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Saturday, December 06, 2008

in memoriam...

Portugal, anos 40, século XX. O que leva uma jovem fadista quase sem instrução a escolher cantar um poeta erudito do séc. XIX? A pergunta é feita num programa televisivo dedicado à diva. A resposta será sempre ambígua. Canta os grandes poetas da língua portuguesa, dos trovadores a Camões, de Bocage aos poetas contemporâneos: Pedro Homem de Mello, David Mourão-Ferreira, José Régio, Alexandre O'Neill, Manuel Alegre, Ary dos Santos. A relação precoce e visionária de Amália Rodrigues com a melhor poesia permanece um enigma. Nenhuma escola, por mais que exercite, consegue formar uma voz como a sua que, numa métrica de rigor inalterável, se elevava do chão, como um cântico ao sofrimento. O amor ou desafecto poderão explicar o registo pungente dos versos que entoou, canonizando aliás textos de insuperável qualidade literária. Poderá ter tido uma estranha forma de vida, mas foi um relevante factor aglutinador do povo português, que fez dela seu património. Assim e não obstante as terríveis criticas que por aí se escrevem sobre Amália, o filme, a produção nacional sobre a vida do mais respeitado mito português, resolvo passar o fim de tarde chuvoso de sábado, com o seu encanto triste, a dar de beber à dor na escuridão de uma sala de cinema. Não sei se vou deleitar-me, mas não resisto a revisitar uma das figuras lendárias do fado e da cultura portuguesa do século passado que exprime essa forma melancólica e nostálgica que é a saudade…

Sunday, November 02, 2008

qualquer coisa chamada dignidade...

O filme acaba com uma rapariga que procura o professor para confessar-lhe que não havia aprendido nada durante o ano lectivo e que não percebia sequer o que faziam na escola. Essa frase coloca uma interrogação que diz respeito a todos: estudantes, professores, psicólogos educacionais, sociólogos, família, políticos, – Qual o futuro da escola pública? O problema não é só um fenómeno francês e tem raízes fundas. Há algum tempo que eu aguardava a estreia destA TURMA/Entre les murs. Baseado num livro de François Bégaudeau, o filme acompanha um ano lectivo de um professor e da sua turma numa escola parisiense de um bairro problemático, microcosmos da multietnicidade da população francesa (uma malha social que é um autêntico caleidoscópio de culturas), espelho de contrates dos grandes centros urbanos. François está decidido a não deixar que o desincentivo o coíba de tentar dar a melhor educação aos seus jovens, a não desistir de qualquer coisa chamada dignidade. Mas as diversas culturas frequentemente colidem dentro da sala de aula. O docente insiste numa atmosfera de respeito e numa pedagogia com alma mas a ética é colocada à prova quando os adolescentes começam a desafiar excessivamente os seus métodos e de forma sarcástica, mal-humorada, desconfiada. Sem renunciar à identidade de François e dos seus alunos de várias origens sociais, etnias e credos, o realizador mostra como o encontro diário, numa sala de aula, entre um adulto cuja incumbência seria emitir conhecimentos, e um grupo de jovens cujo papel seria absorvê-los, se transmutou num debate violento, exigente, exasperante e as mais das vezes inútil. Em mais de duas horas de filme há instantes em que toda essa tensão é cortada por apontamentos divertidos, mas é indiscutível que o propósito é apresentar um quadro esquizóide diante dos reptos de uma educação pública de qualidade para todos.

Um filme que incomoda. Sabem do que estou a falar. Se não sabem, tenho muita pena…

Sunday, August 10, 2008

New York revisited...

(Lewis Hine, Lunch Break, 1932)

Instalado em frente ao Carnegie Hall a estadia em Nova Iorque soou-me a música celestial. Mas o que rabiscar acerca de uma cidade sobre a qual já foi tudo dito? Nada de diferente. Ou tudo, pois Nova Iorque renova-se a cada momento. É uma onda de luzes, cores, odores, barulho e gente, uma metrópole multicultural e multiétnica onde tudo pode acontecer. Seria redundante averbar aqui tudo o que há para ver – guias há muitos e um único post não comporta toda a arquitectura e escultura públicas, todos os centros culturais, todos os museus e galerias de arte, todas as ruas e avenidas e todos os parques. Do elitista Upper East Side ao revigorado Theater District, passando pelo MeatPacking, o bairro da moda, aos distintos hotéis de artistas, quase todas as esquinas (e recantos) de Nova Iorque são matéria para uma curta/média/longa-metragem. Não vou dissertar acerca do tempo que passei em terras nova iorquinas, gostaria apenas de me centrar em alguns momentos e lugares: no Lincoln Center for the Performing Arts; no Museum of Modern Art (MoMA); no Metropolitan Museum of Art e nos palcos da (e off) Broadway. Ao regressar a Nova Iorque, a principal dificuldade é decidir o que fazer: dos célebres ícones da maior cidade dos Estados Unidos à diversidade e carácter de cada um dos cinco distritos da grande metrópole (Bronx, Brooklyn, Manhattan, Queens e Staten Island), a escolha é tão esmagadoramente vasta que talvez o melhor seja reconhecer que não se pode abarcar tudo e simplesmente fruir do facto de ali estar e de poder respirar a atmosfera enérgica e a surpreendente força da cidade. Nova Iorque exerce uma pujante atracção e já se me tornaram familiares os seus impressionantes museus, as artérias congestionadas, a movimentada Chinatown, a Grand Central Terminal, célebre estação de comboios que foi cenário de um beijo entre o fugitivo Gregory Peck e Ingrid Bergman no Spellbound de Hitchcock, o American Museum of Natural History, maior museu de história natural do mundo, os teatros da Broadway, da off (e da off off), os terraços com magníficas vistas sobre a cidade, a livraria Barnes & Noble, a New York Public Library, uma das principais bibliotecas públicas do mundo, os clubes de jazz de Greenwich Village ou as atracções do Central Park, entre outros lugares. Contudo, o maior prodígio da Big Apple é provavelmente a população multicultural que garante a identidade da cidade, mantendo-a viva 24 horas por dia com a sua gama de matizes, estilos de vida, costumes e tradições, assimetrias e, necessariamente, conflitualidades. Não será, pois, de estranhar que se falem perto de 170 idiomas ou que tenha sido berço de múltiplos movimentos culturais em todas as áreas. Mesmo depois do golpe desferido pelos atentados, Nova Iorque mantém uma coreografia única; a city that never sleeps oferece praticamente tudo o que eu posso imaginar nos meus sonhos mais inverosímeis. E, embora possa permanecer semanas em Nova Iorque e apenas consiga vislumbrar aspectos superficiais da metrópole, há experiências e locais que não consinto perder.

Nova Iorque é surpreendente. Porquê? Não sei, diria que é uma questão de chama e que qualquer apreciação racional viria a despropósito. Foi entusiasmado que me senti na primeira visita e repete-se a paixão quando ali regresso. Nova Iorque é um work in progress, caótica, barulhenta e poluída, não tem a imponência aristocrática de Paris, a beleza, a cor e a história de Roma, o mistério das cidades escandinavas, o civismo de Viena ou a luminosidade de Lisboa. Também não tem grandes monumentos, nem edifícios seculares e não é propriamente acolhedora. E, no entanto, a sua energia cultural seduz e vicia. Talvez sejam as luzes que ofuscam, a veemência electrizante que se vive nas suas vias, a rapidez com que tudo se passa, o turbilhão de gente, a sensação de poder, de que ali tudo pode acontecer. Tentadora, a "maçã" atrai, deixa saboreá-la e depois aprisiona. Há quem compare a cidade a uma serpente cujo olhar nos seduz. Depois, prende para sempre. Mas não será esse o segredo e fascino de uma paixão?

Ao aterrar de olhos bem abertos em Times Square julgo que estou dentro do Blade Runner, a observar a paisagem nocturna e, entre a multidão que passa, o meu olhar dirige-se em direcção às luzes e aos cartazes publicitários coloridos da Broadway. Pareço um recém-chegado tal a expressão de espanto, mas também pouco importa porque é impossível ficar indiferente ao espectáculo, como se estivesse no palco do mundo, um lugar essencial onde tudo se passa ao mesmo tempo e tudo se vê. Edifícios todo-poderosos, o glamour do néon que ilumina a noite escura, várias músicas de fundo, um cowboy sem roupa, mas de guitarra em punho, um baterista à procura do sucesso, um homem travestido de noiva, o vendedor da Gray Line New York Sightseeing em delírio por mais uma venda de bilhetes, sirenes da polícia, o ronco do metropolitano e o rumor da respiração simultânea de milhões de pessoas...

