Wednesday, March 31, 2010

um enigma chamado beleza...

Ó beleza! Onde está a tua verdade?
William Shakespeare

Não existe unanimidade à volta do conceito de beleza. O belo é um conceito movediço, sem definição coerente, é como desembarcar numa ilha misteriosa, uma arma de dois gumes. Sábios doutores da estética dizem-nos que a beleza é como o amor, não se pode definir, um espectáculo sem rede alguma. Se há quem nomeie a beleza física como imprescindível, para outros o belo espiritual prevalece. O que para uns representa beleza, para outros é um casarão vazio e condenado. O povo diz, “Quem feio ama, bonito lhe parece”, John Donne contrapõe que o amor construído sobre a beleza morre com a beleza, ternura rápida, e Confúcio atalha que ainda não viu ninguém que ame a virtude tanto quanto ama a beleza do corpo. Aristóteles conluie que a beleza é dom de Deus. Platão ensina-nos que o belo coincide com o bem e que a beleza tem algo mais que as outras formas inteligíveis: é a única que pode ser vista pelos olhos físicos, além de o ser pelos olhos da alma.

Um enfeitiçado pela beleza, como S. Agostinho, soube interpretar o belo com sublimes expressões: «Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei!»”. Mas uma das mais atraentes definições pertence a S. Tomás de Aquino, que a descreve como “aquilo que provoca um conhecimento gozoso”, a emoção que nos é provocada pelo estético.

Conceito que pesa séculos sobre as costas e as pressões sociais ditam regras e restrições, em todas as idades e classes sociais. Nos programas para a infância, o mau é retratado como um indivíduo vil e feio, um marinheiro num barco naufragado, enquanto que o herói é jovem, atraente, de brilho intenso em eterna aventura, equívocos para camuflar o coração. Esta percepção de beleza é-nos incutida desde o berço. Modelos, fotografias ou espécies de magazines prescrevem doces venenos, padrões que são interiorizados ao longo de uma vida e que propõem enganar a rotina dos caminhos sem lua. Para se atingirem certos parâmetros, há quem recorra a métodos artificiais, barbitúricos piedosos, que vão proporcionar a beleza, a jóia valiosa mais pretendida, e, por consequência, provocar um sentimento avassalador de auto-confiança, a sensação de possuir a imortalidade a cada instante – contra o velho corvo que é o tempo – enchendo-se de estrelas como um manto real e assim roer a solidão.

“As feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”, diz Vinícius de Moraes numa época em que a magreza não era deslumbrante e as raparigas não se violentavam para alcançar um corpo andrógino. Mas não será a beleza tudo aquilo que nos agrada, esmaga, comove, faz estremecer? Uma mulher com quem beber e morrer, uma personagem de Pirandello, as palavras escritas de Yourcenar, as imagens e a Sinfonia de Mahler em Morte em Veneza, as vozes de Jessye Norman e Elis Regina, o concerto para violino de Tchaikovsky, um verso de Sophia que conhecemos de cor, uma harpa envelhecida de Herberto Helder, as rugas encontradas na paisagística do rosto das belas mulheres, o aplauso ao velho actor, um sorriso, um afago, um segredo ao ouvido, a carícia da espuma, a beleza das flores quase sem perfume, uma pequena folha na felicidade do ar, um toque de lábios intenso, um abrir mão da primavera – como escreve Neruda – para que alguém muito especial nos continue olhando, um último abraço ao cair da noite, uma lareira que se acende em Novembro, o rio lá em baixo, tão azul ao final da tarde?

Não será beleza, também, a desconstrução dos estereótipos que podemos estarrecidos admirar na obra de eximia complexidade de Ricardo Passos, convocando-nos para um império dos sentidos?

O que é afinal a beleza?


Luís Galego
Mestre em Sociologia

[texto a publicar em Catálogo, acerca da obra de Ricardo Passos]

Sunday, March 07, 2010

o silêncio do inocente...

Depois de tirar a roupa, atirou-se ao rio e pôs termo à vida. Vítima de bullying, a única saída possível foi a morte. Chamava-se Leandro, frequentava o sexto ano de escolaridade e tinha doze anos. E onde estavam todos? Onde andavam enquanto esta criança foi reiteradamente humilhada pelos colegas? Ninguém deu a menor importância a nenhum dos sinais de aflição? Oiço a notícia em forma de náusea na Rádio e à noite com sentimento de horror vejo-a confirmada num qualquer canal de televisão, já com sons de funeral. Uma informação monstruosa: a do rapazinho que se atirou ao Tua porque sofria violência física e psicológica por parte dos companheiros da escola face à paralisante imobilidade dos que o rodeavam. Com o espírito cheio de escárnio e desprezo deviam actuar em grupo, rir-se às gargalhadas e achar um piadão, cérebros de pigmeu, carcereiros de nojo. A valeta e o que nela vive fascina-os. Mancham as mãos com o sangue dos outros. Há o rapagão, com brutalidade no riso, que espanca e o miúdo frágil que exposto ao perigo sofre as agressões em silêncio porque tem medo e vergonha. É assim, sentem-se grandes, fortes e estupidamente engraçados por sujeitarem os que estão sozinhos ou são menos combativos, a situações vexatórias e cruéis; ignóbeis petrificados na insensibilidade mais absoluta que se enaltecem por arrastarem pela lama a auto-estima de inocentes. Indivíduos brutos, rudes com o objectivo de intimidar ou crucificar outro indivíduo incapaz de se defender. Repugnantes ameaças de forma continuada ao longo do tempo, sentiu aquele miúdo que nem sequer completou a Primavera. Praxar, rebaixar, envergonhar, agredir porque a lei que prevalece é a do mais forte e a do que está mais escoltado. Era uma criança calma, carinhosa e sensível, perfume leve e, ao contrário do irmão gémeo, nunca se conseguiu defender, talvez pretendesse dos outros apenas mera humanidade. Não era o super-homem; não era sequer rapaz encorpado; um menino assustado, uma vida em colherinhas de medo, uma sinfonia de tristeza. Dias de angustia, agitada e espasmódica. Vida pornograficamente curta, cheia de momentos e dias trágicos, amargos, sinistros nos seus avisos. Para ele havia apenas uma estação, a do sofrimento. Já tinha estado internado no hospital, há um ano, depois de ter sido pontapeado na cabeça. Um entre vários episódios de violência de que terá sido vítima. Cansado da tortura de quase todos os dias, agora é simplesmente um número que se encontra numa comprida galeria de vítimas, um dos muitos números sem vida. Desconhece-se o paradeiro do seu corpo, apenas que o tormento para ele foi um longo instante. As buscas alargadas até à foz do Tua e interrompidas sem sinal do cadáver: 130 homens da Protecção Civil, PSP e GNR e ainda cães treinados procuram Leandro. Alguém lembra ao Ministério da Educação uma frase de Antoine de Saint-Exupéry: «Todas as grandes personagens começaram por ser crianças, mas poucas se recordam disso». Amália e Armindo, pais da criança, debaixo de uma grande emoção, entorpecidos pela dor mais profunda, almas feridas de desgosto choram em desespero a morte do filho. Não têm palavras para exprimir a aflição e a desgraça. Em choque, deixam apenas as lágrimas correr pela face. O horror de pensar que uma existência se esgota de uma maneira revoltante. Estremeço com um apavorante pensamento: - "Podia ser o meu filho”.
Luís Galego

