Thursday, January 24, 2008

as benovolentes...

En fait, j'aurais tout aussi bien pu ne pas écrire. Après tout, ce n'est pas une obligation. Depuis la guerre, je suis resté un homme discret ; grâce à Dieu, je n'ai jamais eu besoin, comme certains de mes anciens collègues, d'écrire mes Mémoires à fin de justification, car je n'ai rien à justifier, ni dans un but lucratif, car je gagne assez bien ma vie comme ça. Je ne regrette rien : j'ai fait mon travail, voilà tout ; quant à mes histoires de famille, que je raconterai peut-être aussi, elles ne concernent que moi ; et pour le reste, vers la fin, j'ai sans doute forcé la limite, mais là je n'étais plus tout à fait moi-même, je vacillais, le monde entier basculait, je ne fus pas le seul à perdre la tête, reconnaissez-le. Malgré mes travers, et ils ont été nombreux, je suis resté de ceux qui pensent que les seules choses indispensables à la vie humaine sont l'air, le manger, le boire et l'excrétion, et la recherche de la vérité. Le reste est facultatif.
Excerto

As Benevolentes, andança de um ser arrastado pelo seu trajecto e pela História. Memórias de um ex-oficial nazi, alemão de origens francesas que participa em momentos nauseabundos da história mundial: a execução dos judeus, as contendas na frente de Estalinegrado, a organização dos campos de concentração, até ao desmoronamento da Alemanha. Uma confissão sem remorso das crueldades praticadas provoca uma reflexão acerca dos motivos que levam o homem a causar desgraça. Este romance vai pedir emprestado o título à mitologia grega – as Erínias, deusas perseguidoras, vingadoras e secretas, igualmente conhecidas por Eumênides ou Benevolentes. Temos como “paciente” o antigo oficial das SS, agora reformado da indústria têxtil, e deparamos com o seu périplo pelos cenários onde decorreu o mais sangrento conflito da História, a Segunda Guerra Mundial, e o Holocausto em particular. A minúcia de detalhes - desde os nomes de acidentes geográficos às patentes da hierarquia nazi -, e as passagens de contextualização denunciam a profundidade da investigação empreendida por Jonathan Littell. De ascendência polaca e judaica, natural de Nova Iorque mas com cidadania francesa e residência em Barcelona dedicou anos à investigação e meses à redacção desta obra que gerou um dos mais insignes personagens literários dos últimos tempos, Maximilien Aue.

Foi prenda de Natal. O caso literário do final do ano passado e inicio deste. E é simples perceber porquê. São as considerações de natureza subjectiva em tudo quanto tenha que ver com o modo como o oficial observa os contemporâneos e reflecte a Solução Final. A questão do grau de culpa do povo alemão tem contributos decisivos. Um entretenimento dos soldados era fotografar as execuções e mandar essas imagens à família. Não há um único personagem, das dezenas que povoam as páginas (pelo menos nas 400 e tal que já li) que não seja absolutamente abjecto e moralmente hediondo. Aue troca impressões com todos, do mais desapiedado ao mais requintado nazi, em conversas inteligentíssimas. As pausas metafísicas do oficial contrapõem as cenas potentíssimas, expressionistas na sua habilidade de avocação do pavor, da barbárie em que ele se associa e lhe provocam vómitos. Não por arrependimento, mas por escalavrarem a sua sensibilidade estética. Aue reclama que a crueldade intrínseca ao Homem não pode ser extirpada pela Cultura. E esta será a moral deste romance impressionante. Vou a meio das 900 páginas de mancha tipográfica compacta, praticamente sem parágrafos, quase sem respiração. Leio-o como um pesadelo. Infelizmente é um livro extraordinário pelo que vive nele de real. Mas respirar é urgente…

19 comments:

Outonodesconhecido said...

Luís vou fazer uma confissão:
Ontem fui comprar um livro que tenho que ler para a comunidade de leitores e estive com as Benovelentes na mão; pensei então "não vou esperar, o Luís Galego deve estar a comentar o livro no seu blogue". Eis que...
Bom fim de semana

avelaneiraflorida said...

Já que estamos em maré de confissões...

falei com amigos sobres este livro para saber opiniões. Divergiram!!!! Fiquei sem saber muito bem se o deveria comprar ou não. Agora, depois de ler este comentário...acho que vou ler, sim,mas não agora!!!!
Precisarei de estar mentalmente disponível para o fazer!!!!
"Brigados", caro Luís, por mais este post!!!

tufa tau said...

non, il ne regrette rien...

Blue Velvet said...

Pela sua descrição deve ser muito bom, mas ando a precisar muito de respirar, portanto fica adiado sine die.
Beijinhos e bom fim-de-semana

Jonice said...

Posso bem sentir o quão pesadelo é esta leitura. Respira muito, Luís!
C'est incroiable que l'on puisse ne rien regretter. C'est ça qui frappe le plus!

Beijinhos

Claudia Sousa Dias said...

Fiquei MESMO interessada!

pela história e pelo percurso de vida do Autor!

E ainda falam de revisionismo histórico. E ainda há vozes que se levantama a afirmar que o holocausto nunca existiu...


Já há a tradução em português?

CSD

Leonor said...

também tive esta oferta de Natal (a versão portuguesa), mas ainda não o comecei a ler, por motivos vários.

o assunto não deixa ninguém indiferente, mas o confronto desassombrado de alguém consigo mesmo e com todos os seus actos, numa época fulcral da história da Europa, cujas consequências ainda hoje se fazem sentir, é certamente um execelente motivo para lhe pegar.

como a sua crítica, que apreciei

C Valente said...

Boa leitura
Saudações amigas

Afrodite said...

J'aimerais bien le lire, mais 900 pages? C'est du boulot ça!

Bisous

teresamaremar said...

Goncourt... Academie... desconhecido... embora crescesse em França, não deixava de americano (parece que, entretanto, foi naturalizado francês, graças à notoriedade, quando antes recusaram conceder-lha)... e premiado. Já diz muito, não é?

Comecei a ler, parei, retomei, parei... fascinante, mas de força. Pede sossego, pede entretantos :) anda assim há mais de meio ano, embora por perto.
Já pensei terminar na tradução então aparecida. A pensar...


Boa semana.

Maria P. said...

Que excelente prenda de Natal.
Mas por agora também preciso de respirar...
Compra e leitura adiada...

Boa semana*

Marco Ferreira said...

Ainda estou na dúvida se será livro para mim, entenda-se se gostarei ou não.

Vou procurá-lo e depois logo se vê.

marinheiroaguadoce a navegar

isabel mendes ferreira said...

idiossincrático e dolorosamente assertivo da natureza humana...

li-o de um fòlego, agora ando reler. devagar.

para melhor saborear o tantíssimo e sábio abrir das almas.

um livro absolutamente marcante.


_____________
beijo Luis.

excelente análise.

Olhos de mel said...

Oie lindinho! Essa é uma página da história da humanidade, que gostaria de esquecer. É difícil entender o que passa na cabeça de pessoas, que têm coragem de fazer o que fizeram.
Que sua semana seja feliz!
Beijos

sofialisboa said...

não duvido que seja interessante...mas neste momento só me apetece ler palavras que celebrem a vida. sofialisboa

Andre Ventura said...

Tive a oportunidade de ler...apesar de ser um periodo que todos queremos esquecer, nao deixa de ser um livro entusiasmante e envolvente..

Boa sugestao.

abraco

Andre

Olhos de mel said...

Vim assinar o ponto e desejar um bom final de semana!
Beijos

Mar Arável said...

Tem razão Luís

respirar é urgente

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