Sunday, March 23, 2008

caramel...

Um imprevisto obrigou-me a abandonar a Zambujeira do Mar ainda de noite e rumar a terras da área metropolitana de Lisboa. A morte não pede licença e uma última homenagem impunha-se. Era íntimo da família de L.. Um Senhor, um homem de noventa anos casado com uma não menos jovem senhora que derrama afecto e boa formação. Hoje, e já depois da missa de corpo presente, o sol convidava a passear pelas ruas meio desertas da cidade. Não foi o que aconteceu e troquei Lisboa por Beirute. O King mantém em cartaz Caramel. Cinco mulheres num salão de beleza, um cenário pitoresco onde gerações se defrontam, conversam e partilham segredos. Layale é amante de um homem casado e espera que ele abandone a cônjuge. Nisrine é muçulmana e vai casar-se mas não é virgem e teme a reacção. Rima é atormentada pela inclinação que sente por mulheres e vive ao compasso das visitas de uma cliente de longos cabelos (cliente essa que personifica as mulheres que vivem numa antinomia entre o que são e o que têm vontade de ser. Quando corta o cabelo no fim, isso indica que decidiu extirpar o cordão que a aferrolha à sociedade). Jamal nega-se a envelhecer. Rose consagrou a sua vida a tratar da irmã mais velha. No salão, os homens, o sexo e a maternidade são o miolo das suas conversas íntimas e liberais, entre cortes de cabelo e depilação com caramelo. Desenha-se o retrato das libanesas, entre o comportamento imposto pela sociedade e a religião, por um lado, e as suas próprias ideias, por outro. Confissões de vidas que ganham luz através de uma alforria que não se vive lá fora, distante dos rolos e dos secadores. É um filme arrebatador pelo entusiasmo das mulheres dum país, sempre e infelizmente relacionado com a guerra.

No Líbano uma mulher percebeu como não ceder a estéticas americanas nem, por outro lado, encarrilar em argumentos penosos. O mérito de Nadine Labaki reside no facto de não ter deixado que Caramel se tornasse num vulgar panfleto ou num banal drama. A realizadora mantém o equilíbrio entre a afabilidade e a melancolia, não alinha em rasgos melodramáticos nem em soluções fáceis, e sustenta, do princípio ao fim, a verosimilhança humana e social de personagens, situações e ambientes. Isto numa obra dedicada a Beirute, a cidade que já foi a Paris do Médio Oriente e faz o possível por recuperar esse estatuto. E de onde brotam filmes como este, enriquecidos por mulheres a braços com o dia-a-dia, em vez de homens de bigode a disparar uns sobre os outros…

12 comments:

pinguim said...

E como deve ser dificil ser Mukher por ali...
Abraço.

avelaneiraflorida said...

Amigo Luís,

de cada vez que aqui chego...a minha agenda enche-se de registos na rubrica " A VER "...
Mais um desses registoa lhe acrescento agora!!!!
"Brigados" por esta tão sempre intensa partilha!!!!

Outonodesconhecido said...

A vida tem dos seus imprevistos.
Boa semana

Maria P. said...

Fiquei com o "apetite" bem aguçado!

Beijinho*

Templo do Giraldo said...

Passei aqui para te dizer que o templo está de regresso. Passada que está esta época festiva. Estamos de volta.
Quando quiseres passa por lá. Da minha parte ja fiz o meu "dever".

Um abraço.

Ana Paula said...

Já estive para ir ver o filme, mas... afinal, não fui. :(

Muitos me têm dito bem dele. Este post mais me aguça a curiosidade...

Obrigada! :)

ivone said...

um cartaz sugestivo a lembrar a gala de dali...

isabel mendes ferreira said...

de Beiruta. com amor. Ou seja , do tempo de uma "paris" do oriente...

uma cultura à parte naquela parte do mundo.

não vi ainda o filme.

mas só posso gostar...:)

sou muito daquela zona...daqueles ares onde o vento do deserto chega quente e maduro.



beijo. regressado.

isabel mendes ferreira said...
This comment has been removed by the author.
isabel mendes ferreira said...

errata: de Beirute!



____________

o comentário apagado é meu...sorry.

saiu duplicado.

Blue Velvet said...

Querido Luis,
como já disse anteriormente tenho andado afastada do cinema. Na verdade afastada de quase tudo, mas o que descreveu aguçou-me o apetite.
Deve ser aterrador viver num País assim, mas "há sempre alguém que diz não"
Beijinhos e veludinhos

Anonymous said...

Sempre favoritos:este Blog e...você(?)


Beijo.Gratidão

Teresa