Em dia meteorologicamente ciclotimico, entre trovoadas e sol abrasador, refugio-me no Gerald Schoenfeld Theatre, curiosamente a mesma sala onde há três anos assisti a uma peça de Edward Albee, com Kathleen Turner em Who´s Afraid of Virginia Woolf? Mas é à noitinha que me delicio numa das maiores instituições de música erudita do mundo: Lincoln Center/ Avery Fisher Hall e o seu Mostly Mozart Festival. Obviamente que não posso comparar o Chorus Line ou o Gypsy (que vi com agrado e o coração apertado devido ao talento da Patti Lupone, naquela espécie de King Lear do musical) com a voz da cantora lírica alemã Christiane Oelze e a batuta de Louis Langrée. Só mesmo eu que esquizofrenicamente troco um punhado de dólares por um espectáculo em qualquer sítio, desde um vão de escada a uma sala imperial, salto de registo em registo. Psicanálise exige-se, ou talvez não, que se lixe. Sou extraordinariamente feliz numa plateia, embora cada vez mais severo…E a propósito de exigência caminho para ruas fora dos grandes holofotes onde encontro Titus Andronicus, uma peça fora de qualquer chancela comercial num teatro gerido à laia de Woody Allen chamado The Archlight Theatre. Ali o texto é sério – ao contrário do que escreveu T.S.Eliot, “One of the stupidest and most uninspired plays ever written” –, interpretações cuidadas, cadeiras rotas, palco desnudado, o vizinho do lado descalço, um homem que me pede para guardar o lugar enquanto sai por uns instantes, ainda que a sala esteja vazia, dois negros na fila da frente de mãos dadas, a senhora da bilheteira com a vozinha irritantemente fina, a visão independente do teatro em todo o seu esplendor e o público em menor número que o elenco. Não sei se melhor que a Cornucópia (refiro-me à adaptação que a Companhia de Luís Miguel Cintra fez daquela peça de Shakespeare), não, claro que não, mas decididamente diferente da maioria do que se faz cá e lá. E foi, igualmente, com chuva torrencial que fui brindado à saída deste curioso teatro da 152 West 71st Street.

Além do teatro (de algum teatro, cada vez mais off Broadway) os territórios museológicos assumem a minha preferência. Nova Iorque possui muitos tipos de museus, suportados por uma prática mecenática corrente. O Metropolitan Museum of Art é o maior museu dos Estados Unidos e exibe actualmente a maior retrospectiva dos últimos 40 anos sobre Turner, a qual se converteu num acontecimento cultural na cidade. Para a ocasião, reuniram-se cerca de 150 obras, 85 das quais procedentes da Tate Britain, onde se guarda uma grande parte do denominado Turner Bequest, um conjunto de aproximadamente 100 óleos cedidos pelo artista à Grã-Bretanha e entre os quais se encontram alguns dos seus trabalhos mais relevantes. Esta mostra que agora pude contemplar no MET, com a qual se desenha um percurso completo por toda a produção de Turner, de forma cronológica e temática, divide-se em dez deslumbrante partes e por elas inquieto me perdi …

Muitos museus especializaram-se, como o Museum of Modern Art e o controverso Guggenheim Museum, de Frank Lloyd Wright. E imperdoável seria se lá não voltasse. O MoMA mostra como Salvador Dali se intoxicou e se deixou contaminar pelo cinema: “Estou em Hollywood, onde entrei em contacto com os três surrealistas americanos, Harpo Marx, Walt Disney e Cecil B. DeMille. Acredito tê-los intoxicado e que as possibilidades para o surrealismo aqui se tornem uma realidade.” Na carta endereçada a André Breton, Dalí afirmava sua afinidade com três dos maiores ícones do cinema americano comercial. Dali que de forma brilhante interage com lagostas e línguas gigantes foi convidado pelos grandes estúdios a desenhar sequências oníricas de realizadores como Fritz Lang e Hitchcock. O pintor armazenou muito da visão vanguardista e “alucinógena” que marcou a sua pintura e a sua estreia no cinema em parceria com Luis Buñuel. Essa fertilização mútua entre cinema e pintura é o tema da interessante exposição Dali: painting and film.

Em velocidade de cruzeiro revisitei a gigantesca concha branca que é o Guggenheim e dei conta que Louise Bourgeois ali habita por uns meses. A construção da artista plástica é uma triunfante afirmação da existência iluminada pela libido. Nessa obra biográfica e erotizada, transformar materiais em arte é uma conversão física. Esta destreza retira a mulher da sombra da história da arte. Depois de Bourgeois, o universo artístico já não será de mulheres no mundo dos homens, nem têm de falar aí a linguagem dos homens, mas tornar presente o seu próprio desejo. Namorei o catálogo, folhei-o atentamente e adiei a aquisição.

Nova Iorque, sexta-feira à tarde. Despeço-me da cidade com um Blackberry Lemonade bebido apressadamente num bar de hotel da 7th Avenue…


P.S - Não resisti e numa sala de cinema da Broadway assisti à adaptação da obra-prima de Evelyn Waugh: Brideshead Revisited. Não comparo com o livro, nem com a série e antes de ler qualquer critica mergulhei nos anos 20 e acompanhei Charles Ryder e Sebastian Flyte. Não obstante tudo o que se venha a ser dito a propósito e presumo que não seja pouco posso confessar que saboreei esta outra visão da obra.

Saturday, July 19, 2008

gente com medo...

Apocalipse em terras de Vera Cruz. Um país em guerra, há muitos anos – principalmente nos grandes centros urbanos. A Guerra das Drogas acontece desde que os traficantes conquistaram poder e construíram um império nas favelas do país. Mas se não fosse o comércio, os corsários do negócio estariam assaltando, sequestrando e assassinando em qualquer outro lugar. E a sociedade néscia considera que é bastante reprimir o tráfico. Enquanto o poder politico, e as instituições em geral, não proporcionar opções à criminalidade, as guerras urbanas vão continuar bestializando os homens - e no conflito vale tudo! Como bem reproduz este filme contado em português... Tropa de Elite é uma obra que descreve o violento quotidiano, retrato da falência do humanitarismo sob interesses ambiciosos e egoístas e é realista porque mostra o lado humano das personagens – que têm medo, que sofrem de stress, de arrependimento, que são pessoas, afinal. Também expõe o tumulto do poder público – a corrupção da polícia militar, os interesses políticos, a lei da selva de pedra, que são as colossais metrópoles. As mais famosas favelas são as do Rio de Janeiro, onde contrastam fortemente com os prédios e mansões da elite da Zona Sul, convivendo lado-a-lado e configurando paisagens que desafiam a lógica social. Ao contrário da estética cinematográfica americana, Tropa de Elite não exibe heróis – qualquer ser humano numa guerra metamorfoseia-se em assassino, arquiva os escrúpulos no baú mais próximo. É um cenário atroz – de acção, tensão e drama – mas é um produto corajoso que emociona e perturba e serve como um alerta (quantos mais serão necessários?) para que o mundo acorde; para que a colectividade entenda que não basta ser contra a violência (não basta vestirmo-nos de branco e fazer videoclips apelando à paz...); é necessário que se consagrem oportunidades diferentes da criminalidade; é forçoso que se ofereça outros valores, aqueles que o dinheiro não pode nunca alcançar. Ainda que em tarde quente de Verão, valeu a pena atravessar a ponte e digerir este sobressaltado filme, com interpretações notáveis e um guião dolorosamente transparente. E vale a pena pensar que este tipo de violência – à sua escala – já vai habitando em terras ditas de brandos costumes...

Sunday, June 15, 2008

à noite logo se vê...

