Sunday, December 20, 2009

Possidónio de Programa...

- Olá. Cavaleiro de velhas lendas. Saboreie este vinho divino. Não existe nada melhor como um bom vinho, uma espécie de perfume da paixão. A vida ilumina-se de outra maneira. A partir de um copo de vinho, tudo pode acontecer. Repare que nunca nos tínhamos encontrado, mas já estamos agradecendo a Baco. Galgamos a noite como quem escreve um poema, não com uma garrafa de espumante vulgar mas com o tilintar de dois corpos que precisam de amor…Não acredita que o amor é a poesia dos sentidos?

As palavras à volta do amor fascinam-me, mas é melhor deixar a conversa dos afectos para depois. Há muito tempo que o meu axioma é de que as pequenas coisas são infinitamente as mais importantes. Procuro preencher o vazio da minha individualidade, das minhas noites sem sono, das minhas histórias mal cicatrizadas e por um breve momento desfruto a ilusão de estar completa mas não posso transformar-me numa criatura insignificante e evanescente, com instinto de besta, que existe sofrendo à mercê de qualquer vento procedente do desconhecido.

Embora me sinta como uma harpa que envelhece, entre paredes demasiado cinzentas, não quero que um indivíduo fast-food que nunca vi pense que sou gata em telhado de zinco quente à procura de companhia nocturna. A castidade cria mofo mas ninguém é mais solitário do que aquele que recorre a um prestador de serviços sexuais, no fundo, é como beber, num bar sem ninguém, um vinho turvo que deixa um gosto amargo na boca. Adiante.

- Olá. Possidónio. Fiquei curiosa com o seu nome. É o nome de um escritor português, homem mais ou menos da minha idade, Eborense. Escreveu “O Nylon da Minha Aldeia” uma história passada no Alentejo; uma história de amor que conta “o encontro improvável entre duas personagens”, mas você certamente não conhece o Possidónio Cachapa. Deve estar há pouco tempo em Portugal. O que o fez escolher esse nick name? Tenho algumas dúvidas que seja o seu nome verdadeiro. Não se preocupe, não sou Inspectora dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras. Sei que isto é uma estupidez, uma invasão à sua privacidade. Mas achei que seria uma maneira de nos apresentarmos. Porquê Possidónio? Embora me pareça uma mascara anónima do seu rosto, foi o que me atraiu no site. Acredite. E também a "intimidade à medida". Esses posts na internet, às vezes lascivos, são muito humorísticos. Recordo-me de um que dizia "sexo com poesia". Não faço ideia o que seria. Mas o seu post/anúncio despertou algo em mim. Um Possidónio com intimidade à medida. Mas fique à vontade, por favor. Viaje-me através de si.

Nem pensar, não vou por aí. O homem é um animal estranho, que como dizia o basco Pio Baroja, pode ser um semi-anjo ou semi-besta. Mas nada como tentar, ainda que fracasse. Não importa. Há quem adquira o mau hábito (ou o vicio execrando) de ser infeliz, não pode ser essa a minha atitude. Ensaiei vestidos e comprei o melhor vinho. Se fracassar tento outra vez. Se fracassar de novo, fracassarei melhor. Quando se está na merda até ao pescoço, quando a solidão parece infinita, descemos da nossa torre de orgulho e a única coisa que nos resta é arriscar.

Enquanto o mundo dorme uma noite fria de Inverno, abro assustada a porta de um quarto frio e barato de uma Residencial desconhecida a um prostituto. Às vezes penso que na declaração dos direitos humanos se esqueceram de me incluir. Sou uma mulher angustiada, oncologista de profissão, tão frágil e humana como qualquer outra mulher. Como clínica acabei por interiorizar que a vida é um hospital onde cada doente está possuído pelo desejo de sair da instituição, porque não acredita na terapêutica. Embora tenha passado a maior parte da minha existência na berma, no limite, como um cão sem dono, ainda sonho com um relacionamento com substância, ainda acredito que o amor é mais que um sentimento, é uma arte e que pode começar – quem sabe? - num encontro com aquelas características. Não precisa de ser encarado como uma experiência humilhante, tão só um romântico apelo. Mas ele precisa ter consciência que isto não é um engate, um programa leviano e trivial, no máximo um convite, um arrepiozinho sem glória. Que eu não sou apenas mais uma fêmea atormentada, nem ele o Richard Gere, de American Gigolo. Que fazer amor não é como fazer croché, a despachar, o tempo suficiente para fumar um cigarro: é algo muito íntimo. Que podemos terminar a noite abraçados, espalhando beijos embriagados pelos lençóis.

