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Saturday, August 11, 2007

em berlim...

(Berlin Street Scene, 1930, Georg Grosz)

Seja como for, Berlim dispõe de três óperas a funcionar em permanência! É quanto basta para aferir da exigência cultural de um povo.
Marcello Duarte Mathias, Berlim, 20 de Junho de 2003 (diário)

Cidade cento e cinquenta vezes bombardeada, reconstruída, cidade estaleiro, cidade-Sísifo, destruída e arruinada, recomeçada e reconstruída, arrasada e reposta, colecção de sonhos sonhados, desfeitos e refeitos. Tudo nela caiu: caiu o nazismo à mão dos russos, a Guerra Fria com o Muro, caiu a Prússia, caiu Kleist tombado no Wahnsee, caiu Brecht às mãos dos aparatchichs (cf. Jorge Silva Melo, in Século Passado, 2007). Uma cidade mil vezes interrompida, violentamente embargada. Como é possível que muitos dos melhores tesouros arquitectónicos tenham sido destruídos pelos bombardeamentos da II Guerra Mundial e que a cidade se tenha reedificado tão rapidamente? A cidade mais povoada do país e a segunda mais populosa da União Europeia, depois de Londres. Um dos mais influentes centros de política, cultura e ciência europeia. É "casa" para algumas das mais importantes universidades, orquestras e museus. O rápido desenvolvimento da metrópole atraiu uma reputação internacional aos seus festivais, arquitectura contemporânea – cidade conhecida pela sua excitante modernidade e estonteante arquitectura – e vida nocturna, sendo um grande centro turístico e residência para pessoas de 180 nações diferentes. Berlim reinventa-se. Poucas cidades no mundo sofreram tantas transformações históricas. Sempre em processo de mudança e, segundo o historiador Karl Scheffler, esta é uma das razões que a tornam a capital mais vibrante e estimulante da Europa.

Foi a Berlim que chegámos já à noitinha, sem malas; estas supostamente pairavam algures em Frankfurt. O meu bioritmo acusava sinais de impaciência por me sentir na cidade, à noite, e só com a roupa que tinha no corpo. Já me estava a ver endividado no KaDeWe, ali bem perto. Enganei-me, uma hora depois a recepção do hotel avisava que os nossos pertences tinham chegado. Óptimo, a vida sorria novamente.

Se Berlim já era uma cidade pela qual manifestava curiosidade, embora durante anos a tenha preterido a outras, elejo-a agora seguramente como uma das mais interessantes capitais europeias. O primeiro contacto sobretudo com o lado oriental pode parecer ambíguo: a dúvida fica entre a beleza das estruturas antigas e a tecnologia utilizada na construção da parte nova. Boa parte da cidade está coberta por redes de protecção, e alguns, poucos, museus estão temporariamente com as portas fechadas, mas nada disso diminui a beleza do local. São 180 museus, cerca de 500 igrejas, mais de 5.000 bares (com cerca de 6.800 marcas de cerveja alemãs), 135 teatros e três Óperas, além dos parques, monumentos e galerias espalhados pela cidade.

Com esta perspectiva mergulhámos em alguns sítios da cidade. Dias amenos em Berlim, com o sol a deitar-se nas avenidas e as cervejas Berliner Weisse nas esplanadas. O autocarro foi útil para o primeiro reconhecimento da cidade: passa por quase toda a antiga parte oriental e facilita a localização dos museus, galerias de arte, monumentos e teatros locais. Depois disso e in loco, a alma derrete-se com:
Gemäldegalerie, conta com uma grande colecção de pintura europeia dos séculos XIII a XVIII e tem obras de Rembrandt, Botticeli, Goya, Holbein, Raphael, Rubens, El Greco e Velázquez, entre outros; Checkpoint Charlie, onde existia o mais importante ponto de acesso entre as duas Berlim, representa uma aula de história, desde a construção do muro até a sua queda; Unter_den_Linden, um dos locais mais bonitos do centro de Berlim e onde caminhar pela avenida é um deleite. Verdadeiro parque cultural, que inclui edifícios como a Catedral St. Hedwig, a Deutsche Staatsoper, a Universidade Humboldt, o Palais Unter den Linden; Deutsches Historisches Museum, belo edifício barroco onde penetramos na história do país; Museumsinsel, complexo museológico que reúne quatro importantes museus, o Altes Museum, a Nationalgalerie, o Bodemuseum e o Pergamon Museum, cujo nome foi concebido em homenagem ao Altar de Pergamon (monumental templo grego de 180 anos antes de Cristo e presente no museu) é a verdadeira jóia da coroa daquela ilha de museus.
Pergamon - Antinoos

