Sunday, April 06, 2008

uma actriz com nome de flor...

CONVERSAS COM GLICÍNIA de Jorge Silva Melo

Finalmente encontrei [na Pó dos Livros] o documentário sobre a actriz Glicínia Quartin, produzido por circunstância do seu 80º aniversário. A sua família, o anarco-sindicalismo, a Escola-Oficina nº 1, as leituras em casa dos pais, as prisões, o Mud Juvenil, os teatros experimentais, os surrealistas, o brotar do Cinema Novo com “Dom Roberto”, a Itália, a fantasia, Beckett, Genet, Vitor Garcia, o encontro com Luís Miguel Cintra - uma vida em trânsito.

Glicínia sentada numa "chaise-longue", de costas para a janela, para os telhados de Lisboa, para o Tejo, de frente para a parede onde está o seu retrato, pintado por Sá Nogueira: um rosto com linhas rectas, boca grande, corpo suavemente inclinado. Frágil, suave e doce, esta actriz com nome de flor. Foi também um retrato de Glicínia, 40 anos depois de Sá Nogueira o ter pintado, que Silva Melo quis nos brindar com estas conversas.

A intimidade atravessa esta conversa entre duas pessoas que se conhecem há anos. Glicínia dirige-se espontaneamente a um "tu" invisível que interpela, o espectador. Fala da literatura que se lia (Vitor Hugo, Dumas, Zola contados pela mãe, pedagoga e feminista), da prisão do pai, anarco-sindicalista, quando tinha quatro anos, fala do bairro da Graça onde vivia e concebia miúdos imaginários com quem brincar no quarto (tinha dois irmãos, ambos com nomes inspirados na natureza, Orquídea e Hélio), do mapa em casa onde se assinalava o avanço e recuo das forças militares na II Guerra Mundial, da escola que frequentou, projecto inédito onde se misturavam rapazes e raparigas e se aprendia teatro, do Liceu Maria Amália onde se instalou "o horror do sexo oposto". Conta que "esteve sempre num meio ligado à política, ao social, à cultura, à curiosidade de descoberta do interesse do homem como criador" e "isso foi sendo absorvido".

Um percurso marcado pela liberdade, pela "confluência de géneros", pelo lado aventureiro de alguém que, aos 48 anos, no auge da carreira, decidiu entrar na Cornucópia para ser dirigida por jovens 20 anos mais novos. Esse clímax foi a interpretação de "As Criadas", de Genet.

Glicínia diz que o teatro lhe despertou o instinto da sedução - e isso levou-a ao conhecimento do corpo. "A sedução era palavra tabu na esquerda portuguesa dos anos 40, 50 e 60", lembra Silva Melo. "Havia um puritanismo na esquerda que fazia com que o corpo sensual da Glicínia fosse pecado. Lembro-me da maneira como os espectadores de esquerda viam a famosa combinação que a Glicínia usava em 'A Casa de Bernarda Alba', de Federico García Lorca [em 1966], encenação de Carlos Avilez, que foi muito criticada e discutida. Uma das coisas importantes do anarquismo da Glicínia foi essa sensação de que o ser humano é um corpo e que a ligação com os outros é uma ligação de sensualidade, de sedução, de sensação. E nunca esconder isso. Também foi surpreendente que uma mulher de esquerda fosse fazer um papel tão frívolo como 'A Maluqinha de Arroios' [de André Brun, encenado por Avilez, em 1966]. É esse prazer da frivolidade, da brincadeira que ela foi sempre exigindo de si e dos outros. Com imensa seriedade porque ao mesmo tempo que fazia de saltos e boquilha 'A Maluqinha de Arroios' estava a levar fugitivos políticos para a fronteira. Isto está por contar: a mulher de esquerda em Portugal é sempre uma freira ligada ao partido." [in Artistas Unidos]

Na "chaise-longue", Glicínia Quartin refere que a sua geração "tinha vergonha de ter corpo" e o riso das senhoras era censurado. Desde miúda que se divertia a dançar e a cantar e desde miúda que o divertimento faz parte da sua vida. A forma como olha para a sedução, diz, não é com malícia: é uma forma de chegar ao outro, "abrir o outro para receber". "Há muita coisa que fazemos que tem que ser como um jogo. Mas eu não era provocadora. Há pessoas que escapam às regras sociais sem ter que empunhar a bandeira da libertação. Sou o que sou pelo caldo de cultura em que vivi".