Sunday, February 21, 2010

uma sombra que passa...


Simone, sibilina elegância, rosto singular, intensos olhos azuis, vinda de outro mundo, eu diria que da cena vitoriana, debruçada para a frente, atenta, suspira. Demora-se em silêncio durante o que me parece uma eternidade. Quando recomeça a falar, a sua voz sai calma. “O que eu sinto verdadeiramente, pela primeira vez na minha vida, e com intensa confiança, é que não existe Deus, nunca existiu e nunca existirá. E que estou certa em pensar assim. Polémicas, lutas aguerridas – só isso existe. Seres emaranhados nos seus problemazitos do calendário em Excel e orçamentos. Um mundo atulhado de gente apressada e estéreis discussões, em missões bélicas, lentas, penosas, divertidas e estúpidas, triviais e calorosas, caminhada sem norte, escuros dias em que os corpos se desfazem. Medos, cobardias, misérias, castigos, timidez. Espaços de decepção, claustrofóbicos, sem saída, onde tudo se frustra e se agoniza numa morte lenta. Um mundo que necessita de um cinema, para as escuras, chorar e secar as feridas expostas. Uma vida que é um romance de cordel, teatral e politico. A esperança de um amor eterno e a promessa de um beijo, mas que culmina em uísque, ódio, em carne viva e raiva acesa. Gente inteligente, mas viciada em Farmvilles facebookianas, que troca Albee, Lorca, Müller, Duras, Yourcenar ou Eça por um chat de interesse nenhum. Nada mais. Afinal um soneto onde todo o homem é uma ilhazinha. Aquela mulher de cabelos brancos que vai diariamente à Igreja, também. As suas expectativas por um Deus são inócuas, só podem ter existência naquele espaço. Não existe nenhum Omnipotente. Nenhum grande ser vive lá fora. A nossa vida real é composta de imaginação e de ficção. Existe esta conversa, este momento e é tudo. Aqui e agora, por exemplo, existe apenas este quarto, existes tu e eu a conversar, nesta York House, lugar poliglota que se ergue luxuriante nesta cidade, onde nenhum de nós mora, mas também e por vezes o lugar da mais arriscada solidão. Gosto deste lugar, como gosto de um concerto para violino de Tchaikovsky, porque “está lá tudo”, estão lá as viagens que não fiz. Nunca nos vimos antes. Ontem ao entardecer conhecemo-nos e falámos. Um arranjinho. Sete minutos mais cedo ou mais tarde e não teria acontecido. Cruzarmo-nos numa rua anónima tão estreita não admira que nos tivéssemos sentido atraídos, uma rua afinal tão humana e desinibida; ficámos enredados numa torrente sentimental, aninhados em sorrisos, até a noite cair para dentro de nós. Tu, homem, assistente social, Eu, mulher, militar da Força Aérea. Os nossos beijos representam o fim de um estereótipo, um soco no puritanismo, o pó de arroz da poesia, o limpar da poeira da melancolia. Precisava de meiguice, carinho, sentimentalismo, da volúpia do desconhecido, do veludo de um final de dia e acendeu-se-me uma lareira. Apetecia-me um homem com queda de água de mulher por dentro, como me recorda a famosa Mátria. Suspirava por alguém que quer mais da vida, que exige felicidade, que teime em andar por mares nunca dantes navegados. Sei que dizer isto parece uma banalidade que carece de rodapé. Falámos de livros e quadros, das artes e da bela cultura e até da Ilha dos Amores e de outros nostálgicos armazéns de ternura. Esse é o momento sagrado. Se houver um sacramento é esse. Será essa coisa a que chamam destino? Pode ser. As coisas que nos acontecem na vida, sim. As nossas memórias, sim. Os nossos desejos, sim. Os poetas. A arte com romantismo. A Sinfonia Fantástica de Berlioz. As suites para violoncelo pelo Casals. O Graham Green e o seu The End of the Affair, com o qual, pelos vistos, ambos estremecemos na nossa adolescência. O Mar, de Miguel Torga, que nos deslumbra a infância. Se temos filhos, então os nossos filhos. E todos aqueles que amamos. Talvez todos aqueles que já estimámos. Mas nada mais. Andamos por cá uma vez e depois acaba-se tudo. “.
Interpelo-a com uma frase surripiada à feiticeira cotovia Natália Correia “Não jurarei que qualquer Deus exista. Só sei que é grosseiro viver sem Deuses”. “E preciso acreditar que existe algo após a morte”, acrescento. “Não te posso perder, não quero desistir de ti”, digo baixinho. “Não foi em vão, não foi inútil, foi tão bonito o nosso encontro, que embora tenha vindo num tempo ingrato, chegou no tempo do coração.”, digo-lhe com os olhos brilhantes.
“Para mim ter vivido esta noite já é uma jóia valiosa que me foi oferecida, não obstante a minha existência nos últimos meses ter sido uma marcha cansativa, um suor no rosto, um trabalho cinzento de que o Deus em que precisas de acreditar se ausentou.”, responde-me, com um quase sorriso.
Simone levanta-se devagar e caminha até à janela. Encosta a face ao vidro da janela e olha para o seu reflexo. O que ela gosta de Lisboa, palco de projectos sempre por acabar, mas sua tão grande cidade, onde nunca viveu. Uma luminosidade especifica de uma cidade que parece vienense; compara o que vê a uma encenação de O Cavaleiro da Rosa, de Richard Strauss. Uma ambulância corre a toda a velocidade as ruas de Santos-o-Velho, com a sua luz a brilhar, reflectindo-se nos rostos ingénuos das crianças que entram quase de madrugada nos colégios e no corpo de um filho de ninguém vomitado à porta da Embaixada do Luxemburgo. É hora de Simone apanhar um táxi para o IPO. Despede-se de mim, estranhamente sem pressa, contando-me um último segredo. Uma lágrima, um beijo e um abraço, a impotência da vitória do amor perante o medo da morte. Tal como um bando de pássaros voa para longe, sem levar nada. E é nesta cidade apertada entre um hotel de sonho e uma instituição oncológica que a sua vida se transforma tão só num punhado infantil de areia ressequida, num som de água ou de bronze e numa sombra que passa, como escrevera um dos seus poetas…
Luís Galego

