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Friday, May 25, 2007

angústia para jantar...

Eles eram jovens, licenciados, ambos virgens naquela sua noite de núpcias, e viviam numa época em que uma conversa sobre dificuldades sexuais, que nunca é fácil, era simplesmente impossível.

Uma pequena novela de profundidade notável. Estamos em 1962, época definida como precursora das grandes convulsões sociais; os primeiros sinais da revolução cultural – incluindo a libertação sexual – que iria transformar o mundo ocidental. Eis o contexto da noite de núpcias de Florence e Edward, num hotel à beira-mar, na costa de Dorset. Profunda e reciprocamente apaixonados, estes universitários são ambos virgens. Enquanto em Edward a inexperiência suscita ansiedade (receia "chegar cedo de mais"), na sua noiva gera uma fobia patológica. Edward, filho de um professor e de uma mulher que, de forma insólita – um misterioso viajante, sem tempo a perder, abre a porta do comboio, ainda em andamento, que a atinge na cabeça enquanto esta, grávida de gémeos, espera pelo marido, regressado da guerra, no cais de embarque da estação de comboios –, se vê definitivamente aprisionada dentro da casa de gritos que é a sua própria mente, deixando entregues ao cuidado do pai a árdua tarefa de educar os filhos. Edward licencia-se em História, com menção de honra, no University College de Londres. Leva uma vida comum à maioria dos jovens adultos da sua comunidade. Florence, filha de pais ricos, vive em Oxford, estuda música e toca violino, tendo terminado o curso no Royal College of Music em Londres e formado um quarteto com três dos melhores alunos da faculdade. Vive entre uma mãe filósofa, fria e distante, e um pai, um homem de negócios, desprovido de emoção. Ela própria transporta consigo a frieza do ambiente familiar, carente de afectos e de manifestações de sentimento. É na conjugação destes dois mundos que o escritor constrói a narrativa. É a história de uma união que se consumou no papel, entre uma rapariga dedicada e subtil, que apenas suporta a tessitura da música clássica, e um rapaz, instruído e viril, que pressente, pela música, os ventos de mudança que começam a chegar.

Ian McEwan esgrime um estonteante virtuosismo nas descrições mentais e confia-nos uma obra-prima – uma história de vidas transformadas por um gesto não feito ou uma palavra não dita. Este romance é um exemplo de como um escritor pode ser capaz, em pouco mais de cem páginas, de desenvolver um potencial explosivo que remete para a complexidade das relações entre os sexos, o peso da cultura familiar, as alterações sociais e do momento político e as consequências dramáticas, em termos pessoais. É um livro sobre segredos, sobre a incompreensão e sobre o recolhimento de cada um no seu mundo. Encontram-se ambos no quarto, com uma refeição para degustar, esperando pelo momento da consumação do casamento, onde se entrecruzam os sentimentos de horror e de exasperação, por um acto tão simples como amar.

Mas Na Praia de Chesil é muito mais do que uma simples história de emoções postas à prova pela convenção. É uma exposição memorável de como as terríveis feridas podem ser infligidas e o rumo de toda uma vida pode mudar num instante. Um livro que se lê numa tarde, uma obra que pode fazer doer, páginas que ficarão decerto na minha memória.