Sunday, March 30, 2008

a dor da infidelidade...

Luz silenciosa. Um homem casado, contra as leis da sua fé e das crenças, apaixona-se por outra mulher enfrentando um dilema, o de atraiçoar a sua mulher, a mulher que ele amou e destruir desta forma a solidez aparente da comunidade ou sacrificar a sua paixão. Uma história sobre um amor proibido numa comunidade religiosa rural. Existem tensões evidentes e rapidamente ficamos a saber que Johan tem um caso com Marianne. O triângulo virá a acarretar lágrimas e angústia mas não a censura que podemos aguardar de outro estilo de obra. A dor da infidelidade estaciona numa espécie de transe; uma forma estranha mas aceitável para se lidar com a infracção. Mas esta paixão tem pouco de silenciosa; ela estorva as leis da fé e as crenças da comunidade. Abandonar o matrimónio em nome de um amor autêntico e de uma hipotética felicidade significa desmoronar a solidez desta micro-sociedade. Assim, depois de terem feito amor pela última vez, Marianne diz que a paz é mais forte que o amor, e renunciam um do outro. "Haverá dor, seguida de paz, e depois uma felicidade como nunca conhecemos ainda", afiança. No âmago desta aflição, Johan solicita à sua amante para arquitectar um futuro depois do seu amor findar. Rodado de molde persuasivo esta história revela-se comovente. Pelo olhar que se mostra amortecido sobre o nascer do dia por cima da planície mexicana, torna-se evidente que este não é um filme com pressa. Apesar de eu não ter apreciado a opção final, o cineasta consegue brindar-nos com um trabalho terno, tocante e profundo que convida à contemplação e ao debate.

Acresce realçar a convicção com que os actores (amadores) se oferecem às suas personagens. Rodado na comunidade menonita mexicana o filme remete para uma atmosfera onde se visita um mundo primitivo, os credos culturais e religiosos e as interpelações sobre o amor físico e metafísico. Um universo carregado onde a vivência humana ocorre e prova ter semelhanças universais.

Será que a paz é mais forte que o amor?


Os menonitas são protestantes, vindos da Europa para a América no século XVI e estabelecidos no México a partir de 1922. Eles defendem o princípio do pacifismo radical e da rejeição ao progresso. A comunidade de Johan é mais moderada. Eles já utilizam carros e os avanços da medicina moderna, mas ainda recusam as comunicações com o exterior, por telefone ou internet.

23 comments:

RedLightSpecial said...

Olá Luis.
Pois conseguiste uma vez mais deixar-me atrapalhada com as tuas palavras.
Não sou escritora nem nunca o fui, comecei somente a escrever (em jeito de desabafo) em Novembro, antes disso só escrevinhava aqui e ali num caderno velho. Sou professora, do Porto, por isso cruzarmo-nos na rua será improvável. Contudo essa perspectiva não deixa de ser interessante, sei que há quem me lê que me conhece "lá fora" e nem imagina que sou eu.
É a vertente irónica do anonimato.
Obrigada pelas tuas palavras.
Quanto ao teu post de hoje respondo somente: a paz é mais forte que o amor apaixonado.
(amor apaixonado e amor consolidado são para mim coisas bem diferentes)
Beijinhos grande para ti,
Red

Ps: peço desculpa pela ausência de visitas e leituras no teu blog, mas ando sem tempo para navegar nos blogs que me dão mais prazer ler. O teu está incluido no meu "top 5". Virei sempre que possível.

Maria P. said...

Sabes acho que é a 3ª vez que venho aqui por causa deste tema, fiquei a pensar na pergunta que deixas, merece alguma reflexão, mas creio que, seguindo o guião do teu post, a Paz não é mais forte que o Amor.

Beijinho e boa semana*

Fragmentos Culturais said...

Interessante! Não passou ainda nas salas da cidade! Tentarei estar atenta à única sala 'alternativa' onde poderá, eventualmente passar...

Gostei imenso de conhecer um pouco da 'comunidade menonita'... fez-me lembrar [acho que têm vários 'princípios'/valores em comum...] as comunidades Amish, nos Estados Unidos!

Tenho grande admiração pelos 'Amish'!

Quanto ao amor... não me prenuncio! É demasiado complexo para deixarmos um comentário quase 'ligeiro'!

Mas será que o amor [na sua verdadeira essência] ainda existe?!

Há um conto de amor de tradição oriental muito bonito que fala do Amor nessa vertente 'purista' do sentimento!

Boa semana!

Ana Paula said...

Uma referência que muito agradeço. Tinha-me escapado, até agora.

A questão que nos deixa aqui ficar é exigente. Una imensa e magnífica questão que obriga a um olhar interior e demorado.
De difícil resposta.. ficarei a pensar nela...

Obrigada! :)

pinguim said...

Duas questões diferentes:
1)- o filme; parece-me um argumento muito bom, mas pelo que já li, a forma escolhida para o tratar não será muito apelativa, com a escolha de gente anónima e principalmente por uma realização demasiado lenta, muito ao estilo "Manuel de Oliveira"; não será um filme para toda a gente...
2)- a tua pergunta! De muito difícil resposta; acho que nunca seria capaz de encontrar a paz, se para tal fosse forçado a renunciar a um Amor forte e verdadeiro...
Abraço.

comecardenovo said...

Um dia responderei a esta pergunta.
Estive memso apra ir ver este filme, fiquei-me pelo "I'm Not There".
Fica para 3ª feira, deposi entro no período de reclusão profissional...
boa semana

Manuel Braga Serrano said...

Olá... retribuindo a gentileza do comentário. Abraço

Robbie said...

Gostei muito. Escreves muito bem. Tens o Blog todo bonitinho ! Parabens, continua.