Vincent van Gogh, The Starry Night 1889.
The Museum of Modern Art, New York.
noite labiríntica/5.ª
Saio tarde do ministério. Corro para Alfama. Encontro marcado junto ao Museu do Fado. Nos Santos Populares, Alfama assume-se como um dos bairros com maior tradição nesta disputa alfacinha. Há exagerada alegria, mas não é a melhor época para compreender o bairro e interiorizar o seu espírito. É impraticável andar por aqui, tal a enchente que toma por completo o bairro de assalto. Não há pátio que não tenha uma banca com cervejas, sangrias, sardinhas a assar e milhares de pessoas em fila de espera. Aguardei mesa com a perseverança que a noite de Santo António exige. Para não falar dos bailaricos, onde os autóctones se amalgamam com o resto da cidade num convívio entusiasmado. Labiríntico, este castiço bairro conserva uma áurea peculiar, carregada de fado, marchas populares, histórias de marinheiros e uma arquitectura singular. Em circunstâncias comuns não é difícil perder-me [sou um homem desorientado, de facto]. Numa noite destas é até muito provável desaparecer no meio deste bairro que tem uma geografia única. São becos, ruas, ruelas e vielas que se articulam entre si ligados por lances de escadas de calçada que batem os desníveis da encosta. E é neste sobe e desce que se vai avançado à descoberta de um mundo descoincidente das avenidas e dos centros comerciais. Afinal, uma espécie de carnaval bairrista no desfecho cálido da Primavera.
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noite de teatro/
Na noite de todas as superstições vou picar o ponto ao teatro. Um inventor concebe um motor que funciona a água. Acredita ter descoberto a passagem para a fama e ambiciona viver numa casa de campo com a irmã invisual. Mas os grandes interesses económicos, tal abutres, salivam pelo invento. Um Conto Americano - The Water Engine, escrito para teatro radiofónico, mas adaptado ao cinema e à arte de Talma. No Teatro D. Maria II. A peça do norte-americano David Mamet coloca questões ambientais como a carência de recursos naturais e a urgência de apostar nas energias renováveis. O dramaturgo leva a reflectir acerca dos agentes financeiros e a forma como se sobrepõem ao progresso da ciência. Um indivíduo convence-se, ao criar um motor que usa água por combustível, que resolverá os problemas energéticos e terá toda a gente a fazer-lhe a devida vénia. Equivoca-se por desconhecer os efeitos de sustentar uma utopia, por não calcular a robustez dos interesses opostos e por desprezar a discrepância entre justiça e verdade. Ainda que na América. Não obstante Roosevelt. Mesmo no território do progresso, o sonho americano de um inventor pode constituir uma tragédia.

Como é seu costume, David Mamet não economiza na descrição da falsidade das relações sociais e cultiva com sageza carrasca as antinomias entre as várias forças presentes no capitalismo, através de argumentos eficazes e diálogos entusiásticos. Contudo determinadas situações surgem no Dona Maria, numa sala quase deserta [dói-me ver um teatro vazio], como se cozinhadas em lume brando, menos belicosas do que era expectável…Ainda assim, não lamento nada ter-me perdido à noite naquela encenação, mas abominei que o público não morasse ali.

Do Rossio para o Dafundo, fui mascar Mamet e as consequências do capitalismo para casa de TC&PF, espécie de botequim, onde faz todo o sentido discutir tudo e não debater nada.
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a minha noite com Aleksandra/sábado
Depois de deixar a minha mãe e o meu filho entregues ao Michael Patrick King e à sua longa-metragem Sex and the City (sim, a minha progenitora e o J.) rumo à Av. Frei Miguel Contreiras, onde me espera algo de novo. Última sessão de uma noite quente. Aleksandr Sokurov materializa um sonho e torna Galina Visnevskaya, a lendária cantora de ópera russa, numa protagonista. A cantora/actriz é Aleksandra, uma avó que decide visitar o neto, um oficial colocado na frente russa da Chechénia. Aqui, encontra um mundo de homens onde sensibilidade é uma palavra expurgada do dicionário. Os dias sucedem sem que um transporte mais emoção ao outro e a cada instante decide-se sobre a vida e a morte. É, pois, na descoberta desse outro mundo que o filme se coloca diante o olhar de uma velha senhora. Um filme com uma vigilância inquietante face ao real, um olhar pelas cores e pelos odores que se experimentam naquele microcosmos de batalha. Uma obra antropológica, numa óptica humanista onde o que importa é que as personagens sejam autênticas, que sintam o esgotamento nas pernas, o frio na espinha, o desespero no rosto e a inquietação que o filme manifesta.

Vale a pena sublinhar que o filme foi rodado na própria Chechénia. Enfim, há um saber claro de que aquela guerra infindável é um sinal infame para a consciência mundial. Ao seu género, o realizador apresenta as feridas que essa guerra já provocou. No lado checheno, mas igualmente no lado dos soldados russos. Porque o conflito transforma inevitavelmente todos os que estão envolvidos nele. Saí do King algo constrangido pela realidade, mas saciado pela beleza das imagens, competência das interpretações e impressionabilidade dos olhares …
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à noite com uma diseuse/domingo
Acabo de ver e ouvir, no Câmara Clara, uma entrevista com Germana Tânger. Admirável mulher esta, agora com 88 anos e muitas histórias para contar. Mora numa casa ao lado daquela onde nasceu Fernando Pessoa. Os poetas do Orfeu foram os que mais disse na sua longa vida de divulgadora infatigável da poesia. Conheceu bem Teixeira de Pascoaes, foi íntima de Almada Negreiros e Sarah Afonso, e privou com José Régio, Jorge de Sena, Nemésio, Maria Helena Vieira da Silva e Sophia de Mello Breyner. Dedicou mais de 50 anos a dizer poesia portuguesa pelos quatro cantos do mundo. Na semana em que se comemoram os 120 anos do nascimento do poeta Pessoa foi agradável escutar a diseuse numa conversa sobre poesia, Pessoa e Portugal. Terna ficou a noite ao ouvir a mestre da arte de bem dizer:

....No mar, no mar, no mar, no mar,
Eh! pôr no mar, ao vento, às vagas,
A minha vida!....

Álvaro de Campos

Tuesday, June 10, 2008

tão só um dia...

Um filme.
Un homme perdu. "O filme encontra a sua origem na minha relação particular com o meu país, o Líbano. Eu vivo em França e depois de uns anos e com o tempo, tive a impressão de perder a visão do país de onde eu venho, como um barco que desaparece no horizonte. Como se a minha vida não fosse nem aqui, nem lá. É esta a razão pela qual eu quero contar a história de dois homens e não de um só. (...) Acabam por ser a frente e o verso de um só. Um árabe e um ocidental que se perdem, desaparecem, reaparecem... e que finalmente se esquecem de onde vêm" (Danielle Arbid.). Um fotógrafo francês palmilha a terra em busca de experiências extremas. Na Jordânia, o seu caminho cruza-se com o de um homem misterioso, em fuga há anos, não se sabe do quê. O fotógrafo vai tentar desenterrar a sua história e persiste em viajar com ele, num périplo pelo Oriente que atravessa a Síria, a Jordânia e o Líbano, um universo recheado de riscos e interdições. Em Un Homme Perdu a realizadora dá robustez ao anseio de fuga, usando-se para esse efeito do retrato dos dois viajantes. Rejeitando o facilitismo do bilhete-postal turístico, esta longa-metragem oferece a oportunidade de mergulhar na atmosfera estranha de uma cidade desconhecida, cheia de fronteiras suspeitas, armadilhas e de bizarros refúgios. É explorado esse desejo de liberdade e a violência que lhe está subjacente. Crónica de duas personagens – uma amizade particular de dois esfolados vivos que se alimentam um do outro, como os vampiros – que procuram um lugar no mundo, mas que guardam dentro de si uma revolta brutal, não negociável…

