Thursday, November 02, 2006

o pecado de Agustina...

Questionada pelo semanário Sol acerca de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, Agustina Bessa Luís afirma que "falar de casamento entre pessoas do mesmo sexo é distorcer o seu sentido"."Ao longo da vida conheci homossexuais brilhantes a nível intelectual que não eram capazes de encarar o casamento. Uma coisa são os homossexuais, outra são os maricas (...) Os maricas querem todas essas prerrogativas, como o casamento. Os homossexuais não...«Todos devem ter os mesmos direitos, mas para isso não é preciso falar de casamento». Inspirado pela autora de “Sibila” também João Gonçalves (cf Blog Portugal dos Pequeninos) decide arrogantemente julgar e afirmar que o casamento homossexual não seria preciso para nada se a Lei 7/2001 (sobre as uniões de facto) fosse regulamentada:- «Em matéria de costumes, já estou como a Agustina. Não sejamos maricas». Talvez fosse sensato não emitirem opiniões tão viciadas por preconceitos homofóbicos e não mascararem esses preconceitos com head lines como:«Uma coisa são os homossexuais, outra são os maricas (...) Os maricas querem todas essas prerrogativas, como o casamento. Os homossexuais não... Todos devem ter os mesmos direitos, mas para isso não é preciso falar de casamento». Que pensam Agustina Bessa Luís e João Gonçalves acerca desta história real – semelhante a tantas outras - descrita por Francisco Trindade?:
O Manuel é um alto quadro de um banco. O Joaquim é funcionário judicial. São os dois homossexuais e começaram a viver juntos há quase 50 anos. Viviam numa casa comprada por ambos com empréstimo hipotecário, embora a casa estivesse em nome do Manuel que, como bancário, tinha melhores condições de crédito. O recheio e os equipamentos da casa, várias vezes renovados ao longo das décadas, tinham sido comprados por ambos, em conjunto .Nesse quase meio século viveram em união de facto, em perfeita economia comum, numa amizade e num companheirismo invejável para quem os conhecia. Já aposentados os dois, tinham a vida próspera e desafogada que as duas reformas lhes proporcionavam, principalmente a reforma do Manuel, muito superior à do Joaquim. Como o empréstimo da casa estava já pago há muitos anos (pela economia comum de ambos), até se podiam dar ao luxo de fazerem regularmente cruzeiros por esse mundo fora. Numa palavra: eram felizes .Mas ao fim de quase meio século de vida em comum, de uma existência partilhada em tudo, o Manuel morreu subitamente. A única família do Manuel eram dois sobrinhos que viviam em Trás-os-Montes (salvo erro em Mirandela), que ao longo dos anos sempre se haviam recusado sequer a pronunciar o nome do tio que era «paneleiro». Nem sequer foram ao seu funeral, tal o desprezo que sentiam pelo «tio paneleiro». Mas no próprio dia do funeral, já à noite, foram a casa do tio. A primeira coisa que fizerem foi correr com o Joaquim, «o outro paneleiro» que vivia com o tio, e puseram-no fora de casa com a roupa que tinha no corpo. Perante a resistência que ofereceu, ainda o agrediram selvaticamente. O Joaquim foi logo à polícia. Mas não havia nada a fazer. Os sobrinhos eram os únicos herdeiros do Manuel. A casa era agora deles. Quanto às agressões, que testemunhas havia? Nessa noite o Joaquim dormiu nas escadas do prédio. Tinha 76 anos e a meio da noite, deitado no chão frio de um vão de escadas, acabara de descobrir que não tinha nada de seu. Restava-lhe, felizmente, a sua pensão de funcionário judicial aposentado há muitos anos, mas que nem sequer lhe dava para comprar outra casa. E que banco lhe ia emprestar dinheiro com aquela idade? Daí a uns dias, por intermédio de uns amigos comuns, lá conseguiu que os sobrinhos do Manuel, num gesto de magnânima boa vontade, lhe devolvessem a sua própria roupa. Nunca mais viu os discos ou os livros.Nem sequer as fotografias, que recordavam toda uma vida. Disseram-lhe que os sobrinhos as tinham queimado. Vive agora sozinho num quarto alugado miserável, e gasta na renda quase metade da sua reforma. O meio século, todos aqueles anos em que viveu em união de facto com o Manuel de nada lhe valeram.Não é herdeiro do Manuel e não se pode habilitar à sua pensão de aposentação.Os sobrinhos já venderam a casa e regressaram a Trás-os-Montes com o dinheiro que o «tio paneleiro» lhes deixou em herança. E é esta a história.Mas afinal parece que há uma esperança para o Joaquim.O João Gonçalves e a Agustina Bessa Luís, na sua «complexa simplicidade octogenária», afinal têm uma solução para a vida do Joaquim .Vá lá, João Gonçalves: Nem que tenha de pedir ajuda à Agustina, ajude o Joaquim, e demonstre-lhe por A mais B que um verdadeiro homossexual, um homossexual «a sério» e que seja verdadeiramente «brilhante a nível intelectual», como diz a Agustina, não precisa do casamento para nada e que isso é só coisa de maricas. Ajude lá o Joaquim, João Gonçalves. Vá lá: nisto e em matéria de costumes, não seja maricas! In http://www.franciscotrindade.blogspot.com/:

