Monday, July 13, 2009

punição...

(Imagem retirada daqui)

Implacável e magnifica ela pôs menosprezo na chávena de porcelana/Pôs sarcasmo e orgulho na fatia de pão/ Pôs dor no galão/Com fel mexeu a chávena embaciada como quem dita uma sentença pesada/Bebeu café, leite e tormento /E pôs silencio e solidão à mesa/Sem o olhar sequer acendeu indiferente um cigarro/ Como uma actriz fatal dos anos vinte fez círculos com o fumo/ Sem pudor pôs as cinzas no chão /Sem lhe falar/Sem o olhar/Retocou os lábios amargos e perfumou-se com um aroma agreste/ Pôs o lenço à volta do pescoço/Vestiu o impermeável porque chovia a agonia/E saiu debaixo de água/ Sem uma palavra/ Sem o olhar/Tão só Fria

Ele desfeito deitou a cabeça na mesa/E minado deixou escorrer amargura, banhando-se pelo dia fora em descomunal tortura…
Luís Galego

16 comments:

pinguim said...

Ao ler este poema/texto, fui transportado, qual milagre a um qualquer cinema a assistir a um filme, que não existe, mas que poderia existir, tendo como protagonistas, por exemplo, Joan Crawford e Spencer Tracy, aí pelos finais dos anos 40 do século passado.
Abraço.

Avelaneira Florida said...

Imortal Marlene!!!!

E ela incorpora belissimamente o texto que aqui nos é deixado!

De repente apetece rever um filme a branco e preto...

"Brigados" por mais esta partilha.

Anonymous said...

Agora sim, muito bom!

Malu said...

Meu Caro,
Fico entontecida ao ler uma descrição tão magnânima das relações humanas que somente um ser extremamente sensível poderia fazê-lo.
Sinto a dor dele ao vê-la partir e, me pergunto: ela o puniu ou puniu-se?
Também fiquei tentada a assistir um filme monocromático, daqueles que precisamos ter às mãos um lenço branco para as lágrimas que, com certeza, cairão.
Abraço

AnaLee said...

Finalmente! Tinha saudades, se calhar mais do que as que a personagem do texto deixa para trás.
Excelente retrato...

RedLightSpecial said...

E pela primeira vez saio daqui a chorar...

isabel mendes ferreira said...

m.a.g.n.i.f.i.c.o.!!!!!!




beijo.

Paulo said...

muito bom, Luís!

Luís said...

Muito bom. Muito bom mesmo.

Anonymous said...

Bom dia Amigo!

Começa a ser um caso sério a forma como escreves. Já se torna um lugar comum falar da sensibilidade e da beleza dos teus texto/poema, mas no caso deste tenho mesmo que voltar a referi-lo. Tenho a plena convicção de que se os editasses em livro seria um sucesso e tenho esperança de que um dia isso aconteça.



Mas, falando do conteúdo do poema, este tocou-me particularmente, ao ponto de me deixar com lágrimas nos olhos. Fez-me entrar ainda mais na pele de alguém que me é muito querido e que viveu, ou vive ainda, um momento de angustia causado pelo fim de uma relação. Dói sempre o fim de alguma coisa que começa com amor e acaba em punição.



Beijinhos

Paula Zegre

maria said...

A descrição da natureza feminina no seu melhor. Só as mulheres podem ser implacáveis e capazes de punir aqueles que foram objecto do seu amor. Punem porque ainda amam e, claro, punem-se a elas próprias. Eles, os homens, desfazem-se no momento em que compreendem que deixaram de ter poder e o desejo, esse, volta em toda a sua pungência. Tarde demais.
A hora da punição sobrepõe-se a toda a vontade de perdão. O fel, o sarcasmo, o menosprezo, a frieza, o silêncio, ocupam o espaço do desejo e assumem a sua função em todo o seu esplendor.
Marlene, a imagem cinematográfica da mulher capaz de punir. Mas as lágrimas estão lá, no fundo dos olhos. Já começaram a cair…

estrangeiro said...

Há algo de intenso nos teus textos. Sinto o fígado tranformar coração...

estrangeiro said...

...dor e prazer, num só ato.

Thiago M. said...

Mais uma vez, um excelente texto.

Nota de rodapé:
Há quem durante muito tempo acredite que os seus sonhos contém também os sonhos da pessoa escolhida. Depois, percebe que a escolha amorosa recaiu na pessoa mais eficaz de exacerbar as fragilidades e os pontos críticos do seu sistema interior pessoal. E, mais ainda, de desferir o golpe que desfaz todo e qualquer sonho!

Mar Arável said...

Quando acontece o preto no branco

ou a preto e branco

tudo é possível

nada é inútil

Mel de Carvalho said...

Luís, Luís, impõe-se com a maior urgência o registo papel.

Nem vou dizer mais nada, meu amigo:
Estás a revelar a cada dia o poeta que te habita e que se adivinhava óbvio por detrás das crónicas.

Beijo da tua "sister" Mel