Um livro.
Miguel Esteves Cardoso (MEC) numa crónica em que disserta sobre o primeiro amor parece suspirar ao escrever que “(…) o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós”. Já Padre António Vieira sustentava “Questão curiosa nesta Filosofia, qual seja mais precioso e de maiores quilates: se o primeiro amor, ou o segundo? Ao primeiro ninguém pode negar que é o primogénito do coração, o morgado dos afectos, a flor do desejo, e as primícias da vontade. Contudo, eu reconheço grandes vantagens no amor segundo. O primeiro é bisonho, o segundo é experimentado; o primeiro é aprendiz, o segundo é mestre: o primeiro pode ser ímpeto, o segundo não pode ser senão amor. Enfim, o segundo amor, porque é segundo, é confirmação e ratificação do primeiro, e por isso não simples amor, senão duplicado, e amor sobre amor. É verdade que o primeiro amor é o primogénito do coração; porém a vontade sempre livre não tem os seus bens vinculados. Seja o primeiro, mas não por isso o maior” (ver Padre António Vieira, in "Sermões”). A última edição da Time Out/Lisboa questionava se existem assuntos intemporais? O amor é um desses temas e, felizmente, há quem saiba compor sobre ele de forma singular. Alguns artesãos da escrita dão cartas nessa empreitada. Essa é a virtude da obra de um dos mais perspicazes autores russos. Refiro-me a Ivan Turguénev, escritor de primeira água, e àquele que foi um dos últimos livros que escreveu: O Primeiro Amor. Turguénev viveu um dos mais afamados casos de amor da época com a cantora de ópera de nacionalidade espanhola Pauline Garcia Viardot. O relacionamento entre ambos prolongou-se até à velhice, com o consentimento e a cumplicidade do marido da solista. Turguénev descreve em O Primeiro Amor, a descoberta afectiva de um mancebo de 16 anos. Novela com pouco mais de cem páginas, contada na primeira pessoa, dá a dimensão tão trágica quanto feliz de uma iniciação. “Foi no Verão de 1833, tinha eu dezasseis anos”, começa a contar Vladímir Petróvitch naquele que é uma exposição dirigida a um grupo de amigos. O autor, neste belo livro, vem comprovar que não há cânones no que ao (primeiro) amor diz respeito. Se fosse possível ser gerido, ser pressentido, ser agendado, ser reflectido, não seria primeiro. A única fórmula é: não pensar, não resistir, não desconfiar. Voltando a MEC também comungo da opinião que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. Não levou a parte nenhuma. O primeiro amor deveria ser o primeiro e esquecer-se, mas toda a gente sabe, durante o primeiro amor ou depois, que é sempre o último…

Um dia
Um único dia abre-me as portas para outros mundos, permite-me transitar por atalhos diversos, perder-me no labiríntico de um enredo formado por palavras e imagens. Quando termino o livro ou saio da sala de cinema fico diferente. Quando leio a última página ou quando as luzes da sala se acendem sinto que me apetece andarilhar novamente pelas páginas e revisitar as imagens para descobrir novos caminhos, diferentes sentidos, outras experiências ou repetir toda aquela agitação de sentimentos e lutas interiores entre o lógico e o ilógico e tudo o que circula pelo meio. Através da leitura, das imagens e dos sons descubro que existe um mundo que se cria e recria. Este é o poder da arte, o poder de falar da natureza humana, de forma exemplar e inextinguível. Mergulhar nas artes é como o círculo de Ana Hatherly, muito oportunamente citado por Ana Catarina M. Ferreira (in Ulisses, o texto magnificamente infinito: A odisseia de editar um texto proteico):

“(...)

Nele se inclui todo o mistério

E toda a sapiência é o que está feito,

Perfeito e determinado,

É o que principia

No que está acabado.”

É verdade que alguns dos meus dias me transportam para Ulisses, obra-prima da literatura. Catalogações desta natureza são feitas acerca de várias obras, mas a realidade é que o livro de Joyce marcou de forma indelével o mundo das letras, tornando-se numa das “catedrais da arte literária moderna e influenciando a produção escrita de muitos escritores desde então” (Ana Catarina M. Ferreira). Num desses dias abalroei na sala 2 do King onde consenti que Danielle Arbid me contasse a história de um homem perdido; li aos bochechos o livro do russo Turguénev (enquanto esperava que a sessão começasse; no carro, enquanto L. conduzia e em casa ao som de Katia Kabanova de Léos Janacek, pela London Philharmonic Orchestra). No átrio do cinema cruzo-me com V. (com quem não falava, seguramente, há mais de oito anos), agora recuperada de queda quase fatal relata-me o dia que apressada para um lançamento de Lobo Antunes no S. Luiz se estraçalhou toda, tombando de umas escadas, numa cena digna de um filme de Wes Craven. Venceu, felizmente, embora com a consciência que as bibliotecárias também se abatem. Mas esse dia apinhado de neologismos, palavras-valises, doutas citações, ironias e trocadilhos ainda me levou ao hospital (autentico teatro operático, onde não faltam tenores, contratenores, sopranos, misérias e lágrimas; onde nem sequer escasseiam Toscas cantando angustiadas a sua “Vissi d’arte”, ou Otellos nos seus “Niun mi tema”, vendo as suas Desdemona mortas......por suas mãos!) para visitar R., mãe de uma amiga íntima; acenar à pressa a farmacêutica RM. que de tanto ansiar um filho, aguarda agora hospitalizada a vinda de dois; cortar o cabelo no TM Coiffure (com o Agnaldo [?] a relatar-me a sua vida, quase, intima); ir ao Arranjos Express buscar o fato do J. para o seu baile de finalistas, sim, a despedida do 9 ano; telefonar à mãe para fazer a diagnose diária das indiscrições do círculo familiar; receber telefonemas e msns. Marcar coisas para dia seguinte; pensar no CV da LC., para que possa ser avaliada de acordo com as suas capacidades e não conforme jogos de bastidores, indecentes e cruéis, que alastram na coisa pública. Um dia, um livro, um filme e não sou eu o ser humano defeituoso e idiossincrático Mr. Bloom. Mas é por isso que eu aprecio James Joyce, por que qualquer simples mortal se torna um herói homérico, não em luta contra monstros, deuses e sereias hipnóticas, mas na eterna luta pela vida, na trivialidade do dia-a-dia. Que pode ser resumido nos oitenta mundos percorridos em um único dia, como Mr. Bloom, descrito magistralmente pelo escritor irlandês, que tanto aprecio…

Sunday, June 01, 2008

tudo se passou num instante…

Traídos pelo Destino. Num fim de tarde entusiástico, o universitário Ethan Learner, a mulher e a filha estão a assistir a um recital ao ar livre, onde o filho mais velho, de 10 anos, toca violoncelo. No caminho para casa param em Reservation Road. Aí, num instante terrífico, é-lhes arrancado algo para sempre. O destino de duas famílias cruza-se num posto de gasolina, quando o filho de uma delas morre num acidente. Os pais terão de fazer a escolha mais delicada das suas vidas. A partir dessa altura é o desenrolar dos inerentes sentimentos de revolta e vingança, a par e passo com os de culpa, medo e vergonha. Consumido pela dor e pela ineficiência da polícia, o professor conduz a sua própria investigação que o poderá levar ao responsável pela morte do filho. Tudo é drama e abundância de olhares e sinais, num certame de representação de paternidade, aqui e ali perfurado pela mansidão maternal, frágil e comovente. A realização caracteriza-se pela parcimónia, pela intensidade das palavras e das imagens, nunca encarrilando na lágrima fácil.

Devo confessar que me desloquei às Amoreiras sem grandes esperanças, nem desesperanças. Mas mais importante do que o próprio filme, para mim, é pensar que tudo o que é verdadeiramente marcante na vida se pode passar num ápice e que esse momento é tantas vezes infelizmente definitivo. Sempre me perturbou um pouco este sentimento de livre arbítrio do destino. Recordo-me do neurocirurgião João Lobo Antunes quando evocou esta questão do instante num texto a propósito de Tolstoi e do magnífico livro A morte de Ivan Ilicht: […] tudo se passou num instante, mas esse instante foi decisivo.

Saí da sala ferido, embora bem acompanhado, e fui dar de beber à dor no Procópio onde à laia de tertúlia demos a volta ao mundo das nossas vidas e dos nossos sonhos…

Sunday, May 25, 2008

a matéria do poema...

