Monday, September 07, 2009

contra natura...


Angelina e Teresa Maria olharam-se de forma cúmplice a primeira vez que se viram, sentadas no Anfiteatro 2 da Universidade Católica, onde iam ter a aula teórica de Ciência Politica. Fizeram juntas a licenciatura em Direito e terminaram precisamente com a mesma média. Descobriram em simultâneo os encantos do Penal e as afrontas do Fiscal. Foi-lhes revelado ao mesmo tempo os indescritíveis enigmas da sexualidade. Uma com a outra, sexo entre iguais. A mesma paixão por Teofrasto, escritor natural da ilha de Lesbos. E graciosamente se acasalavam, de mãos dadas, ao entardecer, no principal oásis da capital, o Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, a cinco minutos do aconchegado T1 que compartilhavam em segredo na Rua Felipe da Mata. Eram felizes, cultas e chiques. E ambas juristas. A patrona não gostava daquela cumplicidade, daqueles estágios travestidos em esferas íntimas. A Patrona não era jovem, nem charmosa e muito menos feliz, meramente advogada mas casada e cabeça de cartaz da beatice vigente daquele escritório. Perante as perfídias decorrentes do insistente confronto de olhares censórios, Angelina e Teresa Maria tiveram de assumir as performances que se impunham, isto é, arranjar, companhia masculina, a qualquer preço. Mais tarde pensariam numa douta solução sem que esta as obrigasse a sair do armário. E, para tal, resolveram inscrever-se num daqueles congressos que no fundo só servem para que uns Senhores durmam com umas Senhoras. Acabaram numa conferência sobre Direito, Ética e Cidadania, durante três dias em Braga, num sumptuoso palácio barroco. Reparam em dois homens jovens, que rapidamente souberam tratar-se de ex-alunos da mesma Universidade, um de Teologia, agora responsável pelo Centro de Estudos Renascentistas da Faculdade de Filosofia daquela cidade, o outro, formado em Estudos Portugueses, admitido como Adido de Embaixada no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Terminam a noite, os quatro, embriagadíssimos, a comer prato de bacalhau à moda da casa e a beber pénaltis de tinto no Restaurante Bem-me-quer, discutindo os méritos da Elisabeth Schwarzkopf e da Teresa Stich-Randel como exímia mozartiana. Troca de contactos. Promessa de futuros encontros. Imensa efervescência. Angelina pesca Gustavo, Teresa Maria cola-se a Duarte. Unem-se no mesmo dia e na mesma igreja. Passam a lua-de-mel juntos, duas noites na Quinta das Lágrimas, o restante em Itália. De tarde vamos ver o Estádio Olímpico de Roma, anunciam os apessoados maridos. Magnífico. As mulheres cruzam instantaneamente os olhares, sairão para um curto passeio e voltarão rapidamente. Isto significaria que enquanto os machos se consagravam às baboseiras do futebol, as fêmeas dedicar-se-iam a outros jogos de corpo-a-corpo. Formidável. Voltam despercebidamente ao hotel. Quando entram num dos quartos, confrontam-se com os dois garbosos esposos, Gustavo e Duarte, nus, embrulhados um no outro, cabeça para um lado, pernas para outro, em agitação. Os robustos erguem-se sucumbidos nos lençóis arrancados à cama. Branco-esverdeados, enfrentam as mulheres com horror. Tentam eles explicar de forma amarfanhada, que não desejavam violentar o sacrossanto matrimónio. Não eram paneleiros, maricas, bichas, no máximo metrosexuais. Acabam por confessar que andam naquilo desde o pré-escolar no Charles Lepierre. Iguais a milhares de outros. O casamento resultara de submissão a preconceitos familiares e afins, da não paciência à sujeição de interrogatórios compulsivos. Uma situação ao estilo perspicaz dos contos breves de Fernanda Botelho, dos filmes de Almodôvar. Angelina e Teresa Maria são acometidas de um sentimento de êxtase! Arrepios de felicidade!

O golpe resultou, a vida sorriu-lhes e cada uma delas conheceu a maternidade. Têm vivido muito felizes e são absolutamente contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, totalmente agastadas com posições que defendem a adopção por homossexuais. Curioso, até os maridos subscrevem tratar-se de um processo contra-natura, um absurdo, um delírio inconstitucional que não se deve admitir. Que lata essa de existir a possibilidade de escolher em igualdade de circunstâncias com os outros cidadãos, desabafam…
Luís Galego

12 comments:

cirandeira said...

"...De repente, não mais que de repente, fez-se da vida uma aventura errante. De repente, não mais que de repente"...Ei-lo de volta! Seja bem vindo, Luís! "o bom filho à casa torna"! Sabes que sentí tua ausência! Apesar de raríssimas vezes ter recebido uma visitinha tua. Mas gosto muito de teus textos e sempre dou uma "sapeada" por aqui.
Teu texto pode ser ficcional,mas o
conteúdo é de uma realidade...Nua e crua! Até quando? "Chiclete eu
misturo com banana, e o meu samba vai ficar assim"...!
De repente(!) lembrei-me de Drummond, "Mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, mas não seria uma solução"...
É tudo uma questão de tempo e DOS TEMPOS!
Um grande abraço e uma boa semana!

Maldonado said...

É uma história bastante tocante, que nada tem de inverosímil, tendo em conta o país de brandos costumes em que vivemos. :|

pinguim said...

Neste conto tudo era mais ou menos previsível até ao final feliz; mas acabar assim com um "happy end" uma história sórdida, não se enquadrava nem na realidade portuguesa nem no teu tipo de ficção.
E daí o fim real, cruel, cínico e real, muito real mesmo, da história, que é uma imagem perfeita de certa categoria de pessoas na sociedade portuguesa actual.
Abraço.

AnaLee said...

:) publicas virtudes. Gostei de ler, provocou-me um sorriso, lembrei-me do Eça.
Ainda bem que o infinito terminou as férias!

Tongzhi said...

A "vida" está povoada de contos semelhantes a este. Mas será que o "cenário" final, na maioria das vezes, durará "ad aeternum"?

Mateso said...

"in statu quo res erant ante bellum"
in statu quo somos e estamos, in statu quo nos defendemos.
Adorei pela ironia, pelo ritmo, enfim por tudo.

Violeta said...

É um conto, bem sei; mas olha que tem um fundo de verdade...
bjs

Mar Arável said...

As verdadeiras verdades

servem-se frias

no calor da escrita

Vulcano Lover said...

Em Espanha dizemos "a vida aperta, mais não afoga" E sim, assim é que foi para eles. Infelizmente não todas as Angelinas nem todas as Maria Teresas, nem Gustavos nem Duartes, tiveram a mesma sorte que eles :-(

Gostei mesmo.

jorge vicente said...

públicas virtudes, dizem...

Thiago M. said...

A vida tem destas histórias. E a História também se faz com estas vidas. Só desejo que não haja uma depredação da interioridade e uma prostituição da intimidade que perfuram o ser humano como feridas violentas e que depois, convertendo-se em chagas, consomem os tecidos de todo o seu espírito.

Anonymous said...

Muito interessante este conto e certamente muito actual esta temática.
Parabéns mais uma vez pelo relato do real (ainda que ficcionado)
Lucy