Sunday, December 17, 2006

Natal em Arte Antiga



O Museu Nacional de Arte Antiga ofereceu, ontem, uma noite dedicada ao Natal, com visitas guiadas temáticas (ciclo da Natividade em diversas tipologias artísticas), cinema, música e uma ceia especial. As visitas guiadas decorreram em simultâneo: Anunciação de Frei Carlos; Virgem do Ó e Santas Mães; Presépio dos Marqueses de Belas; Presépio das Necessidades; Caminhas do Menino Jesus; Apresentação no Templo de G. Van der Weyden; Retábulo da Madre de Deus; Retábulos de São Bento e da Igreja do Paraíso; Retábulo de Santos-o-Novo. Houve, ainda, oportunidade de (re)visitar as exposições temporárias: Frei Carlos e o belo portátil e O Ciclo da Natividade, Desenhos dos séculos XVI a XVIII.

[Esta iniciativa como todas as outras que a precederam tem contado com um conjunto de excelentes profissionais, penso que da área da história/ história da arte (pelo menos um dos técnicos reconheço-o dos corredores da Faculdade de Letras de Lisboa, Dr. Anísio Franco), coordenados pela belíssima directora Dr.ª Dalila Rodrigues. Estes técnicos têm valorizado e divulgado a importância do museu como fonte de conhecimento e cidadania e estimulado também nos educadores e nas crianças o hábito de visitar aquele belo e enorme espaço. Parte deste interesse crescente sobre o museu foi provocado, não tenho dúvidas, pela dedicação dos seus técnicos assumindo que a presença de visitantes é condição essencial à sua própria existência, colocando o público num lugar inegociável. Um museu é algo que tem público, ou não é museu. É verdade que o público é por vezes um elemento perturbador da paz claustral de uma sala "clássica": trás consigo elementos poluidores, é potencialmente ruidoso, tem o mau hábito de "ver com as pontas dos dedos", perturba a tranquilidade dos eruditos que apreciam um reino tranquilo. Mas passou a necessário, imprescindível, irrecusável. O museu deixa de ser voluntariamente rebarbativo para se tornar intencionalmente afável e acolhedor. Tem sido este o papel do elenco de profissionais altamente qualificados que reside no museu das janelas verdes, onde a própria directora encaminha os visitantes. Parabéns e muito obrigado....]

4 comments:

Jonice said...

Um museu é algo que tem público, ou não é museu. Certamente! E quanto mais a arte, o belo, a história, o conhecimento permearem a vida de toda a gente tanto mais estarão cumprindo seu papel de valorização do humano nos seres. Estou me tornando leitora assídua, pois teu blog é ótimo!!!

Sean Hagen said...

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museu vazio é depósito.
aqui no brasil, muitos diretores dessas instistuições não fazem nada para atrair e acolher o público.
tratam os acervos como se fossem algo pessoal, não público.
bela iniciativa essa.


em tempo: não consegui ir à Bienal de São Paulo. moro em porto alegre, extremo sul do brasil, e além da agenda estar tumultuada e as passagens aéreas caras, os aeroportos daqui estão em crise administrativa, com longos atrasos de vôos.
tudo contribui para me deixar onde estou.



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Tino said...

Ora aí está uma lacuna minha...nunca visitei o museu nacional de arte antiga!!! Tenho que colmatar isso! ;)

Abraço

lorenzetti said...

2 Agosto 2007
Quem se mete com o PS, leva?

Foi esta a sugestão, citando o famoso 'homem do aparelho' Jorge Coelho, feita por uma deputada do Bloco de Esquerda na Comissão de Educação do Parlamento, aquando da audição da ministra da educação, sobe o 'caso Charrua', o professor afastado por alegadamente ter dito uma piada de mau gosto sobre o Presidente do Conselho...

Agora o governo veio demitir aquela que é na Cultura o equivalente de Maria José Morgado na Justiça: Dalila Rodrigues, directora do Museu de Arte Antiga.

Da mesma forma que as acusações subiram em flecha e os arquivamentos desceram -- num claro aumento de eficiência processual em sectores conhecidos como largamente corruptos -- com Morgado, com Dalila Rodrigues o MNAA mais que duplicou o número de visitantes e deu um forte empurrão às receitas do museu.

Como refere o Expresso, 'Depois de ontem à tarde a directora do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), Dalila Rodrigues, ter inaugurado com êxito a exposição "Tapetes em Portugal", a tutela chamou-a hoje de manhã para lhe comunicar que não seria convidada para nova comissão de serviço. "Sinto-me ofendida", disse ao Expresso Dalila Rodrigues. "Este é simplesmente o afastamento de uma pessoa que expressou livremente o seu pensamento", continua. A ex-directora do MNAA foi a primeira e única a discordar abertamente do actual modelo de gestão dos museus nacionais, para os quais defendia uma autonomia financeira. "O meu contributo era no plano das ideias e sinto-me tristíssima que neste país já ninguém possa expressar a sua opinião. De repente tornei-me incómoda".

[...] A única razão invocada por Bairrão Oleiro para a não continuidade de Dalila Rodrigues à frente do MNAA foi a sua posição face ao modelo de gestão.

[...] A ex-directora do MNAA não deixa de levantar a mesma critica à tutela e acusa o Ministério da Cultura de uma "total incapacidade para encontrar um modelo de gestão adequado".

Durante a sua gestão, iniciada em Setembro de 2004, o Museu Nacional de Arte Antiga duplicou o número de visitantes. Em 2003 passaram pelo museu das Janelas Verdes 71.973, em 2006 os visitantes foram 192.452. Pela mesma ordem de comparação, antes e depois da sua direcção, as receitas da instituição passaram de 250 mil euros, em 2003, para um milhão e 109 mil euros, em 2006.