Sábado, início de tarde. Depois de uma longa e terna noite, a lembrar o título de F. Scott Fitzgerald, apetecia-me um policial. Lembra-me a história da sétima arte que ao longo dos tempos o cinema policial francês situa-se entre os melhores da Europa e, mesmo que em estilo dissemelhante, assombra os homólogos americanos. Entre os seus criadores Claude Chabrol, considerado o fundador do movimento francês Nouvelle Vague, tornou-se indeclinável para os simpatizantes do género. Mas este mestre dos filmes de mistério tem uma outra particularidade: a análise microscópica da burguesia e dos seus vícios. La fille coupée en deux vem precisamente cruzar esses ambientes. O filme inicia como uma atenta observação da sociedade, pondo em acareação dois homens que desejam a mesma mulher, um dos quais é um escritor com uma mente subvertida, enquanto o outro, multimilionário, é alienado. Entretanto, quando a narrativa se encaminha para o seu termo, introduz-se a componente policial, em que o crime terá de ser punido mas numa proporção que não é precisamente a que se conjecturaria. Gabrielle Deneige é uma simpática locutora que apresenta a previsão meteorológica na estação local de televisão, em Lyon. Como filha da proprietária de uma livraria, ela interessa-se por literatura e fica entusiasmada com a oportunidade de conhecer um escritor reverenciado, Charles Saint-Denis. Quando o encontro sucede, percebe que o que sente por ele vai para além da admiração, não obstante a diferença de idades. A apresentadora de televisão provoca exactamente o mesmo efeito em Paul Gaudens, um indivíduo extravagante e afectado. Visto que o primeiro é a sua verdadeira paixão e o segundo apenas um admirador persistente e endinheirado, a escolha entre os dois não se revela particularmente problemática. Mas é neste ponto que o argumento revela alguma espessura. Depressa se percebe que Saint-Denis não está interessado em estabelecer uma relação de longo prazo com Gabrielle. Ele tem um casamento estável e uma mulher interessante, que não se importa que ele tenha os seus casos desde que regresse todas as noites para casa. Apesar de ser um tanto ou quanto desequilibrado e de usar o dinheiro para conseguir atingir os seus objectivos, Paul também não é apenas um menino rico e estouvado.

A história, inspirada em factos reais que se passaram nos Estados Unidos, em 1906, está cheia de subtilezas e oferece a todas as personagens o bastante para que ganhem consistência. Chabrol continua a revelar uma gímnica intelectual capaz de construir caminhos intrincados sem quebra da verosimilhança fazendo uma radiografia à burguesia francesa contemporânea cujo retrato não é agradável. Se a isto acrescentar umas imagens extraordinárias de Lisboa (fotografia de Eduardo Serra…) fica explicada a atenção que me provocou o filme…

Interstícios de Domingo. Dia cinzento convida à leitura. Nada me dá mais prazer do que descobrir um excelente livro. A matéria do poema um bom pretexto para me enterrar no sótão-estúdio, onde oiço a chuva bater nas janelas. "Nesse Verão falei inglês com/ a porteira do prédio, que tinha um gato e a obra/ completa de Shakespeare em três volumes." É assim o nova obra de Nuno Júdice: a reiterada busca de poesia nas mais minúsculas e insólitas realidades. Indispensável, como a maioria dos outros livros do poeta. Escreveu alguém, algures, que todos os temas desta poesia sofrem uma estranha metamorfose, corporizada na imagem da viagem (ou da mala) de Álvaro de Campos, o mais cosmopolita de todos os heterónimos e figura tutelar de um dos poemas, naquele que é talvez o mais pessoano de todos os livros do autor. Há alguns anos, Eduardo Pitta escrevendo sobre O Movimento do Mundo, citava T. S. Eliot: «A palavra tem, e continuará a ter, vários significados em vários contextos». No seu Da Literatura, Pitta aborda novamente o autor agora que ele publica A matéria do poema, por lhe parecer que a convicção de Eliot, na sua aparente redundância, interpreta com nitidez o sentido de uma obra que desde A Noção de Poema não para de espantar, sem se desviar do propósito original. É um livro de luz e de sombras, que inscreve a poesia num mundo em fragmentação, extraviadas que foram algumas das referências culturais e políticas do passado.

Não consigo conter o desejo de transcrever aqui, com a devida reverência ao poeta, ficcionista e ensaísta, o poema Gramática: O Verbo

Principal ou auxiliar, é o verbo que faz mover
o discurso, dando à existência a sua qualidade
activa, e transformando-a no ser idêntico
que reúne em cada um sujeito e estado, sem
distinguir uma ideia de outra. Porém, a
conjugação dos tempos e modos multiplica
o que dizemos por nós, por vós e por eles,
desde o passado ao futuro; e no presente
em que o enunciamos, o verbo é ser o que
é, sem ter sido o que será, na definição
conjugada das pessoas que agem, sem
que o saibam, e das que sabem, sem agir.
A Matéria do Poema (2008)

É sempre bom recordar que Nuno Júdice tem um blogue: pode lê-lo aqui!

Ainda Domingo. Ainda cinzento. Recorro ao DVD. A beautiful mind baseia-se na biografia de um matemático escrita por Sylvia Nasar e começa com a chegada do jovem doutorando à Universidade de Princenton, em 1947. Há algo na palavra "génio" que nos agita. Porque será que há algumas pessoas que escapam ao convencional e conseguem distinguir o que outras não vêem, ouvir o que outras não escutam ou, mais perturbador ainda, desvendar o que os outros não conseguem? Nomes como Albert Einstein, Niels Bohr, Charles Darwin, Louis Pasteur, Sigmund Freud, Galileu Galilei e Antoine Lavoisier ou mesmo Bergman, Antonioni e Woody Allen passam pela nossa cabeça com um misto de respeito e espanto. E, mais misterioso ainda: até que ponto a genialidade, se levada ao extremo, não pode ser relacionada com alienação? Isolado de todos e de tudo, Nash recusa-se a participar nas actividades básicas da Universidade. O seu objectivo é a procura de uma "ideia original". Será numa conversa de bar que encontra inspiração, uma teoria revolucionária com aplicação à economia moderna e que contradiz 150 anos do predomínio de Adam Smith. O reconhecimento pela investigação que desenvolve acontece em 1953, após ter realizado alguns trabalhos no Pentágono a decifrar códigos russos. Baseado na história deste génio e nos dramas inerentes à genialidade de alguém que, por força da mesma, acaba por se manter isolado do resto da sociedade, o filme propicia momentos de prazer e ternura q.b. O resto do filme segue uma trajectória repleta de desafios, onde o cientista luta, não só contra a esquizofrenia, mas também contra todos aqueles que não acreditam na sua recuperação. Comovente o percurso da personagem. Não saber o que é real e ilusão passa a ser uma experiência extrema. O mérito do realizador é fazer com que o espectador também não o saiba. O enredo é envolvente e inteligente. Já perto do final é impossível a emoção não tocar à porta. Um filme, mais um, a lidar com este enigma que é a matemática e a mente humana.

Sunday, May 18, 2008

rasgar a solidão...