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Saturday, January 16, 2010

como um adolescente...

Latino na paixão, olhos alagados de adolescente e com dedos aflitos, eliminou com fúria o número da agenda. Na triste monotonia do entardecer, sente-se embrulhado em calafrios e começa a repetir num silêncio sem luz o número de telemóvel dela. Num esquema hipertenso, não consegue deixar de dizer o número, através de uma voz de lamento diluída, como se esquecê-lo fosse a única coisa que pudesse matar o rosto moreno de um verão, a febre de uns lábios e as noites onde as mais belas aventuras se escreviam sem necessidade de nenhum tratado, os vestígios dos dias sobrenaturais, as frases poéticas iluminadas por colchas de estrelas, todo o sangue do mundo perante um corpo místico, o sentimento ingénuo de que ela era a sua noiva, de que tudo era insuportável sem aquela mulher, enfim, palavras impossíveis de descrever um território afectivo. Um número tão forte que sem ele a sua vida é um fio que corre o risco de se partir, sem cuidado, sem estilo, sem nobreza, de se perder sem nunca mais voltar a encontrar-se. Um espírito transformado em pneu furado, numa estrada algures desconhecida. Puta de existência e de memória. Como se estivesse condenado a repetir aquele maldito número até ao fim dos dias, como sentença por a desejar. De coração às costas quer parar este tormento e não consegue, está só num jardim de inverno de um hotel com arquitectura de melancolia e implora às rosas alguma tranquilidade mas aquele número viaja no pensamento. Desmaia como flor, esquece-se de si, dos beijos dela, daquele amor confuso, o drama de não ser só dele, de tudo, mas apenas por instantes e sem dó recomeça. A saudade aumenta nas mudanças de estações e o número de telemóvel insiste em amarrá-lo ao bailado da dor, ele um bailarino que não cessa de tremer.
Luís Galego

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Saturday, January 02, 2010

o rosto que habita no soneto...

Veio-me à memória o soneto que lera naquele Ofício Cantante. Surgiu-me, perfeito, na mente, apagando-se à medida que cada um dos versos substituía o seguinte, como uma corrida de mensageiros que se rendem no transporte do archote. As metáforas são a mais potente droga utilizada pelos poetas e um soneto nasce em sofrimento, sobre o asfalto e em cima do pó e do lixo. Ali onde reside a dor e aperta o peito, está também aquilo que salva, aquilo que quebra o mar gelado, que permite a vida exprimir-se sem disfarce. Aquele soneto é um grito e a leitura do mesmo é tão só um comentário a esse clamor. Não vale a pena ler o que não nos cava e o que não nos morde. Se lemos o que não nos desperta como um murro no crânio, para quê lê-lo? Aquele soneto percorreu-me, atravessando-me a cabeça, perfurando-me o corpo mas perfumando-me a alma e preenchendo o vazio da ilha de silêncio e apatia que é a vida dentro de quatro paredes, que rangem no escuro. Adormeci numa cadeira gasta e a certa altura acordei sobressaltado, com um estremecimento na espinha dorsal, citando em voz alta “O amador transforma-se de instante para instante, e sente-se o espírito imortal do amor criando a carne em extremas atmosferas, acima de todas as coisas mortas.”. Não vi senão em sonhos aquela visão de fantasia que é o rosto do poeta que arremessa chispas de fogo e desenha pedras preciosas. Um rosto indecifrável e deslumbrante, o rosto que habita no soneto.
Luís Galego

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Sunday, December 20, 2009

Possidónio de Programa...

- Olá. Cavaleiro de velhas lendas. Saboreie este vinho divino. Não existe nada melhor como um bom vinho, uma espécie de perfume da paixão. A vida ilumina-se de outra maneira. A partir de um copo de vinho, tudo pode acontecer. Repare que nunca nos tínhamos encontrado, mas já estamos agradecendo a Baco. Galgamos a noite como quem escreve um poema, não com uma garrafa de espumante vulgar mas com o tilintar de dois corpos que precisam de amor…Não acredita que o amor é a poesia dos sentidos?

As palavras à volta do amor fascinam-me, mas é melhor deixar a conversa dos afectos para depois. Há muito tempo que o meu axioma é de que as pequenas coisas são infinitamente as mais importantes. Procuro preencher o vazio da minha individualidade, das minhas noites sem sono, das minhas histórias mal cicatrizadas e por um breve momento desfruto a ilusão de estar completa mas não posso transformar-me numa criatura insignificante e evanescente, com instinto de besta, que existe sofrendo à mercê de qualquer vento procedente do desconhecido.

Embora me sinta como uma harpa que envelhece, entre paredes demasiado cinzentas, não quero que um indivíduo fast-food que nunca vi pense que sou gata em telhado de zinco quente à procura de companhia nocturna. A castidade cria mofo mas ninguém é mais solitário do que aquele que recorre a um prestador de serviços sexuais, no fundo, é como beber, num bar sem ninguém, um vinho turvo que deixa um gosto amargo na boca. Adiante.

