Sunday, May 25, 2008

a matéria do poema...

Sábado, início de tarde. Depois de uma longa e terna noite, a lembrar o título de F. Scott Fitzgerald, apetecia-me um policial. Lembra-me a história da sétima arte que ao longo dos tempos o cinema policial francês situa-se entre os melhores da Europa e, mesmo que em estilo dissemelhante, assombra os homólogos americanos. Entre os seus criadores Claude Chabrol, considerado o fundador do movimento francês Nouvelle Vague, tornou-se indeclinável para os simpatizantes do género. Mas este mestre dos filmes de mistério tem uma outra particularidade: a análise microscópica da burguesia e dos seus vícios. La fille coupée en deux vem precisamente cruzar esses ambientes. O filme inicia como uma atenta observação da sociedade, pondo em acareação dois homens que desejam a mesma mulher, um dos quais é um escritor com uma mente subvertida, enquanto o outro, multimilionário, é alienado. Entretanto, quando a narrativa se encaminha para o seu termo, introduz-se a componente policial, em que o crime terá de ser punido mas numa proporção que não é precisamente a que se conjecturaria. Gabrielle Deneige é uma simpática locutora que apresenta a previsão meteorológica na estação local de televisão, em Lyon. Como filha da proprietária de uma livraria, ela interessa-se por literatura e fica entusiasmada com a oportunidade de conhecer um escritor reverenciado, Charles Saint-Denis. Quando o encontro sucede, percebe que o que sente por ele vai para além da admiração, não obstante a diferença de idades. A apresentadora de televisão provoca exactamente o mesmo efeito em Paul Gaudens, um indivíduo extravagante e afectado. Visto que o primeiro é a sua verdadeira paixão e o segundo apenas um admirador persistente e endinheirado, a escolha entre os dois não se revela particularmente problemática. Mas é neste ponto que o argumento revela alguma espessura. Depressa se percebe que Saint-Denis não está interessado em estabelecer uma relação de longo prazo com Gabrielle. Ele tem um casamento estável e uma mulher interessante, que não se importa que ele tenha os seus casos desde que regresse todas as noites para casa. Apesar de ser um tanto ou quanto desequilibrado e de usar o dinheiro para conseguir atingir os seus objectivos, Paul também não é apenas um menino rico e estouvado.

A história, inspirada em factos reais que se passaram nos Estados Unidos, em 1906, está cheia de subtilezas e oferece a todas as personagens o bastante para que ganhem consistência. Chabrol continua a revelar uma gímnica intelectual capaz de construir caminhos intrincados sem quebra da verosimilhança fazendo uma radiografia à burguesia francesa contemporânea cujo retrato não é agradável. Se a isto acrescentar umas imagens extraordinárias de Lisboa (fotografia de Eduardo Serra…) fica explicada a atenção que me provocou o filme…

Interstícios de Domingo. Dia cinzento convida à leitura. Nada me dá mais prazer do que descobrir um excelente livro. A matéria do poema um bom pretexto para me enterrar no sótão-estúdio, onde oiço a chuva bater nas janelas. "Nesse Verão falei inglês com/ a porteira do prédio, que tinha um gato e a obra/ completa de Shakespeare em três volumes." É assim o nova obra de Nuno Júdice: a reiterada busca de poesia nas mais minúsculas e insólitas realidades. Indispensável, como a maioria dos outros livros do poeta. Escreveu alguém, algures, que todos os temas desta poesia sofrem uma estranha metamorfose, corporizada na imagem da viagem (ou da mala) de Álvaro de Campos, o mais cosmopolita de todos os heterónimos e figura tutelar de um dos poemas, naquele que é talvez o mais pessoano de todos os livros do autor. Há alguns anos, Eduardo Pitta escrevendo sobre O Movimento do Mundo, citava T. S. Eliot: «A palavra tem, e continuará a ter, vários significados em vários contextos». No seu Da Literatura, Pitta aborda novamente o autor agora que ele publica A matéria do poema, por lhe parecer que a convicção de Eliot, na sua aparente redundância, interpreta com nitidez o sentido de uma obra que desde A Noção de Poema não para de espantar, sem se desviar do propósito original. É um livro de luz e de sombras, que inscreve a poesia num mundo em fragmentação, extraviadas que foram algumas das referências culturais e políticas do passado.

Não consigo conter o desejo de transcrever aqui, com a devida reverência ao poeta, ficcionista e ensaísta, o poema Gramática: O Verbo

Principal ou auxiliar, é o verbo que faz mover
o discurso, dando à existência a sua qualidade
activa, e transformando-a no ser idêntico
que reúne em cada um sujeito e estado, sem
distinguir uma ideia de outra. Porém, a
conjugação dos tempos e modos multiplica
o que dizemos por nós, por vós e por eles,
desde o passado ao futuro; e no presente
em que o enunciamos, o verbo é ser o que
é, sem ter sido o que será, na definição
conjugada das pessoas que agem, sem
que o saibam, e das que sabem, sem agir.
A Matéria do Poema (2008)

É sempre bom recordar que Nuno Júdice tem um blogue: pode lê-lo aqui!

