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Wednesday, July 04, 2007

Sophia relembrada com o coração...

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

AUSÊNCIA
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia relembrada com o coração foi o tema da conferência que Alberto Vaz da Silva proferiu ontem ao fim da tarde, na Galeria Fernando Pessoa/Centro Nacional de Cultura. Evocação da infância de Sophia de Mello Breyner Andresen, entre o Campo Alegre, no Porto, e o Campo Grande, em Lisboa. Memórias de um significativo fragmento de vida. A coragem política. A literatura e a censura. As viagens, os tempos de lazer, o Algarve, a Grécia e a Sicília. O idealizado e o vivido. As amizades. A sólida cultura clássica, onde se inscreve a sua paixão pela cultura grega. Jorge Silva Mello e João César Monteiro captaram-na em imagens, que apreciámos naquele pequeno auditório, cheio de emoção.

Sophia foi uma das mais importantes poetas e ficcionistas portuguesas do século XX. Contemporânea de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Alexandre O’Neill, Tomaz Kim, José Blanc de Portugal, Ruy Cinatti, António Ramos Rosa, David Mourão-Ferreira, foi distinguida com o Prémio Camões em 1999 e com o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana em 2003, tornando-se a primeira mulher a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa. Casou-se com o politico Francisco Sousa Tavares e foi mãe de cinco filhos: uma missionária laica, uma professora universitária de Letras, um jornalista caustico, mas sensível (Miguel Sousa Tavares), um pintor e ceramista e uma filha que herdou o nome da mãe. Os filhos motivaram-na a escrever contos para crianças.

Tem origem dinamarquesa pelo lado paterno: o seu avô Jan Henrik Andresen desembarcou um dia no Porto e nunca mais abandonou esta região, tendo o seu filho João Henrique comprado, por volta de 1890, a quinta do Campo Alegre. Como afirmou em entrevista "Sophia e a Palavra", in Noesis, n.º26, 1993, essa quinta "foi um território fabuloso com uma grande e rica família servida por uma criadagem numerosa". Criada na velha aristocracia portuguesa, educada nos valores tradicionais da moral cristã, dirigente de movimentos universitários católicos, veio a tornar-se uma das figuras mais representativas de uma atitude política liberal, denunciando os falsos critérios do regime salazarista e os seus seguidores mais radicais. Distinguiu-se também como contista (Contos Exemplares) e autora de livros para a infância (A Menina do Mar, O Cavaleiro da Dinamarca, A Floresta, O Rapaz de Bronze, A Fada Oriana, entre outros).

Foi também tradutora de magníficas versões de textos de Claudel, Dante Alighieri, Euripedes e Shakespeare.

Sophia morreu aos 84 anos no dia 2 de Julho de 2004 no Hospital da Cruz Vermelha.

A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

Ontem no Largo do Picadeiro fez-se cor, não por escutar pedaços da vida de uma aristocrata de formação helenística, mas sim por estar face às memórias recentes de uma mulher com aristocracia de carácter. E de facto só isso importa…

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
Na minha infância, um dos meus livros preferidos era o Rapaz de Bronze, li e reli-o vezes sem conta. E li-o ao meu filho, sempre com alguma emoção, Porque a noite é diferente do dia. E durante o dia as flores estão presas à terra e não se podem mexer. Mas a noite liberta as flores. E de noite as flores dançam e passeiam. E naquele jardim durante o dia mandavam a dona da casa e o jardineiro. Mas durante a noite mandava o Rapaz de Bronze. Entre o roseiral e o parque, num lugar sombrio, solitário e verde, havia um pequeno jardim rodeado de árvores altíssimas que o cobriam com os seus ramos. No meio desse jardim havia um lago redondo sempre cheio de folhas. No centro do lago havia uma ilha muito pequena feita de pedregulhos e onde cresciam fetos. E no centro da ilha estava uma estátua que era um rapaz feito de bronze. E durante o dia o Rapaz de Bronze não se podia mexer e tinha que estar muito quieto, sempre na mesma posição, porque era uma estátua. Mas durante a noite ele falava, mexia, caminhava, dançava, e era ele quem mandava nos jardins, no parque, no pinhal, nos pomares e no campo. E todas as árvores e todos os animais e todas as plantas lhe obedeciam porque ele era o senhor do jardim e o rei da noite.......

Monday, March 12, 2007

viagem no jardim de inverno...


Bem, eu liberto-me como posso. Aquele conto da Viagem, escrevi-o para me libertar de uma certa sensação de morte e de perca, e de desaparecimento, e aí foi bastante catártico.
Sophia de Mello B. Andresen

Ontem à tardinha, à hora dos mágicos cansaços como escreveu Florbela, fui ao Jardim de Inverno – gosto particularmente desta designação – do Teatro São Luiz assistir a um recital por Beatriz Batarda, com música original de Bernardo Sassetti, numa colaboração com o Festival Sete Sóis, Sete Luas. Este domingo foi a vez da actriz interpretar uma versão musicada do conto "A Viagem", de Sophia de Mello Breyner Andresen. O “Jardim” estava a abarrotar embora muitas das caras não me fossem desconhecidas; em frente à minha mesa onde me deliciava com um generoso balleys e escutava as palavras de Sophia, a voz de Beatriz e a música de Sassetti, Jorge Salavisa coordenava com o olhar a sala daquele teatro lisboeta de que é director. Foi uma sensação agradável confundir-me com toda aquela atmosfera envolta nas palavras enigmáticas da grande senhora da poesia portuguesa. Sem sombra de dúvida, um dos maiores poetas portugueses contemporâneos – um nome que se transformou, em sinónimo de Poesia e de musa da própria poesia.

O conto “A Viagem” configura-se como uma alegoria da vida humana e do modo como as pessoas têm de escolher um caminho, ou melhor, como têm de FAZER elas próprias o seu caminho. Através de uma belíssima alegoria Sophia apresenta-nos todos estes problemas no seu conto. Nele um casal que vai numa estrada é constantemente confrontado com o desaparecimento dos caminhos. Ambos pedem indicações e ajudas mas essas pessoas também desaparecem. Os dois pensam que se enganaram, voltam atrás, tornam a avançar por outros caminhos. Até que chegam a um abismo — simbolicamente o fim da viagem e, portanto, a morte. O homem cai e pouco depois também a mulher irá cair no precipício. Mas, mesmo nesta situação limite a mulher pensa:

— Do outro lado do abismo está com certeza alguém.

E começou a chamar.

Dois temas dominantes se digladiam neste conto: o absurdo e a esperança. No final, vence claramente a esperança. Deste modo, este conto contém uma lição sobre como lidar com o ABSURDO da vida: pressupõe a atitude do crente, de quem acredita que existe alguém depois da morte, mas também demonstra aquilo que Sarte dizia: “não é necessário ter esperanças para fazer”, para criar.

Mesmo perante a falta de sentido com que a vida muitas vezes nos galanteia, o homem tem de inventar a si próprio, tem de criar o seu caminho – tem de inventar o amor porque não há amor já feito.

Tudo isto ao fim da tarde num teatro sito no Chiado, um dos lugares que ainda me faz gostar de Lisboa.