- Olá. Possidónio. Fiquei curiosa com o seu nome. É o nome de um escritor português, homem mais ou menos da minha idade, Eborense. Escreveu “O Nylon da Minha Aldeia” uma história passada no Alentejo; uma história de amor que conta “o encontro improvável entre duas personagens”, mas você certamente não conhece o Possidónio Cachapa. Deve estar há pouco tempo em Portugal. O que o fez escolher esse nick name? Tenho algumas dúvidas que seja o seu nome verdadeiro. Não se preocupe, não sou Inspectora dos Serviços de Estrangeiros e Fronteiras. Sei que isto é uma estupidez, uma invasão à sua privacidade. Mas achei que seria uma maneira de nos apresentarmos. Porquê Possidónio? Embora me pareça uma mascara anónima do seu rosto, foi o que me atraiu no site. Acredite. E também a "intimidade à medida". Esses posts na internet, às vezes lascivos, são muito humorísticos. Recordo-me de um que dizia "sexo com poesia". Não faço ideia o que seria. Mas o seu post/anúncio despertou algo em mim. Um Possidónio com intimidade à medida. Mas fique à vontade, por favor. Viaje-me através de si.

Nem pensar, não vou por aí. O homem é um animal estranho, que como dizia o basco Pio Baroja, pode ser um semi-anjo ou semi-besta. Mas nada como tentar, ainda que fracasse. Não importa. Há quem adquira o mau hábito (ou o vicio execrando) de ser infeliz, não pode ser essa a minha atitude. Ensaiei vestidos e comprei o melhor vinho. Se fracassar tento outra vez. Se fracassar de novo, fracassarei melhor. Quando se está na merda até ao pescoço, quando a solidão parece infinita, descemos da nossa torre de orgulho e a única coisa que nos resta é arriscar.

Enquanto o mundo dorme uma noite fria de Inverno, abro assustada a porta de um quarto frio e barato de uma Residencial desconhecida a um prostituto. Às vezes penso que na declaração dos direitos humanos se esqueceram de me incluir. Sou uma mulher angustiada, oncologista de profissão, tão frágil e humana como qualquer outra mulher. Como clínica acabei por interiorizar que a vida é um hospital onde cada doente está possuído pelo desejo de sair da instituição, porque não acredita na terapêutica. Embora tenha passado a maior parte da minha existência na berma, no limite, como um cão sem dono, ainda sonho com um relacionamento com substância, ainda acredito que o amor é mais que um sentimento, é uma arte e que pode começar – quem sabe? - num encontro com aquelas características. Não precisa de ser encarado como uma experiência humilhante, tão só um romântico apelo. Mas ele precisa ter consciência que isto não é um engate, um programa leviano e trivial, no máximo um convite, um arrepiozinho sem glória. Que eu não sou apenas mais uma fêmea atormentada, nem ele o Richard Gere, de American Gigolo. Que fazer amor não é como fazer croché, a despachar, o tempo suficiente para fumar um cigarro: é algo muito íntimo. Que podemos terminar a noite abraçados, espalhando beijos embriagados pelos lençóis.

- Possidónio (nome que me provoca uma sede estranha), os escritores salvaram-me sempre da tristeza, das horas silenciosas, quando deambula a melancolia os livros são os meus fantásticos castelos e gosto de ler pela noite fora porque me esqueço de mim. Quando tinha cerca de quinze anos li O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, um romance belo e terno que reflecte uma visão ingénua e lírica da vida. Catalogado como fantasia obscena por uma sociedade envergonhada e preconceituosa, é uma obra que reflecte a necessidade da fusão física e espiritual entre aqueles que estão intimamente ligados. Talvez seja isso que eu procure, um Prince Charmant. Acredita que estes momentos que vamos viver podem inaugurar algo semelhante?

- Não tenho dúvidas, Teresa. Será uma aventura, mas estou completamente convencido que sim. A única obrigação que temos é a de amar!

Desfeitas as dúvidas ao toque da pele, o seu rosto reanima-me o espírito, dá-me a mão e nada mais me faz falta. Ali sós no mundo, sós. Aproximo-me para sentir que sou bem acolhida. Mais do que beijar os seus lábios de veludo, mais do que estarmos deitados juntos, mais do que nenhuma outra coisa, ele abraça-me e isso é amor. Prende-me toda. Aninha-me a sorrir junto ao seu peito e a noite cresce apaixonadamente. Todo o mal e amargura pode ser consolado com amor, diz-me. O acaso trouxe-me o príncipe do conto: “era uma vez…”, um amante feito poema e a poesia é o género da sinceridade última e irreversível. Ele desmente a máxima de Joseph Conrad de que vivemos como sonhamos, sozinhos. Não deixa de ser desconcertante ver como uma conversa breve on-line feita na maior das solidões se pode transformar numa experiência partilhada, com duas pessoas que convergem num mesmo ponto.

E com as bocas unidas brindamos ao nosso novo amor.

Não, a história da minha vida já tem o número de páginas suficientes para me ensinar que o mais recomendável é não esperar nada de ninguém, que tudo é efémero e oco. Obviamente que não vou encontrar um artista, um filósofo, um escritor, alguém inteligente e culto, um homem mentalmente excitante. Um Infante. Alguém que respire cultura clássica e me recite sonetos de Verlaine.

Nervosa digo baixinho:

- Possidónio? Não sou propriamente uma carmelita descalça mas o que é certo é que nunca me vi numa situação assim, nem sei como me atrevi a um contacto desta natureza, morro de aflição só de pensar...

Meu Deus. Alguém bate. Aperta-se-me o coração. O medo é algo extraordinário. Chegaste, enfim, perfil desfeito!

Um breve silêncio tropeçou na minha voz, um fio quase a partir-se – Boa Noite, Possidónio. Entre. A internet é uma coisa surpreendente. Como ela se apodera das vidas privadas e as transporta...

Setecentos quilos de músculos interrompem-me e atropelam-me as emoções, olham-me como uma mera unidade, uma gota de água num grande copo e as minhas palavras caiem no vazio. - Oi, Garota. Vamo-nos despachar que eu não tenho muito tempo, tenho que estar em Campo de Ourique daqui a noventa minutos. Uma actriz francesa que chegou ontem a Portugal marcou encontro. Oh, Teresa, seu nome, não é mesmo? Que quarto legal!!! E eis-me cruamente transportada para a realidade, sem ter sequer de mexer um dedo, fazendo sexo com alguém cujo olhar não me deslumbrou. E amanhã é dia de Natal.
Luís Galego

Saturday, November 28, 2009

a medula da alma...

