Wednesday, October 25, 2006

os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram

Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram

Para o sul à sua procura, deixando um lugar vago

à mesa, um bilhete entalado na porta, as plantas,

o canário, um beijo e um livro emprestado: a memória

das suas biografias incompletas. Os amigos



desaparecem em agosto. Consomem-nos as labaredas do sol

e os amantes que chegam ao fim da tarde

jantam e de manhã ajudam a regar as raízes das avencas

que os amigos confiaram até setembro, quando regressam



trazem saudades e um romance novo debaixo da língua.

Levam um beijo, os vasos, as gaiolas e os amantes

deixam um lugar vago na memória, cabelos na almofada,

uma carta, desculpas, e um livro de cabeceira que os

amigos lêem, pacientes, ocupando o seu lugar à mesa.

Maria do Rosário Pedreira


Este poema é perfume delicado, retrata a dificuldade do amor onde a solidão e a partida reflectem a nostálgica procura da felicidade. Lidos minuciosamente, “amantes” e “amigos” obedecem a períodos distintos: os “amantes aparecem no verão”, “os amigos // desaparecem em agosto” ausentando-se “até setembro”, remetendo estes versos para a estadia fugaz dos primeiros durante uma estação do ano que é intensa mas inconsequente, ao invés dos “amigos” que ausentando-se durante um mês superficial regressam para os restantes meses do ano. “os amantes / deixam (...) cabelos na almofada”, os “amigos” deixam e posteriormente ocupam “o seu lugar à mesa” remetendo a cama e a mesa - o quarto e a sala, - para diferentes níveis de envolvimento. Os “amantes aparecem” e “ajudam”, ideia que remete para comportamentos ocasionais, os “amigos confiaram” e “trazem” remetendo aqui para atitudes de fidelidade. Os “amigos” deixam um “bilhete”, um recado partilhável, - descomprometidamente “entalado na porta”; os “amantes”, deixam uma “carta” carregada de “desculpas”, justificativa de uma sensação de culpa que se transporta num momento de partida. Os “amigos” deixam “a memória / das suas biografias incompletas” como garante do regresso, os “amantes / deixam um lugar vago na memória”, passível de vir a ser ocupado por outrem. Dos “amigos” ficam marcas de vida (“as plantas”, “o canário”, “um beijo”), dos “amantes” o delicioso transitório: a sobra de pequenas mortes (“cabelos”, “uma carta”, “desculpas”). São os “amigos” a devolver alguma solidez com o gesto de restituir o coração, figurado aqui pelo livro que dentro de casa vai passando de mão em mão, – do quarto para a sala, do acato para a procura, do mais íntimo para o comum, enquanto aguarda por novo amor.


Obrigado V.A por me ter dado a conhecer o poema e a poetisa!!!

6 comments:

MONALISA said...

Ora aqui está um poema muito bonito que eu também não conhecia, embora goste mesmo muito de Maria do Rosário Pedreira.

Luís said...

Eu contactei com a obra desta autora apenas há escassos meses. Foi amor à primeira vista...

Ainda não conhecia este poema: lindo, como seria de esperar de um poema dela.

toix said...

Obrigado pela visita e pelo cumprimento. Também gostei do seu blog, mas carece de uma visita mais atenta.

TARCIO VIU ASSIM said...

Eis uma boa porta de entrada na literatura portuguesa, que a gente muito mal conhece por aqui, infelizmente. Parabéns pelo blog e parabéns pelo destrinchamento inteligente do poema de Maria do Rosário. Grande abraço do sertão de Pernambuco/Brasil.

Maria P. said...

A minha poetisa preferida.

Vulcano Lover said...

Sim, acho que é muito delicado e que fala com precisão de coisas muito subjectivas e complexas, que explicas com acerto no teu texto. Será dificil para encontrar coisas dela por aquí...