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Sunday, March 18, 2007

poesia ao fim da tarde...

Beatriz Batarda e Bernardo Sassetti novamente num recital de poesia na voz da actriz, acompanhada por música original do compositor-pianista, desta vez com poemas de Adília Lopes e uma vez mais no Jardim de Inverno do S. Luiz. Singularíssimos poemas com os seus irresistíveis jogos de palavras, tias, freiras, sexo, médicos, bichos, meninas, religião, paixão, frustração, ingenuidade e perversidade enlaçadas ou, tem-se dito, imaginários da condessa de Ségur e do marquês de Sade misturados -, expressivamente lidos, com a música a contar a história das palavras. A Autobiografia Sumária de Adília Lopes: "Os meus gatos/gostam de brincar/com as minhas baratas" tocou novamente aqueles que serenos ouviam o respirar das palavras e da música. Tudo isto aconteceu hoje ao fim da tarde num teatro municipal ali mesmo no Chiado.

Monday, March 12, 2007

viagem no jardim de inverno...


Bem, eu liberto-me como posso. Aquele conto da Viagem, escrevi-o para me libertar de uma certa sensação de morte e de perca, e de desaparecimento, e aí foi bastante catártico.
Sophia de Mello B. Andresen

Ontem à tardinha, à hora dos mágicos cansaços como escreveu Florbela, fui ao Jardim de Inverno – gosto particularmente desta designação – do Teatro São Luiz assistir a um recital por Beatriz Batarda, com música original de Bernardo Sassetti, numa colaboração com o Festival Sete Sóis, Sete Luas. Este domingo foi a vez da actriz interpretar uma versão musicada do conto "A Viagem", de Sophia de Mello Breyner Andresen. O “Jardim” estava a abarrotar embora muitas das caras não me fossem desconhecidas; em frente à minha mesa onde me deliciava com um generoso balleys e escutava as palavras de Sophia, a voz de Beatriz e a música de Sassetti, Jorge Salavisa coordenava com o olhar a sala daquele teatro lisboeta de que é director. Foi uma sensação agradável confundir-me com toda aquela atmosfera envolta nas palavras enigmáticas da grande senhora da poesia portuguesa. Sem sombra de dúvida, um dos maiores poetas portugueses contemporâneos – um nome que se transformou, em sinónimo de Poesia e de musa da própria poesia.

O conto “A Viagem” configura-se como uma alegoria da vida humana e do modo como as pessoas têm de escolher um caminho, ou melhor, como têm de FAZER elas próprias o seu caminho. Através de uma belíssima alegoria Sophia apresenta-nos todos estes problemas no seu conto. Nele um casal que vai numa estrada é constantemente confrontado com o desaparecimento dos caminhos. Ambos pedem indicações e ajudas mas essas pessoas também desaparecem. Os dois pensam que se enganaram, voltam atrás, tornam a avançar por outros caminhos. Até que chegam a um abismo — simbolicamente o fim da viagem e, portanto, a morte. O homem cai e pouco depois também a mulher irá cair no precipício. Mas, mesmo nesta situação limite a mulher pensa:

— Do outro lado do abismo está com certeza alguém.

E começou a chamar.

Dois temas dominantes se digladiam neste conto: o absurdo e a esperança. No final, vence claramente a esperança. Deste modo, este conto contém uma lição sobre como lidar com o ABSURDO da vida: pressupõe a atitude do crente, de quem acredita que existe alguém depois da morte, mas também demonstra aquilo que Sarte dizia: “não é necessário ter esperanças para fazer”, para criar.

Mesmo perante a falta de sentido com que a vida muitas vezes nos galanteia, o homem tem de inventar a si próprio, tem de criar o seu caminho – tem de inventar o amor porque não há amor já feito.

Tudo isto ao fim da tarde num teatro sito no Chiado, um dos lugares que ainda me faz gostar de Lisboa.