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Sunday, June 17, 2007

um certo olhar...

Uma elegante Lady Chatterley, assinada por Pascal Ferran, adaptação do romance de D. H. Lawrence, retratando uma paixão carnal que se transforma num amor profundo, foi a minha escolha de fim de tarde chuvoso, com ar de Outono, de ontem, numa sala não muito agradável do cinema Monumental. Depois de lido o romance há alguns anos, fiquei perante uma Constance ligeiramente diferente, uma mulher que, no seu castelo, vive dias monótonos, cismada no seu casamento e no sentido do dever, uma aristocrata que vive com um marido confinado a uma cadeira de rodas, vítima da I Guerra Mundial. Numa das suas incursões pela quinta, sente um forte desejo físico ao ver o torso de um homem, nu, a banhar-se – e percebe que a sua sexualidade está reprimida. Para o homem (o couteiro da quinta), a relação amorosa servirá também de redenção para a vida. O filme é a história deles. A narrativa de um encontro, de uma domesticação delicada, de um despertar para a sensualidade nela, de um longo retorno à vida para ele. O que se poderia esperar em 2007 de uma nova adaptação do texto de D.H. Lawrence? Tudo menos uma versão determinada em explorar exclusivamente a vertente sexual. O desafio, numa época em que o sexo explícito conquistou um lugar no cinema dito sério (ver a propósito post sobre Shortbus), seria precisamente fugir a essa posição exploratória. E foi conseguido, pese os excessivos 158 minutos de duração.

D. H. Lawrence é conhecido por uma série de obras que desafiaram os valores da época, nomeadamente em torno das questões sexuais. De entre as suas obras mais conhecidas, notórias pelo escândalo, é sem dúvida a Lady Chatterley and the Man of the Woods, cuja edição seria proibida, passando a circular de uma forma clandestina. Contudo, saí da sala de cinema com a certeza de que não é de todo irrelevante que esta adaptação tenha sido dirigida por uma mulher. É, sem dúvida, a afirmação da legitimidade do prazer feminino um dos temas preferenciais do filme, recordando-nos, na subtileza das suas imagens, na sua sensibilidade, que o erotismo e a sensualidade se encontram à nossa volta e que nos pode contagiar com um olhar.

Depois, há a riqueza da construção narrativa, o tom delicado da fotografia, a vedação que desejamos atravessar tanto como a inglesa Constance Chatterley, os corpos em comunhão de Marina Hands e Jean-Louis Coullo'ch, as mãos da actriz, a atenção da mise-en-scéne a cada detalhe. Fui sensível ao momento em que Constance diz a Parkin que, dali para a frente, eles não se verão durante algum tempo, mas que isso é irrelevante, porque, naquele instante, ele já é outro homem e ela outra mulher. No final, começa o romance…

Apetece reler Lawrence e verificar se isso fazia parte da narrativa, mas quase aposto que não. Bem vindos os olhares femininos aos clássicos da literatura, porque fazem a diferença, ainda que nos pormenores.
Lady Chatterley - trailer