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Sunday, November 18, 2007

reviver o passado em Lawrence's...


dedicado a João Carlos (dejanito.blogspot.com) e ao seu grande sonho…

EM SINTRA
As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.

Luís Miguel Nava

Películas (1979)
In Poesia Completa 1979-1994

"(...) E por toda a parte o luminoso ar de Abril punha a doçura do seu veludo. Defronte ao hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao Cruges. - Tem o ar mais simpático - disse o maestro".
"Os Maias", Eça de Queirós

Por terras de Sintra me perdi, neste domingo arrefecido de Novembro. Matutando em Os Maias – «Episódios de uma Vida Romântica» e nas personagens do romance – Afonso, Carlos e Maria Eduarda e nas conversas, nos ambientes, nos hábitos de uma sociedade romântica destroçada, fico enternecido com as descrições que assentam tão bem na vila! As paisagens e os palácios cheios de mistério e fantasia! Senti no rosto o ar subtil das ramagens verdes e ouvi o murmúrio de águas correntes. Atraquei no Lawrence’s, no lugar em que Lord Byron foi um dos seus hóspedes famosos, durante um Verão onda consta ter escrito parte do poema «Childe Harold’s Pilgrimage», com algumas estrofes dedicadas a Sintra. O poeta romântico viu o Glorious Eden, num encantamento igualmente experimentado por Bulhão Pato, Camilo, Herculano, Oliveira Martins ou Ramalho Ortigão. O "variado labirinto de montes e vales" que inflamou o romantismo de Byron, e que Eça descreveu com a mesma paixão, através do olhar de uma personagem de Os Maias: "... E de ali olhava a rica vastidão de arvoredo cerrado, a que só se vêem os cimos redondos, vestindo o declive da Serra como o musgo veste um muro.". Com este espírito me instalei por uns momentos no Lawrence's – onde tudo cheira a história e literatura – o mais antigo hotel da Península lbérica e uma das mais antigas hospedarias da Europa, que tem o privilégio de usufruir essa paisagem única, justamente considerada património da humanidade, e de partilhar sentimentos com alguns dos maiores vultos da cultura dos séculos XIX a XX. Passaram por ali rainhas e chefes de Estado. Ali se deleitou William Beckford. Ninguém pode ficar indiferente perante tal beleza, nem esconder a sensação que ela desperta. E, nesse espaço fascinante, ainda há oportunidade para fruir outros prazeres, designadamente os da boa mesa. Cabe convocar Júlio César Machado ("Machadinho", "Le Petit Machado", "Literato Janota" ou "Folhetimfex Maximus", como lhe apelidou Ramalho), quiçá o mais afamado folhetinista da Lisboa dos finais do século XIX, que confessava: "... Quando quero supor-me em Londres por alguns dias, vou simplesmente para o hotel Lawrence, em Sintra (...). Quando em qualquer terra houver seis hospedarias, e uma delas for inglesa, há-de ser esta onde mais se coma, onde se bebe melhor, onde haja um criado mais activo, a onde mais se conserva o respeito pelo comfortable!...".

O Lawrence´s já não tem pronúncia escocesa. Mas os personagens de Eça ainda se cruzam connosco nas escadas que dão acesso aos quartos deste hotel de charme, onde Byron continua a ter direito a uma suite. Fadado para o romance, o hotel recuperou a imagem e podemos ter uma reprodução de uma Sintra antiga. Enquanto bebia chá ou quando me perdi nos corredores, ou mesmo quando estive na Suite do famoso Lord, recuei no tempo e mexeriquei alegremente com escritores e poetas…

Wednesday, October 31, 2007

uma ilha no seio da cidade...

Atraído pela beleza da fachada de uma pequena casa secular, troco a hora de almoço por uma visita à Casa Dr. Anastácio Gonçalves, afinal um admirável museu. Sou o único visitante. O primeiro factor de interesse é a casa em si, um edifício mandado construir por José Malhoa em 1904, para casa de habitação e atelier de trabalho projectada pelo arquitecto Norte Júnior que com ela arrebatou o prémio Valmor. Na fachada combinam-se elementos decorativos neo-românticos, próprios de um revivalismo ainda oitocentista, materiais e técnicas tradicionais, que traduzem o convencionalismo da “casa portuguesa” e elementos Arte Nova. O segundo factor é a exposição Olhares Cruzados sobre Arte e Islão. Um arqueólogo, um historiador, uma historiadora de arte e um teólogo do Islão, confrontam as suas vozes procurando responder à questão: o que é a arte islâmica? O que se pretende provar é como mil anos de História e quase 30 dinastias, espalhadas por três continentes, não se podem simplisticamente arrumar com o termo islâmico.

A Casa-Museu é o lugar onde se celebra o coleccionador Anastácio Gonçalves. Cerca de 2000 obras de arte distribuem-se por três grandes núcleos: pintura portuguesa dos séculos XIX e XX, porcelana chinesa e mobiliário português e estrangeiro. Existem secções de ourivesaria civil, pintura europeia, escultura portuguesa, cerâmica europeia e oriental, têxteis, numismática, medalhística, vidros e relógios de bolso de fabrico suíço e francês. Encerra, ainda, um núcleo de pintura contemporânea portuguesa. Registe-se os quadros de Columbano (os ensaios para “Camões e as Musas”), de Silva Porto, o luxuoso mobiliário de origem diversa e as não menos dignas cerâmica e faiança. O vitral na sala de jantar é digno de ser contemplado, dada a sua beleza.

Anastácio Gonçalves nasceu em 1888, em Alcanena. Combateu na Primeira Guerra Mundial e tornou-se um eminente coleccionador de arte, reflectindo o impulso de Calouste Gulbenkian (de quem foi médico); conviveu com personalidades marcantes da cultura portuguesa da primeira metade do século XX (Aquilino Ribeiro, Ricardo Jorge, entre outros). Curiosamente morreu na Rússia, aquando da visita ao Ermitage, em 1965.

Lisboa, que tem uma relação de displicência com as casas de vultos-chave que por ela passaram – recorde-se o processo da última casa de Garrett ou, antes dele, o da casa de Guerra Junqueiro –, tem o dever de divulgar e preservar este mimo museológico. Como refere o director deste espaço a uma revista local “A casa-museu é um tesouro a descobrir”(…)“quem passa no exterior não tem noção do seu interior, dos valores estéticos, históricos e artísticos aqui existentes; mas quem nos visita fica sempre bem impressionado, sobretudo pelo conforto dum ambiente que é uma verdadeira ilha no seio da cidade”.