O que diria eu a Deus se tivesse a oportunidade de lhe escrever uma carta? Foi este o desafio que assumiram várias figuras destacadas da nossa sociedade. Fernando Pinto do Amaral, Jacinto Lucas Pires, João César das Neves, Mafalda Arnauth, Maria Filomena Mónica, Maria João Seixas, Mário Cláudio, Pedro Mexia, Urbano Tavares Rodrigues, foram alguns dos que aderiram ao projecto cujos direitos de autor do livro revertem para a AMI. Crentes e descrentes, homens e mulheres ligados a diferentes áreas da cultura dão vida a um livro ousado, íntimo e profundo. Este foi o livro escolhido pelo legista José Pinto da Costa para apresentar no programa Páginas Soltas (penso que em repetição). Ainda não comprei o livro mas já li excertos e ao ouvir o médico forense falar sobre a obra meditei acerca de tal matéria.Sou crente mas tenho de assumir que por vezes me assalta um delicado sentimento de incerteza no que respeita ao interesse divino por toda a humanidade e à verdadeira eficácia dos serviços centrais além firmamento. Preces urgentes ao som das balas ficam por ouvir, rancores obsoletos desencadeiam morticínios num imenso desperdiçar de gente, vulcões cospem fogo sem trégua e ondas gigantes erguem-se do mar, a terra treme sem piedade, as favelas crescem como cogumelos venenosos, os bancos de urgência confundem-se com trincheiras, corpos caiem no chão apodrecidos no Inverno, a criança de sete anos vive no hospital por causa do cancro e a velhinha de olhos fatigados que trabalhou toda a vida vive agora da caridade...
Não obstante mil cansaços a humanidade tem vindo a expressar votos através de intermediários que domiciliam no Vaticano, Jerusalém, na Índia, em Lhasa, antigas repartições do poder divino que vêm sofrendo com o desgaste do tempo e dos costumes e a purificação, o caminho de ascese, a renúncia e as purificações vêm soando estranhos como parafusos. Numa peregrinação a Meca ou numa viagem pelo interior do Tibete sonhando conhecer genuínos mestres do budismo eclipsam-se os subsídios de férias e de natal como a tinta do carimbo no passaporte. Queremos visitar a Índia em compenetrada jornada de meditação religiosa, logo o agente de viagens e o guia turístico mal preparado em história da arte e das civilizações nos lembra que são sonhos içados ao vento e nos tenta com despudor impingir também uma volta pelos bordéis, casinos e bares de Bangkok. E nem mesmo de Deus se pode esperar que simultaneamente oiça as aflições, os soluços trágicos e os desejos secretos, e ainda por cima se interesse pelos biliões que povoam a minúscula parte do universo que é a Terra, um grão de poeira a flutuar no salão do Palácio de Versalhes.
Ciente dessas circunstâncias e herdeiro de uma educação espartana nos Salesianos de Évora um pequeno e improvisado desabafo em forma de oração nocturna tem-me parecido a mais prudente rotina, porque quero acreditar que mesmo no céu tem que imperar a lógica e na sua orgânica a secretaria-geral de pequenos desabafos estará menos sobrecarregada que a direcção de serviços de orações decoradas.
Aliás o que quero a Deus pedir para colorir a minha biografia terrena não tem sequer menção de urgente, pois conheço o amor não só de ouvir falar e de saúde não me lamento, sonhos de fama deixo-os para a inigualável Glória Swanson em Sunset Boluverdad e o mundo ainda me perfuma, a ponto de com puro encanto continuar a olhar rosas, rios e manhãs claras, a cara traquina de uma criança, ou parar a admirar a beleza duma tarde aberta sobre o mar, beber o vento e o sol, fotografar as brumas dos atalhos por onde ando, ou deleitar-me a calcorrear velhas ruas de Lisboa ao fim da tarde.
O que me assusta é notar que me vou tornando comedido em excesso, doentiamente condescendente, preso nos ardis do facilitismo. E é desde então que eu sinto este pavor, um frio que me gela e é disso que quero que me acauteleis, Senhor. Por maior que seja o desespero livrai-me dos fantasmas tão educados que adormecem nos meus ombros. Conservai viva em mim a rebeldia e a capacidade de me enfurecer e de renegar o que me envenena. Deixai que eu não passe pelas coisas de mãos vazias e sem as ver e que continue a criticar sem medo, a troçar de mim próprio, tirar do peito a emoção exigindo a substância do tempo e livrai-me até ao último momento das subserviências mesquinhas incrustadas nos corredores decrépitos e fraudulentos dos edifícios nacionais.
E já agora Senhor se tiverdes tempo aconselho a (re)leitura do elogio da dialéctica, de Bertold Brecht.
Elogio da Dialéctica
A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nòs queremos nunca mais o alcançaremos
Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nòs
De quem depende que ela acabe? Também de nòs
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aì que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã
Bertold Brecht
A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nòs queremos nunca mais o alcançaremos
Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nòs
De quem depende que ela acabe? Também de nòs
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aì que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã
Bertold Brecht
* texto igualmente inspirado pela leitura de J. Rentes de Carvalho publicado na revista "Periférica". Nº 6, Verão 2003