- Possidónio (nome que me provoca uma sede estranha), os escritores salvaram-me sempre da tristeza, das horas silenciosas, quando deambula a melancolia os livros são os meus fantásticos castelos e gosto de ler pela noite fora porque me esqueço de mim. Quando tinha cerca de quinze anos li O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, um romance belo e terno que reflecte uma visão ingénua e lírica da vida. Catalogado como fantasia obscena por uma sociedade envergonhada e preconceituosa, é uma obra que reflecte a necessidade da fusão física e espiritual entre aqueles que estão intimamente ligados. Talvez seja isso que eu procure, um Prince Charmant. Acredita que estes momentos que vamos viver podem inaugurar algo semelhante?

- Não tenho dúvidas, Teresa. Será uma aventura, mas estou completamente convencido que sim. A única obrigação que temos é a de amar!

Desfeitas as dúvidas ao toque da pele, o seu rosto reanima-me o espírito, dá-me a mão e nada mais me faz falta. Ali sós no mundo, sós. Aproximo-me para sentir que sou bem acolhida. Mais do que beijar os seus lábios de veludo, mais do que estarmos deitados juntos, mais do que nenhuma outra coisa, ele abraça-me e isso é amor. Prende-me toda. Aninha-me a sorrir junto ao seu peito e a noite cresce apaixonadamente. Todo o mal e amargura pode ser consolado com amor, diz-me. O acaso trouxe-me o príncipe do conto: “era uma vez…”, um amante feito poema e a poesia é o género da sinceridade última e irreversível. Ele desmente a máxima de Joseph Conrad de que vivemos como sonhamos, sozinhos. Não deixa de ser desconcertante ver como uma conversa breve on-line feita na maior das solidões se pode transformar numa experiência partilhada, com duas pessoas que convergem num mesmo ponto.

E com as bocas unidas brindamos ao nosso novo amor.

Não, a história da minha vida já tem o número de páginas suficientes para me ensinar que o mais recomendável é não esperar nada de ninguém, que tudo é efémero e oco. Obviamente que não vou encontrar um artista, um filósofo, um escritor, alguém inteligente e culto, um homem mentalmente excitante. Um Infante. Alguém que respire cultura clássica e me recite sonetos de Verlaine.

Nervosa digo baixinho:

- Possidónio? Não sou propriamente uma carmelita descalça mas o que é certo é que nunca me vi numa situação assim, nem sei como me atrevi a um contacto desta natureza, morro de aflição só de pensar...

Meu Deus. Alguém bate. Aperta-se-me o coração. O medo é algo extraordinário. Chegaste, enfim, perfil desfeito!

Um breve silêncio tropeçou na minha voz, um fio quase a partir-se – Boa Noite, Possidónio. Entre. A internet é uma coisa surpreendente. Como ela se apodera das vidas privadas e as transporta...

Setecentos quilos de músculos interrompem-me e atropelam-me as emoções, olham-me como uma mera unidade, uma gota de água num grande copo e as minhas palavras caiem no vazio. - Oi, Garota. Vamo-nos despachar que eu não tenho muito tempo, tenho que estar em Campo de Ourique daqui a noventa minutos. Uma actriz francesa que chegou ontem a Portugal marcou encontro. Oh, Teresa, seu nome, não é mesmo? Que quarto legal!!! E eis-me cruamente transportada para a realidade, sem ter sequer de mexer um dedo, fazendo sexo com alguém cujo olhar não me deslumbrou. E amanhã é dia de Natal.
Luís Galego

20 comments:

Ricardo Passos said...

Intimista, sentido, introspectivo... para ler gole a gole, como se de um vinho divino se tratasse. E "Não existe nada melhor como um bom vinho, uma espécie de perfume da paixão".
Obrigado por me teres proporcionado viajar através de ti, através das tuas palavras tão magistralmente conjugadas.

Violeta said...

"Há muito tempo que o meu axioma é de que as pequenas coisas são infinitamente as mais importantes. Procuro preencher o vazio da minha individualidade".O meu também.
Excelente, como sempre.
Bom Natal

Mel de Carvalho said...

Luís, a tua escrita (se possível, por já ENORME), cresce a cada dia. Mais dura, mais real, mais intimista, coloca-nos em atropelos íntimos e questionamentos maiores. O que é a vida? e O amor? até onde nos levam os sentidos? e onde nos limitam os sentimentos?

Fica um beijo de Feliz Natal e a certeza de que, comentando pouco, andei sempre aqui, meu "brother".

Mel

AnaLee said...

Do sonho à realidade vai um abismo, nas coisas do amor e nas outras todas... Ou não?

Anonymous said...

