Sunday, March 01, 2009

soneto da infidelidade...

"Roman Goddess Venus" (imagem retirada da net)

Éramos diferentes mas vagabundos e boémios na essência, unidos sem reservas, eu era o oposto de ti, mas completávamo-nos bem, compúnhamos uma fusão, um pacto humano, e isso é invulgar. Na nossa ligação, tudo o que faltava em ti, acrescentava-se em mim, em imperial oferta. Éramos amigos. Sem ti já não sabia andar só pelos caminhos. Mas seguramente sabias disso antes e depois. Éramos amigos e esta palavra tem um sentido, cuja responsabilidade só os homens entendem. Eras o único amigo, mais próximo que um irmão. Uma taça que eu erguia dia a dia, como um facho inextinguível. O brilho de um diamante. Um vinho forte. O fino licor da emoção. E tens que reconhecer a inteira responsabilidade que esse afecto abarca. Éramos amigos, não colegas, primos, sócios. Éramos amigos e não há nada que possa igualar uma amizade. Nem mesmo uma paixão devoradora pode oferecer tanto deleite como uma amizade forte e discreta. Porque se não fôssemos amigos não terias chorado, naquele final de tarde . E se não fôssemos amigos, eu não teria ido entontecido, esfarrapado com a alma a sangrar àquelas águas-furtadas na manhã seguinte, de que nunca me tinhas falado, onde guardavas o pérfido segredo, em silêncio inexplicável que apeçonhentou a nossa relação. E se não fosses meu amigo, não terias fugido, como um criminoso, mas terias ficado, ter-me-ias continuado a enganar e a trair, sem pudor. E se não fôssemos amigos, tu não terias voltado anos depois, caminhante exausto, pálido e triste, olhos frios como espadas, tal um delinquente trémulo que volta furtivamente ao lugar do crime. Tu mataste algo em mim, deixaste-me em destroços, a morrer aos poucos – como uma tarde em Setembro, e eu continuo a ser teu amigo. E hoje, eu estrangulo algo em ti, depois deixo-te voltar ao reservado reino onde te exilaste, ou ao abismo se preferires e continuas a ser meu amigo. A amizade é uma lei humana rigorosa. Na antiguidade era a lei mais duradoira, nela se alicerçavam os sistemas jurídicos. Disse Aristóteles que os bons legisladores mais cuidaram da amizade que da justiça. Era mais poderosa que a paixão que persegue os homens e as mulheres. Era essa amizade que existia entre nós, e tu sabias isso. E naquele momento em que soluçaste convulsivamente à minha frente, sem nada dizer, essa amizade talvez fosse mais intensa que em qualquer altura, durante todos os anos da nossa vida. Que ideia perversa e insuportável que tu, o melhor amigo, me tivesses atraiçoado. A Isabel embrulhava-se ansiosa na leitura. No dia anterior tu e ela falam demoradamente; via-os pela porta envidraçada, perguntas-lhe o título dos estranhos livros a que se entrega, interroga-la sobre o efeito que Mrs. Dalloway exerceu sobre ela, queres saber como é a vida de Lady Chatterley, o que sentia Madame Bovary e como amava Ana Karenine, auscultas sobre o mais íntimo de Luísa, de o Primo Basílio e elogias a abordagem contra-corrente de Eça ao adultério e até lhe pedes que te leia o Soneto da Infidelidade, de Luís Filipe Castro Mendes. Como que embriagado percorres vários romances, russos, portugueses, ingleses e franceses, afagas docemente cada obra como um cristal. Comportas-te como se desmaiasses de prazer à luz das novelas sobre mulheres apaixonadas que gritam por amor, tu, engenheiro aeronáutico, que sempre desprezaste as palavras escritas dos poetas e dos escritores – e eu venho a saber mais tarde que foste tu que os ofereceste à minha mulher. Excluem-me da conversa, porque não faço a mínima ideia sobre a ciência do amor. E muito menos acerca do Allain Robbe-Grillet, autor de O Ciúme. Mais tarde, já depois de saber que me traíram nessa e noutras noites, recordo com amargura as cenas, ouço as palavras que foram ditas e descubro com verdadeira estupefacção e imensa mágoa como interpretaram um papel de modo tão irrepreensível. Pensava que conhecia os dias e as noites da Isabel, o seu corpo e a sua alma como a mim próprio. Uma hipótese tão despropositada que tu e ela…só podia ser um equívoco. A Isabel não me mente e não me é infiel, conheço todos os seus pensamentos, mesmo os mais íntimos e ardentes, aqueles que só vagueiam durante o sono, sinto o seu coração junto do meu, como uma lagoa calma, o seu corpo frágil de âmbar loiro, em excitante contraste com o meu rude e bruto, carregado de desejos. A nossa relação baseia-se numa confiança absoluta. E o diário secreto está sempre ali, o livro do nosso amor, só de nós os dois, o seu blogue anónimo, do qual eu tenho a password. Esse diário é a prova de confiança que pode existir entre um homem e uma mulher que se amam, páginas de mais ninguém, eco dos seus passos. Se na vida da Isabel houvesse algum segredo de consciência, o blogue já o tinha revelado. O mundo pertence-me, encontrei a minha alma gémea, leio de cor os seus olhos de violetas, vivo uma paixão fervente e louca, falo baixo, juntinho ao seu ouvido, abandono-me nos seus braços divinos de fêmea, uma serpente que me enlaça as mãos na sua pele, gemem as nossas vozes confundidas, beijos sôfregos de amante, recebo todas as mensagens do seu corpo, sinto-me águia na subida e a vida apresenta-se perante mim em todo o seu esplendor. Trato por tu a mais longínqua estrela, numa excessiva alegria de viver. Agora olho para trás, e sinto repugnância dessa segurança, felicidade e inocência, desse arrebatado vendaval de viver, dessas magnificas noites voluptuosas. E depois chega aquele entardecer e eu sinto-me como se tivesse sido atingido a tiro. O mundo desmoronou-se à minha volta, perco a minha honra. O despeito causa um sofrimento atroz, angústia funda. Há algo mais cruel que a morte …quando o homem por um absurdo perde o amor-próprio. Recostado na poltrona, entre cálices de absinto, ouvindo canções tristes, fecho as pálpebras roxas, quase pretas, como quem vai adormecer num jardim de dor para todo o sempre. Uma pessoa envelhece assim, em tranches, pesadas prestações. A seguir, de repente, começa a embranquecer a alma. Sinto-me um indivíduo que afinal não teve Primavera, um lago esquecido. E cai a escuridão muda e tormentosa, caiem as noites e com elas lágrimas de sangue em violenta agonia. Enquanto o mundo dorme instala-se o De Profundis magoado da saudade. Só vi a Isabel meses depois e só a voltei a ver quando morta; entendeu ficar doente e falecer num quarto deserto, quem sabe, de amor.

