Showing posts with label museus. Show all posts
Showing posts with label museus. Show all posts

Wednesday, November 21, 2007

civilização grega na avenida de berna...

Com a chegada do tempo frio, há mais tempo para ver e para sentir. As minhas horas de almoço são trocadas por alguns tesouros desarrumados pela cidade. E não há local melhor que a Gulbenkian, onde o prazer da cultura convive com a frescura dos seus jardins. Ontem, transportei-me para territórios gregos. Assisti a arte engendrada ao longo de 8 mil anos, desde o período neolítico até 1830. «Os Gregos. Tesouros do Museu Benaki, Atenas» é o título da exposição patente no museu. A criteriosa selecção de objectos percorre a história grega. Algumas das peças nunca tinham saído do país. A mostra abrange escultura, ourivesaria, cerâmica, metais, pintura e livros. Estatuetas, vasos pintados, ânforas, objectos em ouro também picam o ponto. Colares, brincos e pulseiras soltam-se no espaço; evidencia-se um centro de diadema em folha de ouro com granadas. Ao longo dos séculos, as peças exibem o metamorfosear da civilização. No período clássico Atenas assistiu a um período singularmente marcante a nível cultural e económico e as peças de escultura e joalharia ilustram-no. No período que corresponde ao cristianismo surgem objectos relacionados com a religião, como cruzes, ícones, salvas de prata, taças, cofres e caixas para hóstias e bordados com motivos eclesiásticos. A partir da segunda metade do século XVIII, a arte espelha uma mescla de interferências (desde o bizantino ao barroco) com jóias abundantemente trabalhadas, geralmente em prata. A independência da Grécia como Estado moderno, na primeira metade do século XIX, comparece ilustrada por pinturas, numa das quais aparece lorde Byron num traje grego como um dos defensores dessa causa. As obras expostas são enriquecidas por um conjunto de textos que, ao longo de 13 etapas, dividem a história da Grécia.

Numa altura em que tanto se discute a Europa será útil relembrar que a matriz da nossa identidade vem da Grécia.

Friday, November 09, 2007

intromissões...

Na agitação do centro de Lisboa, para os lados do Marquês, nem damos pelos segredos que se ocultam para lá das paredes dos nobres edifícios. É disso exemplo a Casa-Museu da Fundação Medeiros e Almeida, que agasalha toda a colecção de arte de um filantropo, descendente de uma endinheirada família açoriana.

Foi no palacete de estilo parisiense oitocentista, situado no gaveto das ruas Rosa Araújo e Mouzinho da Silveira e adquirido à Nunciatura Apostólica, que Medeiros e Almeida viveu, até meados dos anos 80. O espólio ocupa dois pisos do edifício: no primeiro cumprimenta-nos uma colecção de relógios considerada uma das mais valiosas da Europa. Constituem-na centenas de exemplares, datados de 1600 a 1968, tendo alguns pertencido a Fouquet, ministro de Luís XIV, à Imperatriz Sissi, ao duque de Wellington, ao rei D. Pedro e à Rainha D. Maria Pia. Seguem-se-lhe uma capela e uma sala que guarda terracotas e porcelanas dos últimos 20 séculos da China. O andar principal foi palco de grandes recepções como as oferecidas aos príncipes do Mónaco e ao embaixador inglês Lord Campbell. Todos os interiores encontram-se mobilados, como na época em que eram habitadas. Na sala de jantar expõem-se cinco conjuntos de mesa de prata e porcelana, e na antiga copa, sobressai um serviço de chá português que acompanhou Napoleão no seu exílio na Ilha Santa Helena. Tudo isto numa sequência de 25 salas que atravessam séculos.

Medeiros e Almeida ganhou reputação de coleccionador a nível europeu, palmilhando salas de leilões por todo o Velho Continente, muitas vezes para ombrear peças de arte com alguns dos mais conceituados museus mundiais. Instigado pelo desígnio de deixar um legado foi-se tornando selectivo nas aquisições, ao reunir na sua colecção obras de alguns dos grandes mestres da história da arte. Daí os originais de Brueghel e de Jan van Goyen e as esculturas raras (um precioso Bernini).

Como exposição temporária, a Fundação mostra fotografias de Eduardo Nery. Intromissões, um concubinato entre uma visão contemporânea e a nobreza das peças da casa-museu em 32 fotografias a preto e branco.

A entrada da casa-museu faz-se através de um opaco portão de ferro. Segue-se um pequeno pátio partilhado pela esplanada coberta do restaurante-cafetaria. Foi ali que após um olhar deliciado pela exposição me acomodei num muito ligeiro e rápido almoço…

Saturday, August 11, 2007

em berlim...