Mar Arável said...

Mais um texto

na forma e no conteúdo

que sugere reflexão

Ai dos que amam

e deixam de namorar

Abraço

socrates dasilva said...

Paz e amor. Porque teremos que escolher entre os dois? Porque carga d'água os dois em certas alturas tem de estar em polos opostos?
abraço

ECO said...

Pelo que li até ao momento se por um lado este filme desperta uma certa curiosidade, por outro é necessário que nos deixemos embalar por ele (e nem sempre existe esse estado de espírito).

A pergunta que coloca é pertinente. Penso que só tem paz que é feliz e só é feliz quem ama. Num caso como o da história que nos apresenta, não acredito que alguém abdique da vida familiar de ânimo leve. Só o fará quem já souber que não tem viabilidade para ser feliz. O amor (não a paixão) é mais forte que a paz!

Gostei deste espaço e tenciono voltar

M.Mec said...

só se já não houver amor é que a paz terá a sua oportunidade

Roberto F. said...

Nossa, muito legal os comentários e a sinópse... adorei
Algumas vezes, alias, em muitos casos, isso acontece mesmo... Tenho amigos que me contam a mesma história, aliás tenho até mesmo o medo de vivenciar algo assim!
ARRasou no comentário!

The Unfurry Swear Bear said...

Parece ser um bonito filme, enquanto a se a paz é mais forte que o amor.... o amor desde que reciproco traz a paz, na minha opinião

avelaneiraflorida said...

Mais uma interessante proposta de FILME A VER!!!!

Quanto a respostas...não será muito fácil!!!!
Paz igual a Renúncia????
Paz igual a Amor????

Posso compreender a Renúncia em benefício do Amor,embora não saiba se depois chega a Paz ...

Marcelo Martins said...

Parece ser um filme bem interessante.
Quanto á sua pergunta, creio que amor e paz são uma coisa só, concorda?

Abraços

hora tardia said...

:( não vi.

pela "sinopse" que só Tu fazes assim apetece ir a correr.


não sei se terei oportunidade. Mas o teu texto é um quase ensaio sobre a natureza nossa.

beijo de bom dia e obrigada.

mateo said...

Paz sem amor?
Amor sem paz?
Se fosse assim... tão simples... responderia... nim!
Um abraço.

Suspiros said...

Julgo que a paz se torna impossível em qualquer uma das hipóteses. Mas o verdadeiro amor será sempre o vencedor, onde quer que ele esteja...

pin gente said...

começo por dizer que não vi o filme

parece uma pergunta simples?
fazes-me fazer outra pergunta
qual paz? como poderia haver paz?
com abnegação!

abraço, luís

Blue Velvet said...

Não vi o filme mas pela descrição deve ser belíssimo.
Fez-me lembrar, ainda que noutro registo A Testemunha.
Passava-se numa comunidade amish que confesso, nalgumas coisas me atrai.
Sobretudo na simplicidade com que vivem.
Com um desempenho soberbo de uma actriz de quem gostava muito, a Kelly McGillis, e de quem nunca mais ouvi falar.
A Paz em vez do Amor? Thanks but no Thanks:)))
beijinhos e veludinhos

Maria Faia said...

Olá Amigo,

Paz e Amor deveriam caminhar sempre de mãos dadas...
Como o óptimo raramente acontece pelos trilhos em que passamos, deixas-me a pensar seriamente sobre a questão - a paz será mais forte do que o amor?
Mas que pergunta mais "endiabrada!!!", mais difícil de responder...
Será que quem não ama vive em paz?
Será que quem não tem paz consegue amar?

É só para complicar mais um bocadinho... Ou será que simplifica?!...

Um abraço amigo,

Maria Faia

Sílvia said...

Perco-me com a sua escrita.
Escrever é difícil.
Transmitir sentimentos mais ainda, tal como na escultura.
Também vi este filme e revi-me bastante nele. Aliás vejo-o muitas vezes.
Vejo Luz Silenciosa como o meu próprio filme.
Também não gostei do final. Talvez porque tenha trocado 15 anos de paz por uma, ainda inexistente, vida de amor.
A paz acarreta muitos "silêncios", muita presença ausente, muita actividade conjunta aparente, muita aparente sintonia, muita aparente paz.
Não avançamos por medo do desconhecido, com medo que os deuses nos castiguem, nos condenem, que nos deixem de amar. Medo de ficarmos sós.
Custa, custa muito dizer "Adeus", mas aguentar uma vida de paz sem o tal amor, destrói a magia da vida. Só amando, só nos entregando, só sentindo, só com e na paixão, conseguimos alcançar, penso eu, a paz que ambicionamos, a paz que alguns já sentiram! Porque a paz advém da satisfação de todos os sentidos.
A Paz tem a tendência para prevalecer devido à falta de coragem, devido ao medo do desconhecido, devido ao medo dos olhares dos outros, devido ao comodismo que todos transportamos, devido ao hábito que temos para com o outro, devido ao voto de compromisso...mas, tal como neste filme a razão nunca se prende com o sentimento mais sublime, amor entre homem e mulher. Parece-me que a maioria nunca teve o que realmente desejou, mas o possível, o aceitável. Condenarmo-nos a uma paz pelos outros, é condenar várias vidas. Há que ousar não ter medo de ficar só! Há que ter coragem de libertar os que nos rodeiam quando já renunciamos ao amor em prol da tal paz, oca e aparente.O amor é, talvez, a questão mais séria da vida, ele paralisa tudo.
Comparado a ele só a morte...todos têm "pressa" em ter um amor. Porém, ele apenas acontece, não tem velocidade, nem idade, nem tempo...
Vivam.