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Monday, March 05, 2007

frágil existência humana...


Vanitas, 51, Avenue d’Iéna é o título do conto de Almeida Faria e Vanitas o do tríptico de Paula Rego que a ele se refere. É já noite dentro que, no espaço quase vazio duma grande mansão, o Sr. Gulbenkian conversa com um(a) artista, hóspede único e arrancado ao sono, sobre o seu amor à arte e aos museus e sobre os seus caprichos e escolhas de coleccionador. “Terão os astros enviado o reconstrutor desta casa só para me forçar a meditar sobre a Vanitas inerente a toda a arte?” – interroga-se, no final, o narrador personagem. Ei-la então: uma Vanitas que cumpre a sua função de nos lembrar que a todos, inebriados, festivos, lúdicos, teatrais, violentos, patéticos seres humanos, nos espera um encontro irremediável com a morte. A matriz onírica do encontro que se dá no texto de Almeida Faria ou na representação de Paula Rego é talvez apenas uma forma de eufemismo na encenação da crueldade desta evidência.
A propósito do conto escreveu Eduardo Lourenço:
“Desde o título ao formato – sem falar do sonho gulbenkiânico digno do quadro onírico onde se desenrola com um luxo de referências icónicas que me deixaram boquiaberto – tudo me parece réussi. Foi a primeira impressão que recebi lendo-o como outrora lia o venerável Poe e que confirmei com segunda leitura. Excelente e excitante texto, com suplementar ironia e delícia para quem já acordou naquela mansão à espera de quem lhe descrevesse o insólito óbvio, sem ter os seus dons para no-lo restituir. A Fundação deve-lhe, só por isso, uma fière chandelle. E os seus leitores um texto ao mesmo tempo extravagante e clássico. É um «conto» imerso apenas no prazer da própria construção, arrastado pela curiosidade sempre um pouco perversa pelos abjectos não menos perversos que nós chamamos «arte». E que integra as suas réveries ou as suas preferências – às vezes provocações – em tão diabólica realidade, com uma exaltação fria que me encantou. Creio que Vanitas é o texto em que a sua ironia e ambíguo fascínio diante da ficção como o nada de tudo – a não ser que seja ao contrário – encontrou o tom mais justo. E eficaz.”. Muito interessante esta reedição por ocasião dos 50 anos da Gulbenkian. Ouro sobre azul este casamento entre o tríptico Vanitas, uma das últimas obras de grandes dimensões da pintora Paula Rego e o conto de Almeida Faria, Vanitas, 51 Avenue d"Iena. Curioso pensar na precariedade da nossa frágil existência humana (pensamos, mas esquecemos no instante seguinte).