Sunday, September 21, 2008

soltar o olhar...

Roland Barthes
Uma cidade que tem em finais de Setembro tardes de Agosto só pode fazer felizes os seus visitantes. Um domingo ameno em Lisboa, com o sol a expor-se no rio e uma bebida num terraço, eis-me caído do céu. Se junto ao terraço existe uma diversidade de escritores que também desenham então é ouro sobre azul. De George Sand a Bernard Heidsieck, do romantismo à poesia sonora, passando pelos surrealistas, até à "beat generation", representada, entre outros, por Jack Kerouac e William Burroughs... Para a execução da mostra patente em Belém, o Institut Mémoires de L´Édition Contemporaine encontrou no seu arquivo de manuscritos aqueles que contêm desenhos por entre os textos, mas também descobriu guaches, gravuras e colagens. Em Desenhos de Escritores são vistos desde pequenos esboços que cobrem o rodapé de um manuscrito, como no caso de Stendhal, até desenhos que cobrem páginas inteiras, como Victor Hugo, que criou imagens fantasmagóricas, ou Baudelaire, mais entregue à caricatura.

André Breton, Apollinaire, Antonin Artaud, Charles Cros, Christian Dotremont, Dino Buzzati, Guy de Maupassant, Günter Grass, Henri Michaux, Henry Miller, Jacques Audiberti, Jean Cocteau, Jacques Prévert, Jean Gent, Max Jacob, Marcel Proust, Michel Butor, Paul Valéry, René Char, Rimbaud como também os portugueses Almada Negreiros e Ana Hatherly, são ilustrados ou ilustram-se a si próprios exibindo uma linguagem artística menos conhecida.

Sempre considerei que um comentário a uma obra só é admissível como um capricho, e raras vezes me atrevi a fazê-lo. Tal como João Lobo Antunes, a propósito dos desenhos de Júlio Pomar para Guerra e Paz, também eu fujo do papel de critico de arte, da descodificação sociológica ou psicanalítica, das exegeses excêntricas que esticam pelos cabelos da inteligência; tento soltar o olhar, deixá-lo voar sem a inquietação de adicionar algo ao que observo. E foi com este espírito descomprometido que neste aprazível dia de domingo me perdi no Museu Colecção Berardo e me embeveci com os talentos ocultos de alguns dos maiores nomes da literatura contemporânea mundial…

23 comments:

geocrusoe said...

espero este outono descobrir efectivamente o que está exposto da Colecção Berardo, vi antes o que esteve no Diário de Notícias e fiquei a desejar por mais...

Leonor said...

também não saberia fazer uma análise (nem estou grandemente interessada, diga-se em abono da verdade), mas gostei bastante do que vi.
Alguns gostei ainda mais, mesmo possam não ser considerados artisticamente os melhores.

a única coisa que não deu mesmo para entender foi só venderem o catálogo em francês... não é que eu não leia, leio e comprei, mas enfim, fará sentido?

Boa semana

Maria P. said...

Soltar olhar e depois soltar as palavras,assim, perfeito.


Beijinho*

Jonice said...

O olhar solto é realmente muito melhor.

Sweet nice week, Luís :)

The White Scratcher said...

Ai Luis,,, gosto e ler a tua opinião sobre as coisas,,,, é o teu ponto de vista,,, e isso não faz de ti outro Delfim,,,, lololol

abraço

Violeta said...

Fiquei curiosa.
Lá irei!
obrigada

pinguim said...

Será desta que finalmente visito a colecção Berardo?
Uma tarde próxima, depois de um "almoço" pelos lados de Belém, a ida ao CCB e ao Museu da Electricidade ver a Callas, parece-me uma excelente "sobremesa"...
Abraço.

Ka said...

Já sei que é um lugar-comum dizer isto mas tu devias fazer, entre outras coisas, um guia de viagem.

Tu consegues pela tua descrição tornar as coisas aparentemente desinteressantes em apetecíveis.

Obrigada pela descrição :)

Olhos de mel said...

Oie lindo! Éssa é a memória de um povo. Através dela se conta uma história e em cada uma uma observação diferente, um novo encantamento.
Boa semana! Beijos

isabel mendes ferreira said...

lisboa no registo da arte. assim. a.setembradamente.


beijo.

Safira said...

Olá! Posso entrar?
A amiga Ka recomendou-me este 'infinito'...e em boa hora! Vim espreitar, só de fugida, com a promessa de voltar com mais tempo.
A colecção do Joe também está na mira, ouvi dizer que tem lá uns novos quadros de pintura figurativa.
Um beijinho

BlueVelvet said...

Luis,
só tu para conseguires aquecer o começo do Outono com uma tão bela tarde.
Beijinhos

Verdinha said...

O teu post é um convite à uma interessante visita e ainda por cima o catalogo é em francês !!!...

Beijinhos verdinhos

Sílvia said...

Também fui ver, logo que abriu ao público, até por questões geográficas...

Senti falta de informação sobre o ano de nascimento e morte (?) dos diversos escritores, ou seja, faltava essa informação nas placas identificativas de cada pedaço de memória perpetuada através dos desenhos, caricaturas, aguarelas...
É importante remeter cada autor para o seu período histórico, já que não conhecia todos. Mais trabalhoso, mas não menos importante, mas não sei se possível, seria ter um registo da obra literária paralelamente ao ano dos desenhos dos escritores. A comparação seria interessante.
Noite feliz.

Anonymous said...

A liberdade de se degustar a arte sem perguntar porquê, é a maior que o homem pode alcançar. A obra de arte, pela magia da estética, permite-nos experimentar um outro mundo – o mundo da presença absoluta, onde não existe nem o egoísmo nem o a vontade do eu.
Naquele momento o observador (ou leitor) é parte integrante do fluxo do Ser.

L.C.

Paula Crespo said...

Mais uma exposição a ver, certamente. Há que soltar o olhar para melhor ver o que temos diante de nós. A todos os níveis.
Bjs

sofialisboa said...

muda de musica, cansa... e escreve menos mas mais vezes ( não estou a pedir estou a sugerir)sofia

JustMe said...

Exposição...
Um bom motivo para deixar um comentário...
Irei revisitar por certo...

Obg... O resto do comentário envio por mail...

JustMe

Victor Oliveira Mateus said...

Informação útil... tão embrenhado ando em trabalho, que me é bem útil
vir aqui "beber" (boas) novas...
Um abraço, Luis.

pin gente said...

deste lado tudo são considerados comentários. o próprio blogger o diz "leave your ...".
caprichos!!!
as obras (certas) inspiram palavras... resultando por vezes em pequenas ou até grandes obras... assim nos vamos aproximando, crescendo, criando... sim, seguramente assim nos vamos caprichando!

um abraço
luísa

Carlos Ramos said...

Um trabalho de formiguinha, este seu blog. Vejo que temos muitas referências em comum, outras nem tanto. A colecção Berardo sim, finalmente algo de bom neste país.
Parabens por este espaço de grande clarividência.

Sincero abraço

isabel mendes ferreira said...

já deveria ter dito?



www.wdirum.blogspot.com


e um abraço!!!!!!!!

Ana Paula said...

Pois é! Tenho que ir até lá! Depois deste convite tão bem feito, fica uma redobrada vontade.

Obrigada, Luís! :)