Sunday, April 26, 2009

talvez por ser tão breve o meu querer...

Rabindra Singh, 'Raining in My Heart (Longing)', 2003.
O amor não deve ser servido como dobrada à moda do Porto, fria e em tascas descaracterizadas. Mas talvez seja verdade que as pessoas por quem é mais fácil arrebatamo-nos são aquelas sobre as quais quase nada sabemos, nem mesmo os seus gostos literários ou os filmes da sua vida. Os melhores romances são as histórias de amor que construímos na solidão da nossa existência ou que contamos a nós próprios numa longa viagem de avião, contemplando uma pessoa atraente que olha pela janela; sentirmos que podemos morrer de amor por aquele alguém, viajarmos pela paisagem do seu corpo, fantasiarmos o beijo mais extenso e mais belo que a humanidade jamais conheceu. Devaneio, no entanto, embargado logo que o ser amado solicita um gin ao comissário de bordo e enceta com ele uma demorada e enfadonha conversa sobre o novo perfume de Jean Paul Gaultier.
Luís Galego

22 comments:

isabel victor said...

"Os melhores romances são as histórias de amor que construímos na solidão da nossa existência ou que contamos a nós próprios numa longa viagem de avião, contemplando uma pessoa atraente que olha pela janela; sentirmos que podemos morrer de amor por aquele alguém, viajarmos pela paisagem do seu corpo, fantasiarmos o beijo mais extenso e mais belo que a humanidade jamais conheceu."



_________________ Gostei. Infinito pessoal :))





iv*

Maldonado said...

O amor surge impetuosamente nos pequenos gestos do quotidiano sem que o consigamos travar... :)

Daniel Silva (Lobinho) said...

"Os melhores romances são as histórias de amor que construímos na solidão da nossa existência"

Sim, porque é na solidão que se forja o Ser.

Abraço

cirandeira said...

Será que o amor é como a felicidade? Apenas uma fantasia,ou
será que o amor é um sentimento?Será que o amor pode ser construído no dia-a-dia,caindo e levantando para cair novamente,como a própria vida?Será que amar se aprende amando,brigando,desiludindo-se para amanhã ter um novo sonho de estar enamorado?Não sei se existe amor solitário,unilateral...através de espelhos?Virtual,talvez...quem sabe?
São questionamentos que me coloco ao ler o teu texto...

Thiago M. said...

Certíssimo!
Gostei de ler.

RedLightSpecial said...

E o que vale é que ainda há quem sirva tripas à moda do Porto bem quentinhas e numa casa tripeira bem característica e quem não aprecie o tal do perfume de Jean Paul Gaultier e muito menos se demoraria a desbravar o assunto com um desconhecido qualquer.
E... um beijo para ti!

Jonice said...

E entre devaneios e realidade o amor costura suas linhas.

Beijo, Luís :)

Paulo said...

de facto, quando o mistério se torna desilusão, termina o encanto e o desconhecido torna-se frio e banal. e o banal não tem interesse nenhum, é como se o arrebatamento desaparecesse com a mesma intensidade com que surgiu, mas com o senão de estar cheio de desencanto. apesar das boas excepções, nem sempre "o ser amado" nos surpreende positivamente.

outros amores surgirão. e outras desilusões.


abraço

Isabel said...

pessoalíssimo o amor. assim.

extenso como mancha. que não sai. nunca.



beijos.


rendidos ao dizer-



.


piano.

Graduated Fool said...

Com longa ou curtíssima duração, o amor e seus devaneios podem ocorrer a qualquer momento.

Gostei muito de ler este texto.

Violeta said...

"Os melhores romances são as histórias de amor que construímos na solidão da nossa existência ou que contamos a nós próprios numa longa viagem de avião..."
e com esta acabaste comigo!
bjs e bom domingo

Je Vois la Vie en Vert said...

O amor é um mistério !

Porquê o encontrei aqui em Portugal ?

Porquê foi naquele dia de férias ?

Porquê, se não andava a procura de nada ?

Porquê continua forte que nem rocha ?

Porquê, porquê, porquê ? Não preciso de saber porquê, preciso de saber que existe !

Beijinhos da

Verdinha

firmina12 said...

olá, vim matar a sede

lusibero said...

Meu caro amigo:é verdade que ,por vezes, saímos desiludidos e amargurados, das ilusões (passe a repetição!) que, à primeira impressão , afinal, nos concedêramos...Há pessoas que estragam tudo quando abrem a boca...O Amor "acontece"...Acomodação?Nunca!
Um abraço

firmina12 said...

ah, goste que goste e nem imagina quem foi o meu Pai

Anonymous said...

Engraçado...uma pessoa que escreve com um sentido, aparente real da vida, como o infinito pessoal, deve ser exímio nas relações. Engraçado, julgar sempre o que os outros, ou talvez, o (seu) infinito pensa ser a real verdade. O que para mim é real pode não o ser para mim. Pode até acontecer que eu passe a acreditar no nada, só porque alguém me disse que afinal essa nada era já alguma coisa...não vejo mal algum em falar de perfumes, não vejo mal algum em não saber os filmes ou romances da sua vida...isso vai-se descobrindo, penso eu. Não vejo mal algum em fazer do outro uma representação, pois no enamoramento, muitos dos momentos, não representações que construímos um do outro. Diria que há seres, no seu infinito, que precisam de construir histórias de amor, os "melhores romances", na sua solidão. Todavia essas histórias muitas vezes são à custa de alguém. Há quem gostes de atrair, de conquistar, mas quando alguém disponibiliza o seu infinito, a atemporalidade torna-se nota imperativa! Quanto ao gostar, desejar...acontece e não se escolhe. Não interessa se se conhece ou se é um perfeito desconhecido. Quanto aos livros ou filmes, o tempo é partilha e dessa partilha nasce um equilíbrio de gosto, descobertas até ai impensáveis...conhecer o ser logo a priori, seria, diria eu: uma grande chatice. Mas sou eu, como sempre, romântica.

Anonymous said...

O Amor é a Magia de acreditarmos que ele existe...

(F)

Janaina said...

Talvez esse arrebatamento venha das idéias mais românticas que podemos ter. Afinal, o amor idealizado está sempre à espreita.

Desconhecer aspirações, gostos literários ou cicatrizes da alma, trás consigo a inviabilidade das frustrações.

Sua leitora carioca,
Nina.

Lucubrina said...

ehehehe
PERFEITO!!!!

Todo o texto, como todos, excelente mas adorei a parte "o ser amado solicita um gin ao comissário de bordo".

Onde é que eu já vi isto???

ehehehehe

Luis Bento said...

O amor é uma viagem num espaço infinito e pessoal... pelas margens do corpo ao redor de um cliché estafado. O seu espaço é uma reinvenção diária de uma escrita de sentido plural e de sentimento puro. Sem clichés...

maristela said...

Então, volto aqui, depois de tempo passado, e fico melancólica de saudade (redundante, não?) de épocas de amores de alta aposta que se desmanchavam assim como dizes, numa conversa banal.

Anonymous said...

O primeiro comentário anónimo parece vindo de alguém incapaz de apreciar os sentimentos e pensamentos do autor... A raiva, a incapacidade de aceitar a solidão, sim porque é extremamente dependente em termos afectivos, faz com que continue a afastar de si aqueles que sempre a tentaram ajudar.

S. ajude-se a si própria.

Luís continue a presentear-nos com histórias tão belas, que têm tanto de real como de imaginário.

Beijo

J.