(Berlin Street Scene, 1930, Georg Grosz)

Seja como for, Berlim dispõe de três óperas a funcionar em permanência! É quanto basta para aferir da exigência cultural de um povo.
Marcello Duarte Mathias, Berlim, 20 de Junho de 2003 (diário)

Cidade cento e cinquenta vezes bombardeada, reconstruída, cidade estaleiro, cidade-Sísifo, destruída e arruinada, recomeçada e reconstruída, arrasada e reposta, colecção de sonhos sonhados, desfeitos e refeitos. Tudo nela caiu: caiu o nazismo à mão dos russos, a Guerra Fria com o Muro, caiu a Prússia, caiu Kleist tombado no Wahnsee, caiu Brecht às mãos dos aparatchichs (cf. Jorge Silva Melo, in Século Passado, 2007). Uma cidade mil vezes interrompida, violentamente embargada. Como é possível que muitos dos melhores tesouros arquitectónicos tenham sido destruídos pelos bombardeamentos da II Guerra Mundial e que a cidade se tenha reedificado tão rapidamente? A cidade mais povoada do país e a segunda mais populosa da União Europeia, depois de Londres. Um dos mais influentes centros de política, cultura e ciência europeia. É "casa" para algumas das mais importantes universidades, orquestras e museus. O rápido desenvolvimento da metrópole atraiu uma reputação internacional aos seus festivais, arquitectura contemporânea – cidade conhecida pela sua excitante modernidade e estonteante arquitectura – e vida nocturna, sendo um grande centro turístico e residência para pessoas de 180 nações diferentes. Berlim reinventa-se. Poucas cidades no mundo sofreram tantas transformações históricas. Sempre em processo de mudança e, segundo o historiador Karl Scheffler, esta é uma das razões que a tornam a capital mais vibrante e estimulante da Europa.

Foi a Berlim que chegámos já à noitinha, sem malas; estas supostamente pairavam algures em Frankfurt. O meu bioritmo acusava sinais de impaciência por me sentir na cidade, à noite, e só com a roupa que tinha no corpo. Já me estava a ver endividado no KaDeWe, ali bem perto. Enganei-me, uma hora depois a recepção do hotel avisava que os nossos pertences tinham chegado. Óptimo, a vida sorria novamente.

Se Berlim já era uma cidade pela qual manifestava curiosidade, embora durante anos a tenha preterido a outras, elejo-a agora seguramente como uma das mais interessantes capitais europeias. O primeiro contacto sobretudo com o lado oriental pode parecer ambíguo: a dúvida fica entre a beleza das estruturas antigas e a tecnologia utilizada na construção da parte nova. Boa parte da cidade está coberta por redes de protecção, e alguns, poucos, museus estão temporariamente com as portas fechadas, mas nada disso diminui a beleza do local. São 180 museus, cerca de 500 igrejas, mais de 5.000 bares (com cerca de 6.800 marcas de cerveja alemãs), 135 teatros e três Óperas, além dos parques, monumentos e galerias espalhados pela cidade.

Com esta perspectiva mergulhámos em alguns sítios da cidade. Dias amenos em Berlim, com o sol a deitar-se nas avenidas e as cervejas Berliner Weisse nas esplanadas. O autocarro foi útil para o primeiro reconhecimento da cidade: passa por quase toda a antiga parte oriental e facilita a localização dos museus, galerias de arte, monumentos e teatros locais. Depois disso e in loco, a alma derrete-se com:
Gemäldegalerie, conta com uma grande colecção de pintura europeia dos séculos XIII a XVIII e tem obras de Rembrandt, Botticeli, Goya, Holbein, Raphael, Rubens, El Greco e Velázquez, entre outros; Checkpoint Charlie, onde existia o mais importante ponto de acesso entre as duas Berlim, representa uma aula de história, desde a construção do muro até a sua queda; Unter_den_Linden, um dos locais mais bonitos do centro de Berlim e onde caminhar pela avenida é um deleite. Verdadeiro parque cultural, que inclui edifícios como a Catedral St. Hedwig, a Deutsche Staatsoper, a Universidade Humboldt, o Palais Unter den Linden; Deutsches Historisches Museum, belo edifício barroco onde penetramos na história do país; Museumsinsel, complexo museológico que reúne quatro importantes museus, o Altes Museum, a Nationalgalerie, o Bodemuseum e o Pergamon Museum, cujo nome foi concebido em homenagem ao Altar de Pergamon (monumental templo grego de 180 anos antes de Cristo e presente no museu) é a verdadeira jóia da coroa daquela ilha de museus.
Pergamon - Antinoos

Valem também os passeios pela praça Gendarmenmarkt, onde está o Schauspielhaus (principal sala de concertos da cidade) e a catedral francesa, na qual há um museu que conta a história dos refugiados protestantes, o Huguenot Museum. A Catedral de Berlim, a Dom, é de visita obrigatória; diz a L. pois a cúpula da igreja permite uma visão completa da cidade, além de se conhecer um pequeno museu de história, que conta todas as fases de restauração da catedral, erguida entre 1894 e 1905. Frisou a L. porque eu e o J. ficámos relaxadamente sentados nas escadarias à porta da catedral.

