
- Olá. Cavaleiro de velhas lendas. Saboreie este vinho divino. Não existe nada melhor como um bom vinho, uma espécie de perfume da paixão. A vida ilumina-se de outra maneira. A partir de um copo de vinho, tudo pode acontecer. Repare que nunca nos tínhamos encontrado, mas já estamos agradecendo a Baco. Galgamos a noite como quem escreve um poema, não com uma garrafa de espumante vulgar mas com o tilintar de dois corpos que precisam de amor…Não acredita que o amor é a poesia dos sentidos?
As palavras à volta do amor fascinam-me, mas é melhor deixar a conversa dos afectos para depois. Há muito tempo que o meu axioma é de que as pequenas coisas são infinitamente as mais importantes. Procuro preencher o vazio da minha individualidade, das minhas noites sem sono, das minhas histórias mal cicatrizadas e por um breve momento desfruto a ilusão de estar completa mas não posso transformar-me numa criatura insignificante e evanescente, com instinto de besta, que existe sofrendo à mercê de qualquer vento procedente do desconhecido.
Embora me sinta como uma harpa que envelhece, entre paredes demasiado cinzentas, não quero que um indivíduo
fast-food que nunca vi pense que sou gata em telhado de zinco quente à procura de companhia nocturna. A castidade cria mofo mas ninguém é mais solitário do que aquele que recorre a um prestador de serviços sexuais, no fundo, é como beber, num bar sem ninguém, um vinho turvo que deixa um gosto amargo na boca. Adiante.
- Olá. Possidónio. Fiquei curiosa com o seu nome. É o nome de um escritor português, homem mais ou menos da minha idade, Eborense. Escreveu “O Nylon da Minha Aldeia” uma história passada no Alentejo; uma história de amor que conta “o encontro improvável entre duas personagens”, mas você certamente não conhece o Possidónio Cachapa. Deve estar há pouco tempo em Portugal. O que o fez escolher esse
nick name? Tenho algumas dúvidas que seja o seu nome verdadeiro. Não se preocupe, não sou Inspectora dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras. Sei que isto é uma estupidez, uma invasão à sua privacidade. Mas achei que seria uma maneira de nos apresentarmos. Porquê Possidónio? Embora me pareça uma mascara anónima do seu rosto, foi o que me atraiu no
site. Acredite. E também a "intimidade à medida". Esses posts na internet, às vezes lascivos, são muito humorísticos. Recordo-me de um que dizia "sexo com poesia". Não faço ideia o que seria. Mas o seu
post/anúncio despertou algo em mim. Um Possidónio com intimidade à medida. Mas fique à vontade, por favor. Viaje-me através de si.
Nem pensar, não vou por aí. O homem é um animal estranho, que como dizia o basco Pio Baroja, pode ser um semi-anjo ou semi-besta. Mas nada como tentar, ainda que fracasse. Não importa. Há quem adquira o mau hábito (ou o vicio execrando) de ser infeliz, não pode ser essa a minha atitude. Ensaiei vestidos e comprei o melhor vinho. Se fracassar tento outra vez. Se fracassar de novo, fracassarei melhor. Quando se está na merda até ao pescoço, quando a solidão parece infinita, descemos da nossa torre de orgulho e a única coisa que nos resta é arriscar.
Enquanto o mundo dorme uma noite fria de Inverno, abro assustada a porta de um quarto frio e barato de uma Residencial desconhecida a um prostituto. Às vezes penso que na declaração dos direitos humanos se esqueceram de me incluir. Sou uma mulher angustiada, oncologista de profissão, tão frágil e humana como qualquer outra mulher. Como clínica acabei por interiorizar que a vida é um hospital onde cada doente está possuído pelo desejo de sair da instituição, porque não acredita na terapêutica. Embora tenha passado a maior parte da minha existência na berma, no limite, como um cão sem dono, ainda sonho com um relacionamento com substância, ainda acredito que o amor é mais que um sentimento, é uma arte e que pode começar – quem sabe? - num encontro com aquelas características. Não precisa de ser encarado como uma experiência humilhante, tão só um romântico apelo. Mas ele precisa ter consciência que isto não é um engate, um programa leviano e trivial, no máximo um convite, um arrepiozinho sem glória. Que eu não sou apenas mais uma fêmea atormentada, nem ele o Richard Gere, de
American Gigolo. Que fazer amor não é como fazer croché, a despachar, o tempo suficiente para fumar um cigarro: é algo muito íntimo. Que podemos terminar a noite abraçados, espalhando beijos embriagados pelos lençóis.