Sábado à noite. Confesso que foi com alguma desconfiança que me sentei na sala vip 3 das Amoreiras para assistir a um filme que supostamente teria como alicerce uma relação amorosa entre um homem e uma boneca de silicone de tamanho real! Não estava propriamente à espera de uma obra ao nível da programação do Cine Bolso ou do provecto Olímpia ou de qualquer perversão de carácter sexual, mas arriscar-me-ia a um produto para o qual não teria muita paciência. Enfim, como não sou propriamente o autor da célebre frase "Nunca tenho dúvidas e raramente me engano" que marcou o quotidiano político-partidário português alguns anos atrás, dei o benefício da dúvida e lá fui conhecer aquele insólito casal. Sensibilidade em forma de filme, é assim que apetece definir esta surpreendente comédia dramática! O filme indie que poderia muito bem ter derrapado para o terreno inevitável da one long joke revela-se, afinal, uma história séria sobre a melancolia da solidão e o brilho do optimismo. No cerne está Lars, um homem jovem com sérias dificuldades de interacção social e hiper-sensível a um simples toque. Um ser humano que vive uma sensibilidade permanente, uma sensibilidade física, emocional ou sentimental mas preso no seu próprio mundo. Louco de estar só, acompanhado de muito pouco, decide depois de anos de retraimento rasgar a solidão. Assim sendo, não perde mais tempo e resolve adquirir uma sex doll via Internet, apresentando-a logo de seguida como sendo a sua namorada Bianca. De início, a perplexidade instala-se na pequena comunidade no norte dos EUA onde reside, mas depressa os habitantes decidem aprovar esta singular idiossincrasia e receber aquela peculiar intrusa, integrando-a nas diversas áreas do seu dia-a-dia, assumindo-a como humana. Não há espaço para dúvidas: o mau gosto não mora aqui, o humor é delicado e histrionismos estão de licença de longa duração. Existe um equilíbrio extraordinário entre as doses de comédia e de drama, convenientemente sustentado por um conjunto de interpretações que se encontram em perfeita harmonia com os propósitos do filme. O protagonista é admirável na criação de um introvertido avesso a maneirismos que o pudessem etiquetar de alienado ou pervertido. A sinceridade da sua composição chega a ser tocante, fazendo com que se simpatize de imediato com ele. Um filme que nos apazigua com a vida, mesmo que o faça simplesmente durante o curto espaço de tempo em que estamos sentados a olhar para o ecrã.
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Domingo à tarde. Dia Internacional dos Museus. À sombra do romântico jardim das Amoreiras, face ao Aqueduto, à capela de Nossa Senhora de Monserrate e à Mãe-d’água descobre-se a Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva. Instalada na antiga Real Fábrica dos Tecidos de Seda, num edifício do século XVIII, restaurado para albergar um museu, a instituição tem por finalidade a divulgação da obra do casal de pintores. Além da sua colecção permanente, que cobre um vasto período da produção dos dois pintores são apresentadas exposições de artistas que com eles partilharam afinidades artísticas ou que com eles conviveram. No âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Maria Helena Vieira da Silva – a pintora nasceu em Lisboa em 1908, mas naturalizou-se francesa quando Portugal, debaixo da ditadura salazarista, lhe negou a cidadania depois de ter casado com o húngaro Arpad Szenes, que conheceu em Paris. Sobre eles, dizia Mário Cesariny: “Arpad Szenes e Vieira da Silva são a mais bela história de amor e pintura que jamais conheci” - a Fundação apresenta um monólogo recorrendo às palavras ditas pela própria ao longo da sua vida. O resultado é Vieira da Silva par elle même, uma peça de teatro, com forte cunho autobiográfico. Escrito e interpretado por Maria José Pascoal e com direcção de Elisa Lisboa este espectáculo recorre apenas às palavras ditas pela pintora ao longo da sua vida. Os quadros amparam a atmosfera aconchegante e intimista que se sente à entrada do auditório. É como invadir o atelier de um artista, destapando num olhar os seus desejos e as suas paixões: além dos quadros, dos pincéis alojados em frascos que se disseminam por cima dos diferentes móveis e vigiam até de dentro das gavetas, há prateleiras com livros e, a um canto, o gira-discos. Ficou-me a arrepiante sensação de que tudo o que foi dito em palco são as opiniões autênticas, ideias, incertezas, dúvidas e questões, que a mulher e a pintora desejou partilhar, a propósito da sua vida e do seu trabalho…

Saturday, May 03, 2008

Irina e a descompressão manual...

Não obstante algumas bolas negras de críticos encartados, não me deixei convencer por doutos pareceres e fui ver Irina Palm. Quando desesperada vê um anúncio dizendo "anfitriã precisa-se", Maggie tropeça num sex joint do bairro londrino do Soho, especializado na modalidade do “glory hole”, onde, anonimamente, os fregueses procuram a eufemísticamente cognominada descompressão manual. Ingenuamente aceita trabalho como maneira rápida para obter dinheiro. O proprietário revela um afecto peculiar pela doce Senhora e transforma-a na muito apetecida e lucrativa Irina Palm, que inicia assim uma vida dúplice.

Irina Palm é um produto curioso. O seu ponto mais afirmativo está no desafio que encara. Encontrar a dignidade onde menos se espera. No mundo dos peep shows, da sexualidade comprada, dos solitários de corpo e espírito. É nesse meio, permissivo com a juventude e intolerante em relação à velhice, que avança com a personagem principal. Deve dizer-se que a actriz Marianne Faithfull é extraordinária. Mesmo porque, num filme que não se pretende visualmente atractivo, tem de representar as suas emoções com o rosto. E por ele passam a espanto, o nojo, o aborrecimento, a rotina…

[Mais:]

Quem é essa Irina Palm, nom de guerre de Maggie? É uma respeitável viúva inglesa à procura de dinheiro para pagar os tratamentos que hão-de salvar a vida do neto. Uma mulher que encontra uma maneira pouco ortodoxa para alcançar o seu objectivo. E a sua última oportunidade, depois de ter vendido a casa para pagar as contas do hospital. Só que esta avó britânica já passou daquela idade em que as pessoas podem encontrar um emprego. Viúva, sem currículo, uns 50 e muitos anos, ela está à margem da sociedade moderna de produção e consumo; precisa desesperadamente de dinheiro. Haveria muitas armadilhas previsíveis no trilho de um filme com estas características. Tinha todos os ingredientes para redundar num drama com forte apelo ao sexo, ao mau gosto, ao preconceito, à caricatura ou ao pudor desmesurado. Pois bem, podemos não estar perante um épico, mas encontramo-nos face a um argumento que nunca resvala fora dos domínios da dignidade. Numa situação indigesta, usa a arma do humor para driblar pontos mais sensíveis.

O estilo adoptado é eloquente. E adequado. A delicadeza do toque é mister. Por isso, o ambiente íntimo mesmo no interior do fétido Sexy World. E talvez o uso da câmara na mão seja apenas uma coincidência sarcástica com o arrojado trabalho de Irina Palm, pseudónimo profissional de Maggie.

É um conto sobre o amor e a audácia de uma mulher. Daí que se está a pensar passar a tarde de domingo com alguns dos maiores atletas sexuais do mundo virtual, num qualquer peep-show lisboeta, mude de planos e enleve-se na sala 1 do King onde o talento de Irina talvez não o decepcione…

Thursday, May 01, 2008

my blueberry nights...

Entrando directamente na história: Jeremy é o dono de um café familiarizado a ouvir os casos amorosos dos clientes. Uma noite recebe a visita de Elizabeth, uma jovem mulher de coração partido com quem conversa madrugada adentro. Os dois passam a encontrar-se, noite após noite. Elizabeth, confusa e determinada a libertar-se do passado, parte em viagem. Atravessa os EUA escrevendo cartas para ele. Conhece novas pessoas que a ajudam a perceber os caminhos do amor.

Ambos foram abandonados. Estão vulneráveis. Ela desmaia de bêbada. Ele, obedecendo a um irresistível impulso, beija-a. Um interessante Jeremy que conhece as pessoas por aquilo que pedem no cardápio. Sendo a primeira vez de Elisabeth no café, no final da refeição sugere-lhe algo especial. Algo que ninguém pede, mesmo assim ele prepara todas os dias. A tarte de Blueberry (uma fruta parecida com amora). E Elisabeth saboreou com gosto! Aquele café, além de um ponto de encontro, torna-se também um ponto de separações. Dão-lhe as chaves dos corações desfeitos. Ele guarda-as por talvez achar que algum dia se abrirão. No final, descobre que….

Este filme é um prodígio do ponto de vista musical, da fotografia, de um argumento que podia parecer apenas mais uma história de amor. Todo um universo agitado, mas tranquilizador, de cores fartas e ambiências sonoras de imensa melancolia. É perante este misto de road movie, concebido sob a forma de um longo tema blues, que me ficou, também, a vontade de ir lá comer aquela tarte de blueberry …

Sunday, April 13, 2008

uma segunda chance...

Uma Segunda Juventude. O argumento, baseado no livro do escritor e historiador religioso romeno Mircea Eliade, é complexo: um investigador de linguística faz a busca da sua vida em torno das origens da linguagem, a procura daquele momento inicial em que a articulação de sons permitiu a comunicação humana. Tudo sacrificou a este desejo, negligenciando a sua vida amorosa e perdendo a mulher da sua existência. Um dia, já velho, o mesmo dia em que planeava suicidar-se, é atingido por um raio e sobrevive milagrosamente. O aparatoso acidente torna-o de novo jovem, como se a vida lhe concedesse uma segunda oportunidade, agora dotado de poderes que passam por aptidões intelectuais surpreendentes e um desdobramento da personalidade que funciona como tribunal da Razão, para sintonizar com Kant. Nova paixão carregada de sofrimento e, uma vez mais, a escolha entre a obra de uma vida e o amor. Desta feita, a escolha recai sobre o último, mas esta opção acarreta a morte. A narrativa é algo lenta com uma segunda parte meticulosamente acomodada pela câmara mas que tende a alongar-se embora o cineasta tenha conseguido transformar o ecrã num espelho da essência humana, caracterizado por uma enorme carga poética e simbólica. A “moral” da segunda juventude do filólogo é a opção entre a vida e a carreira, o amor e a solidão. Uma história elegante de amor e uma dissertação filosófica. Um filme para quem muito viveu e quem muito amou. Para quem muito estremeceu com a vida e muito conviveu com o amor.