Do antigo lado ocidental de Berlim, registe-se a avenida Kurfürstendamm, ou simplesmente Ku’damm, como é conhecida – tem aproximadamente quatro quilómetros de extensão e ainda abriga muitas lojas famosas, restaurantes interessantes, uma infinidade de bares e cafés, cinemas, teatros e a Kaiser Wilhelm Gedächtniskirche, igreja que até hoje conserva as marcas dos bombardeios sofridos durante a Segunda Guerra Mundial, inclusive com a sua torre e o seu sino, único património ainda em pé. Nessa região, há ainda o Zoologister Garten, o mais proeminente sitio para o J., que segundo a sua eclética opinião só rivaliza com o busto da Nefertiti e o Legoland Discovery Centre (enquanto J. e L. visitavam o Zoo, eu passeava pelas ruas da cidade tendo a oportunidade de conhecer a artista plástica nova yorquina Phoebe Washburn, no Deutsche Guggenheim, espaço que fazia parte do meu termo de intenções). Há uma infinidade de coisas a registar também na antiga região de Berlim Ocidental, como, por exemplo, o Grosser Stern, cruzamento de cinco ruas importantes que, quando olhado de cima, tem o formato de uma estrela.

Potsdammer Platz, 1914, Ludwig Kirchner

Entre ocidente e oriente, termos que agora só fazem sentido histórico (e patrimonial) espreitámos e visitámos ainda Schloss Charlottenburg, Museum Berggruen (um palacete frente ao Palácio de Charlottenburg, integrando cerca de uma centena de obras de Picasso de todas as fases, além de mais de 20 obras de Matisse e um assinalável número de peças de Paul Klee, Cézanne, Van Gogh, Alberto Giacometti e Georges Braque), Brandenburger Tour, o Neue Nationalgalerie (um surpreendente edifício minimalista, albergando artistas como Edvard Munch, Ferdinand Hodler e Óscar Kokoschka, Paul Klee, Kandinsky, para não falar de Dali, Magritte, Max Ernst…). Para sentir a vibrante energia da nova Berlim, nada melhor do que nos perdermos na Potsdamer Platz. Aqui e entre outras atracções descobri a famosa Marlene, a Dietrich, no Filmmuseum Berlin. Um dos tesouros do museu é a colecção dos objectos pessoais da diva berlinense e não foi sem emoção que depois de umas bebidas nocturnas no Oscar Wilde Pub e no Van Gog Pub, nos demos conta que estávamos frente ao Berliner Ensemble, teatro que tem sido testemunha de muitas mudanças importantes da vida cultural de Berlim (já dirigido por Bertolt Brecht).

Já quase de partida ainda entrámos no Automobil forum, onde litografias e cartazes de exposições de Chagall, Picasso e Dali esperavam por nós…

Uma cidade assim é uma projecção de felicidade (não obstante o passado), que só um país que toma consciência da harmonia da arquitectura e do valor substantivo da beleza pode prezar e acarinhar. Seguramente uma das mais belas cidades europeias. Evidente falta de tempo para ver muito mais. Decididamente adorei Berlim!

P.S Chegados à cidade das sete colinas, voltada a sul e com um rio azul, já noite carregada, uma das duas malas não aparece no tapete rolante. Os balcões dos "Perdidos e Achados" na zona de chegadas do aeroporto de Lisboa, estavam invadidos por dezenas de passageiros visivelmente irritados com o desaparecimento das bagagens. E a novela recomeçou….

Friday, May 18, 2007

templos das musas...

Museus e Património Universal é o tema que o Conselho o Internacional de Museus propõe este ano para as celebrações do 18 Maio, Dia Internacional dos Museus. A proposta de reflexão questiona o papel dos museus na preservação, estudo, documentação, valorização e comunicação de um património comum da Humanidade num mundo culturalmente tão diverso.