- Possidónio (nome que me provoca uma sede estranha), os escritores salvaram-me sempre da tristeza, das horas silenciosas, quando deambula a melancolia os livros são os meus fantásticos castelos e gosto de ler pela noite fora porque me esqueço de mim. Quando tinha cerca de quinze anos li
O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, um romance belo e terno que reflecte uma visão ingénua e lírica da vida. Catalogado como fantasia obscena por uma sociedade envergonhada e preconceituosa, é uma obra que reflecte a necessidade da fusão física e espiritual entre aqueles que estão intimamente ligados. Talvez seja isso que eu procure, um
Prince Charmant. Acredita que estes momentos que vamos viver podem inaugurar algo semelhante?
- Não tenho dúvidas, Teresa. Será uma aventura, mas estou completamente convencido que sim. A única obrigação que temos é a de amar!
Desfeitas as dúvidas ao toque da pele, o seu rosto reanima-me o espírito, dá-me a mão e nada mais me faz falta. Ali sós no mundo, sós. Aproximo-me para sentir que sou bem acolhida. Mais do que beijar os seus lábios de veludo, mais do que estarmos deitados juntos, mais do que nenhuma outra coisa, ele abraça-me e isso é amor. Prende-me toda. Aninha-me a sorrir junto ao seu peito e a noite cresce apaixonadamente. Todo o mal e amargura pode ser consolado com amor, diz-me. O acaso trouxe-me o príncipe do conto: “era uma vez…”, um amante feito poema e a poesia é o género da sinceridade última e irreversível. Ele desmente a máxima de Joseph Conrad de que vivemos como sonhamos, sozinhos. Não deixa de ser desconcertante ver como uma conversa breve
on-line feita na maior das solidões se pode transformar numa experiência partilhada, com duas pessoas que convergem num mesmo ponto.
E com as bocas unidas brindamos ao nosso novo amor.
Não, a história da minha vida já tem o número de páginas suficientes para me ensinar que o mais recomendável é não esperar nada de ninguém, que tudo é efémero e oco. Obviamente que não vou encontrar um artista, um filósofo, um escritor, alguém inteligente e culto, um homem mentalmente excitante. Um Infante. Alguém que respire cultura clássica e me recite sonetos de Verlaine.
Nervosa digo baixinho:
- Possidónio? Não sou propriamente uma carmelita descalça mas o que é certo é que nunca me vi numa situação assim, nem sei como me atrevi a um contacto desta natureza, morro de aflição só de pensar...
Meu Deus. Alguém bate. Aperta-se-me o coração. O medo é algo extraordinário. Chegaste, enfim, perfil desfeito!
Um breve silêncio tropeçou na minha voz, um fio quase a partir-se – Boa Noite, Possidónio. Entre. A internet é uma coisa surpreendente. Como ela se apodera das vidas privadas e as transporta...
Setecentos quilos de músculos interrompem-me e atropelam-me as emoções, olham-me como uma mera unidade, uma gota de água num grande copo e as minhas palavras caiem no vazio. - Oi, Garota. Vamo-nos despachar que eu não tenho muito tempo, tenho que estar em Campo de Ourique daqui a noventa minutos. Uma actriz francesa que chegou ontem a Portugal marcou encontro. Oh, Teresa, seu nome, não é mesmo? Que quarto legal!!! E eis-me cruamente transportada para a realidade, sem ter sequer de mexer um dedo, fazendo sexo com alguém cujo olhar não me deslumbrou. E amanhã é dia de Natal.
Luís Galego