Thursday, February 05, 2009

apontamento de uma traição...

(Edvard Munch, The Kiss, 1892)

Ela é procuradora do Ministério Público, é loira e tem olhos verdes, desejou ser actriz, intérprete de Chekhov, Lorca, Ibsen, Strindberg ou mesmo Giraudoux. Ele é investigador de microbiologia, moreno, olhos azuis, perfeito homem, nunca sonhou ser nada a não ser viver um dia de cada vez. Eles fazem um par digno da Corín Tellado, casal exemplar. Ela vive mergulhada na averiguação de um caso que apaixona a opinião pública. Ele trai-a com a sua melhor amiga, assistente de Psiquiatria, numa escola médica para os lados do Campo Santana, casada com um ex. governante e agora administrador de uma reputada Fundação, com sede em Paris. Ela, a amante, gere bem a relação extraconjugal, ele, o galanteador, vive ainda melhor com a situação porque não pede amor ou cumplicidade, mas apenas sexo, diferente. Entre lábios e lábios toda a música lhes pertence, morrendo na boca um do outro. A outra, a mulher, não sabe de nada. O marido da amante só desconfia. Vive obcecado por visitas nocturnas, que não o exponham, a saunas e cinemas rascas em espécie de bolso, quando as noites são tão compridas, tão quentes. Ela acumula a brutalidade de trabalho que a comarca lhe impinge com a angústia mental, ao estilo de Sarah Kane, a sua dramaturga eleita. Embriagada por sofrimentos diversos, o amor, para ela, aconteceu, como carpiu o poeta, no tempo dos segredos. Um entardecer em que a maquilhagem foi absorvida pelos beijos de outro homem, num Verão esplendoroso, o barulho do mar muito próximo. Mãos brutais ao tocarem o seu corpo. O prazer tinha sido como se perdesse a vida. Um rosto de que ainda se lembra mas que lhe parece agora hostil. A amante, defensora oficial de grandes princípios e da bioética, já chorou baba e ranho na cama de um hospital situado na Whitechapel, em terras de Sua Majestade. Castigo do céu, o filho seria dele, e nem um nem outro podiam ou queriam correr este risco, imprevistos incompatíveis com a sua imagem. É médica e uns dias em Londres confundem-se com uma qualquer conferência sobre a sua especialidade. Hoje encontram-se todos para jantar num luxuoso restaurante perto do Museu Arpad/ Vieira da Silva, ali mesmo contíguo ao Jardim das Amoreiras. Eles são jovens, elegantes, o espaço agradável, cai a noite e o silêncio nos ombros, o ambiente é podre e ninguém é inocente.
Luís Galego

20 comments:

Miguel Barroso said...

Gostei, bastante


Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO

Violeta said...

a vida é um lugar estranho...
bjs

Helena Figueiredo said...

Casos banais, dissecados com mestria mas alguma frieza.

Daniel Silva (Sair das Palavras) said...

Não tanto a novidade, não tanto o conteúdo... mas a forma da tua escrita. Sempre cativante. :)

bonecadetrapos said...

"Embriagada por sofrimentos diversos, o amor, para ela, aconteceu, como carpiu o poeta, no tempo dos segredos."

Na verdade, o maior risco da vida é mesmo viver.

Saudações da
*__bonecadetrapos__*

pinguim said...

Uma denúncia, sem concessões, e eivada do tom normal e poderoso da tua escrita, da hipocrisia social/sexual de uma certa classe alta portuguesa; é ficção, mas muito real. Estupendo.
Abraço.

RedLightSpecial said...

Um pequeno apontamento onde "meia dúzia" de palavras descrevem em grande os tantos (podres) jardins secretos que meio mundo procura esconder e outro meio procura encontrar.

Beijos e bom fim-de-semana.

Anonymous said...

Gostei muito.
Queres ir comigo ...

Milena

Anonymous said...

Então ...

Maldonado said...

Gostei deste post, pois expõe uma realidade que não é de todo inverosímil na nossa sociedade de brandos costumes.
Não sei porquê, fico com a impressão que quanto maior for o poder económico dum casal, maior é a possibilidade de infidelidade... é o que vejo no meu dia-a-dia...

Olhos de Mel said...

Oie lindo, isso acontece, quando as mulheres esquecem o marido, para viverem seu lado profissional.
Gostei imensamente do post! Pura realidade.
Bom fim de semana! Beijos

BlueVelvet said...

Soberbo.
A realidade dura e crua.
Beijinhos Luis.

L.C. said...

Luís,

só posso dizer: um texto belo e excelente!

Parabéns!

Um abraço:

L.C.

Carla said...

a frieza das palavras na crúa realidade...excepcionalmente bem escrito!
bom fds

Je Vois la Vie en Vert said...

Gostei de te ler !

beijinhos verdinhos

Nocturna said...

Gostei do Texto.
Mas não vale a pena armarmo-nos em moralistas. A vida é mesmo assim. Que devemos fazer ao fim de alguns anos de casamento ? Arranjar um/uma amante é claro. Ninguém vai desfazer uma família apenas porque se fartou do parceiro/parceira, e se o hão-de fazer em encontros com estranhos o mais normal e menos perigoso, é fazê-lo entre amigos.
Achei graça e ri-me de alguns comentários(hipócritas?), acerca destes comportamentos.
Não foi assim que organizaram a sociedade ? Temos a obrigação de fazer qualquer coisa para ir-mos sendo felizes, nem que seja de tardes roubadas ao casamento.
Abençoadas horas extraordinárias !! Bom mesmo é tudo acabar à volta de uma mesa de almoço.
Um abraço nocturno e sem falsa moral.

Ana Paula said...

Pois. Acontece a vida ser um labirinto onde a flutuação de lugares por vezes confunde.

Bem escrito!

Bom fim-de-semana :)

pin gente said...

nunca tinha lido um "conto" teu. gostei muito, luís.

podemos esperar a continuação?
abraço
luísa

Tongzhi said...

Um retrato muito bem "pintado", que nos prende do princípio ao fim!!

© Piedade Araújo Sol said...

um conto "quase" quase ficção, quase relidade.

resumindo um conto muito bem escrito.

ando a ler isto aos poucos....

fica um beij