Os patrimónios e as colecções dos museus, muitas vezes de origens geográficas, culturais, sociais e económicas muito diversificadas, evocam histórias que se cruzam numa sala de exposições, em estudos e publicações, em actividades didácticas, exaltando influências entre culturas locais, regionais, nacionais e internacionais. Com efeito, os museus são lugares de fruição cultural, favorecendo a criação de elos de ligação entre populações multiculturais. Infelizmente ainda estão distante de serem um dos locais mais desejados e visitados. A revitalização dos museus e do património histórico do país deve ser uma das prioridades. Há que colocar energia nestes espaços, reconhecendo o seu lugar estratégico na política pública de cultura. Os museus são pontos de cultura. Não são como ainda muita gente pensa espaços de tédio ou simplesmente baús pessoais, os museus devem cumprir um papel de referência e base para o futuro da cultura. Diferentemente dos que não gostam ou simplesmente não se encantam com os museus, e que os vêem como resíduos do passado, eu gosto dos museus. De todo e qualquer museu. E tenho especial apreço por aqueles que têm cheiro de vida e querem, por decisão de quem os alimenta, inundar a vida de mais vida; gosto dos museus que seguem se fazendo e se refazendo. Os museus abrigam o que fomos e o que somos. E inspiram o que seremos. Que eles sejam música e poesia para os nossos corpos, mentes e espíritos; que sejam os templos de todas as musas e de todos nós. E que todos nós possamos nos orgulhar deles, novos e velhos, de arte antiga ou de arte contemporânea.


Museu: A palavra vem do latim museum, que por sua vez é derivado do grego mouseion, que refere-se a um lugar ou a um templo dedicado às Musas, as divindades na Mitologia grega que inspiravam as artes.

Tuesday, April 10, 2007

museu sem fronteiras...

Um museu sem fronteiras vai nascer no próximo dia 18. Trata-se de um projecto da União Europeia e do Museu Sem Fronteiras (instituição cultural criada em 1994, em Viena, na Áustria) que reúne a arte islâmica no Mediterrâneo. Ficam disponíveis as colecções de 42 museus (em exposições virtuais temáticas que remetem para os museus e lugares dos respectivos países), revelando 13 séculos de história comum, desde o período do profeta Maomé em Meca e Medina até à queda do Império Otomano. O museu virtual aborda ainda temáticas como a água, a geometria ou a arte, recordando as ligações culturais, cientificas e politicas entre a Europa e o mediterrâneo islâmico. A parceria portuguesa é constituída pelo Museu Islâmico de Mértola e a Fundação Calouste Gulbenkian. No deserto cultural que é a vida da maioria das pessoas vale a pena estar atento a esta iniciativa. Consultar www.discoverislamicart.org.

Friday, March 23, 2007

lavar os olhos com o brilho das imagens...

Brilho das Imagens. Pintura e Escultura Medieval do Museu Nacional de Varsóvia/ Políptico do Convento de Clarissas de Wroclaw, 1350-1360

O Museu Nacional de Arte Antiga tem patente uma belíssima exposição intitulada "O Brilho das Imagens". O título escolhido deve-se ao recurso insistente dos fundos em ouro trabalhado, nas obras de pintura. A mostra reúne aproximadamente 50 obras entre pintura e escultura do período medieval (séculos XII a XVI) e tem como peça mais antiga " A Virgem no trono com o Menino".

Reunindo grandes retábulos de altar, pinturas, relevos e esculturas polícromas em madeira ou preciosas peças devocionais, esta exposição apresenta um fascinante conjunto de obras pertencentes à colecção de arte medieval do Museu Nacional de Varsóvia. A selecção de peças é bem demonstrativa da evolução das principais expressões criativas e das declinações formais da Arte Gótica num vasto espaço territorial centro-europeu, surpreendendo não só pela escala e magnificência visual de muitas das pinturas e esculturas que integram este percurso expositivo, como também pela complexidade dos seus referentes plásticos face a modelos e centros polarizadores (Itália e Flandres) da arte ocidental europeia durante a Baixa Idade Média.

A possibilidade de ver um tão relevante conjunto de obras medievais temporariamente retiradas, pela primeira vez, da notável exposição permanente do principal museu da Polónia, constitui uma oportunidade rara. A não perder esta exposição com obras de raríssima qualidade que nunca foram vistas em Portugal.

Monday, March 05, 2007

frágil existência humana...