Uma exposição interessante que nos deixa a interrogação: o que alteraríamos se tivéssemos uma nova oportunidade de viver?

Monday, April 07, 2008

corações...

Thierry, agente imobiliário, tem tido dificuldades em encontrar um apartamento a um casal de clientes problemático. Na agência a sua coadjutora, empresta-lhe uma cassete de uma emissão de televisão que ela aprecia particularmente, “As canções que mudaram a minha vida”, um programa religioso de variedades que perturba Thierry. A irmã busca sigilosamente o amor, chegando a recorrer a anúncios. Dan que acabou de ser proscrito do exército, passa os seus dias no bar de um hotel onde confidencia ao barman, as suas peripécias profissionais e afectivas. Para assegurar o bom funcionamento do serviço à noite, Lionel viu-se obrigado a contratar uma auxiliar para cuidar do seu pai, um homem velho, enfermo e em cólera. Corações é um filme de Alain Resnais, o realizador de filmes de culto que aqui nos mostra a vida vazia e desencontrada de meia dúzia de pessoas que, sem querer, acabam por estar todas interligadas.

Coeurs adapta para o grande ecrã a peça "Private Fears in Public Places", do britânico Alan Ayckbourn, deslocando a acção de Londres para Paris mas conservando o seu elemento fulcral, um olhar sobre as relações humanas - familiares, amorosas, laborais ou outras - no atribulado quotidiano de uma cidade contemporânea. Conquanto os espaços onde se desenvolve a acção sejam quase sempre os mesmos Resnais filma-os com enorme fresquidão, expondo diferentes detalhes e explorando as potencialidades dos perturbadores décors, com enquadramentos lindíssimos.

Investindo no modelo do filme-mosaico, "Corações" segue os (des)encontros de seis figuras que pouco têm de certo nas suas vidas, o que os impõe a descobrir pontos de fuga à solidão, seja através do amparo no álcool, em anúncios em jornais ou no paliativo televisivo. Entre a farsa e o drama, o argumento flúi com inteligência e sensibilidade, colocando em jogo os comportamentos humanos e as redes que vão estabelecendo, alicerçando-se em personagens suficientemente complexas.

A neve que cai constantemente e a interioridade e exiguidade dos cenários – quase tudo é filmado em interior – funcionam como metáfora da vida gelada, magoada, enfadonha e complicada das personagens; quase todas com uma face por revelar.

Alain Resnais metamorfoseia um bairro parisiense num cenário fantasmagórico onde se cruzam pessoas que desejam alguém, enquanto arriscam lidar com o fosso que demarca os seus sonhos da realidade…

Sunday, March 30, 2008

a dor da infidelidade...

Luz silenciosa. Um homem casado, contra as leis da sua fé e das crenças, apaixona-se por outra mulher enfrentando um dilema, o de atraiçoar a sua mulher, a mulher que ele amou e destruir desta forma a solidez aparente da comunidade ou sacrificar a sua paixão. Uma história sobre um amor proibido numa comunidade religiosa rural. Existem tensões evidentes e rapidamente ficamos a saber que Johan tem um caso com Marianne. O triângulo virá a acarretar lágrimas e angústia mas não a censura que podemos aguardar de outro estilo de obra. A dor da infidelidade estaciona numa espécie de transe; uma forma estranha mas aceitável para se lidar com a infracção. Mas esta paixão tem pouco de silenciosa; ela estorva as leis da fé e as crenças da comunidade. Abandonar o matrimónio em nome de um amor autêntico e de uma hipotética felicidade significa desmoronar a solidez desta micro-sociedade. Assim, depois de terem feito amor pela última vez, Marianne diz que a paz é mais forte que o amor, e renunciam um do outro. "Haverá dor, seguida de paz, e depois uma felicidade como nunca conhecemos ainda", afiança. No âmago desta aflição, Johan solicita à sua amante para arquitectar um futuro depois do seu amor findar. Rodado de molde persuasivo esta história revela-se comovente. Pelo olhar que se mostra amortecido sobre o nascer do dia por cima da planície mexicana, torna-se evidente que este não é um filme com pressa. Apesar de eu não ter apreciado a opção final, o cineasta consegue brindar-nos com um trabalho terno, tocante e profundo que convida à contemplação e ao debate.

Acresce realçar a convicção com que os actores (amadores) se oferecem às suas personagens. Rodado na comunidade menonita mexicana o filme remete para uma atmosfera onde se visita um mundo primitivo, os credos culturais e religiosos e as interpelações sobre o amor físico e metafísico. Um universo carregado onde a vivência humana ocorre e prova ter semelhanças universais.

Será que a paz é mais forte que o amor?


Os menonitas são protestantes, vindos da Europa para a América no século XVI e estabelecidos no México a partir de 1922. Eles defendem o princípio do pacifismo radical e da rejeição ao progresso. A comunidade de Johan é mais moderada. Eles já utilizam carros e os avanços da medicina moderna, mas ainda recusam as comunicações com o exterior, por telefone ou internet.

Sunday, March 23, 2008

caramel...

Um imprevisto obrigou-me a abandonar a Zambujeira do Mar ainda de noite e rumar a terras da área metropolitana de Lisboa. A morte não pede licença e uma última homenagem impunha-se. Era íntimo da família de L.. Um Senhor, um homem de noventa anos casado com uma não menos jovem senhora que derrama afecto e boa formação. Hoje, e já depois da missa de corpo presente, o sol convidava a passear pelas ruas meio desertas da cidade. Não foi o que aconteceu e troquei Lisboa por Beirute. O King mantém em cartaz Caramel. Cinco mulheres num salão de beleza, um cenário pitoresco onde gerações se defrontam, conversam e partilham segredos. Layale é amante de um homem casado e espera que ele abandone a cônjuge. Nisrine é muçulmana e vai casar-se mas não é virgem e teme a reacção. Rima é atormentada pela inclinação que sente por mulheres e vive ao compasso das visitas de uma cliente de longos cabelos (cliente essa que personifica as mulheres que vivem numa antinomia entre o que são e o que têm vontade de ser. Quando corta o cabelo no fim, isso indica que decidiu extirpar o cordão que a aferrolha à sociedade). Jamal nega-se a envelhecer. Rose consagrou a sua vida a tratar da irmã mais velha. No salão, os homens, o sexo e a maternidade são o miolo das suas conversas íntimas e liberais, entre cortes de cabelo e depilação com caramelo. Desenha-se o retrato das libanesas, entre o comportamento imposto pela sociedade e a religião, por um lado, e as suas próprias ideias, por outro. Confissões de vidas que ganham luz através de uma alforria que não se vive lá fora, distante dos rolos e dos secadores. É um filme arrebatador pelo entusiasmo das mulheres dum país, sempre e infelizmente relacionado com a guerra.

No Líbano uma mulher percebeu como não ceder a estéticas americanas nem, por outro lado, encarrilar em argumentos penosos. O mérito de Nadine Labaki reside no facto de não ter deixado que Caramel se tornasse num vulgar panfleto ou num banal drama. A realizadora mantém o equilíbrio entre a afabilidade e a melancolia, não alinha em rasgos melodramáticos nem em soluções fáceis, e sustenta, do princípio ao fim, a verosimilhança humana e social de personagens, situações e ambientes. Isto numa obra dedicada a Beirute, a cidade que já foi a Paris do Médio Oriente e faz o possível por recuperar esse estatuto. E de onde brotam filmes como este, enriquecidos por mulheres a braços com o dia-a-dia, em vez de homens de bigode a disparar uns sobre os outros…

Thursday, March 20, 2008

haverá sangue...

