Friday, December 01, 2006

sentimentos misturados


A crónica Sentimentos Misturados de Pacheco Pereira, no jornal Público, é sobre a entrevista que a RTP fez ao actor e encenador Jorge Silva Melo. Aqui fica um excerto que pedi “emprestado” a Da Literatura. Os sublinhados são da minha autoria:
«[...] Jorge Silva Melo fala do mundo que ambos conhecemos nos últimos anos da década de 60 em Lisboa, no movimento estudantil, na oposição, na Kulturkampf entre o neo-realismo e a pop, entre a Sylvie e os Beatles. Ainda havia “cidade”, dizia Jorge Silva Melo, ainda havia bairros, ainda havia cafés, teatros, cinemas. [...] Mas Jorge Silva Melo está (como eu) entre dois mundos: o que gostamos é o que desgostamos. Nas suas memórias entrevistadas está uma contradição que não se sabe resolver. Ele gosta da “plebe”, da “canalha” de Gomes Leal, da malta suburbana que fala o português do Kuduro, e queixa-se ao mesmo tempo de que ninguém vai ao teatro nesta “não-cidade” em que vivemos. Claro que ninguém vai ao teatro, claro que acabaram os cafés (pelo menos em Lisboa), claro que se desertificaram os bairros, claro que acabou a Lisboa dos anos 60, tão íntima como provinciana, onde éramos os absolutos cosmopolitas, exactamente porque os filhos dos deserdados das cheias, os filhos dos operários do Barreiro, os filhos das criadas de servir, os filhos dos emigrantes de Champigny, os filhos da “canalha” anarco-sindicalista e faquista de Alcântara mandam no consumo e o mundo que eles querem é muito diferente. Eles entraram pelos cafés dentro e transformaram-nos em snackbars e em lanchonetes, entraram pelas televisões e querem os reality shows, entraram pela “cultura” e pela política e não querem o que nós queremos, ou melhor, o que nós queríamos por eles. O acesso das “massas” ao consumo material e “espiritual” faz o mundo de hoje, aquele que é dominado pela publicidade, pelo marketing, pelas audiências, pelas sondagens. É um mundo infinitamente mais democrático, mas menos “cultural” no sentido antigo, quando a elite, que éramos nós, decidia em questões de bom senso e bom gosto. E agora? Queríamos que “eles” tivessem voz e agora que a têm não gostamos de os ouvir, quando o enriquecimento revelado por todos os indicadores económicos e sociais dos últimos 30 anos transformou muitos pobres na actual classe média, “baixa” como se diz na publicidade, nos grupos B e C das audiências. Nós queríamos que eles desejassem Shakespeare e eles querem a Floribella, os Morangos e o Paulo Coelho. E depois? Ou ficamos revoltados ou pedagogos tristes e ineficazes, ou uma mistura das duas coisas. Nós ajudámos a fazer este mundo de mais liberdade e mais democracia, que o é de facto. O 25 de Abril foi o que foi porque a geração de 60 o fez assim. Se os militares tivessem derrubado Salazar nos anos 40 ou Delgado o tivesse feito em 1958, o país seria certamente muito diferente. [...]».

6 comments:

ERÓTIKA said...

Hola Amigo gracias por tu post, espero regreses pronto, besos y sensaciones...

Kalinka said...

Mas que verdade da nossa realidade!!!
É isso: Queríamos que “eles” tivessem voz e agora que a têm não gostamos de os ouvir!!!
E...pelo que vejo, será cada vez pior, ou eu muito me engano.

Bom fim de semana XXL.

Vulcano Lover said...

Que lucidez a desse homem... Foi exactametne assim.

pensamentos_vagabundos said...

nunca nem em nada seremos perfeitos,assim como a democracia nunca será...
abraço vagabundo

Tino said...

A questão principal é o ponto de vista...mas antes disso a liberdade de ter um ponto de vista! :)

Abração!

Jonice said...

A democracia, imperfeita que é, ainda é a melhor forma de nos orgarnizarmos enquanto sociedade. A liberdade de ser e de expressar o que se é, é o bem maior que uma pessoa tem. O que talvez continue a faltar-nos como espécie humana é bom-senso e verdadeiro espírito de humanidade.
Gostei de conhecer teu blog. Tem uma boa semana :)