Vanitas, 51, Avenue d’Iéna é o título do conto de Almeida Faria e Vanitas o do tríptico de Paula Rego que a ele se refere. É já noite dentro que, no espaço quase vazio duma grande mansão, o Sr. Gulbenkian conversa com um(a) artista, hóspede único e arrancado ao sono, sobre o seu amor à arte e aos museus e sobre os seus caprichos e escolhas de coleccionador. “Terão os astros enviado o reconstrutor desta casa só para me forçar a meditar sobre a Vanitas inerente a toda a arte?” – interroga-se, no final, o narrador personagem. Ei-la então: uma Vanitas que cumpre a sua função de nos lembrar que a todos, inebriados, festivos, lúdicos, teatrais, violentos, patéticos seres humanos, nos espera um encontro irremediável com a morte. A matriz onírica do encontro que se dá no texto de Almeida Faria ou na representação de Paula Rego é talvez apenas uma forma de eufemismo na encenação da crueldade desta evidência.
A propósito do conto escreveu Eduardo Lourenço:
“Desde o título ao formato – sem falar do sonho gulbenkiânico digno do quadro onírico onde se desenrola com um luxo de referências icónicas que me deixaram boquiaberto – tudo me parece réussi. Foi a primeira impressão que recebi lendo-o como outrora lia o venerável Poe e que confirmei com segunda leitura. Excelente e excitante texto, com suplementar ironia e delícia para quem já acordou naquela mansão à espera de quem lhe descrevesse o insólito óbvio, sem ter os seus dons para no-lo restituir. A Fundação deve-lhe, só por isso, uma fière chandelle. E os seus leitores um texto ao mesmo tempo extravagante e clássico. É um «conto» imerso apenas no prazer da própria construção, arrastado pela curiosidade sempre um pouco perversa pelos abjectos não menos perversos que nós chamamos «arte». E que integra as suas réveries ou as suas preferências – às vezes provocações – em tão diabólica realidade, com uma exaltação fria que me encantou. Creio que Vanitas é o texto em que a sua ironia e ambíguo fascínio diante da ficção como o nada de tudo – a não ser que seja ao contrário – encontrou o tom mais justo. E eficaz.”. Muito interessante esta reedição por ocasião dos 50 anos da Gulbenkian. Ouro sobre azul este casamento entre o tríptico Vanitas, uma das últimas obras de grandes dimensões da pintora Paula Rego e o conto de Almeida Faria, Vanitas, 51 Avenue d"Iena. Curioso pensar na precariedade da nossa frágil existência humana (pensamos, mas esquecemos no instante seguinte).

Saturday, March 03, 2007

percurso de um estilo...


Mais de duas centenas de jóias da colecção Cartier, entre elas algumas aquisições de Calouste Gulbenkian, estão em exibição na Sala de Exposições Temporárias do Museu. A mostra "Cartier 1899-1949. O Percurso de um Estilo", enquadra-se no programa de comemorações do cinquentenário da Fundação, abrangendo os anos mais importantes das aquisições de Calouste Gulbenkian, entre 1899 e 1949. Este período corresponde também à consolidação da produção Cartier.

Entre as 230 peças expostas estão relógios, objectos e jóias de inspiração egípcia, persa, indiana e chinesa, reflectindo os núcleos fundamentais das colecções do Museu Gulbenkian. A exposição reúne ainda desenhos originais - alguns dos quais associados ao coleccionador -, moldagens e diversa documentação. Das peças exibidas em Lisboa destaco o relógio "Santos-Dumont", um modelo que foi expressamente criado em 1911 para o aviador brasileiro. Ou a pulseira de que só foram feitos dois exemplares - um dos quais foi vendido, em 1930, à actriz Glória Swanson. A mostra inclui variada documentação e abre com o alvará de fornecedor da Casa-Real outorgado a Cartier em 1905 pelo rei D. Carlos I. A Colecção Cartier já foi exibida, entre outros, no Museu do Ermitage, em São Petersburgo, no British Museum, em Londres, no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, no Museum of Fine Arts, em Houston e no Museu de Xangai.

Que seria deste País das Floribelas, dos Morangos, das Caras e das Galas da TVI se o senhor Calouste Sarkis Gulbenkian não se tivesse enamorado por Portugal?

Sunday, December 17, 2006

Natal em Arte Antiga



O Museu Nacional de Arte Antiga ofereceu, ontem, uma noite dedicada ao Natal, com visitas guiadas temáticas (ciclo da Natividade em diversas tipologias artísticas), cinema, música e uma ceia especial. As visitas guiadas decorreram em simultâneo: Anunciação de Frei Carlos; Virgem do Ó e Santas Mães; Presépio dos Marqueses de Belas; Presépio das Necessidades; Caminhas do Menino Jesus; Apresentação no Templo de G. Van der Weyden; Retábulo da Madre de Deus; Retábulos de São Bento e da Igreja do Paraíso; Retábulo de Santos-o-Novo. Houve, ainda, oportunidade de (re)visitar as exposições temporárias: Frei Carlos e o belo portátil e O Ciclo da Natividade, Desenhos dos séculos XVI a XVIII.