"Os resultados são estes. Estão à vista de todos. Apesar de, para o dr. Oleiro, o meu tenha sido um bom trabalho de divulgação. Até dos tectos todos a cair e actualmente completamente restaurados se esqueceu", adianta ainda e vai mais longe: "Em finais de Março deste ano, quando Paolo Pinamonti foi afastado do S. Carlos, alguém me avisou que a próxima a ser convidada a sair seria eu, não quis acreditar. Mas, de facto, ambos tínhamos discordado da tutela", comenta ainda Dalila Rodrigues, que, já em casa, passou todo o dia de hoje a receber telefonemas de anónimos e amigos do museu que lhe quiseram manifestar todo o apoio. A onda de solidariedade pode mesmo vir a ser semelhante à que juntou várias individualidades em defesa do ex-director artístico do S. Carlos.

O Ministério da Cultura não comenta a decisão. Entretanto, já fez saber que em substituição de Dalila Rodrigues, cuja comissão de serviço terminaria em Novembro, dirigirá o MNAA Paulo Henriques, transitando do Museu do Azulejo'.

O DN, por sua vez, refere que 'A historiadora é reconhecida, pelo meio artístico e cultural, como grande dinamizadora do mais importante dos museus portugueses. Organizou grandes exposições e eventos, como "De Fra Angelico a Bonnard- Colecção Rau" e as famosas festas da Noite dos Museus. Fez subir o número de visitantes de uma média de 75 mil para 192 mil (em 2006). E captou mecenato para actividades e obras de remodelação.

[...]

"Face à discordância profunda que Dalila Rodrigues manifestou em relação ao modelo de gestão, e como a nova lei orgânica [do IMC] não contempla as condições que colocou para ficar - autonomia financeira e dependência directa da ministra -, entendi que não se justificava propor nova comissão de serviço", argumenta.

Dalila Rodrigues mostra-se ainda "indignada" por ter tido este ano apenas 360 mil dos 500 mil euros de mecenato que "angariou" junto do Millennium bcp. Bairrão Oleiro responde que o acordo foi discutido antes da chegada da directora do MNAA, que há 600 mil euros/ano para repartir, até 2008, com o Museu Soares dos Reis, e que "não há qualquer compromisso de afectação" de verbas.

O futuro director do MNAA, Paulo Henriques, considera "prematuro" avançar eixos programáticos sem ter "a percepção do terreno". Aceitou o cargo por ser "estimulante", mas escusa-se a comentar o afastamento de Dalila Rodrigues'.

Ou seja, nomeou-se um director que estava a desenvolver trabalho noutro museu [suponho que bem], de forma inopinada, sendo pelas suas declarações claro que não sabe o que vai fazer e qual a situação do MNAA, a mais importante galeria de arte em Portugal.


No SOL, lê-se 'Dalila Rodrigues, acerca do seu afastamento, lembra um episódio recente: «Quando o Pinamonti foi demitido, a Clara Ferreira Alves, no Eixo do Mal, disse: ‘Só falta agora a Dalila Rodrigues ser demitida do Museu de Arte Antiga, porque trabalha, tem ideias e apresenta resultados’»'.

Lorenzetti recorda a nomeação de Dalila Rodrigues, em 30.9.2oo4:

'A Ministra da Cultura nomeou a Doutora Dalila Rodrigues para Directora do Museu Nacional de Arte Antiga, em despacho assinado ontem. A Doutora Dalila Rodrigues substitui o Dr. José Luís Porfírio, que abandona o cargo por motivo de aposentação.

Dalila Rodrigues é directora do Museu Grão Vasco, desde Março de 2001, e Professora Coordenadora do Instituto Superior Politécnico de Viseu. Doutorada em História de Arte pela Universidade de Coimbra e investigadora especializada em História de Pintura Portuguesa, tem desenvolvido uma longa actividade docente e participado em diversos projectos de investigação, alguns deles nos EUA, com o apoio da Comissão Luso-Americana, e na Índia, com o apoio da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.

José Luís Porfírio dedicou mais de 30 anos ao Museu Nacional de Arte Antiga, onde exerceu a função de Conservador, antes de assumir a Direcção. Em reconhecimento do seu profissionalismo na salvaguarda e divulgação do património cultural português, assim como da sua elevada dedicação ao serviço público, a Ministra da Cultura deliberou atribuir-lhe a Medalha de Mérito Cultural. José Luís Porfírio foi nomeado Director do MNAA em Fevereiro de 1996, cargo que exerce até ao dia 30 de Setembro de 2004'.

Aquela que tem sido considerada como a mais competente e mediática [rara combinação] directora de museu em Portugal -- e sei-o pela relação de patrocínio que tenho com o Museu, e nenhuma relação pessoal com Dalila Rodrigues -- não só não recebe tal medalha, como é afastada do cargo.

Assim acontece a quem ousa ser competente neste país à beira-mar plantado.

Continuamos a ter elites políticas saloias, de secretaria, que afastam quem tem indiscutível qualidade. Apenas por ter uma opinião diversa quanto à gestão financeira do museu -- opinião essa válida em museus de referência, sendo o Prado, aqui bem ao lado, um caso de sucesso -- a directora do MNAA é afastada.

Não insultou, sequer, o primeiro-ministro. Nem criticou a tutela. Limita-se a ter um opinião diversa.

Mais claro não podia ser: estamos perante um caso de delito de opinião, bem mais evidente que os que andam a discutir-se um pouco por todo o país.

Mais do que a liberdade de expressão e sobretudo de pensamento, está em causa o futuro do nosso património cultural. Que uma vez perdido, nem com revoluções se recupera.

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Lorenzetti
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