* Os nomes da história são fictícios, naturalmente

6 comments:

Elisabete said...

Pois, são precisamente estes factos da vida que, na sua crueza, põem em causa as teorias que facilmente se constroem quando se tem por base um cómodo e seguro modo de vida. Poderá dizer-se que o "Manuel" sempre poderia ter feito um testamento a favor do "Miguel". Mas, mesmo que o tivesse feito, a lei impediria que ele fosse o seu único herdeiro. Uma parte do seu património ficaria sempre para os sobrinhos. É verdade que o mesmo se passa com um casal heterossexual, mas, nesse caso, sempre se pode dizer que não casar foi uma opção. Não tenho uma posição definitiva sobre esta questão, mas deixo este contributo para reflexão.
Ah, e parabéns pela nova imagem do blog que, aliás, já vai tendo um público fiel...

NaT said...

Será que alguien suplantó tu personalidad?? a no ser que espantoso en portugués sea algo bueno...

Saludos!!!!

Luís Galego dijo...
Verdadeiramente espantoso este BLOG...Parabéns

lunes, octubre 30, 2006 2:38:42 PM

Maria P. said...

Forte este post.

Grata pela visita à Casa.
Enigmática?!...

Vulcano Lover said...

Querida Nat (por deshacer el entuerto)
Sí, claro que sí... Espantoso en portugués hace más referencia a asombroso. En fin que la traducción tiene que ver con extraordinario más que con la traducción española... vamos, un piropo.

Querido amigo, tuas palavras lembram-me uma reportagem que deram faz duas semanas na televisão espanhola, na que falaba-se de homossexualidade na terceira idade. Sairam cuatro ou cinco pessoas (homens e mulheres, e tambén a representarem todo tipo de níveis sociais e económicos) que falavam das dificuldades para viver a sua orientação sexual nos tempos da dictadura e também depois, ate agora. Muito duro mas também muito emotivo. A maioria deles ainda fica marcado pelos sofrimentos vitais e pela perda de liberdade sentimental, pelo peso da invisivilidade do mais importante das vidas deles. Mesmo agora são conscientes da realidade totalmente diferente (em Espanha) mas não se sentem capazes de exercer estas novas liberdades. A tristeza dessas perdas, e da privação da posibilidade de fazer da vida sentimental duma pessoa cualquer coisa publica (como em realidade é) so poder ser compreendido por pessoas sensíveis o qual não parece ser o caso dessa senhora Agustina... que pena!!!!

Espero ter explicado tudo com clareza e sem muitos erros.
Beijo

TARCIO VIU ASSIM said...

Conheço histórias semelhantes aqui no Brasil. E quanto a união civil entre pessoas do mesmo sexo, não precisa ser "maricas" para ser a favor. Eu não sou maricas e sou absolutamente a favor do casamento homossexual. Mais respeito aos sentimentos e direitos humanos, essa deve ser nossa luta!
Grande abraço pernambucano.

Amaral said...

Histórias da vida, realidades que se criam com a convicção das suas verdades mais profundas.
Infelizmente, as nossas sociedades pouco compreendem do amor incondicional - aquele do Deus que está no acto sublime da Criação!...