The Line of Beauty. Vi a mini-série da BBC quando estreou em Portugal. Li o livro de Alan Hollinghurst quando chegou às nossas livrarias. Revi hoje a série em DVD. Impossível não recordar Brideshead Revisited, de Evelyn Waugh. Uma surpreendente viagem ao interior do sofisticado mundo da elite inglesa que agrega emoção, drama e crítica. Trabalho extraordinariamente adaptado do romance que ganhou o Booker Prize em 2004, o mais valorizado prémio literário na Grã-Bretanha. Uma história passada nos hedonistas anos 80 e que atinge um conjunto de indivíduos bem estabelecidos na vida. A Linha de Beleza decorre entre duas eleições de Thatcher, época de conflito e mudança, num mundo voraz que é o dos yuppies dos anos 80. Vivem-se impetuosos tempos onde a ganância é canonizada. A vida de um jovem que se altera quando aceita passar uma temporada em casa de um seu colega, objecto da sua paixão, pertencente a uma família politicamente poderosa em Kensington Gardens. Nick Guest, esteta genuíno, é movido por algo bem diferente mas perfilha e é perfilhado pela excêntrica casta de Toby, com quem embarca nos vícios da década: poder, sexo e cocaína; e a sua estadia na casa de Notting Hill parece prolongar-se indefinidamente. São tempos inebriantes ajustados ao ritmo vertiginoso das festas e das viagens e à amoral sensação de nada ser vedado. Tudo parece possível; a decadência nunca fora tão excitante. Mas esta interminável busca da auto-satisfação tem um custo elevado, e Nick apercebe-se tardiamente desse facto.Emocionalmente denso, desarmantemente burlesco. O mote é reiterado nas letras britânicas, a ilusão da ascensão social e a perda da inocência. Abordado em estilo complexo, com profusão de pormenores e diálogos bem arquitectados, o livro/a série remetem para uma tradição literária rica, para nomes como E. M. Forster, Somerset Maugham ou o muito citado Henry James, autor que é manifestamente uma paixão da personagem principal. O livro não fica aquém do que compuseram estes soberanos da literatura, está apinhado de sátira e de vida, de desassossego e de charme, também de uma violenta franqueza. O objecto da avidez social é entrelaçado com temas, como a arte, a arrogância, a escala de valores, a morte, o ideal da beleza.
A Linha da Beleza exibe a impiedade do amor. Apontamentos de promiscuidade a par dos passeios pelos solares requintados, onde as suas personagens divagam sobre literatura, música, pintura ou teatro. O que se dissimula é desvendado em todo o seu horror. A história converge numa catástrofe, que pressentimos desde o início. O destino é inevitável e o amor, bem como e o sucesso, não passa de fantasia. Um testemunho forte, consistente e polémico. Um livro, uma série, um depoimento que ficam na (minha) memória…


