Sunday, January 06, 2008

morte de um vagabundo militante …



O Luiz Pacheco é provavelmente o maior filho da puta, a pessoa mais corrosiva, mais intratável que há, mas eu gosto dele. Não sei porque mas gosto dele. O Luiz tem a capacidade de dizer o que pensa, de dizer mesmo tudo o que pensa, mesmo o que não poderia dizer (...)
In amnésia

A morte de Luiz Pacheco constitui um dano irreparável. Um sujeito que faz da mendicância um estilo de vida é único e irrepetível. O escritor maldito fez da crítica o modo de se encontrar na literatura. Não voltará a existir outro. O seu propósito literário foi indissociável da sua vida, razão por que é difícil perceber um sem que se alcance a outra. Um temperamento extravagante, que sempre que desobstruía a língua nunca se sabia o que ia expressar, mas sem dúvida um ser ímpar. Acabou por fundar a Contraponto, onde divulgou Raul Leal, Mário Cesariny, Natália Correia, António Maria Lisboa, Herberto Hélder, Vergílio Ferreira e José Cardoso Pires, entre outros.

Ganhando reputação como crítico irreverente denunciava a desonestidade intelectual e a censura imposta pelo Estado Novo. Com uma vida atribulada, sem meios de subsistência chegou a viver situações de miséria que ia superando à custa de esmolas, alojando-se em quartos arrendados e abrigos. Foi nesse tempo complicado da sua vida que se terá inspirado para escrever Comunidade, que muitos consideram ser a sua obra-prima. Tradição satírica descobrimos em muitas literaturas desde as cantigas de escárnio, mas Luiz Pacheco é distinto, a sua veia impertinente e canalha não se acomoda com nenhuma consanguinidade. O desapego e a audácia com que falava daquilo que em nós é mais íntimo, sem a caraça da personagem é digno de realce. Etiquetas como libertino ou abjeccionista escoltaram-no ao longo da sua prolífica carreira literária, mas nunca pareceu afligir-se com isso. Controverso, mordaz e directo, fez de uma vida de excessos e carências a expressão máxima da sua liberdade e a matéria-prima da sua escrita. Foi alcoólico, teve relações de circunstância com parceiros de ambos os sexos, perdeu de vista vários dos seus oito filhos, chegou a ser preso por se envolver com menores e viveu com dificuldades, fruto da sua condição quase enraizada de desempregado.

Mas Pacheco labutou, e muito. Além dos livros – uma parte significativa dos quais só se conseguem descobrir em alfarrabistas – existe um imenso número de textos dispersos que andam por aí, em bibliotecas e nos jornais. Alto, esguio e escanzelado, calvo, usando óculos com lentes grossas, vestindo roupas andrajosas e abaixo do seu tamanho, hipersensível ao álcool, hipocondríaco sempre de mão dada com a morte, descarado reincidente, é sem dúvida, um ardiloso personagem literário…

11 comments:

CresceNet said...

Gostei muito desse post e seu blog é muito interessante, vou passar por aqui sempre =) Depois dá uma passada lá no meu site, que é sobre o CresceNet, espero que goste. O endereço dele é http://www.provedorcrescenet.com . Um abraço.

Maria said...

Escreveste o retrato perfeito do Luiz Pacheco. Não completo, porque um retrato completo dele não caberia nem num post muito grande, mas os traços essenciais do Luiz Pacheco.
Obrigada.

Mel de Carvalho said...

Como sempre, um post sem que seja possível dizer "não gosto". Gosto sim.

Luis, vim em dia de reis, cantar as janeiras ao Infinito e dizer-te que, infinitamente te desejo a ti e aso teus um execelente 2008.

Beijo meu "brother"
Mel

avelaneiraflorida said...

Caro Luis,
soube há pouco por mail desta perda!

Quando aqui cheguei encontro esta homenagem!!!!
"Brigados" por este post!
É sempre um prazer vir aqui!

take.it.isa said...

subscrevo a maria.

no take.it.isa podes ver um vídeo sobre a tradução do "dicionário filosófico de Voltaire". uma pérola!

espelhodesombras said...

Olá Luis, este é o retrato acabado d'alguns sujeitos interessants que conheci, e que descreves supimpamente.
Um Bom Ano Novo.
João costa Filho

Paula Crespo said...

Chovem os posts sobre Luiz Pacheco. Sinceramente, não o conhecia. Reconheço, pelo que agora leio dele, que terá sido uma alma diferente e arrojada. Reconheço, então, que se lhe deva tirar o chapéu, por essa diferença. Interrogo-me, no entanto, quantas pessoas gostariam de ter como amigo próximo uma figura destas... Sinceramente.

Olhos de mel said...

Um belo post! Embora não possa comentar sobre a pessoa em questão, por não conhecer.
Que sua semana seja de realizações!
Beijos

teresamaremar said...

Sem dúvida uma personalidade que em ficção daria uma personagem fascinante, porque múltipla e labiríntica.

Um bom novo ano.

pin gente said...

a vida, no fio da navalha...

cadeiradopoder said...

Um escritor que se alimentava das palavras, no sentido literal do termo...