[Esta iniciativa como todas as outras que a precederam tem contado com um conjunto de excelentes profissionais, penso que da área da história/ história da arte (pelo menos um dos técnicos reconheço-o dos corredores da Faculdade de Letras de Lisboa, Dr. Anísio Franco), coordenados pela belíssima directora Dr.ª Dalila Rodrigues. Estes técnicos têm valorizado e divulgado a importância do museu como fonte de conhecimento e cidadania e estimulado também nos educadores e nas crianças o hábito de visitar aquele belo e enorme espaço. Parte deste interesse crescente sobre o museu foi provocado, não tenho dúvidas, pela dedicação dos seus técnicos assumindo que a presença de visitantes é condição essencial à sua própria existência, colocando o público num lugar inegociável. Um museu é algo que tem público, ou não é museu. É verdade que o público é por vezes um elemento perturbador da paz claustral de uma sala "clássica": trás consigo elementos poluidores, é potencialmente ruidoso, tem o mau hábito de "ver com as pontas dos dedos", perturba a tranquilidade dos eruditos que apreciam um reino tranquilo. Mas passou a necessário, imprescindível, irrecusável. O museu deixa de ser voluntariamente rebarbativo para se tornar intencionalmente afável e acolhedor. Tem sido este o papel do elenco de profissionais altamente qualificados que reside no museu das janelas verdes, onde a própria directora encaminha os visitantes. Parabéns e muito obrigado....]

Friday, November 24, 2006

fado no museu...

"Os meus quadros contam uma história. São uma espécie de ícones de esperança…Nunca houve um artista como eu que manifestasse desta forma este interesse pelo fado. Gosto de calcorrear as ruelas, de ouvir os intérpretes do fado vadio. Há sempre uma lua no céu, um cão que ladra, um galo a cantar… Acho isto uma experiência muito valiosa. Eu sou fado, deambulo aqui como o fado, a minha vida é fado".
Guus Slauerhoff, The Soul of Fado

Guus Slauerhoff, artista plástico holandês, autor de uma obra plural no campo das artes visuais integra, na sua narrativa plástica, os discursos próprios da escultura, desenho, pintura, instalação e performance, encontrando-se representado em várias instituições da Europa e dos Estados Unidos. “The Soul of Fado” constitui o tributo do artista ao universo do Fado, entendido no quadro da sua plena universalidade. O fascínio pelo fado levou-o a visitar Lisboa por várias vezes, nos anos de 2004 e 2005. Alfama, bairro repleto de segredos históricos, e o Museu do Fado que aí se encontra, ganharam para ele um interesse primordial. Durante as suas estadas em Lisboa, desenhou fadistas nas casas de fado e vagueou quotidianamente por Alfama, cuja ambiência conseguiu assim encontrar mais de perto. A arte plástica de Guus Slauerhoff quer representar aquela vivência e experiência do fado, tocando-as, explorando-as, tornando-as palpáveis e visíveis como uma nova dimensão do fado. Paralelamente às suas pinturas, Guus Slauerhoff criou objectos com materiais que"são uma espécie de atributos da vida". Exemplo disso são uns sapatos, que comprou por um euro na feira da ladra, e que o artista deu nova vida caligrafando neles uma letra de fado e baptizando-os de "sapatos de fado". Porque, como confessa, "o fado possibilita-nos, enquanto seres humanos, contar a poesia intensamente profunda da vida". A agendar.

A uma princesa distante
Jamais voltaremos a ver-nos,
Entre nós dois há um mundo pelo meio.
Por vezes, de noite, à janela nos detemos
Mas são outras as estrelas que vemos...
Doutros tempos o enleio.

É tão longínquo o vosso país do meu:
Como a luz da mais funda escuridão - tão distante -
Que viajando sem parar nas asas do desejo, eu
Vos saudaria num suspiro agonizante.

Porém, se for verdade,
Que sonhando o impossível,
Se leva o maior dos anseios
À estrela mais intangível:
Então eu voltarei,
Voltarei todas as noites...
De saudade.
(J. Slauerhoff - Custódio Castelo; int. Cristina Branco)
* Quadro pintado pelo artista e inspirado na fadista Cristina Branco

Thursday, November 16, 2006

ecce homo nas janelas verdes...

De origem flamenga e tendo professado em 1517 no antigo Convento do Espinheiro, junto a Évora (a minha cidade), o monge-pintor Frei Carlos foi uma das mais proeminentes figuras da pintura retabular em Portugal, mas caracterizou-se também por uma brilhante produção de pinturas devocionais de pequeno formato. A mostra dá enfoque a esta particular vertente criativa da oficina de Frei Carlos, a das imagens religiosas para contemplação, meditação e oração individual ou privada, pinturinhas portáteis ou de oratório privativo que, nas primeiras décadas do século XVI, estimulavam uma piedade afectiva na contemplação de figuras de Cristo, da Virgem com o Menino ou de S. Jerónimo no deserto.
O ponto de partida do percurso expositivo é uma obra inédita de Frei Carlos recém-adquirida para a colecção do museu das janelas verdes, uma representação do Ecce Homo .
Se outro motivo não existisse visitar este belo museu instalado no Palácio dos Condes de Alvor já seria um belo pretexto…

Monday, September 11, 2006

regresso à COLECÇÃO RAU

Voltei à COLECÇÃO RAU patente no
Museu Nacional de Arte Antiga! Não perca esta oportunidade única!

