brother.
Gratidão minha.
Mel

Há.dias.assim said...

palavras para quê?
Para quando um livro teu?

luís filipe pereira said...

"ofereci-lhe uma orquídea; enternecida, deixou cair lágrimas daqueles olhos com tons de pedra rara que desaguaram no meu coração. Restou uma doce carícia e o meu olhar envelheceu."Escurtinei este trecho para enaltecer uma prosa extremamente tocante, que mergulha na teia dos afectos e alarga a autoconsciencia humana a partir do coração, ancoragem maior.

grato pela partilha,
filipe

Vivian said...

Olá!!

Que belo seu blog! Um texto incrível!
Pena ser uma despedida, mas é o ritmo da vida, encontramos pessoas que nos enriquecem,deixam um pouco de si e depois, se vão, levando um pouco de nós...

Bom final de semana!
Abraço!