Monday, April 07, 2008

corações...

Thierry, agente imobiliário, tem tido dificuldades em encontrar um apartamento a um casal de clientes problemático. Na agência a sua coadjutora, empresta-lhe uma cassete de uma emissão de televisão que ela aprecia particularmente, “As canções que mudaram a minha vida”, um programa religioso de variedades que perturba Thierry. A irmã busca sigilosamente o amor, chegando a recorrer a anúncios. Dan que acabou de ser proscrito do exército, passa os seus dias no bar de um hotel onde confidencia ao barman, as suas peripécias profissionais e afectivas. Para assegurar o bom funcionamento do serviço à noite, Lionel viu-se obrigado a contratar uma auxiliar para cuidar do seu pai, um homem velho, enfermo e em cólera. Corações é um filme de Alain Resnais, o realizador de filmes de culto que aqui nos mostra a vida vazia e desencontrada de meia dúzia de pessoas que, sem querer, acabam por estar todas interligadas.

Coeurs adapta para o grande ecrã a peça "Private Fears in Public Places", do britânico Alan Ayckbourn, deslocando a acção de Londres para Paris mas conservando o seu elemento fulcral, um olhar sobre as relações humanas - familiares, amorosas, laborais ou outras - no atribulado quotidiano de uma cidade contemporânea. Conquanto os espaços onde se desenvolve a acção sejam quase sempre os mesmos Resnais filma-os com enorme fresquidão, expondo diferentes detalhes e explorando as potencialidades dos perturbadores décors, com enquadramentos lindíssimos.

Investindo no modelo do filme-mosaico, "Corações" segue os (des)encontros de seis figuras que pouco têm de certo nas suas vidas, o que os impõe a descobrir pontos de fuga à solidão, seja através do amparo no álcool, em anúncios em jornais ou no paliativo televisivo. Entre a farsa e o drama, o argumento flúi com inteligência e sensibilidade, colocando em jogo os comportamentos humanos e as redes que vão estabelecendo, alicerçando-se em personagens suficientemente complexas.

A neve que cai constantemente e a interioridade e exiguidade dos cenários – quase tudo é filmado em interior – funcionam como metáfora da vida gelada, magoada, enfadonha e complicada das personagens; quase todas com uma face por revelar.

Alain Resnais metamorfoseia um bairro parisiense num cenário fantasmagórico onde se cruzam pessoas que desejam alguém, enquanto arriscam lidar com o fosso que demarca os seus sonhos da realidade…

12 comments:

Vulcano Lover said...

Já fui ver o filme e adorei... Por acrescentar alguma coisa (embora já dissesses tu o mais importante) o mais interessante e que apesar de tudo o filme é uma comédia deliciosa onde todas essas vidas geladas, magoadas, enfadonhas e complicadas das personagens que contas, são apresentadas com um humor e uma ironia elegantes que nos faz sorrir a maioria do tempo con un sorriso muito sutil.

sofialisboa said...

gosto de vir aqui ver o que está a dar...obrigada pela sugestão, uma boa semana sofialisboa

pinguim said...

Alain Resnais
alguém consegue apontar-me um filme desinteressante deste decano do cinema francês? (eu ia a dizer "bom", mas fiquei-me peço "interessante").
Abraço.

pn said...

por falar em neve...

a do pamuk merece visita.

assim como nos ajuda a conhecer realidades às quais somos alheios, das quais somos desconhecedores,
mas,
das quais somos, em geral, portentosos críticos, no estilo MST, monsieur je sais tout.

e é branca e fria, nos confins da turquia fundamentalista, numa terra onde as jovens se suicidam como quem bebe uma ginger ale.

e Ka, o protagonista, poeta e jornalista pretextado é...

(obrigado pela visita!)

avelaneiraflorida said...

Pronto, mais um para a lista!!!!

"brigados"!!!!!

Blue Velvet said...

Já vi e adorei.
Dias felizes

Rodrigues Bomfim said...

Amigo Luis, grato pela visita. Gostei de tudo que vi e li aqui..Parabéns por este blog rico e inteligente...Ainda não vi esse filme, alias o único filme que vi, há muito tempo, do documetnarista Alain Resnais, foi "Hirioshima Meu Amor", acho que é um dos primeiro filme dele.

Um abraço e volte mais vezes,ok?

Oliver Pickwick said...

Aqui no Brasil, o título é "Medos privados em lugares públicos". Um grande filme. E, acredito que Alan Resnais há muito já ultrapassou os oitenta anos.
Gosto da essência do filme, apesar de personagens "que pouco têm de certo nas suas vidas", como bem escreveu, todas são dotadas de um otimismo exemplar. E vão à luta.
Um abraço!

della-porther said...

vou tentar assistir esse.

beijos a vocês

della

@nn@ said...

venha buscar, tem prémios !

Carla said...

este espaço é uma verdadeira ode ao cinema...as escolhas, a descrição, os comentarios...tudo feito com uma importantecapacidade de crítica e de atrair o leitor.
Parabéns

Maria P. said...

Quem sabe este fim-de-semana?!...


Beijinhos e bom fim-de-semana*