A Colecção Rau convida a um fascinante percurso pelos grandes mestres da História da Pintura Ocidental. A Exposição apresenta um magnífico conjunto de 95 pinturas de mestres fundamentais na História da Pintura Europeia, desde o início do Renascimento italiano até à década de 1940-50.

A misteriosa vida e morte do Dr. Rau

Louco? Envenenado? Durante quatro décadas Gustav Rau guardou o tesouro longe da cobiça alheia e dos olhares do público, mas nos últimos quatro anos de vida foi mesmo obrigado a provar aos tribunais que, apesar de viver numa cadeira de rodas e de se perder pelas ruas por exagerar na auto-medicação, continuava na plena posse das suas faculdades.Quando em 1999 fez um novo testamento a favor da Unicef alemã, Rau enfureceu os advogados das fundações suíças que criara para gerir a sua valiosa colecção privada de arte - avaliada, numa estimativa conservadora de 2001, em 600 milhões de dólares (hoje, 470 milhões de euros) -, a segunda maior do mundo, dizem os peritos, depois da Thyssen (Madrid). Um juiz de Baden-Baden acabaria por dar-lhe razão.Em 2000, Michel Dauberville ganhou na justiça francesa a propriedade de Mar em L'Estaque (1836), de Cézanne, alegadamente roubada ao avô durante a II Guerra Mundial.Já depois da morte do coleccionador, duas suspeitas recaíram sobre os seus colaboradores mais próximos: Robert Clementz, o secretário (que veio a Lisboa apresentar a exposição), e Sigrid Thost, que geria judicialmente os bens. Em 2002, o procurador de Estugarda abriu investigações sobre a possível venda de obras sem conhecimento do dono. E exigiu novas análises ao corpo, já que a autópsia revelou níveis elevados de substâncias tóxicas no sangue. Problema cardíaco fora a causa aparente da morte de Gustav Rau, a 3 de Janeiro de 2002, perto da sua cidade natal de Estugarda, na Alemanha.Filho único de um industrial que se associou à Mercedez-Benz e fez fortuna com peças para automóveis, sobrinho do milionário que produzia os caldos culinários Maggi, Gustav Rau nasceu a 21 de Janeiro 1922 e parecia destinado aos negócios.A II Guerra Mundial interrompeu-lhe os estudos de Ciências Políticas e Económicas na Universidade de Tübingen. Mobilizado para a Wermacht aos 19 anos, as convicções anti-nazis ditaram a deserção. Quando a Holanda foi invadida, Gustav entregou-se aos ingleses. E acabou o curso com distinção, em 1947. Como esperado, continuou a gerir empresas. Solteiro e sem filhos, em 1958 gastou pela primeira vez dinheiro naquele que viria a ser o seu único luxo: comprou A Cozinheira, de Gerard Dou (século XVII). Tinha 40 anos quando foi estudar medicina na Universidade de Munique. Graduou-se em 1969, vendeu os negócios herdados do pai e do tio, especializou-se em medicina tropical e pediatria e, em 1971, criou a Fundação Médica do Dr. Rau. Objectivos: combater a pobreza no Terceiro Mundo e promover a saúde e alfabetização.Gustav Rau começou pela Nigéria, mas foi na fronteira do Zaire com o Ruanda que concentrou esforços e fortuna. Em 1977, construiu um hospital que atendia dois mil pacientes/ano e distribuía alimentos a mais de oito mil pessoas/dia. O hospital ainda existe e foi por ele que abdicou do sonho de ter um museu em Marselha (chegou a construí-lo mas ofereceu-o à cidade). Regressado à Europa em 1997, viveu em França e no Mónaco e guardava em Zurique o seu tesouro artístico - que aumentou deixando África três vezes por ano, para ir a leilões na Europa e EUA. Um acervo ímpar que cobre 500 anos de História da Arte, adquirido seguindo apenas o próprio gosto.Por disposição testamentária de Gustav Rau, a sua colecção terá de correr mundo durante 25 anos. A Unicef decidirá depois o que fazer com ela, mas o dinheiro só poderá ser usado em causas filantrópicas.