Antes de tudo a música, reza um belo verso de um filósofo português contemporâneo quase desconhecido e prestes a ser tão só descoberto nos alfarrabistas do Chiado. A música é um vicio solitário que atingindo a medula da alma tem-me amparado muito nos últimos dias, feito sonhar acordado enquanto não chega a decisão, permitindo reconquistar as palavras e as suas avenidas como se fossem aromas, tem ajudado a suportar o futuro adiado para além do limite admitido. No intolerável do tempo, a música tem desenhado clareiras iluminadas de expectativa. Escuto-a em silêncio, em atitude de humilde entrega e são meus versículos Brahms, Liszt, Mozart, Schubert, Schumann, entre tantos.

É de noite, meu amor, e a rádio transmite Mara Zampieri, o carácter incisivo e mordente de um timbre divino, em que se percorre o acumular das esperanças mais exageradas, se vislumbram os momentos de paz, no meio da tempestade, do armistício com o infortúnio, se adensa subitamente a luz e se alastra a ternura, para depois dar lugar à violência da angústia.

É de noite e a música é a minha companheira, o meu altar. A arte sagrada, como assevera a personagem do Compositor em Aridane auf Naxos de Richard Strauss.

São quase cinco da manhã, meu amor, e a rádio em noite de boa conjugação astral insiste em chorar lágrimas tão desesperadas como as minhas, em convidar uma partita de Bach, um improviso de Chopin, em confrontar-me com os grandes pianistas Brendel, Gould, Horowitz, Michelangeli, Pollini, Richter, e porque não deve existir misoginia na música – nem na vida – com Maria João Pires e Martha Argerich.

Só de noite, meu amor, tenho espaço para ouvir, de copo na mão, o Benedictus da Missa Solene de Beethoven, nas vozes singulares de Janowitz, Ludwig, Wunderlich, Berry; ou o Libera me do Requiem de Verdi, obra em que a deusa Schwarzkopf me murmura sábios segredos.

É tão de noite e entre goles de café a escaldar continuo agasalhado numa rádio que transmite D’ amour sull’ ali rosee. Tudo o resto, amor, é tão mesquinho…
Luís Galego

Imagem aqui.

Saturday, November 21, 2009

o perfume da Rua das Pretas...

Ao início da tarde desliguei o telemóvel para respirar melodia com um programa refinado e intemporal: Novembro é uma árvore frondosa para usufruir a área musical, não me perguntem porquê. Mergulho em Jessye Norman, John Cage, Dvorák, Vicente Celestino Heckel Tavares, Hans Joachim Koellreutter. No silêncio diurno, a luz fraca, encontrei-me envolto nas trevas do exílio onde o medo impera e embalo a própria dor. Senti deslizar por baixo das minhas pernas a única presença possível, o fantasma de uma casa onde chove sem parar há tantos anos. Era o Elliot com a sua linda cauda, a sua ternura enigmática, transportando o seu íntimo pudor e a sua linhagem mística de felino, e não pude expulsar o arrepio de estar tão só acompanhado por um velho gato e com sonhos que não conto a ninguém.

Quando bateram as oito na igreja, havia uma estrela no céu, realidades deslumbrantes da noite, um barco projectou um adeus solitário, senti na garganta o estrangular de todos os amores que podiam ter permanecido e não sobreviveram e tremi ao sentir como eu era inocente. Não aguentei. Agarrei no telemóvel com o coração a estremecer até à raiz do braço, marquei o número muito lentamente. Olá, disse-lhe com a voz trémula: Desculpa-me, uma vez mais. Ela, serena, voz doce, sem disfarce: Não se preocupe, estava à espera do seu telefonema. Avisei-a: Quero que esperes vestida e que assim fiques enquanto estivermos juntos. Ela deu uma gargalhada espontânea mas na sua voz dançava um desafio. Como quiser, disse, mas meu corpo arderá para si no lusco-fusco, como todos os homens gostam. Eu sei, disse-lhe: Eu desejo apenas uma mulher com quem beber e morrer, segurando a minha mão, e nisso demorar os frágeis instantes a que um cliente tem direito.
- Com certeza – disse –, então não demore, não se perca pelas ruas frias.
Luís Galego

Imagem retirada aqui.

Saturday, November 14, 2009

ele morre de amor...


ele morre de amor,
anda lá próximo, no fio da navalha,
um linha a partir-se num tempo de sentimentos agitados, uma aflição,
depressão grave, tão doente,
com macerados olhos, pálpebras pesadas, passa o tempo a ler os poetas do afecto,
poemas que matam, poesia que pesa,
a ouvir Jacques Brel e a engolir absinto,
espreitando através do vidro fosco do tempo,
fuma pela noite dentro, peito ferido,
quase desmaiando por ternura,
desesperado, sente tremer a mão, emagrece,
como só no absoluto da adolescência acontece.

há um aperto no coração, uma tensão no quarto à média luz,
uma febre de melancolia que não baixa,
dói-lhe a alma cheia de rasgões, feridas que latejam,
mas objectivamente ele nunca teve jeito para sofrer, ah, não,
ele nunca teve queda para vitima, para lôbregas tristezas, para noites de insónia,
é tudo uma questão de amor, amor ardente, de fogo,
de incêndio, de paixão,
grandes comoções, colossais desejos,
uma barragem contra a mágoa e a solidão,
um tormento,
pensa que saberá sair a tempo daquela prisão cercada de um bando assustador de corvos negros, onde deambula a melancolia do ser,
saberá sair, pensa ele, ousado e sem disfarce
abandonará histórias mal cicatrizadas, viverá dias felizes, longos beijos sem fim, troca de gemidos, espasmos de cor, corpos que cedem sem pensar, cúmplices partilhas, ao som de música romântica,
terá direito a noites estreladas
e a lua afogará os seus braços
e insiste, ah, sim.

há um temporal que se instalou
naquela ilha de silencio sem fim onde vive
crê que o mau tempo um qualquer dia desapareça
aquela estranha temperatura que veio parar ao seu farol sombrio se canse,
mas no entretanto sente que está a um passo de morrer de amor.

Ah, o telemóvel que toca…será ela?
Luís Galego

Imagem retirada aqui.

Saturday, November 07, 2009

mãe escorpião...