A sala estremece à volta deles. Ainda não amanhece, mas através das janelas antigas, semiabertas, sentem a chuva, as gotas grossas, o ar desgrenhado de uma clara madrugada de final de Outono, uma estranha sinfonia que só o musgo dos muros parece entender. Em frente ao parque solitário, sobre o empedrado ouve-se o táxi chegar. Náufragos da vida, olhares marejados, separam-se em silêncio com um abraço inquieto…
Luís Galego

25 comments:

Daniel Silva said...

De Profundis, podia chamar-se este teu texto. Belíssimo.

Abraço

bonecadetrapos said...

E aqui fico, sem palavras.
Tudo dito. Da e na amizade os actos que falam mais alto.

Excelente. A reler.

Saudações
*___bonecadetrapos__*

lusibero said...

Luis
Coisa linda!
Um destes dias ,se me permite, mandar-lhe-ei um poema meu...Não são "peneiras",creia-me!
Sinto na sua pessoa uma alma sensível...Defeitos de interpretação? Fala-lhe uma PROF. de PORTUGUÊS...

Tchi said...

Notas de Amor.

Maria said...

Belíssimo, Luís.
Fiquei sem palavras...

Maria P. said...

Já tinha saudades de passar por aqui...

Violeta said...

luís fiquei extasiada com o teu texto. está divinal, carregado de sentimentos e de uma escrita maravilhosa. parabéns pelo dom da escrita. È cativante.

Paula Crespo said...

Belo texto: da amizade e da paixão ou, mais propriamente, dos passos.

pinguim said...

Luís
tu tens a ímpar qualidade de me conseguires AINDA surpreender; há já largo tempo que te leio e tenho ficado arrebatado com coisas lindas que vais escrevendo; ainda o último post que escreveste me deixou extasiado, a ponto de pensar que tão cedo não leria algo tão belo, de ti e agora apareces-me com esta obra-prima!
Um enorme abraço de muita amizade e não menor admiração.


Estive a falar com a L. e ela perguntou quando íamos almoçar os três, para relançar as "alegres comadres"...

BlueVelvet said...

Luís,
seguramente um dos textos mais fantásticos que já li teus.
Tenho a certeza que ainda vêm aí mais.
...Uma pessoa envelhece assim, em tranches, pesadas prestações. A seguir, de repente, começa a embranquecer a alma...
Lindo demais.
Beijinhos

JotaSP said...

Como é bom passar por aqui_________________

Um abraço »

O Teórico said...

Maravilha de texto, parabéns!

Socrates daSilva said...

Sem palavras...

Este texto tem tudo.

Abraço!

Olhos de mel said...

Oie lindo, belíssimo e profundo! Bem escrito que os olhos não conseguem se desviar da leitura. Amei!
Beijos

Dona Fernanda said...

uau, é tudo que fosse expressar, um suspiro de adimiração, ótima narrativa.

Mar Arável said...

Assim como quem fala

as palavras fluem

substantivas

num belo concerto de sons

Soberbo meu amigo

www.giramundo-pernalonga.blogspot.com said...

E pensar que já lá vão tantas Taprobanas...! O mito subjacente à realidade há quantos milênios? Uma imagem que também subjaz o texto!?
Anjos e demônios a se debaterem numa luta infernal ao se confrontarem com realidade, levando-os às profundezas da alma! "É o que é, diz o Amor", parafraseando Erich Fried em seu poema.Seria "O Inferno", de Dante?
No amor tudo é possível e tudo é impossível, também, porque somos humanos... Um abraço

Anonymous said...

Luís

Bastava "...Éramos amigos e não há nada que possa igualar uma amizade. Nem mesmo uma paixão devoradora pode oferecer tanto deleite como uma amizade forte e discreta." para eu ficar maravilhada! O que dizer do resto...
Com a minha amizade
Gena

Luis Bento said...

Uma pessoa rejuvenesce... assim... a lê-lo!

Homossexual e Pai said...

lindo lindo, escreves muito bem!

Street Cat said...

Li alguns posts e gostei. Gostei muito do q li intenso demais para comentar especificamente.

Bom fim de semana.

Nelson Ngungu Rossano said...

Que belo texto nos apresenta!!!

Nelson Ngungu Rossano said...

Que belo texto nos apresenta!!!

calamity said...

Como se o triângulo passasse de equilátero a isósceles...

duas visões me assaltaram com o texto:

um estrofe do poema do M. Alegre

«chovesse de repente em pleno Agosto...»

e



o fim das cartas e dos diários. Saudades do papel.

Cleopatra said...

Já leu "As velas ardem até ao fim"?