Saturday, January 16, 2010

como um adolescente...

Latino na paixão, olhos alagados de adolescente e com dedos aflitos, eliminou com fúria o número da agenda. Na triste monotonia do entardecer, sente-se embrulhado em calafrios e começa a repetir num silêncio sem luz o número de telemóvel dela. Num esquema hipertenso, não consegue deixar de dizer o número, através de uma voz de lamento diluída, como se esquecê-lo fosse a única coisa que pudesse matar o rosto moreno de um verão, a febre de uns lábios e as noites onde as mais belas aventuras se escreviam sem necessidade de nenhum tratado, os vestígios dos dias sobrenaturais, as frases poéticas iluminadas por colchas de estrelas, todo o sangue do mundo perante um corpo místico, o sentimento ingénuo de que ela era a sua noiva, de que tudo era insuportável sem aquela mulher, enfim, palavras impossíveis de descrever um território afectivo. Um número tão forte que sem ele a sua vida é um fio que corre o risco de se partir, sem cuidado, sem estilo, sem nobreza, de se perder sem nunca mais voltar a encontrar-se. Um espírito transformado em pneu furado, numa estrada algures desconhecida. Puta de existência e de memória. Como se estivesse condenado a repetir aquele maldito número até ao fim dos dias, como sentença por a desejar. De coração às costas quer parar este tormento e não consegue, está só num jardim de inverno de um hotel com arquitectura de melancolia e implora às rosas alguma tranquilidade mas aquele número viaja no pensamento. Desmaia como flor, esquece-se de si, dos beijos dela, daquele amor confuso, o drama de não ser só dele, de tudo, mas apenas por instantes e sem dó recomeça. A saudade aumenta nas mudanças de estações e o número de telemóvel insiste em amarrá-lo ao bailado da dor, ele um bailarino que não cessa de tremer.
Luís Galego

Ver imagem aqui.

21 comments:

Anonymous said...

.........abençoada "macieira" k tais maçãs dá!

Priscila

yolanda said...

adorei,bjs
Yolanda

AnaLee said...

Que falta fazem nas minhas noites os textos do infinito! Que alegria quando chega um novo!
Tão familiar, a sensação de um número a martelar a memória, quando a razão aconselha a apagá-lo!

pinguim said...

Qualquer palavra que aqui deixe é uma repetição de uma certeza absoluta: que não podes abandonar esta blogosfera, onde tens deixado de forma fortíssima o poder precioso de usar as palavras de uma maneira única.
Tu estás aqui a escrever um livro, que até já tem título: "Infinito Pessoal".
Abraço.

Ricardo Passos said...

"frases poéticas iluminadas por colchas de estrelas".
Que seja sempre noite, para que as estrelas continuem a iluminar a poesia do "Infinito Pessoal", que tão habilmente deixa que a colcha caia sobre nós e nos afague a alma.

com senso said...

Porque será que fico sempre deliciado com a escrita magnifica de Luis Galego?
Não é apenas pelo estilo e pela forma espantosa como a nossa lingua aqui é trabalhada, é também por encontrar em cada texto reflexos límpidos da alma humana...
Neste caso concreto, ver como a paixão, a dor da separação e os amores falhados nos doem de forma tão intensa que parecemos nesses momentos uns verdadeiros adolescentes em que todas as sensações se amplificam e adquirem a dimensão do desabar do universo.
Mais uma vez parabéns por um belo texto, como é raro encontrar aqui na blogosfera!

Violeta said...

Não tenho nada de diferente para escrever sobre os teus textos: são belos, intensos, sentidos, escritos maravilhosamente e tocam-me muito.
Bjs

Mel de Carvalho said...

Luís, o teu texto (cada dia mais intimista e, simultaneamente mais plural, no sentido que nos pode conduzir a fronteiras de nós), trouxe-me à memória dois pensamentos, que transcrevo:
1)"a nós, resta-nos aceitar aquilo que somos: adolescentes para sempre. Porque um adolescente, a sério, é nunca deixar de ser o melhor para alguém!" - Eduardo Sá
2) "Um pouco de paixão aumenta o espírito, demasiada apaga-o." Stendhal.

A questão, meu "brother Luís" é encontrar o ponto de equilíbrio entre o aceitar que somos eternos adolescente, e ouvir o sábio conselho de Stendhal...
..."paixão qb!"

ah, Luís, quase me esquecia... somos latinos... :)e esta variável é determinante...

Fica um fraterno e muito saudoso beijo.
Grata pela partilha, amigo
Mel

gabriela r martins said...

rendo.ME à excelência



.
um beijo

ivone said...

regressei após longo tempo e deparei_me com uma nova escrita mais intimista sentida falada na primeira pessoa. surpreendida pois retenho ainda outra escrita sua que não esta. se gostei? depende. vou tentar continuar acompanhar mais e depois opino. posso só acrescentar que mantem a qualidade que tanto o caracteriza

CarpeDiemaria said...

Sublime.

Mar Arável said...

Tudo sempre

pelo melhor

Abraço

Abraço-te said...

This is my way to thank you
and say to you, that lige goes on...

Abraço-te

~pi said...

belo

como linha recta

invisível

no peito

,lá dentro,







~

Anonymous said...

Oiii
eu sou do brasil
passe peço meu blog
http://ewertonresponde.blogspot.com/
ok
xau...

Há.dias.assim said...

A saudade aumenta nas mudanças de estações, direi mesmo aumenta todos os dias

david santos said...

Fantástico!!!
Bom fim-de-semana.

Há.dias.assim said...

Muito bonito. Deliciosa e delicada forma de escrever.

Virgínia do Carmo said...

Às vezes é preciso mesmo parar de esperar... Enquanto houver ansiedade não haverá espaço para passos novos...

Abraço

Sílvia said...

"A saudade aumenta nas mudanças de estações e o número de telemóvel insiste em amarrá-lo ao bailado da dor, ele um bailarino que não cessa de tremer."
Mais um excelente texto. Gosto muito de ler, mas não gosto de todos os estilos de escrita, mas gosto, como sabe, muito do seu.
espero que esteja tudo bem. Há escritores, que nos fazem sempre regressar, é o seu caso, obrigado.
Sílvia

Maria Julia said...

É viciante ler,absorvendo tudo que escreve e como o escreve, Luís...

Não consigo exprimir o que me fica na alma, suspirando...

PARABÉNS e um enorme beijo.