Filmado em estúdio e recreando a casa da actriz, é-me dado a ver uma mulher de combate desfilando o seu passado, no teatro, cinema e televisão, pretérito esse que é também o de um país. Portugal cinzento e castrador, de costas voltadas para a cultura não massificada, a tal que era consumida pelas cabeças pensantes. A ditadura de Salazar não se sentia cómoda com estas demonstrações artísticas, logo, a regra era tornar complicada a vida dos intervenientes destas " práticas ". Mas Glicínia nunca facilitou, movimentando-se sempre na sua actividade, com textos e personagens polémicos. Desde o Teatro Experimental do Porto e de Cascais, passando pelo Teatro Nacional D.Maria II, Casa da Comédia, Bonecreiros, Cornucópia e por fim com os Artistas Unidos, houve da parte da actriz uma preocupação de identificação e de integridade com o seu trabalho.

Aos 80 anos, a actriz mantinha o olhar optimista, o prazer da folia, a recusa em assumir o papel de quem já viu tudo. Ela, que não simpatizava com Strindberg porque é demasiado pessimista, nota que no repertório contemporâneo dominam os textos negativos "como se a vida não tivesse saída". São "mais pessimistas do que a vida é. Isso inquieta-me, se calhar aquilo é a realidade, eu é que não consigo ver e tenho de ir lá abrir a janela..."

Uma mulher que tinha um rosto que não correspondia aos padrões de beleza da altura - "pensava que não era cara que se apresentasse", conta - mas olhou para Katharine Hepburn e Joan Crawford e aprendeu a habituar-se a ele. Há um "sorriso chaplinesco na sua boca grande e nos seus olhos brilhantes", observa Silva Melo. Em Glicínia "há sempre qualquer coisa de mais expressivo do que a realidade". [in Artistas Unidos]

Eu, sábado de manhã, sentado na minha "chaise-longue" inventada regalei-me a ver e ouvir o que pensa (e, como pensa bem), a ouvir contar tanta vida (que viveu alguém que não soube estar parada sem viver), senti-la divertida (que a vida para ela tinha de ser alegria). Transporta a exultação. Sem peso. Sempre em movimento. Porque vive em sedução. E porque amou como ninguém a sua liberdade. Houve mais actriz? Houve mais pessoa?

Sentou-se à mesa para jantar com o marido, numa quinta-feira à noite, e já não se levantou. Aos 81 anos morreu como viveu: sem excessos nem dramatismo. Glicínia ausentou-se para outros palcos em Abril de 2006.

11 comments:

pinguim said...

Bela homenagem a uma grande Senhora do teatro português; tive a felicidade de a ver representar "As criadas" de Jean Genet, arrebatadora na sua pequenez física e na sua elevada estatura de Mulher e Actriz.
Abraço.

Blue Velvet said...

Que maravilha de post sobre uma artista que sempre admirei e adoro.
Beijinhos e veludinhos

isabel mendes ferreira said...

ainda a vi representar....

_________________

algures em 1975...
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inesquecível.

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obrigada.

Maria P. said...

E viveu o jogo da vida da melhor forma possível...

Excelente post.

Beijinho e boa semana*

Outonodesconhecido said...

Luís obrigada pela forma culta, interessante e bonita com que nos anunciaste a morte da actriz Glicínia.
Boa semana

Maria said...

Excelente post, Luís. Tive a felicidade de a ver em "As criadas" e "A casa de Bernarda Alba". Trouxeste-me memórias antigas...
Gostei da última frase do post. É uma forma bonita de falar num acontecimento triste....

Beijo

avelaneiraflorida said...

Amigo Luís,

Fui lendo com crescente emoção este texto de Homenagem!!!!
Acabei por recordar alguns momentos da minha infância...e as memórias,por vezes, fazem-nos reviver!!!
"brigados" por mais este post!!!!

@nn@ said...

Glicinia Quartin, um nome que vem do fundo da minha infancia ... DIAS FELIZES, casa da comédia, lisboa, portugal .... xiiii como se fosse numa vida anterior.

foi muito muito engraçado, tinhamos uma corda ligada dela a mim porque o texto era dificil e com muitas pausas.
Quando esquecia ... o que era raro, puxava pelo cordel !

Pois é, eu era o ponto ...

beijinhos luis
e obrigado por este post que me fez reviver bons tempos.

Paula Crespo said...

Ela, que não simpatizava com Strindberg porque é demasiado pessimista, nota que no repertório contemporâneo dominam os textos negativos "como se a vida não tivesse saída". São "mais pessimistas do que a vida é. Isso inquieta-me, se calhar aquilo é a realidade, eu é que não consigo ver e tenho de ir lá abrir a janela..."
Atrevo-me a fazer minhas as suas palavras, pois reflectem exactamente o que penso. Houve mais actriz? Houve mais pessoa? Certamente que sim!
Bjs!

isabel said...

confesso que não acompanhei o seu percurso. com muita pena minha, depois de ler o texto interessantissimo que nos deixas.

abraço Luís

Blue Velvet said...

Esqueci-me de referir que achei linda a forma como ela morreu, e linda a forma como nos contou isso.
Nem outra coisa era de esperar, vindo de quem vem.
Beijinhos e veludinhos