John Sloan, South Beach Bathers, 1907-1908E estive demoradamente na praia dos mares em lágrimas diante das ilhas e das penínsulas onde vinham brilhar à noite as luzinhas amarelas e breves dos homens e havia toda a noite as grandes fogueiras brancas ou de cores vivas que chegavam dentro das cavernas onde eu era feliz, aninhado na areia ao abrigo dos rochedos entre o cheiro das algas e da rocha húmida no som do vento das vagas a chicotear-me de espuma ou suspirando na praia e arranhando ao de leve as pedras soltas…
Samuel Beckett, Malone está a morrer, 1951
O tempo de férias é para mim um tempo de bem-estar total, particularmente um período de fruição de leitura. Em férias, sobretudo, leio; leio com um prazer todo ele especial, o maior número possível dos inúmeros livros dos quais, durante o ano, o trabalho me arredou. Para férias levo comigo as obras que, contra minha vontade, fui adiando. Este ano, por exemplo, para além de outros escritores frequentes, levei para a Zambujeira do Mar: Malone está a morrer, de Beckett, O Quê? A Eternidade, de Yourcenar e O Crime de Lorde Savile e Outros Contos, de Oscar Wilde. Três livros de poucas páginas mas a terem de competir com a paisagem da costa alentejana, a ardência do Alentejo à beira mar. Freguesia do concelho de Odemira, a sua costa, integrada no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, é debruada a falésias e pequenas praias que, fora das época alta turística e do Festival do Sudoeste, um dos mais importantes festivais de música de Portugal, é um paraíso ainda e felizmente desfrutado por poucos. A dois minutos da nossa casa fica a Praia da Zambujeira do Mar, rodeada por falésias altas, de onde se pode apreciar um deslumbrante panorama sobre o oceano. Banhada por um mar de ondulação forte, com boas condições para a prática de surf e bodyboard, a praia está situada junto à povoação. Depois de termos chegado de Berlim, sete dias e seis noites constituíram um bom campo de alternância em que o ócio permite que o acaso visite a nossa vida, o mundo onírico se sobreponha ao real, e a distensão nos ofereça o encontro com a surpresa que está escondida sob a pele do Mundo. Lídia Jorge lembrou há bem pouco tempo uma vez que entrou num hotel onde se lia O tempo não precisa parar, aqui os relógios só batem horas, à meia-noite em ponto. De facto não precisamos de ir muito longe para sabermos que tudo quanto se pede à pausa do tempo é que ele nos traga uma nova circulação ao sangue. Tardes de calor excessivo, multidões deslocando-se pelas sombras deixando um rasto de objectos atrás de si, lugares de estacionamento preenchidos, praias repletas de gente que se encontra e se desencontra sem cessar, gente a falar mal francês, tias a chamarem os filhos ou os sobrinhos por você com uma amplitude de voz que destronaria qualquer valquíria e loiras palha de pele tipo castanho escuro não são definitivamente as minhas férias, são um Verão ameaçando tornar-se um inferno. Este cenário está distante, por enquanto, daquela Zambujeira, ou eu ditosamente não dou por ele. Também é verdade que nunca fui adepto das tradicionais férias de “papo para o ar”, feitas de sol e de praia, o meu porte irlandês não o consente (private joke); por mim a água do mar devia ser doce e quente, apesar de gostar muito de passear à beira mar e de respirar a maresia. Em abono da verdade prefiro as praias fora do Verão porque é muito agradável, pois tudo se transforma e o mar está alteroso. É outro mar. Ainda assim, nestes dias de Agosto contemplei as ondas com enorme deleite, ouvindo cada som da natureza, algumas vezes acompanhado de Johann Sebastian Bach e a sua Matthäus- Passion, através do MP3, ao qual me tenho rendido. As férias são para mim hipóteses de descobertas, ou redescobertas em tempo não esquematizado e assim subitamente está tudo certo.
Não me peçam, pois, que saia das minhas férias. Quero ficar dentro delas até ao fim da vida; a disponibilidade mental é outra.