Eu observo as pessoas e não vejo nada que nelas valham a pena! Eu vejo o pior nas pessoas! Eu tenho uma competição dentro de mim, não quero que ninguém mais seja bem sucedido!
Daniel Plainview

Com a tarde livre enfiei-me numa sala do Saldanha Residence e assisti a um filme quase perfeito. There Will Be Blood é uma obra que intimida. Já longe da Av. Fontes Pereira de Melo e ainda me sentia deveras atormentado, lembrando o rosto carismático e sinistro de Daniel Plainview, um semblante que se confunde com o dos próprios Estados Unidos, que trocam sangue por petróleo em nome do progresso e do dólar. O seu retrato de impenetrável/incompreendido é a todos os níveis extraordinário. Sem falhas será a melhor expressão. Já lhe ouvi chamar épico, mas There Will Be Blood excede esse cognome para se afirmar como algo distinto, até porque se há personagem que enquadre na definição de larger than life, essa é Plainview, complexo ser humano envergado por Daniel Day-Lewis com uma crueldade e uma energia animalesca. Este homem é, todo ele, um ser excessivo, que afirma com toda a convicção que não consegue lidar com pessoas, e que tem como ambição poder afastar-se de todo e qualquer toque humano. Foi mais que uma ida ao cinema, foi a oportunidade de apreciar uma robusta narração de ganância e poder, realizado por um mestre que domina a sua arte. É entusiasmante poder aguardar por um próximo projecto de um realizador que prova a cada filme que há muitíssimas histórias fortes para serem contadas no grande ecrã, e que bons contadores não são exclusivo do passado.

Sunday, March 16, 2008

the lovebirds...

LOVEBIRDS - nome de um pássaro africano que morre quando fica viúvo

Seis histórias que têm Lisboa como pano de fundo compõem The lovebirds. No tempo de uma noite registos labirínticos e fragmentados sobre o amor, a amizade, a paixão e o anseio de ser amado, desenrolam-se em simultâneo. Através deles, o retrato de uma cidade tocante com as sensações que nela habitam, composto de enamoramento e tristeza, Lisboa e Tejo e Tudo, como Álvaro de Campos a apelidou. O filme acompanha a vida de várias personagens, como o arqueólogo que não quer sair de uma escavação, a rapariga grávida que se sente desamparada, o destroçado taxista de leste, o pugilista que não quer ser derrotado. Rodado integralmente em digital, com fragmentos de biografias sobre amor e solidão, dando espaço à improvisação, com realce para o prodigioso Fernando Lopes, a fazer do próprio - um veterano realizador de cinema. Uma teia de situações desgarradas, mas que, por terem um eco universal, dão ao filme uma coloração absolutamente actual. Num sábado ao entardecer numa sala de Lisboa acolho pedaços de vida que me murmuram derrotas e decepções, solidão e fracassos num enquadramento de infinita ternura e comiseração, entre Alfama e o Bairro Alto, nesta cidade gasta à beira-Tejo. O que é valioso num filme? Rostos e olhares. Emoções. O que é marcante na vida? Sim, o que é importante afinal de contas?

Sunday, March 02, 2008

garage...

Garage, de Leonard Abrahamson

Encarado pelos seus vizinhos como estouvado inofensivo, Josie trabalha numa desgastada bomba de gasolina, com poucos clientes, nos arredores de uma aldeia do interior da Irlanda. Homem simples, só, optimista e, quem sabe, feliz. Pese a sua solidão e a troça de quem passa sabe que tem o seu lugar que embora não seja admirável não deixa de ser o seu. Contudo, a chegada de David, um rapaz de 15 anos, à estação de serviço vai alterar tudo, deparando-se Josie com um outro lado da vida, que não está preparado para enfrentar. Abrindo em forma de comédia, com uma série de detalhes pitorescos da população da aldeia que circulam à volta de Josie e o toleram no seu meio, o filme acaba por se converter num trajecto inesperado, que vai levar a um desfecho lancinante e devastador. Josie é uma personagem que conquista a afeição pela pureza que patenteia, e será essa ingenuidade, em colisão com as pulsões reprimidas a génese de um drama impulsionado pela oferta de um filme porno. História contada com enorme humanidade e contenção, com um formato expositivo que releva excelentes silêncios e pungentes planos fixos – com o protagonista e o jovem aprendiz à porta da estação que, mais do que contemplativos, caracterizam a imobilidade social da aldeia -, e um admirável escape a clichés. Uma pérola que me sensibilizou e que aplaudi de mansinho ontem ao fim da tarde no King 2.

Sunday, February 10, 2008

sedução, conspiração...

Que fazer, num final de tarde de sábado de Fevereiro? O cinema é uma alternativa. Uma aposta num realizador aclamado. Ang Lee continua a explorar os romances proibidos pelo que me pareceu uma escolha acertada. E o filme? Sedução, Conspiração convenceu-me. Mergulhei assim na resistência chinesa à ocupação japonesa, durante a II Guerra Mundial. Um filme que vale desde logo a pena pelos elegantes exercícios de estilo de uma Hong Kong colonizada. A Sra. Mak, uma mulher de sofisticação e recursos, entra num café, faz uma chamada telefónica e depois senta-se e aguarda. Ela recorda como começou a sua história alguns anos antes, em 1938, na China. Ela não é de facto a Sra Mak, mas a tímida Wong Chia Chi. Como caloira na universidade conhece o seu colega Kuang Yu Min, que persuade um grupo restrito de estudantes a desenvolver um plano ambicioso e radical para assassinar um colaborador do ocupante japonês de topo, o Sr. Yee. Cada estudante tem uma função. Wong será a Sra. Mak, e conquistará a confiança de Yee tornando-se amiga da sua mulher e depois atrairá o homem para um affair. A história decorre conforme o argumento – até uma inesperada reviravolta. É um drama psicológico, interior e denso, de uma mulher irredutivelmente enredada numa vida rotineira de dissimulações. Nas cenas de sexo o prazer e o martírio sintetizam, de forma rigorosa, os sentimentos complexos da protagonista. A fotografia e a música são dois outros elementos fundamentais que dão a atmosfera perfeita a mais de duas horas de requinte cinematográfico, que, para mais, celebram clássicos como Casablanca.

Friday, February 08, 2008

o lado selvagem...

Into the Wild

1992, Christopher McCandless abandona um futuro auspicioso, a civilização, a sua identidade e parte em procura de uma experiência genuína que exceda o materialismo do dia-a-dia. Rendido ao chamamento ancestral e apaixonado pela magnitude selvagem do Oeste americano, engendra uma nova vida e, sem o saber, dá início a uma aventura que mais tarde viria a encher páginas de jornais. E é com o merecido sentido da dimensão fatídica deste caso real que Sean Penn o reconquista para criar uma descrição que fascina pela sua habilidade de acarrear para o ecrã a energia indomesticável de uma alma insubmissa e romântica. Uma pérola para todos os passageiros da estrada e da alma. McCandless vive angustiado com a falsidade exibida pelo núcleo familiar e somente a escapatória desse cenário aniquilador parece ser a resolução para aquietar o sofrimento, levando a que sinta necessidade de entrar em contacto com a sua verdadeira natureza. Atira-se para o mundo, seguindo o seu caminho pelas vias mais selvagens e recônditas cruzando-se com diversas criaturas que irão ficar tocadas pelo seu temperamento peculiar. Durante esse processo árduo testa a sua perseverança e os limites da sobrevivência. Percorre a Terra sem animais de estimação, dinheiro ou telefones; ambiciona a liberdade dos lugares virgens da impressão humana. A sua única companhia é feita pelos personagens dos livros que transporta consigo. É um extremista viajante, um Thoreau dos anos 90. O que está em causa é a procura da espiritualidade de quem põe em causa o establishment e entrosa a sua vida em função dos propósitos que ambiciona alcançar, sejam eles socialmente aceites ou não. Estamos perante alguém que se desapropria de todas as coordenadas sejam elas geográficas, psicológicas ou emocionais e que vê num trajecto solitário a condição para se descobrir e testar. As paisagens são captadas de uma forma belíssima. Emile Hirsch revela-se um intérprete consistente, com um talento enorme; o filme também não despreza os secundários, sendo que os holofotes vão para Hal Holbrook, um assombro de sensibilidade; a banda-sonora reproduz com eficácia os estados de alma; e o final, que é ingrato, resulta num conjunto de planos de singular beleza. Senti-me esmurrado. Uma obra inquietante…