Parabéns Mãe Escorpião

Ela veio de um mundo de sangue, calor e dores para lhe dizer certos segredos. Ele sente-lhes o cheiro, Joyce Carol Oates

Pequeno poema

Quando eu nasci,

ficou tudo como estava.


Nem homens cortaram veias,

nem o Sol escureceu,

nem houve Estrelas a mais...

Somente,

esquecida das dores,

a minha Mãe sorriu e agradeceu.


Quando eu nasci,

não houve nada de novo

senão eu.


As nuvens não se espantaram,

não enlouqueceu ninguém...


Pra que o dia fosse enorme,

bastava

toda a ternura que olhava

nos olhos de minha Mãe...
Sebastião da Gama

Eu saio de ti mas fico infinitamente retida no teu ventre, Luce Irigaray

Mesmo que o ar me falte, continuo a respirar o teu afago. Parabéns, Mãe no(s) dia(s) do(s) teu(s) aniversário(s) (7 e 8 de Novembro…)!!!

Imagem de Picasso retirada aqui.

Saturday, October 31, 2009

algures em Lisboa...


Algures em Lisboa
entardece e há um mexer de dedos nervoso
um arrepio
uma voz enclausurada
uma pequena ruga que nasce
um coração que bate descompassado.

Algures no centro da cidade,
alguém ofegante que espera
um gesto feminino.

Nenhum sedativo pode estancar esse medo
essa ofegante respiração
essa emoção, esse querer
essas lágrimas em bruto
no íntimo
de um homem
ás portas do anoitecer.
Luís Galego

Imagem retirada aqui (Piotr Kowalik).

Saturday, October 24, 2009

também eu tenho o meu jeito meio estúpido de amar...

Uma tarde casada com um temporal medonho.
No meio dos relâmpagos pelo esverdeado dos meus olhos cansados e molhados foi saindo uma
verdade crua, que devia ser incontável, carregada de um milhar de segredos
que era suposto ignorares.
O receio era o meu palco, o coração batia tão infundadamente no meu peito e a angústia era a actriz convidada de uma peça condenada ao fracasso. Fugiste e eu passei a escutar a minha dor
que me subjuga dentro do apartamento estreito e arrefecido, onde uma flor definha, um piano envelhece e a única música é o vento que bate na janela.
Continuo a arder em febre e medo. Insónias imensas e noites sem nome.
Desacompanhado arranco estrelas e com a alma cheia de rasgões
enlouquecido vou murmurando que apesar de tudo te amo…
Luís Galego

Imagem retirada aqui

Wednesday, October 14, 2009

facho do destino...

Recordo com saudade e olhar húmido o teu riso tenro, suave, postura serena, gestos delicados, cabelos desatados, lembro o teu adormecer no terraço virado para o Tejo, de onde te levantavas como se tivesses dentro de ti uma criança aos tropeções, ficavas horas a fio deitada naquele lugar ameno, eras uma mulher enigmática, de ar sonhador e vago, desaparecida de todos os sítios da terra. Foste envelhecendo, açoitada por ventos funestos e duvidaram que alguma vez tivesses sido atraente, colocaram em causa o brilho do teu ser. Com o passar das estações tinhas-te metamorfoseado, cabisbaixa e alienada, uma deusa frustrada. Começou a faltar à roda dos teus olhos o cristalino eco da alegria e a nascer um rosto semeado de melancolia e cores monótonas, sentiste o fogo da vida tornar-se frio. Estou contigo no Casarão, mas de onde não se vê o rio, procuro a ternura súbita e acaricio-te a mão, mas tu não reages, estás sentada com o rosto afogado num pequeno livro de poemas de Eugénio de Andrade, nas mãos como num regaço, e não olhas, nem um beijo, uma lágrima ou um intimo lamento, simplesmente levantas a cabeça com um sorriso ausente, e baixas de novo os olhos cansados sobre as palavras do poeta, os mesmos versos, hora após hora, penso que deves ler o mesmo livro desde o nascer ao pôr do sol e talvez mesmo durante o crepúsculo em desmaio, ou talvez em noite de insónias voltes atrás e sublinhes o que te vi ler durante o dia, porque se alguma vez terminasses o livro não verias mais nenhum motivo para viver. Toda a minha sensibilidade se ofende, esmaga-me esta tua solidão, essa alma viúva, nutrida em ânsias de dor. Um dia um pressentimento far-me-á voltar e tu estarás morta, apagada num espaço arrefecido que não era o teu terraço, com o livrinho já lido aos pés
……………………………......................................e nenhum poema caberá nessa mágoa…
Luís Galego

* imagem retirada de aqui.

Saturday, October 03, 2009

um beijo ali na Cinemateca…


Numa hora, lenta e calada
desinquieto,
punha um perfume leve
vestia-me de emoção.
Trancava a porta
de um convento solitário.
Puxava de um cigarro
para que o arabesco singular do fumo
me tranquilizasse.
Ensaiava gestos, em ritmo de oração
num porte infantil
de súbitos receios
e temente que a sedução
se travestisse em frustração.

Hora de entardecer,
endoidecido cavalgava sem parar
e na Barata Salgueiro, no silêncio da espera, pesadelos de insónia, sofria de imaginar,
que ela se arrependesse,
ou não quisesse assistir
a uma obra de culto...até a sentir como um relâmpago aparecer.

Extasiado ao vê-la
ternura súbita
arrepio de comoção
como se de súbito um jardim invadisse o meu corpo.
Senti no ar carícias
Prendi nas mãos todo o luar.

Desperdiçava tempo,
a procurar coragem
para que o desejo fosse beijo.
Minutos sem descanso
e os discursos que preparara, desmaiavam ao brotar.
Mas o físico e a alma
reclamavam vencer o medo
e roer a solidão
Hora de fazer milagres
abandonava os dedos descuidados
esgotados de esperar
aflitos rondavam a sua pele
esperando o seu afago
à espera do intimo silencioso
um ar onde o hálito é doce.
Num jardim de segredos
ousava ser homem então.

Na Cinemateca,

uma sala imensa suspensa
na espuma do silêncio
o espírito estremecia
o corpo tremia
o coração ardia
ao som da melodia
a Jeanne Moreau surgia
o brilho de uma estrela
apertava ainda mais a paixão
com uma nova respiração
explodia a relação.

Na Cinemateca,

foi uma noite bela
uma flor poética
que parecendo eterna
invadiu o coração.
Luís Galego
* após ouvir - uma vez mais - Paulo de Carvalho e Sábado à Tarde.

