Sunday, November 23, 2008

viagem sem bússola…

Domingo à tarde. O debate à volta de tudo o que é arte contemporânea tem sido objecto de variadas manifestações ao longo dos tempos. A razão do conflito, embora com protagonistas e argumentos diversos, radica sobretudo na disputa entre uma visão conservadora e uma visão dinâmica do mundo. Tal como António Pinto Ribeiro defende (cf., Abrigos, 2004), também me parece que existe um preconceito epistemológico na condenação do contemporâneo enquanto sinal de um presente conturbado. O mundo está em permanente mudança e a arte contemporânea contribui, de um modo determinante, para que ele seja mais vivido, melhor compreendido e apreciado. Pluralidade de estilos, de linguagens, de ensaios coreográficos contraditórios e independentes, convivendo em paralelo, porque a arte contemporânea não é o palco da afirmação de verdades absolutas. E desperto para o que de diferente o contemporâneo pode oferecer rumei hoje inquieto ao pavilhão 4 da FIL. A feira de arte contemporânea portuguesa que decorre no Parque das Nações, ali bem juntinho ao Tejo. Cerca de 70 galerias, portuguesas e estrangeiras viajam entre a pintura e a cibernética, entre o vídeo e a performance, discutindo e aferindo novas propostas. Enquanto referência no mercado em Portugal e provavelmente um dos principais acontecimentos da criação artística contemporânea na Península Ibérica, a ARTE LISBOA oferece aos galeristas a oportunidade de darem a conhecer artistas emergentes e consagrados.

Mas o que mais me enfeitiça é a energia cultural que recolho deste tipo de arte, de espaço e de instantes. E, ao abandonar a Feira, olho o rio lá em baixo, tão bonito ao fim da tarde…
Domingo à noite termino O Eco Silencioso de João Lobo Antunes. Uma das características de qualquer obra de qualidade, seja na literatura, seja na música ou nas artes plásticas, é inspirar em nós desejo de a partilhar. Sensível como sou à inteligência dos outros não podia deixar de transmitir o que sinto acerca deste aristocrata da escrita e deste seu agregado de ensaios. Notava o crítico literário Harold Bloom que presentemente a grande escrita desperta mais frequentemente em obras que não são especificamente literatura. O neurocirurgião João Lobo Antunes é um excelente exemplo desse facto. Uma escrita fascinante para comunicar uma ideia e uma sensibilidade únicas, informados por uma cultura, uma erudição científica e literária, uma experiência humana, únicas no panorama cultural luso (cf. nota da editora). O homem que influenciado por E. M. Forster se justifica de forma quase pueril dizendo que tudo o que escreve é sentimental caracteriza em boa medida a prosa que lhe sai da alma. Li todos os seus livros/ensaios, mergulhei na sua vida, nos seus interesses, nas suas dúvidas. Ler este Lobo Antunes, é como beber o crème de la crème dos cocktails, sentado no mais belo terraço do mundo... (George LAMBERT, Sleeping man [Breaker Morant] )
Domingo quase ao apagar a luz de cabeceira, fixo-me no ensaio de JLA “E no princípio era o `Mostrengo´”, e tal como o artesão da escrita também eu puxo para vos cobrir o manto de um dos mais belos poemas sobre a noite.

Vem, Noite antiquíssima e idêntica.
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde escuro ao longe,
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
Na distância subitamente impossível de percorrer.


(...) Álvaro de Campos...

Boa Noite.

21 comments:

Ka said...

Belíssima como sempre esta tua partilha.

Essas viagens sem rumo são sempre óptimas, principalmente quando as partilhas connosco :)

Boa noite e boa semana!

Paula Crespo said...

O desejo de partilha é comum quando se está perante coisas belas. Nascerão para isso, partilhem-se!
Bjs

pinguim said...

Três propostas não só para um domingo, mas para os próximos dias: qualquer delas, interessante.
Abraço.

Vulcano Lover said...

Fim de semana lindo, não é?

L.C. & H. F. said...

Se o este teu texto é excelente, caro Luís, o título
então : “ Viagem sem Bússola “ é uma metáfora que abre caminhos interiores...
“ Viagem sem Bússola “ é o caminho dos poetas, escrevam estes poesia ou não.

Gostei de voltar a passar por aqui.

Evoé!

L.C

Mar Arável said...

É bom adormecer

com a luz acesa

Abraço

Maria P. said...

Uma boa noite.

Beijinhos*

pront'habitar said...

além das belíssimas coisas que o autor deste espaço aqui nos oferece, o que muito admiro é a sua enorme capacidade para não parar e interessar-se pelas mais diversas áreas, "arranjando" tempo para tudo.

a minha grande inveja...

tulipa said...

Muito obrigado pela partilha de 3 momentos belíssimos de um DOMINGO na tua vida:
Domingo à tarde
Domingo à noite
Domingo quase ao apagar a luz de cabeceira...e, assim se passou um rico domingo!!!

Três propostas muito interessantes.

Abraços.

António said...

Também fui á Arte de Lisboa.
E gostei.

BlueVelvet said...

Uma viagem perfeita, como todas as que partilhas connosco.
E não precisas de bússola. Sabes o caminho.
Beijinhos

Violeta said...

Tinha saudades das tuas partilhas.
Obrigada!

Victor Oliveira Mateus said...

Gosto das viagens sem bússola.
Gosto dos cientistas que sabem escrever.
Sobre a arte contemporâneae e a sua
relação com o mundo actual não é o espaço (nem pelo meu ex-colega de turma A.P.R.), mas... gosto de muitas muitas coisas
Gostei do modo como se invocou a noite, que, mesmo antiquíssima, sabe bem navegar... ainda que sem
bússola.
Abrç.

LuzdeLua said...

Bom é poder sair assim e ainda se deparar com tamanha cultura.
Muito bom amigo.

"Mesmo que as pessoas mudem e suas vidas se reorganizem, os amigos devem ser amigos para sempre, mesmo que não tenham nada em comum, somente compartilhar as mesmas recordações."
Vinícius de Moraes

Passando, deixo-te um abraço amigo

Lívia M said...

Venho me questionando ultimamente sobre o que é fantasia, sobre até que ponto nossa mente é capaz de criar um mundo que não existe, até que ponto posso me fazer em rascunho de perfeição e apenas rascunho pois sei que esse nunca vai se fazer real. Já me disseram que fantasiar é uma característica da mente mas cada vez mais tenho certeza de que é um golpe repugnante para se fugir da realidade, para não aceitá-la.
O caso é que na medida em que me convenço disso as tais fantasias parecem me atormentar mais e mais. É mesmo como o vício de fumar. O que você acha Luís? Será que é natural ser escrava de fantasias?

Ana Paula said...

Excelentes propostas, Luís!
O livro é muito bom, concordo!

Fernando Pinto said...

Quando partilhamos algo sentimo-nos mais vivos, mais dignos das palavras dos outros...

Abraço

Marta said...

sempre gostei de lobo antunes... :)

beijinho

Lana said...

trago noticias, novo post e novo premio ... para ti
1 sorriso mto luminoso
Lana

Mar Arável said...

Todos os dias construimos memórias

e somos contemporâneos dos amanhãs

Na vida as contradições

estimulam a que tentemos

resolvê-las

sempre no relativo

Abraço amigo

Sílvia said...

(...) Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha de mim atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro,
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos. (...)