Friday, September 01, 2006

grandes mestres da pintura no Museu Nacional de Arte Antiga

Colecção Rau
Grandes Mestres da Pintura Europeia: de Fra Angélico a Bonnard


Exposição de qualidade absolutamente excepcional, que reúne 95 pinturas de mestres fundamentais na história da pintura europeia, desde o início do Renascimento italiano até à década de 1940-50. Quase metade das peças (46) inscrevem-se num arco cronológico que vai do século XV ao XVIII, distribuem-se pelas “escolas” italiana, flamenga, holandesa, alemã, francesa, espanhola e britânica e são criações de mestres como Fra Angelico, Bernardino Luini, António Solario, Guido Renni, Canaletto, Tiepolo, Porbus, Van Goyen, Van Ruysdael, Gerard Dou, Siberechts, Cranach, Philippe de Champaigne, Largillière, Boucher, Latour, Greuze, Fragonard, Robert, Vigée-Le Brun, El Greco, Ribera, Reynolds e Gainsborough. As restantes pinturas (49) são especialmente demonstrativas de autores e movimentos artísticos dos séculos XIX e XX: impressionismo, simbolismo e nabis, fauvismo, expressionismo. Corot, Courbet, Cézanne, Manet, Degas, Monet, Renoir, Pissarro, Sisley, Liebermann, Signac, Lautrec, Redon, Bonnard, Vuillard, Vlaminck, Dufy, Derain, Macke e Morandi são alguns dos artistas neste sector da exposição.
Clicar em Masterpieces from the Rau Collection para mais informações sobre este excelente espólio.

Wednesday, June 28, 2006

sedução, cinema & pintura...

Se muitos cineastas deixaram já seduzir-se pela pintura, o que acontece quando, por sua vez, são os pintores que se deixam seduzir pelo universo cinematográfico? "Sedução, Cinema & Pintura" é a exposição que inaugurou no Sintra Museu de Arte Moderna.

Foi esta a exposição que ontem tive a oportunidade de apreciar naquele belo museu e que me transporta sem querer para qualquer um dos excelentes espaços museológicos europeus de arte moderna e contemporânea. Sensação semelhante acontece-me em Serralves.

"Sedução, Cinema & Pintura" assume-se como uma resposta possível a esta questão, através da projecção de filmes realizados por artistas representados na Colecção Berardo, que também optaram pela experiência do cinema ou do vídeo, como, como Andy Warhol, Julian Schnabel, David Salle, Cindy Sherman, Robert Longo, Ernesto de Sousa, Julião Sarmento, Ângelo de Sousa, Jorge Molder, Noronha da Costa, Vítor Pomar. Interessa assim evidenciar a forma como esses objectos fílmicos acrescentam e reflectem uma identidade visual e plástica previamente construída ou como se transformam em domínios únicos de experimentação.


"Sedução, Cinema & Pintura", um óbvio pleonasmo, poderá conduzir a uma grande variedade de perspectivas e temas, susceptíveis de orientar diversos eventos, festivais, mostras, conferências. Na exposição, o conceito assume-se com um sentido preciso: a sedução é o denominador comum de obras de autor, no campo da pintura e no universo do cinema, quer com a apresentação de filmes e vídeos realizados pelos próprios artistas, quer na utilização pictórica ou fotográfica de imagens, composições ou ambientes conectados com narrativas ou aparatos cinematográficos.

A selecção apresentada começa com um nome significativo, Andy Warhol, o fazedor de imagens para uma sociedade de consumo superficial e ambígua. Fotografias suas de vedetas mediáticas e a sedutora figura do star system, Judy Garland, acompanham filmes feitos na Factory por Paul Morrissey como Flash (1968), Trash (1970), Heat (1972), Women in Revolt (1971) e a realização de Mary Harron I shot Andy Warhol (1996). Seguem-se artistas que acrescentam no cinema uma identidade plástica previamente construída, nas suas obras. David Salle, com Search and Destroy. Julian Schnabel com Before Night Falls ou Basquiat, reflexões sobre a liberdade cortada por imposições exteriores. Parasite (2003) de Julião Sarmento evidencia um olhar voyeurista sobre o erotismo, obsessivo na sua obra. Ernesto de Sousa no D. Roberto (1962) marca um teor chaplinesco ao serviço da crítica social. De Noronha da Costa, realizador e pintor da luz, O Construtor de Anjos (1978). De Cindy Sherman, apresenta-se Office’s Killer (1997). Robert Longo entra nos caminhos da ficção científica. Vitor Pomar numa aproximação Zen. Jorge Molder numa divagação da memória, em Linha do tempo (2000). Outros artistas, como Ângelo de Sousa transformam os objectos fílmicos em domínios de experimentação, numa coerência pura. No âmbito da sedução, apresentam-se, ainda, obras que traduzem o apelo do corpo, da representação social, das composições narrativas, com seus ícones e suas mitologias. Surge também o confronto inevitável entre discursos de apologia e aqueles que elaboraram a sua crítica – pela expressão da decadência e da obsessão.

Fonte: Página da Câmara Municipal de Sintra/Sintra Museu de Arte Moderna.