Saturday, September 19, 2009

vida suspensa...


Só agora entendi
que te desprezei. Naquela noite escura
disseste
Até já. E ainda
te aguardo
enleado em velhos poemas e
canções de amor
Um coração que não dorme
que pulsa no lusco-fusco de um quarto vazio
Sinto no corpo o frio arrepiante da saudade
Uma vida perdida sobre lençóis desfeitos
eternamente presa.

Luís Galego

Sunday, September 13, 2009

o derradeiro poema...

O derradeiro poema

Como o poeta também eu quero o meu derradeiro poema
Um poema que acenda as estrelas
Um poema que erga ao vento o seu riso
Que seja amável e exprima as realidades mais espontâneas e menos premeditadas
Que me afaste das punhaladas cegas e enraivecidas
Que seja arrebatador como um suspiro sem pranto
Que tenha a superioridade das flores sem aroma
O ardor dos amantes que se escondem de mão dada
Um poema de pecados imensos
O retrato da pura imensidade
Que seja um jardim aconchegado à minha porta
Um poema que não perturbe a minha caminhada
Um poema que interdite o meu sofrer
Um poema que revogue mágoas no meu embaciado olhar
Um poema que me afaste da melancolia
Um poema que encarne a angustia já purificada
Um poema que me deixe exausto sobre as conchas da praia
mas não me deixe morrer no mar
Um poema que me consinta adormecer sem lágrimas
Um poema que seja a minha última oração
Um poema que seja a minha derradeira canção.

Como um condenado eu clamo um último poema
Um poema que seja um espasmo, uma declaração de amor, uma solidão desfeita
Um poema que me segrede o teu nome
Que seja a cor dos teus olhos
Que me autorize contemplar a tua palidez romântica e lunar
Um cartório que me divorcie da velha dor
e das palavras magoadas
Um poema que não embargue o coração
Um poema que não me diga não
Um poema que seja tudo
e não um desígnio interrompido
Um poema que seja o último desejo
Uma melodia escrita com sangue nos versos
e beijos nas tuas mãos.
Luís Galego

Imagem aqui.

Monday, September 07, 2009

contra natura...


Angelina e Teresa Maria olharam-se de forma cúmplice a primeira vez que se viram, sentadas no Anfiteatro 2 da Universidade Católica, onde iam ter a aula teórica de Ciência Politica. Fizeram juntas a licenciatura em Direito e terminaram precisamente com a mesma média. Descobriram em simultâneo os encantos do Penal e as afrontas do Fiscal. Foi-lhes revelado ao mesmo tempo os indescritíveis enigmas da sexualidade. Uma com a outra, sexo entre iguais. A mesma paixão por Teofrasto, escritor natural da ilha de Lesbos. E graciosamente se acasalavam, de mãos dadas, ao entardecer, no principal oásis da capital, o Jardim da Fundação Calouste Gulbenkian, a cinco minutos do aconchegado T1 que compartilhavam em segredo na Rua Felipe da Mata. Eram felizes, cultas e chiques. E ambas juristas. A patrona não gostava daquela cumplicidade, daqueles estágios travestidos em esferas íntimas. A Patrona não era jovem, nem charmosa e muito menos feliz, meramente advogada mas casada e cabeça de cartaz da beatice vigente daquele escritório. Perante as perfídias decorrentes do insistente confronto de olhares censórios, Angelina e Teresa Maria tiveram de assumir as performances que se impunham, isto é, arranjar, companhia masculina, a qualquer preço. Mais tarde pensariam numa douta solução sem que esta as obrigasse a sair do armário. E, para tal, resolveram inscrever-se num daqueles congressos que no fundo só servem para que uns Senhores durmam com umas Senhoras. Acabaram numa conferência sobre Direito, Ética e Cidadania, durante três dias em Braga, num sumptuoso palácio barroco. Reparam em dois homens jovens, que rapidamente souberam tratar-se de ex-alunos da mesma Universidade, um de Teologia, agora responsável pelo Centro de Estudos Renascentistas da Faculdade de Filosofia daquela cidade, o outro, formado em Estudos Portugueses, admitido como Adido de Embaixada no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Terminam a noite, os quatro, embriagadíssimos, a comer prato de bacalhau à moda da casa e a beber pénaltis de tinto no Restaurante Bem-me-quer, discutindo os méritos da Elisabeth Schwarzkopf e da Teresa Stich-Randel como exímia mozartiana. Troca de contactos. Promessa de futuros encontros. Imensa efervescência. Angelina pesca Gustavo, Teresa Maria cola-se a Duarte. Unem-se no mesmo dia e na mesma igreja. Passam a lua-de-mel juntos, duas noites na Quinta das Lágrimas, o restante em Itália. De tarde vamos ver o Estádio Olímpico de Roma, anunciam os apessoados maridos. Magnífico. As mulheres cruzam instantaneamente os olhares, sairão para um curto passeio e voltarão rapidamente. Isto significaria que enquanto os machos se consagravam às baboseiras do futebol, as fêmeas dedicar-se-iam a outros jogos de corpo-a-corpo. Formidável. Voltam despercebidamente ao hotel. Quando entram num dos quartos, confrontam-se com os dois garbosos esposos, Gustavo e Duarte, nus, embrulhados um no outro, cabeça para um lado, pernas para outro, em agitação. Os robustos erguem-se sucumbidos nos lençóis arrancados à cama. Branco-esverdeados, enfrentam as mulheres com horror. Tentam eles explicar de forma amarfanhada, que não desejavam violentar o sacrossanto matrimónio. Não eram paneleiros, maricas, bichas, no máximo metrosexuais. Acabam por confessar que andam naquilo desde o pré-escolar no Charles Lepierre. Iguais a milhares de outros. O casamento resultara de submissão a preconceitos familiares e afins, da não paciência à sujeição de interrogatórios compulsivos. Uma situação ao estilo perspicaz dos contos breves de Fernanda Botelho, dos filmes de Almodôvar. Angelina e Teresa Maria são acometidas de um sentimento de êxtase! Arrepios de felicidade!

