Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundoMal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Sophia relembrada com o coração foi o tema da conferência que Alberto Vaz da Silva proferiu ontem ao fim da tarde, na Galeria Fernando Pessoa/Centro Nacional de Cultura. Evocação da infância de Sophia de Mello Breyner Andresen, entre o Campo Alegre, no Porto, e o Campo Grande, em Lisboa. Memórias de um significativo fragmento de vida. A coragem política. A literatura e a censura. As viagens, os tempos de lazer, o Algarve, a Grécia e a Sicília. O idealizado e o vivido. As amizades. A sólida cultura clássica, onde se inscreve a sua paixão pela cultura grega. Jorge Silva Mello e João César Monteiro captaram-na em imagens, que apreciámos naquele pequeno auditório, cheio de emoção.
Sophia foi uma das mais importantes poetas e ficcionistas portuguesas do século XX. Contemporânea de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Alexandre O’Neill, Tomaz Kim, José Blanc de Portugal, Ruy Cinatti, António Ramos Rosa, David Mourão-Ferreira, foi distinguida com o Prémio Camões em 1999 e com o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana em 2003, tornando-se a primeira mulher a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa. Casou-se com o politico Francisco Sousa Tavares e foi mãe de cinco filhos: uma missionária laica, uma professora universitária de Letras, um jornalista caustico, mas sensível (Miguel Sousa Tavares), um pintor e ceramista e uma filha que herdou o nome da mãe. Os filhos motivaram-na a escrever contos para crianças.
Tem origem dinamarquesa pelo lado paterno: o seu avô Jan Henrik Andresen desembarcou um dia no Porto e nunca mais abandonou esta região, tendo o seu filho João Henrique comprado, por volta de 1890, a quinta do Campo Alegre. Como afirmou em entrevista "Sophia e a Palavra", in Noesis, n.º26, 1993, essa quinta "foi um território fabuloso com uma grande e rica família servida por uma criadagem numerosa". Criada na velha aristocracia portuguesa, educada nos valores tradicionais da moral cristã, dirigente de movimentos universitários católicos, veio a tornar-se uma das figuras mais representativas de uma atitude política liberal, denunciando os falsos critérios do regime salazarista e os seus seguidores mais radicais. Distinguiu-se também como contista (Contos Exemplares) e autora de livros para a infância (A Menina do Mar, O Cavaleiro da Dinamarca, A Floresta, O Rapaz de Bronze, A Fada Oriana, entre outros).
Foi também tradutora de magníficas versões de textos de Claudel, Dante Alighieri, Euripedes e Shakespeare.
Sophia morreu aos 84 anos no dia 2 de Julho de 2004 no Hospital da Cruz Vermelha.
A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.
Ontem no Largo do Picadeiro fez-se cor, não por escutar pedaços da vida de uma aristocrata de formação helenística, mas sim por estar face às memórias recentes de uma mulher com aristocracia de carácter. E de facto só isso importa…