Ainda Domingo. Ainda cinzento. Recorro ao DVD. A beautiful mind baseia-se na biografia de um matemático escrita por Sylvia Nasar e começa com a chegada do jovem doutorando à Universidade de Princenton, em 1947. Há algo na palavra "génio" que nos agita. Porque será que há algumas pessoas que escapam ao convencional e conseguem distinguir o que outras não vêem, ouvir o que outras não escutam ou, mais perturbador ainda, desvendar o que os outros não conseguem? Nomes como Albert Einstein, Niels Bohr, Charles Darwin, Louis Pasteur, Sigmund Freud, Galileu Galilei e Antoine Lavoisier ou mesmo Bergman, Antonioni e Woody Allen passam pela nossa cabeça com um misto de respeito e espanto. E, mais misterioso ainda: até que ponto a genialidade, se levada ao extremo, não pode ser relacionada com alienação? Isolado de todos e de tudo, Nash recusa-se a participar nas actividades básicas da Universidade. O seu objectivo é a procura de uma "ideia original". Será numa conversa de bar que encontra inspiração, uma teoria revolucionária com aplicação à economia moderna e que contradiz 150 anos do predomínio de Adam Smith. O reconhecimento pela investigação que desenvolve acontece em 1953, após ter realizado alguns trabalhos no Pentágono a decifrar códigos russos. Baseado na história deste génio e nos dramas inerentes à genialidade de alguém que, por força da mesma, acaba por se manter isolado do resto da sociedade, o filme propicia momentos de prazer e ternura q.b. O resto do filme segue uma trajectória repleta de desafios, onde o cientista luta, não só contra a esquizofrenia, mas também contra todos aqueles que não acreditam na sua recuperação. Comovente o percurso da personagem. Não saber o que é real e ilusão passa a ser uma experiência extrema. O mérito do realizador é fazer com que o espectador também não o saiba. O enredo é envolvente e inteligente. Já perto do final é impossível a emoção não tocar à porta. Um filme, mais um, a lidar com este enigma que é a matemática e a mente humana.

16 comments:

pinguim said...

Um fim de semana culturalmente rico e condicionado pel boletim metereológico.
Chabrol, um dos mais antigos realizadores activos,(mas Oliveira é o incontestável decano), continua a dissecar, com pózinhos policiais a pequena burguesia francesa e provinciana; fá-lo de uma forma aliciante, e se já não tem filmes que sejam obras primas, os seus temas são sempre aliciantes.
Nuno Júdice é um poeta do qual infelizmente, não posso falar, pois ainda nada li da sua obra; apesar disso, apreciei devereas o poema que transcreveste.
Finalmente o repouso de um bom filme na comodidade caseira para acabar um fim de semana não de Sol no que reepeita ao clima, mas quente de aconchego intelectual.
Boa semana.
Abraço.

Catatau said...

O filme de Chabrol deve captar também pela sinuosidade de comportamentos e pelo inusitado daquilo que se julga formatado. Formatado é algo que definitivamente não assenta em Júdice, até pela escolha singular das palavras. Escolheste uma matiné estupenda, com o Russel Crowe a superar-se e a demonstrar que consegue ser muito mais do que um físico invejável.

Maria P. said...

Mas que fim-de-semana, belíssimo!

Beijinhos Luís*

jasmimdomeuquintal said...

Caro Luís
Depois de ler o teu interessantíssimo post, deixo-te apenas um bj e votos de uma boa semana...

Kaplan said...

desculpe-me pela imodéstia, mas acabo de conceder-lhe un prémio. teria a bondade de o vir recolher?
obrigado

hora tardia said...

afinal o verbo puro da mais pura matéria verbal....
_______________________.


abraço Luis. grato.

.


.

Anonymous said...
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Anonymous said...
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Anonymous said...

interessante post.

Moura ao Luar said...

Adorei esse último filme, normalmente vejo os filmes e esqueço-me da maior parte dos pormenores. Não foi o caso, simplesmente brilhante. Um beijo

mateo said...

Deixas-me sempre com a água na boca e o pé, hoje molhado, numa livraria ou no sofá duma sala de cinema.
Muito obrigado com um abraço.

jasmimdomeuquintal said...

Inspirada na tua sugestão ofereci a mim própria a matéria do poema...
bjocas

Deusa Odoya said...

Oi meu novo amigo.
Adorei teu blog e seus textos.
voltarei sempre.
Bom fim de semana com muita paz e amor em seu coração.
Beijos da nov amiga.

Regina Coeli
Te aguardo no meu cantinho também.

Anonymous said...

Mesmo que as palavras calem,
ou tardem,
seja a sul ou mais a norte,
este sentimento mágico,
mútuo,
inexplicável porque infinito
e entranhado na alma,
persiste.

E quando o sol não vem
ou a chuva nos molha por dentro
há sempre um eu, um tu
e, inevitavelmente, um nós.

Parabéns Luís, hoje, amanhã e para além do horizonte.

Maria José Bravo

Anonymous said...

Maria João has sent you a link to a blog:

Beijinhos de parabens! :)



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avelaneiraflorida said...

Amigo Luís,

As sugestões que aqui revejo fazem parte das minhas escolhas!!!
O Filme...EXCELENTE!
O LIVRO...NUNO JÙDICE faz parte da minha estante de livros preciosos!!!
O blog... "brigados" pela dica!!!!