"O teatro é um dos mais expressivos e úteis instrumentos para a construção de um país, barômetro que marca a sua grandeza e sua decadência. Um teatro sensível e bem orientado pode mudar em poucos anos a sensibilidade do povo; e um teatro arruinado pode degradar e adormecer uma nação inteira. Neste momento dramático do mundo o artista deve chorar e rir com seu povo. É preciso deixar de lado as açucenas e enfiar-se na lama até a cintura para ajudar aos que procuram as açucenas. Particularmente eu tenho a ânsia de me comunicar com os outros. Por isso bati às portas do teatro e ao teatro consagro toda a minha sensibilidade".(Federico García Lorca- 1898/1936)
Todos os dias deviam ser dias do teatro, porque nestes 20 séculos, a chama do teatro tem ardido constantemente nalgum canto do mundo. Ao teatro, sempre se decretou a morte, sobretudo com o aparecimento do cinema, da televisão e, mais recentemente, dos meios digitais. Houve obras sem palavras, ou sem luz ou sem actores, somente máquinas e bonecos numa instalação com múltiplos jogos de luzes. Hoje assistimos ao regresso do actor em frente do espectador e presenciamos ao retorno da palavra ao palco. O teatro comove, ilumina, incomoda, perturba, exalta, revela, provoca, transgride. O teatro é a primeira das artes que se confronta com o nada, as sombras e o silêncio para que surjam a palavra, o movimento, as luzes e a vida. O teatro é um ser vivo que se consome a si mesmo enquanto se produz, mas constantemente renasce das cinzas. É irrepetível e absolutamente efémero: isso é que é fantástico, é o mistério do teatro! Não fica nada, só a memória do público. Mas o teatro tem inimigos visíveis, a ausência de educação artística, que impede a sua descoberta e o seu usufruto; a pobreza que afasta os espectadores, e o desprezo dos governos que deviam promovê-lo. No teatro falavam os deuses e os homens. Para isso o teatro tem de ser maior e melhor que a própria vida.
Desde os meus 12 anos que o teatro é para mim comunicação mágica. Foi com essa idade que os meus pais me levaram a ver uma peça no Teatro Variedades, num Parque Mayer já um pouco degradado, protagonizada por uma grande actriz quase em final de carreira, Laura Alves. A peça chamava-se Adeus Valentina. Durante todos estes anos o palco entrou no profundo da minha consciência e deixou raízes, li tudo quanto se escrevia sobre Teatro e tive ocasião de assistir aos espectáculos mais diversos e em vários palcos por essa Europa fora e em Nova Iorque, mas foi precisamente aquela peça musical que me ajudou a sonhar e a querer um mundo com actores, actrizes, adereços, camarins, cortinas, holofotes e aplausos…
Hoje, também, abraço Maria José Bravo, agora uma infatigável advogada, mas que há muitos anos atrás e num teatro amador que ambos partilhámos, embora em secções diferentes (ela, com 16 anos, nos “juniores”, representava Brecht ou seria Pirandello? Para além de recitar, como ninguém, José Régio e o seu Cântico Negro; eu, com 12 anos, nos “infantis”, mergulhava em peças meio idiotas adaptadas por nós, miúdos de 12 e 13 anos; ela uma prima donna, eu o protagonista de peças para a infância) acreditávamos que a palavra era a nossa vida. Só voltei a ver a Maria José muitos anos depois, já os dois formados. Curiosamente nesse reencontro, num café de esquina, mesmo perto do tribunal e do departamento de cultura, onde um e o outro desenvolvíamos parte das nossas actividades profissionais, voltámos a falar de teatro e de sonhos. Viva o teatro e o seu dia e tu também Maria José, mais que o teatro, até!!!.