Dizer que me pôs de "boca aberta" é pouco e é vulgar.
A escrita, para mim, é um prazer.
E cada palavra é saboreada como a maçã do paraíso...........

Este txto...é uma macieira completa! :)
Priscila

Zoninho said...

muito interessante. o choque entre o rápido e o saboroso. vence o tempo e que se lixe o prazer, mas não tem de ser sempre assim como nem todos os natais não são iguais ou os encontros desilusões.

um grande abraço e bom Natal! ah, e boas entradas em 2010!

pinguim said...

Luís
este teu texto é a prova da falta que estás a fazer aqui na blogo; não nos podemos dar ao luxo de prescindir dos teus habituais e muito belos textos do fim de semana, e vou ser sincero, sinto também a falta daquele comentário de quando em vez, sinal da tua presença, não da tua concordância com o que se vai escrevendo.
Sei que andas mais por outras paragens e o tempo escasseia, mas nem toda a gente frequenta assiduamente as novas redes sociais e assim o "contacto" vai escasseando...
Um muito feliz Natal para ti toda a tua Família.
Abraço amigo.

cirandeira said...

Meu caríssimo filósofo, escritor e
Poeta, vim desejar-te uma virada de calendário "comme il faut"! Que continues com teus textos maravilhosos, que se transformem
livros e que possamos adquirí-los um dia...! Desejo também que possamos ter mais oportunidades de comunicação,para que as ideias se renovem e frutifiquem muito mais!
Um grande abraço

P.C. said...

Quem, melhor do que eu, pode escrever no comentário:
Parece-me bem.
:)
Abraço e continuação de boa escrita.

Possidónio Cachapa
(o verdadeiro)

Anonymous said...

"A internet é uma coisa surpreendente. Como ela se apodera das vidas privadas e as transporta..."
A internet permite esta partilha de momentos de poesia, de "intimidade à medida", de cumplicidades, apesar de virtuais, literárias. Um belissimo texto que diexa antever (como já em outros textos)uma feminilidade que só alguns homens são capazes de sentir.
Aqui, seguramente, encontramos sempre "um artista, um filósofo, um escritor, alguém inteligente e culto, um homem mentalmente excitante. Um Infante. Alguém que respire cultura clássica e me recite sonetos de Verlaine."
Também eu acho que a literatura salva. "os escritores salvaram-me sempre da tristeza, das horas silenciosas, quando deambula a melancolia os livros são os meus fantásticos castelos e gosto de ler pela noite fora porque me esqueço de mim." Também eu procuro uma realidade alternativa, uma vida sonhada que só se alcança quando nos enroscamos com um livro e nos deixamos transportar...
Amanhã ainda não é dia de Natal...mas fico com este conto (presente) de Natal. E fico à espera de mais.
Um abraço.

Abraço-te said...

Apenas um Santo e Feliz Natal

Abraço-te

cirandeira said...

Amigos e cúmplices já somos, meu querido poeta! Desde o primeiro momento em que conseguí apreender o que escreves, mesmo à distância, e à revelia do mar, o elo está encadeado. Isso é o que chamamos de extraaordinário entre o escritor, o poeta e o universo humano! Quanto ao mais, quem sabe?
A vida às vezes é tão surpreendente!?
Fiquei muito feliz. Obrigada
Beijos

Leonel said...

Por acaso parei aqui.
Gostei do texto. E dos outros textos.
Feliz Natal.

Zeca said...

B
O
A
S

F
E
S
T
A
São o desejo deste teu amigo, que mais cedo ou mais tarde passará por cá para te roubar, estás a visado.

Zeca

Lucubrina said...

Sempre uma escrita soberba.
Meia arredada, não queria deixar-lhe de desejar umas BOAS FESTAS e um ANO NOVO do melhor.
Abç

lenço de papel; cabide de simplicidades said...

Frequento este blog de que gosto particularmente,mas este texto... este texto é muito, muito bom. Obrigada.Bom ano com livros.
Helena Soares

quotidiano said...

se fazer amor não é como fazer crochet, escrever também não é mero exercício de apenas se juntarem letras, palavras ...

ao crochetear suas letras e suas palavra como se um acto de amor fosse, o prazer ficou para quem as leu ...

gostei muito

MrTBear said...

Boas festas
Abraço

BlueVelvet said...

Luis, meu amigo
uma boa passagem de ano e:

Não se acostume com o que não o faz feliz,
revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue. Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca! Se o achar, segure-o!

*Fernando Pessoa*

Beijinhos e Happy Ten!

Maria Faia said...

Estimado Amigo,

Venho até sua casa hoje, primeiro dia da nova década para lhe desejar as maiores Felicidades todos os dias da sua vida.

Beijo amigo,
Maria Faia