Beatriz Batarda e Bernardo Sassetti novamente num recital de poesia na voz da actriz, acompanhada por música original do compositor-pianista, desta vez com poemas de Adília Lopes e uma vez mais no Jardim de Inverno do S. Luiz. Singularíssimos poemas com os seus irresistíveis jogos de palavras, tias, freiras, sexo, médicos, bichos, meninas, religião, paixão, frustração, ingenuidade e perversidade enlaçadas ou, tem-se dito, imaginários da condessa de Ségur e do marquês de Sade misturados -, expressivamente lidos, com a música a contar a história das palavras. A Autobiografia Sumária de Adília Lopes: "Os meus gatos/gostam de brincar/com as minhas baratas" tocou novamente aqueles que serenos ouviam o respirar das palavras e da música. Tudo isto aconteceu hoje ao fim da tarde num teatro municipal ali mesmo no Chiado.
Showing posts with label bernardo sassetti. Show all posts
Showing posts with label bernardo sassetti. Show all posts
Sunday, March 18, 2007
poesia ao fim da tarde...
Beatriz Batarda e Bernardo Sassetti novamente num recital de poesia na voz da actriz, acompanhada por música original do compositor-pianista, desta vez com poemas de Adília Lopes e uma vez mais no Jardim de Inverno do S. Luiz. Singularíssimos poemas com os seus irresistíveis jogos de palavras, tias, freiras, sexo, médicos, bichos, meninas, religião, paixão, frustração, ingenuidade e perversidade enlaçadas ou, tem-se dito, imaginários da condessa de Ségur e do marquês de Sade misturados -, expressivamente lidos, com a música a contar a história das palavras. A Autobiografia Sumária de Adília Lopes: "Os meus gatos/gostam de brincar/com as minhas baratas" tocou novamente aqueles que serenos ouviam o respirar das palavras e da música. Tudo isto aconteceu hoje ao fim da tarde num teatro municipal ali mesmo no Chiado.
Labels:
adilia lopes,
beatriz batarda,
bernardo sassetti,
música,
poesia
Monday, March 12, 2007
viagem no jardim de inverno...

Bem, eu liberto-me como posso. Aquele conto da Viagem, escrevi-o para me libertar de uma certa sensação de morte e de perca, e de desaparecimento, e aí foi bastante catártico.
Sophia de Mello B. Andresen
Sophia de Mello B. Andresen
Ontem à tardinha, à hora dos mágicos cansaços como escreveu Florbela, fui ao Jardim de Inverno – gosto particularmente desta designação – do Teatro São Luiz assistir a um recital por Beatriz Batarda, com música original de Bernardo Sassetti, numa colaboração com o Festival Sete Sóis, Sete Luas. Este domingo foi a vez da actriz interpretar uma versão musicada do conto "A Viagem", de Sophia de Mello Breyner Andresen. O “Jardim” estava a abarrotar embora muitas das caras não me fossem desconhecidas; em frente à minha mesa onde me deliciava com um generoso balleys e escutava as palavras de Sophia, a voz de Beatriz e a música de Sassetti, Jorge Salavisa coordenava com o olhar a sala daquele teatro lisboeta de que é director. Foi uma sensação agradável confundir-me com toda aquela atmosfera envolta nas palavras enigmáticas da grande senhora da poesia portuguesa. Sem sombra de dúvida, um dos maiores poetas portugueses contemporâneos – um nome que se transformou, em sinónimo de Poesia e de musa da própria poesia.
O conto “A Viagem” configura-se como uma alegoria da vida humana e do modo como as pessoas têm de escolher um caminho, ou melhor, como têm de FAZER elas próprias o seu caminho. Através de uma belíssima alegoria Sophia apresenta-nos todos estes problemas no seu conto. Nele um casal que vai numa estrada é constantemente confrontado com o desaparecimento dos caminhos. Ambos pedem indicações e ajudas mas essas pessoas também desaparecem. Os dois pensam que se enganaram, voltam atrás, tornam a avançar por outros caminhos. Até que chegam a um abismo — simbolicamente o fim da viagem e, portanto, a morte. O homem cai e pouco depois também a mulher irá cair no precipício. Mas, mesmo nesta situação limite a mulher pensa:
— Do outro lado do abismo está com certeza alguém.
E começou a chamar.
Dois temas dominantes se digladiam neste conto: o absurdo e a esperança. No final, vence claramente a esperança. Deste modo, este conto contém uma lição sobre como lidar com o ABSURDO da vida: pressupõe a atitude do crente, de quem acredita que existe alguém depois da morte, mas também demonstra aquilo que Sarte dizia: “não é necessário ter esperanças para fazer”, para criar.
Mesmo perante a falta de sentido com que a vida muitas vezes nos galanteia, o homem tem de inventar a si próprio, tem de criar o seu caminho – tem de inventar o amor porque não há amor já feito.
Tudo isto ao fim da tarde num teatro sito no Chiado, um dos lugares que ainda me faz gostar de Lisboa.
O conto “A Viagem” configura-se como uma alegoria da vida humana e do modo como as pessoas têm de escolher um caminho, ou melhor, como têm de FAZER elas próprias o seu caminho. Através de uma belíssima alegoria Sophia apresenta-nos todos estes problemas no seu conto. Nele um casal que vai numa estrada é constantemente confrontado com o desaparecimento dos caminhos. Ambos pedem indicações e ajudas mas essas pessoas também desaparecem. Os dois pensam que se enganaram, voltam atrás, tornam a avançar por outros caminhos. Até que chegam a um abismo — simbolicamente o fim da viagem e, portanto, a morte. O homem cai e pouco depois também a mulher irá cair no precipício. Mas, mesmo nesta situação limite a mulher pensa:
— Do outro lado do abismo está com certeza alguém.
E começou a chamar.
Dois temas dominantes se digladiam neste conto: o absurdo e a esperança. No final, vence claramente a esperança. Deste modo, este conto contém uma lição sobre como lidar com o ABSURDO da vida: pressupõe a atitude do crente, de quem acredita que existe alguém depois da morte, mas também demonstra aquilo que Sarte dizia: “não é necessário ter esperanças para fazer”, para criar.
Mesmo perante a falta de sentido com que a vida muitas vezes nos galanteia, o homem tem de inventar a si próprio, tem de criar o seu caminho – tem de inventar o amor porque não há amor já feito.
Tudo isto ao fim da tarde num teatro sito no Chiado, um dos lugares que ainda me faz gostar de Lisboa.
Subscribe to:
Posts (Atom)