Valem também os passeios pela praça Gendarmenmarkt, onde está o Schauspielhaus (principal sala de concertos da cidade) e a catedral francesa, na qual há um museu que conta a história dos refugiados protestantes, o Huguenot Museum. A Catedral de Berlim, a Dom, é de visita obrigatória; diz a L. pois a cúpula da igreja permite uma visão completa da cidade, além de se conhecer um pequeno museu de história, que conta todas as fases de restauração da catedral, erguida entre 1894 e 1905. Frisou a L. porque eu e o J. ficámos relaxadamente sentados nas escadarias à porta da catedral.

Do antigo lado ocidental de Berlim, registe-se a avenida Kurfürstendamm, ou simplesmente Ku’damm, como é conhecida – tem aproximadamente quatro quilómetros de extensão e ainda abriga muitas lojas famosas, restaurantes interessantes, uma infinidade de bares e cafés, cinemas, teatros e a Kaiser Wilhelm Gedächtniskirche, igreja que até hoje conserva as marcas dos bombardeios sofridos durante a Segunda Guerra Mundial, inclusive com a sua torre e o seu sino, único património ainda em pé. Nessa região, há ainda o Zoologister Garten, o mais proeminente sitio para o J., que segundo a sua eclética opinião só rivaliza com o busto da Nefertiti e o Legoland Discovery Centre (enquanto J. e L. visitavam o Zoo, eu passeava pelas ruas da cidade tendo a oportunidade de conhecer a artista plástica nova yorquina Phoebe Washburn, no Deutsche Guggenheim, espaço que fazia parte do meu termo de intenções). Há uma infinidade de coisas a registar também na antiga região de Berlim Ocidental, como, por exemplo, o Grosser Stern, cruzamento de cinco ruas importantes que, quando olhado de cima, tem o formato de uma estrela.

Potsdammer Platz, 1914, Ludwig Kirchner

Entre ocidente e oriente, termos que agora só fazem sentido histórico (e patrimonial) espreitámos e visitámos ainda Schloss Charlottenburg, Museum Berggruen (um palacete frente ao Palácio de Charlottenburg, integrando cerca de uma centena de obras de Picasso de todas as fases, além de mais de 20 obras de Matisse e um assinalável número de peças de Paul Klee, Cézanne, Van Gogh, Alberto Giacometti e Georges Braque), Brandenburger Tour, o Neue Nationalgalerie (um surpreendente edifício minimalista, albergando artistas como Edvard Munch, Ferdinand Hodler e Óscar Kokoschka, Paul Klee, Kandinsky, para não falar de Dali, Magritte, Max Ernst…). Para sentir a vibrante energia da nova Berlim, nada melhor do que nos perdermos na Potsdamer Platz. Aqui e entre outras atracções descobri a famosa Marlene, a Dietrich, no Filmmuseum Berlin. Um dos tesouros do museu é a colecção dos objectos pessoais da diva berlinense e não foi sem emoção que depois de umas bebidas nocturnas no Oscar Wilde Pub e no Van Gog Pub, nos demos conta que estávamos frente ao Berliner Ensemble, teatro que tem sido testemunha de muitas mudanças importantes da vida cultural de Berlim (já dirigido por Bertolt Brecht).

Já quase de partida ainda entrámos no Automobil forum, onde litografias e cartazes de exposições de Chagall, Picasso e Dali esperavam por nós…

Uma cidade assim é uma projecção de felicidade (não obstante o passado), que só um país que toma consciência da harmonia da arquitectura e do valor substantivo da beleza pode prezar e acarinhar. Seguramente uma das mais belas cidades europeias. Evidente falta de tempo para ver muito mais. Decididamente adorei Berlim!

P.S Chegados à cidade das sete colinas, voltada a sul e com um rio azul, já noite carregada, uma das duas malas não aparece no tapete rolante. Os balcões dos "Perdidos e Achados" na zona de chegadas do aeroporto de Lisboa, estavam invadidos por dezenas de passageiros visivelmente irritados com o desaparecimento das bagagens. E a novela recomeçou….