O golpe resultou, a vida sorriu-lhes e cada uma delas conheceu a maternidade. Têm vivido muito felizes e são absolutamente contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, totalmente agastadas com posições que defendem a adopção por homossexuais. Curioso, até os maridos subscrevem tratar-se de um processo contra-natura, um absurdo, um delírio inconstitucional que não se deve admitir. Que lata essa de existir a possibilidade de escolher em igualdade de circunstâncias com os outros cidadãos, desabafam…
Luís Galego

Saturday, August 15, 2009

votaria em Baudelaire...

Imagem retirada daqui

Votaria em Charles Baudelaire, se tal fosse possível. Tal como o sábio das emoções advogava também acho que se deve andar sempre embriagado; bebedeira o grande archote de qualquer teoria de ciência politica, o mote de um credível programa eleitoral. Não posso tolerar sentir o hediondo incómodo da melancolia que me rasga o corpo e a alma e me transporta para a nostalgia, não aguento representar um papel decadente para uma plateia vazia, devo cavalgar por cima das nuvens negras e embriagar-me sem cessar. Com um simples Cabernet Sauvignon de supermercado, com as palavras dos poetas, com um verso cintilante, com uma música antiga da Provença e da Toscana ou com o cheiro do jasmim, o que seja. Mas há que embriagar-me. Há que sentir no ar que respiro a fragrância do mais agradável perfume, há que afundar na beleza do instante que passa, há que jogar incessantemente na roleta da festa e do prazer, há que ouvir a melodia secreta da paixão, há que chorar de alegria junto ao mar, há que embriagar no meio de uns braços quentes, há que encostar o ouvido à página do livro mais belo, há que amar num entardecer em Roma, há que gritar bem alto que sou feliz, há que utilizar o chicote sobre a tristeza e a aflição. Na imensidão da noite, nos degraus de um teatro, no banco de trás de um eléctrico solitário, no vazio de um quarto de hospital, no mais recôndito recanto, ao despertar com a embriaguez já atenuada, lembrar-me-ei sempre do Spleen de Paris:
“São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar! Com vinho, com poesia, ou com virtude, a teu gosto, mas por favor embriaga-te”. Claro que votaria em Baudelaire…
Luís Galego

Sunday, August 02, 2009

uma incerteza eterna…

Edvad Munch: Jealousy, 1907

Eu nunca tive esse sentimento pequeno-burguês chamado ciúme, com ardores de estômago, enxaquecas e colites ansiosas, nem paciência para canibalismos sentimentais. Vivi sempre sem a sombra do ciúme e considero abjecta a ideia do direito de propriedade. Abominei a cena maléfica da Laura com aquele tipo em Lagos, mas isso era um golpe baixo, não se assemelhava à sórdida tragédia shakespeariana. A Laura dissimulou, não foi franca, mentiu, iludiu e aguardou que eu saísse para ir ter com a minha mãe a Sagres para lhe enviar um e-mail afrodisíaco a dizer que eu estaria ausente toda a manhã. Nunca discorreu que eu me ia esquecer de levar os documentos do carro e regressar ao apartamento vinte minutos depois. Agir como eu agi não são ciúmes, mas uma explosão de sensações contraditórias e uma questão de honra. Impunha-se pôr o pseudo especialista em horticultura biológica no seu lugar. Quem não se sente ferido na sua confiança não é filho de boa gente, não se pode tolerar que um intruso entre na nossa vida e nos nossos lençóis e tenha prazer com a mulher que amamos, que tenha contacto com a ilha perfumada das suas pernas, com quem pensamos existir uma cúmplice partilha, com a qual se aprecia a calma das estrelas. Foda-se! Estou a vê-la, quando, à noite, depois de se ter cansado de esperar por mim, se dirigiu ao restaurante e o Indiano lhe entregou a minha carta. Há-de ter saudado os outros casais amigos com um sorriso inquieto e doloroso, a dar voltas à imaginação para justificar a razão de eu não estar, porque é que o Virgílio não se encontrava ali com ela, no dia em que comemoravam dez anos de vida em comum. Fiquei incontactável. Foi o que fiz. Ciúmes? Obviamente que não. De qualquer modo, não há nenhum “monstro de olhos verdes” que vença a voz de Jessye Norman que me abraçava no escuro às tantas da madrugada, atenuando no meu rosto os sinais das lágrimas …
Luís Galego

Sunday, July 26, 2009

alguma coisa me doía...

(Pablo Picasso, Death of Casagemas, 1901)
Num canto de rua vi um homem jovem morto nu
Prostrava-se ali como uma bofetada aos desconhecidos
que rasgavam da noite com excitação no corpo
e música nos ouvidos
Há quanto tempo permaneceria ali
naquele chão sem intimidade?
Não o agasalhava o afecto de uma mãe
nem umas mãos para acariciar uns cabelos soltos
onde se reflectiam as luzes de uma Lisboa que dormia
Tiraram-lhe o direito à vida
e ele estendido no canto da rua
quando há instantes ainda o relógio no seu pulso sentia o arrepio das vibrações
Apenas uma carne cheia de nada, uma existência violada
Quem seria? Que passado exibiria?
Que coração teria?
Que diário encerraria a intimidade deste que ali morria?
Que pensamentos tivera, que segredos levaria?
Amaria? Por quem estremeceria? Para onde ia?
Fora feliz? Almejaria mudar o mundo?
Transformaria a sua vida no dia seguinte?
Fora menino ali onde com um nó na garganta o quase chorei?
Teria soluções para enigmas emocionais?
Seria um bom ser humano? Indivíduo de palavra?
Uma alma carregada de poemas?
Quem temeria a sua ausência?
Quem verteria lágrimas de amor ao saber?
Que diriam as suas linhas da mão?
[Por que morreu?]
Mas já naquele momento o rosto lhe cobriam
pois não vislumbraria com o seu desaparecido olhar o céu
Era tão só a mais amarga escuridão
como se trovoasse de repente
em pleno Verão
No ar nem um soluço, nem comoção, mas estranhos, sanguessugas
e um INEM tardio
para alguém que como cama só teria um chão frio

Não o conhecia, mas alguma coisa me doía

“Dás-me lume?” – assediou-me a velha prostituta
Transporte-me pelas suites mais belas de Lisboa
até se abrir a manhã e se apagarem as estrelas
e talvez a noite possa cicatrizar à toa
Não sabia o que queria
mas sentia que aquele jovem homem merecia
uma poesia.
Luís Galego