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Monday, June 23, 2008

um blog que seja meu…

(Caravaggio, Narciso, c. 1597, Palazzo Barberini, Roma)
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Não se trata de viver noutro planeta, mas a verdade é que, quando estou a escrever, a minha vida muda por completo. Encontro uma razão, um motivo e uma direcção.
António Lobo Antunes, Visão, 2007

Talvez porque tenha prazer em comunicar me ponha a escrever. Muitas vezes é porque me angustiam algumas realidades; outras porque me enfeitiçam as palavras dos livros, os versos dos meus poetas de todas as horas, certas pinturas, algumas fotos, determinadas músicas (como resistir a "Mon coeur s'ouvre a ta voix" e não partilhar essa sensação?), os mistérios do teatro (a mais intensa de todas as formas artísticas), a magia da dança, os filmes de autor, as ruas, ruelas e becos quando nelas me perco, as esplanadas de Lisboa, cidade que incita a “esplanar” durante quase o ano inteiro, acantoadas nos bairros antigos, em espaços abertos ao Tejo ou como autênticos oásis no meio da capital que lateja. Tal como Jorge Silva Melo, “gosto de manter na frase o ondulado da fala, de pontuar respirações, de acrescentar adjectivos, serpentear pela semântica, que finjo fácil e queria valsejante, ou dançando breve slow.” (in TOut, 2008). Quando escrevo penso apenas em exorcizar sensações, descrevê-las, vivê-las. Simpatizo com Jean Cocteau quando diz que escrever é batermo-nos com tinta para nos fazermos compreender. Mas como confessa Lobo Antunes: [escrever] “Dá um trabalho do caraças! Despentear a prosa de maneira que aquilo seja feito como uma diarreia” (in JL, 1983).

A blog of one’s own (uma graça a propósito de Virgínia Woolf). Mas é assim que sinto este canto: um blog que seja meu. Um registo (quase) cronológico, actualizado de opiniões, emoções, episódios de vida, ou qualquer outro tipo de conteúdo que queira compartilhar. Umas vezes uma espécie de diário virtual, mas que pode ser muito mais do que isso. Depende apenas e só do que queira que ele seja. Um blog pode ser um pequeno cofre com palavras e com sabedoria que, com sorte, pode ficar com quem o lê algum tempo, permitindo sentir que as palavras adquirem uma espécie de asas. Um blogger é uma pessoa curiosa. Muitas vezes em contradição ou em contra-senso. Mas é, também, psicanalista: ouve muito. Um blogger é o desconhecido, é a noite, é pardacento, é assim. No fundo, um autor de um blogue é de certa forma um ladrão, um rapinador de sentimentos, de imagens, de citações. Um post é sempre feito de acanhados furtos com a vantagem de não sermos castigados.

Faz dois anos este Infinito Pessoal, onde gosto de rabiscar sem compromisso, em busca de quê a não ser de afecto?